segunda-feira, 30 de março de 2026

A CORAGEM DE JESUS


 

A coragem de Jesus se manifestou em primeiro lugar em enfrentar uma sociedade inflada por dois orgulhos: o orgulho de ser religioso, e o orgulho da nação. O orgulho de ser religioso leva ao desprezo dos outros. E o orgulho da nação leva ao nacionalismo, ou um tipo de nazismo. O orgulho de ser religioso cria uma casta de piedosos e virtuosos que se separam dos que eles desprezam. O orgulho da nação leva a se considerar como dono do mundo Eram as duas faces da mesma moeda de todo judeu. No lado religioso excediam-se em preocupação da observância dos mínimos preceitos. Colocavam aí os seus créditos religiosos e de quebra a obrigação por parte de Deus de lhes pagar como um salário. (Rom.4,4). E de quebra ainda buscando posições e privilégios enquanto mantinham raiva e nojo com os não cumpridores, sendo quais fossem  os motivos, como o sufoco da cada dia de encontrar o alimento de cada dia, coisa que para eles não existia porque viviam na abundância e no luxo.  O orgulho de nação consistia na ideologia que formaram de serem a nação “escolhida” por Deus para ser um dia a maior do mundo, o “carro chefe” da humanidade.  Porém, nos evangelhos, o Deus que Jesus chama de Pai é um Deus que não se permite monopolizar por uma casta de piedosos e virtuosos que estão seguros da recompensa correspondente à sua observância. Deus não quer ser garante de posições e privilégios na sociedade civil e religiosa”(Schillebeeckz, História humana revelação de Deus, pag.154). Na verdade para esses abastados e vivendo no luxo, o sofrimento dos pobres e sem salário não os comovia, muito menos suas doenças e carências. Muito ao contrário, pelo seu jeito da agir se transformavam numa máquina de fabricar lázaros pobres como aquele que vivia coberto de chagas à porta do rico que se banqueteava todos os dias com largos banquetes (Lc.16,19). Para eles só existia o reino deste mundo onde impera o lucro, a ganância e o desprezo dos excluídos. Quando Jesus falava de outro reino, o “reino de Deus”,  para eles esse reino não existia. Na verdade, “o ‘reino de Deus’ é um mundo novo sem sofrimento, mundo cheio de pessoas sãs e curadas numa sociedade em que domina a paz e não existe nenhuma relação de senhor-escravo, uma situação inteiramente diversa da sociedade do tempo de Jesus”.  (o.c.p.156). Imaginemos a coragem de Jesus para anunciar esse reino especial sem dominação e sem exploração. Dominação da parte da religião oficial e da política oficial, onde o pobre era excluído, sem nenhum direito de sobreviver, como aquele das dívidas que aconteciam quando os pobres tinham que entregar suas terras aos grandes fazendeiros para pagar suas contas. (Mt.18,25). Por isso aquele ‘reino de Deus’ acontecia no anúncio e na coragem de Jesus quando teimava em afirmar: “aos pobres é anunciada a salvação e a boa nova” (Lc.4,18). O que era a salvação? Era a salvação das amarras em que os pobres estavam amarrados pelas leis da religião. Jesus arriscava curar em dia de sábado proibido, e juntar marginalizados na mesma refeição. Proibir a cura no sábado? Você já imaginou o que é proibir a saúde, a vida? Todo humano normal tem isso em primeiro lugar: zelar pela saúde e vida do irmão. Imagine proibir isso por conta da religião. Já viu maior amarra e mais perversa do que essa? Essa era a coragem de Jesus de romper com as proibições religiosas. E ao mesmo tempo civis porque na teocracia o que é religioso funciona como civil e o que é civil funciona como religioso. Por outro lado, esse reino de Deus trazido e anunciado por Jesus era a dimensão muito importante no que toca à socialização. Jesus encontrou a salvação negada, a socialização negada, a igualdade negada e a fraternidade negada. Para os “de fora” que não pertenciam a Israel não havia salvação; nem havia socialização porque o convívio e as refeições separavam e excluíam; a sinagoga excluía; a doença excluía, a lepra excluía; o pecado excluía, a raça excluía, o gênero excluía. Já referi várias vezes que antes da religião há a pessoa humana, e quem exclui a pessoa humana em  nome da religião não é nem humano e nem religioso. Na verdade a Igreja durante muitos tempos herdou sem sentido crítico a perversa cultura da negação da convivência e da socialização com o insulto chamado excomunhão. Seria igual à excomunhão que expulsava os leprosos para viver no mato, “fora” da sociedade, e “fora” da sinagoga, e “fora” de alguém poder tocar neles. Também temos dito várias vezes que o “amor vale mais do que a fé”. Neste ponto tem sido contrária a práxis da Igreja nas excomunhões: a “fé tem tido mais valor do que o amor” (Confira 1Cor.13,13). Infelizmente, já dissemos também que logo a 2ª Carta de João deu esse mau exemplo para a Igreja futura quando disse: “Se alguém vier a vós sem trazer esta doutrina não o recebam em vossa casa nem o saúdem, porque quem o saúda tem  parte em suas obras”(2Jo.10-11).  Não foi de graça que os participantes do concílio vaticano II inovaram uma nova fase de um novo entendimento em que a Igreja não é feita para condenar e excomungar mas para dialogar e acolher. Isso tinha um nome: imperialismo, que é resumo de vários ismos: exclusivismo, obscurantismo, despotismo, tiranismo e ditadurismo. Adequando com isto nos diz um autor: “A Igreja e os homens das Igrejas podem cair na idolatria por absolutização do que simplesmente é relativo” (Schillebeebckz o.c.p.12). Vejamos que quando havia a vontade de excomungar alguém havia a convicção de que a Igreja tinha o “depósito da verdade” no sentido de que todas as coisas do Novo Testamento fossem escritos do próprio Jesus. O que acontece é que a teologia bíblica foi descobrindo que “não possuímos nenhum escrito de Jesus, dele próprio, nenhum documento direto. Os discípulos posteriores buscaram compreender o significado que Jesus tinha para os seus primeiros discípulos, uma vez que também eles não escreveram nada”.(Schillebeeckz, o.c.p.140). Um exemplo de que um significado mal entendido teria sido essa citação da 2 Carta de João que referimos. E, como relata H.Koester, essa citação pode ter dado muito pano para a Igreja posterior, e até chegar aos nossos dias, isto é, até o concílio vaticano II: a cultura da excomunhão. Concluindo: havia um ditado entre os romanos que dizia “onde há religião aí há subversão”. E para os judeus funcionava também numa afirmação do profeta Jeremias: “O justo se opõe a nós, nós para ele somos como moeda falsa”(Jer.6,30). Foi preciso uma coragem sobre humana  da parte de Jesus para enfrentar Judeus e romanos em duas frentes.

