A serpente já apareceu
no primeiro mito do primeiro livro da humanidade chamado Gilgamesh, esse que
poderíamos chamar o primeiro Gênesis do mundo. Gilgamesh queria ser imortal. Um
dia teve um sonho e do céu caiu um machado que dividiu o mundo em céu e terra. O machado transformou-se num deus, o deus
Enkidu, que caminhava com Gilgamesh no jardim da terra. Apareceu-lhe também a
deusa da beleza, Imaná e convidou Gilgamesh para o seu palácio. Porém,
Gilgamesh não aceitou o convite para não perder a sua viagem. Nessa viagem o
seu companheiro Enkidu morreu, mas ele resolveu descer à região dos mortos para
encontrá-lo. Lá ele ouviu uma voz que dizia: “Eu procuro alguém que possua a imortalidade”
Era a voz de Noé que tinha sido salvo do dilúvio. Gilgameshe perguntou a Noé o
que era preciso para resgatar o seu companheiro Enkidu. “Uma planta mágica do
fundo do mar”, respondeu Noé. Gilgameshe chegou lá e arrancou a planta, e com
ela ressuscitou o amigo Enkidu. Mas quando ele descansava, uma serpente
roubou-lhe a planta mágica da imortalidade. Os deuses, porém, vieram em seu
socorro e deram-lhe um prêmio: ele não iria morrer jamais, ele seria imortal.
E como foi a “criação”
do primeiro homem? “O deus da
sabedoria, Enkidu sugeriu a criação da humanidade para assumir o trabalho
pesado dos deuses. Para isso, um deus rebelde e menor foi escolhido para ser sacrificado.
O homem foi feito de argila misturada com o sangue desse deus sacrificado para assumir o trabalho pesado dos deuses.
Para isso, um deus rebelde e menor foi sacrificado. O sangue desse deus foi
misturado com barro (ou argila) para formar a carne e o sangue dos primeiros
humanos, transmitindo a eles a essência divina.” Esta narrativa é do livro Atrahasis, da mesma época
do Gilgameshe. Esse livro está preservado em tabletes de argila que datam de
meados do segundo milênio a.C. antes da nossa Bíblia.
Antes que fosse escrito
o livro do Gênesis na Bíblia judaica já existia este gênesis do Gilgamesh, pois
gênesis quer dizer “origem”. Por isso
que pode ser considerado o primeiro gênesis do mundo. É de notar tanta coisa
igual: A serpente espertalhona, o dilúvio e Noé, e a planta mágica da
imortalidade comparada com a árvore do “bem e do mal” da Bíblia judaica.
Daqui passamos para
outra serpente, que vemos no livro de Números da Bíblia judaica, quando conta
que os judeus se lamentavam no meio da caminhada: “não temos pão nem água e
estamos enojados deste pão de miséria. Então Javé mandou contra o povo
serpentes venenosas que os picaram, e muita gente de Israel morreu. Moisés
suplicou a Javé pelo povo. E Javé lhe respondeu: ‘faça uma serpente de bronze
e coloque sobre uma árvore; quem for mordido e olhar para ela será curado”. (Num.21,4-9).
Existe um conto semelhante na literatura dos Gregos:“Os caminhantes do
deserto chamados argonautas foram picados por serpentes e invocaram o deus
Apolo, deus da saúde. Apolo respondeu: ‘Eu vou mandar o meu filho Esculápio
escondido numa planta, prestem atenção para não se enganarem. Quando enxergaram
Esculápio bem escondido numa planta ofereceram-lhe sacrifícios e ficaram curados.
Esculápio deixou com eles o seu melhor discípulo, Hipócrates para cuidar do
resto da viagem” ( Philippe Wajdenbaum, “Os Argonautas do deserto, p.120ss).
De notar a comparação dos dois relatos: caminhada no deserto; picadas de
serpentes; a oração aos deuses; o deus escondido numa planta em forma de
serpente; a cura. Esta narrativa é da mesma época da Bíblia judaica também
e compartilhada.
Vemos aí alguns dos
segredos das “serpentes-deusas” e das serpentes que “falam”. A serpente entrou
em todos os mitos da criação assim como nos mitos de cura. Não é em vão que nas
culturas antigas a serpente era o símbolo da sabedoria e da astúcia e da enganação.
“A serpente era o mais astuto de todos os animais” (Gn.3,1). Tirava a
imortalidade ou dava a imortalidade. E a imortalidade era a maior procura da
humanidade em todos tempos.
Sem dúvida que a Bíblia
e os livros da época traziam narrativas, e estórias semelhantes que o povo
contava e não só, mas também os escritores talentosos da época tentavam deixar
por escrito. E cada livro de seu jeito contava dum jeito diferente mas compartilhado.
A esse respeito eis o que nos diz a Pontifícia Comissão Bíblia da Igreja
Católica: “Os textos da Bíblia são a expressão de
tradições religiosas que existiam antes deles,
os quais foram retrabalhados e reinterpretados para responderem a
situações novas desconhecidas anteriormente”. (Pont. Com. Bíblica, 1994).
Começamos este volume com o tema: UM POSSIVEL
CATECISMO BÍBLICO, para Catequeses, Gincanas bíblicas e povo cristão em geral. Encerramos
com este capítulo O PRIMEIRO GÊNESIS DO MUNDO, que sendo o primeiro livro da Bíblia
serve para nós completar o nosso CATECISMO BÍBLICO com chave de ouro. Unindo o
primeiro capítulo da Catequese com a catequese do Gênesis. E comparando o PRIMEIRO
LIVRO DA NOSSA BÍBLIA com o PRIMEIRO GÊNESIS DO MUNDO.










