segunda-feira, 30 de março de 2026

A CORAGEM DE JESUS


 

A coragem de Jesus se manifestou em primeiro lugar em enfrentar uma sociedade inflada por dois orgulhos: o orgulho de ser religioso, e o orgulho da nação. O orgulho de ser religioso leva ao desprezo dos outros. E o orgulho da nação leva ao nacionalismo, ou um tipo de nazismo. O orgulho de ser religioso cria uma casta de piedosos e virtuosos que se separam dos que eles desprezam. O orgulho da nação leva a se considerar como dono do mundo Eram as duas faces da mesma moeda de todo judeu. No lado religioso excediam-se em preocupação da observância dos mínimos preceitos. Colocavam aí os seus créditos religiosos e de quebra a obrigação por parte de Deus de lhes pagar como um salário. (Rom.4,4). E de quebra ainda buscando posições e privilégios enquanto mantinham raiva e nojo com os não cumpridores, sendo quais fossem  os motivos, como o sufoco da cada dia de encontrar o alimento de cada dia, coisa que para eles não existia porque viviam na abundância e no luxo.  O orgulho de nação consistia na ideologia que formaram de serem a nação “escolhida” por Deus para ser um dia a maior do mundo, o “carro chefe” da humanidade.  Porém, nos evangelhos, o Deus que Jesus chama de Pai é um Deus que não se permite monopolizar por uma casta de piedosos e virtuosos que estão seguros da recompensa correspondente à sua observância. Deus não quer ser garante de posições e privilégios na sociedade civil e religiosa”(Schillebeeckz, História humana revelação de Deus, pag.154). Na verdade para esses abastados e vivendo no luxo, o sofrimento dos pobres e sem salário não os comovia, muito menos suas doenças e carências. Muito ao contrário, pelo seu jeito da agir se transformavam numa máquina de fabricar lázaros pobres como aquele que vivia coberto de chagas à porta do rico que se banqueteava todos os dias com largos banquetes (Lc.16,19). Para eles só existia o reino deste mundo onde impera o lucro, a ganância e o desprezo dos excluídos. Quando Jesus falava de outro reino, o “reino de Deus”,  para eles esse reino não existia. Na verdade, “o ‘reino de Deus’ é um mundo novo sem sofrimento, mundo cheio de pessoas sãs e curadas numa sociedade em que domina a paz e não existe nenhuma relação de senhor-escravo, uma situação inteiramente diversa da sociedade do tempo de Jesus”.  (o.c.p.156). Imaginemos a coragem de Jesus para anunciar esse reino especial sem dominação e sem exploração. Dominação da parte da religião oficial e da política oficial, onde o pobre era excluído, sem nenhum direito de sobreviver, como aquele das dívidas que aconteciam quando os pobres tinham que entregar suas terras aos grandes fazendeiros para pagar suas contas. (Mt.18,25). Por isso aquele ‘reino de Deus’ acontecia no anúncio e na coragem de Jesus quando teimava em afirmar: “aos pobres é anunciada a salvação e a boa nova” (Lc.4,18). O que era a salvação? Era a salvação das amarras em que os pobres estavam amarrados pelas leis da religião. Jesus arriscava curar em dia de sábado proibido, e juntar marginalizados na mesma refeição. Proibir a cura no sábado? Você já imaginou o que é proibir a saúde, a vida? Todo humano normal tem isso em primeiro lugar: zelar pela saúde e vida do irmão. Imagine proibir isso por conta da religião. Já viu maior amarra e mais perversa do que essa? Essa era a coragem de Jesus de romper com as proibições religiosas. E ao mesmo tempo civis porque na teocracia o que é religioso funciona como civil e o que é civil funciona como religioso. Por outro lado, esse reino de Deus trazido e anunciado por Jesus era a dimensão muito importante no que toca à socialização. Jesus encontrou a salvação negada, a socialização negada, a igualdade negada e a fraternidade negada. Para os “de fora” que não pertenciam a Israel não havia salvação; nem havia socialização porque o convívio e as refeições separavam e excluíam; a sinagoga excluía; a doença excluía, a lepra excluía; o pecado excluía, a raça excluía, o gênero excluía. Já referi várias vezes que antes da religião há a pessoa humana, e quem exclui a pessoa humana em  nome da religião não é nem humano e nem religioso. Na verdade a Igreja durante muitos tempos herdou sem sentido crítico a perversa cultura da negação da convivência e da socialização com o insulto chamado excomunhão. Seria igual à excomunhão que expulsava os leprosos para viver no mato, “fora” da sociedade, e “fora” da sinagoga, e “fora” de alguém poder tocar neles. Também temos dito várias vezes que o “amor vale mais do que a fé”. Neste ponto tem sido contrária a práxis da Igreja nas excomunhões: a “fé tem tido mais valor do que o amor” (Confira 1Cor.13,13). Infelizmente, já dissemos também que logo a 2ª Carta de João deu esse mau exemplo para a Igreja futura quando disse: “Se alguém vier a vós sem trazer esta doutrina não o recebam em vossa casa nem o saúdem, porque quem o saúda tem  parte em suas obras”(2Jo.10-11).  Não foi de graça que os participantes do concílio vaticano II inovaram uma nova fase de um novo entendimento em que a Igreja não é feita para condenar e excomungar mas para dialogar e acolher. Isso tinha um nome: imperialismo, que é resumo de vários ismos: exclusivismo, obscurantismo, despotismo, tiranismo e ditadurismo. Adequando com isto nos diz um autor: “A Igreja e os homens das Igrejas podem cair na idolatria por absolutização do que simplesmente é relativo” (Schillebeebckz o.c.p.12). Vejamos que quando havia a vontade de excomungar alguém havia a convicção de que a Igreja tinha o “depósito da verdade” no sentido de que todas as coisas do Novo Testamento fossem escritos do próprio Jesus. O que acontece é que a teologia bíblica foi descobrindo que “não possuímos nenhum escrito de Jesus, dele próprio, nenhum documento direto. Os discípulos posteriores buscaram compreender o significado que Jesus tinha para os seus primeiros discípulos, uma vez que também eles não escreveram nada”.(Schillebeeckz, o.c.p.140). Um exemplo de que um significado mal entendido teria sido essa citação da 2 Carta de João que referimos. E, como relata H.Koester, essa citação pode ter dado muito pano para a Igreja posterior, e até chegar aos nossos dias, isto é, até o concílio vaticano II: a cultura da excomunhão. Concluindo: havia um ditado entre os romanos que dizia “onde há religião aí há subversão”. E para os judeus funcionava também numa afirmação do profeta Jeremias: “O justo se opõe a nós, nós para ele somos como moeda falsa”(Jer.6,30). Foi preciso uma coragem sobre humana  da parte de Jesus para enfrentar Judeus e romanos em duas frentes.

P.Casimiro João       smbn

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