P.Casimiro João       smbn

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segunda-feira, 23 de março de 2026

O HOMEM INVISÍVEL, OU “O TERCEIRO HOMEM”


 

“O ‘terceiro homem’ é aquele que toma consciência de que o universo das fórmulas que se repetem e dos ritos que se cumprem, simplesmente deixa, de lhe falar; por isso se afasta sem ruído nem drama. Fazendo-se valer sobretudo da sua própria consciência, procura a abre-se a outras referências para ele ler a realidade e orientar a própria vida” (François Roustang, citado por José Frazão Correia em livro recente: “Quem quiser ganhar há de perder”, Sete Margens, 29/10/26). (Obs: falamos do homem ou mulher invisível).

Continua o Padre Frazão: “Concílio Vaticano II? Apenas recordação, mas a vida continua se orientando pelos “cânones” tridentinos”.

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 16 de março de 2026

NÃO IDOLATRAR A BÍBLIA, VALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO.

Não é novidade que havia validades de prazo do Antigo Testamento. Essa descoberta não é só da visão teológica e da crítica atual, mas “já foi manifestado por autores de diversos escritos do Novo Testamento, pois há partes do A.T. que foram abrogadas, outras deixaram de ser normativas e outras foram relativizadas ou corrigidas, especialmente as leis do Pentateuco” (Eduardo Arens, “A Bíblia sem mitos” Paulus, 2014, pag.199). Sem contar que teólogos antigos como Marcião excluíam do seu cânon o Antigo Testamento. Partes que foram abrogadas  ou deletadas não é difícil de encontrar, como Circuncisão. Abluções, Leis sabáticas, todas as leis de morte para “pecados sexuais” (Lev.19,20-29); leis de morte e apedrejamento. E pecados que eram castigados com fogueira, “os três serão queimados vivos” (Lev.20,14). Outras que deixaram de ser normativas, como sacrifícios de animais, cultos e suas cerimônias e suas vestes e leis de sangue. E leis relativizadas, como de gênero, de todo tipo de exclusão por conta de raça, de riqueza, doença, ou pobreza ou gênero. Assim como maldições (Lev.26, 15-46). E também leis de escravidão que permitiam a venda de pessoas como escravas (Lev.25,44-54). Todas estas situações tiveram seu tempo que dependia da cultura atrasada e primitiva da humanidade e dos judeus. Acabou o prazo de validade. Embora que a própria Igreja tivesse imitado até há bem pouco tempo essas situações de morte, de queima etc. pelos séculos XVI até XVIII. Isto nos leva a ver que seria incômodo afirmar que estas eram “palavra” de Deus e “ordens de Deus”. Eram palavras e ordens das pessoas humanas daquela época primitiva, que se atribuíam autoridade com coisas tão odiosas. E não iríamos dizer que essas autoridades eram constituídas por Deus, mas nasciam de relações primitivas de como os povos entre si se organizavam, tanto na ordem social como na religião. E nem que essa religião e essa autoridade vinha de Deus porque se fosse de Deus, seria  Deus que era o culpado. Como vimos noutra página, cada povo teve sempre uma religião e seus sistemas religiosos, assim como teve uma política e seus sistemas políticos.  Tanto entre judeus como não judeus. Já vimos o que é religião e o que são sistemas religiosos: religião é a busca de Deus e de obediência à consciência; sistemas religiosos são as formas e as formatações de como exprimir e manifestar a amizade com Deus, ou o temor, ou o louvor, e “aplacar” Deus para ele não “castigar”, e depois agradecê-lo. E isto inclui gestos, ofertas de animais, danças, e livros que contam as coisas de cada época, e as louvações ou sacrifícios de cada época, que mudavam segundo as circunstâncias e os entendimentos de cada época. É isso que estamos detectando também na Bíblia, que faz parte desses sistemas religiosos universais. Vejamos alguns exemplos de coisas que acabaram com o tempo na Bíblia, além do relatado atrás: A poligamia(vários casamentos) praticada por todos os reis de Israel; a facilidade do divórcio, como ficou escrito no Deuteronômio, e como  era praticado por todo o judeu: “Se um homem toma uma mulher e se casa com ela, e resulta que esta mulher não ache graça a seus olhos porque descobre nela algo que lhe desagrada, lhe redigirá uma ata de repúdio, colocará na mão dela e a despedirá de sua casa” (Dt.24,1-5). Eis o que diz Eduard Arns a respeito: “A Bíblia não é um livro onde se encontram respostas a todos os problemas, tal como controle da natalidade, corrida armamentista, ecologia. Os problemas daqueles tempos não são idênticos aos nossos. Não somente isso, mas as respostas correspondem ao grau de compreensão de cada época. É assim que o problema do divórcio recebeu diferentes respostas em diferentes escritos da Bíblia (Dt.22,13; e cap.24,1-5; Mc.10,1-12 e Mt.19,3-9). As respostas estavam condicionadas pela teologia do momento e dirigiam-se a auditórios concretos daqueles tempos. A vontade de Deus para nosso momento histórico atual deve ser buscada para tempos de hoje. Os escritores bíblicos  ofereciam referências e orientações para o tempo deles. Eles não tinham condição de ensinar sobre questões de biologia, de antropologia, de psicologia social, mas para comunicar suas crenças” (o.c.p.233-234). Para terminar vejamos alguns erros da Bíblia: *A arqueologia descobriu que Jericó não era habitada nos tempos de Canaã (Js.6-9) *Nabucodonosor era rei da Babilônia, e nunca foi rei de Nínive (Jd.1,1) *Em Dn.cap.5 se dia que Baltazar era filho de Nabucodonosor, mas não era; ele era filho de Nabomid, o último rei da Babilônia. *Não foi Dário que conquistou a Babilônia, mas Ciro (Dn.6,1). *Dário não era filho de Xerxes, ao contrário, ele é que era o  pai de Xerxes (Dn.9,1). *Na arca de Noé se diz duas coisas contrárias, uma vez que entrou um casal de cada ser vivo e noutro lugar que entraram sete casais de cada ser vivo (Gn.6,19 e Gn.7,2). * Também num lugar diz que o dilúvio foi de 40 dias, e noutro lugar de 150 dias (Gn.7,12 e Gn.7,24). *Que o rei Joaquim não tinha filhos (Jer.22,19) mas quem lhe sucedeu foi seu filho (2Rs.24,6). *Em 2Sam. se diz que Davi comprou um terreno por 50 ciclos de prata, e em 1Cr. que comprou o mesmo terreno por 600 ciclos de ouro.(1Cr.21,25). Enquanto há o mandamento “Não matarás” (Ex.20,13), em Josué Deus mandou “passar a fio de espada” todos os habitantes das cidades conquistadas, inocentes ou não (Jer.10,28). Para terminar, “como poderia explicar-se que teria sido Deus quem inspirou a ideia de que a terra era plana e o centro do universo, quando sabemos que a terra é somente um planeta que gira em redor do sol, e não o contrário? Caso tivesse sido assim, Deus se teria equivocado muitas vezes e seria responsável pelos erros que estão na Bíblia” (E.Arnes, “A Bíblia sem mitos”, p.243).

Conclusão. Para o Islão o livro do seu sistema religioso é o Corão, e eles afirmam que foi escrito por Deus. Eles idolatram o Livro. Em contrapartida o Novo Testamento acabou por idolatrar também a Bíblia porque também pensavam que era  “escrita por Deus. Será que Deus disse uma vez uma coisa e depois outra coisa? Afinal, os dois livros fazem parte de dois sistemas religiosos. O Corão faz parte do sistema religioso deles, e a Bíblia faz parte do sistema religioso dos judeu-cristãos. Não podemos idolatrar a Bíblia.

P.Casimiro João        smnb

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segunda-feira, 9 de março de 2026

ORAÇÃO E MAGIA E BATISMO.

 



Há um exemplo muito elucidativo numa etapa do crescimento ou não crescimento do povo da Bíblia, onde se mostra uma mentalidade primitiva mágica. É no livro do Êxodo, pelo ano 1.200 a.C: “Amanhã estarei de pé no alto da montanha com a vara de Deus na mão. Quando Moisés conservava as mãos levantadas, Josué vencia o inimigo, quando Moisés deixava cair as mãos, o inimigo vencia. Pegando então uma pedra colocaram-na debaixo dele, e então Arão e Ur, um de cada lado sustentavam as mãos de Moisés, e Josué derrotou os inimigos a fio de espada” (Ex.17,9-13).  Ainda hoje há essa atitude. Adulto que não cresceu na fé e no entendimento continua na fé de criança, assim como os judeus pensando que num estalar de dedos Deus resolvia todas as coisas, ou na expressão de hoje “fazia milagres.” Vamos ver que esta magia não se infiltrou só na oração mas também no sacramento. Comecemos pelo  batismo. Comumente o batismo se torna um rito muito simples: é só botar a água na criança e pronto. A gente acha que o batismo automaticamente salva, como uma coisa mágica. Porém, etimologicamente batismo significa muito mais do que isso. Batismo é um mergulho. Mergulho na vontade de Deus e na missão que temos que fazer, do qual o mergulho na água é o símbolo ou a comparação. Sem dúvida, como Jesus terá dito um dia: “devo receber um batismo, e não vejo a hora para que isso se cumpra” (Lc.12,50). Qual era esse batismo? Não era ir para a paixão e morte próxima? Para nós, batismo é muito simples, mas ele é esse mergulho de corpo inteiro na vontade de Deus e nas tarefas que temos que fazer, assim como Jesus fez esse mergulho. Infelizmente, nas catequeses habituais se insinua que o batismo perdoa os pecados e pronto. E veio a tradição que sem o batismo não havia salvação. E de quebra que quando estamos batizados estamos salvos. A mágica funcionou. De tal maneira entrou na cabeça do povo que ficou resumido que a vida do cristão é só ser batizado. Porém agora a Igreja diz que não são só os batizados que se salvam. Nesta lógica poderá alguém perguntar: então para que serve o batismo? Eu respondo: O batismo não é para a outra vida, é para esta. Se é na Igreja católica é para cumprir as tarefas da Igreja católica; Se for nos evangélicos é para cumprir as tarefas dos evangélicos, e assim por diante. Imagine só isto: o militar é para esta vida, não é para a outra vida; o advogado é para esta vida, não é para a outra vida; o médico é só para esta vida, não é para a outra vida. Na outra vida não vai ter militar, nem médico, nem advogado, e nem padre, nem bispo e nem Papa, porque lá não precisa. Onde precisa é aqui nesta terra. É assim que Jesus disse: “tenho que receber um batismo, e era para cumprir as tarefas que ainda faltavam. Assim nós. Na verdade, o desenvolvimento da humanidade teve o paralelo com o desenvolvimento da criança. Vejamos.

A criança é por natureza mágica. Ela nasce mágica. Porquê? Porque não sabe fazer ainda nada. É o pai e a mãe que fazem tudo. O pai faz os brinquedos, conserta os brinquedos. O pai é forte. Defende do cachorro, defende dos bichos, pega no colo, nas cacundas, cura as doenças, bota o carro para andar, conserta os estragos, sabe onde está a água, onde está o mercado, bota tudo em casa. O pai é o herói. É maior que todos. A humanidade era uma criança. Ela também nasceu mágica. Assim como para a criança o pai pode tudo, também para a humanidade Deus podia tudo. Era Deus que fazia tudo, o fogo, as nuvens, as plantas, o mar e os frutos. Vai ver, se a criança não crescesse, ela iria ficar sempre criança e na dependência total da mãe e do pai o tempo todo. Pais que fazem tudo para as crianças, botam as crianças na vida sem aprender a fazer nada.. Ao contrário, a criança que começou a ganhar independência pouco a pouco, aprenderá a não depender dos outros e a resolver os seus problemas. Sua experiência junto com o seu estudo lhe ensinarão a resolver os seus problemas. Assim aconteceu com a humanidade. Tem aquela parte da humanidade que, apesar de muitos séculos que passaram, ainda ficaram como crianças que não desenvolveram. Quem sabe, seriam os pais que o pouco que sabiam não ensinaram aos filhos. Justo pelo medo de que os filhos aprendessem demais, e mais do que eles. Isto aconteceu nas sociedades que guardavam muitos segredos. Alguns velhos que tiveram sorte de aprender mais coisas não é que guardariam muitos conselhos a sete chaves? E por isso são temidos, porque eles podem fazer mal aos outros, por vingança. Não será daí que vem a tradição e a cultura dos feiticeiros e dos gurus? Em contrapartida, em outras partes do mundo democratizou-se o ensino. E foi onde os pais não tiveram medo de ensinar os filhos. Pais e filhos frequentaram círculos de mais ensino, ou eles mesmos os criaram. Nasceram assim as escolas e as Universidades. Aplicando este aporema agora ao pensamento e à religião acontece a mesma coisa. Aristóteles observava que o ser humano, por natureza, tende ao saber. E também à religião. Neste desenvolvimento, a humanidade também se dividiu em duas etapas. Na primeira etapa, a humanidade  quando era criança punha todo poder em Deus, como a criança no poder do pai. Mas quando cresceu livremente começou vendo que tudo não dependia de Deus mas também dela mesma. A humanidade que entregava tudo a Deus pra ele tudo fazer, continuaria com uma atitude mágica de só Deus fazer tudo pra ela como num estalar de dedos. E daqui temos ainda hoje dois tipos de humanidade: Uma que faz, inventa, faz coisas acontecer, transforma coisas e inventa outras. E assim se chegou à inteligência artificial, aos robôs e ao celular. Isto aconteceu numa parte da humanidade onde o estudo acompanhou o crescimento da humanidade. Em contrapartida, naquela parte da humanidade onde o estudo não acompanhou, a humanidade ainda vive bastante na época da magia e dos segredos dos feiticeiros e dos gurus.

Conclusão. Falta-nos o tempo de avançar para a narrativa de outros sacramentos, pois falamos no batismo. Mas, pelo dito, dará para descobrir sinais de magia também, e coisificação, noutros sacramentos. Dizemos “coisificação” porque é o mesmo significado de magia. E infelizmente essa magia ficou por muito tempo “consagrada” na Igreja com a expressão que os sacramentos agem “ex opere operato”, ou seja, posto o rito, tudo acontece automaticamente. É o fato de reduzir Deus a uma “coisa”, e os sacramentos também a “uma coisa”.

P.Casimiro João      smbn

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segunda-feira, 2 de março de 2026

QrCode DOS LUGARES ALTOS, SOBRE O MONTE TABOR


QrCode não é sobre o quadro, é sobre o que tem dentro. Há muitas narrativas na Bíblia que aparecem assim como os qrcode da moderna informática. Aqui o significado também não é sobre o que se vê escrito na letra como num quadro mas no que tem dentro. Por exemplo no evangelho de Mateus se conta que “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João  e  os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha” (Mt.17,1). E no nosso CrCode logo vai aparecer o significado dos “lugares altos” no Antigo Testamento. Os antigos tinham a ideia de que  os lugares altos eram o lugar onde desciam os deuses e ali se podia falar com os deuses e até fazer refeições com os deuses. Não só, mas onde se ofereciam sacrifícios aos deuses.

Os lugares altos então eram lugares privilegiados onde se podia entrar em contato com o sagrado. “Um lugar à parte”. Não fica fora do nosso objetivo se conseguirmos comparar com o nosso qrcode: Aqui também não é sobre o lugar alto ou alta montanha, mas sobre “ouvir e “escutar”. Escutar quem? "O meu filho amado." Efetivamente “da nuvem uma voz dizia: “Este é o meu Filho amado em quem pus todo meu agrado, escutai-o” (Mt.17.5). Essa é a principal mensagem a ter em conta. E tem ainda a segunda mensagem que é a “presença” de Moisés e Elias”. Esta  segunda mensagem revela quem não deveriam mais ouvir: Moisés e Elias, do Antigo Testamento. Isso para nós agora não diz muita coisa mas para eles dizia, porque para eles Moisés era quase como um deus. Todos os outros detalhes pertencem ao gênero tradicional das teofanias, ou manifestações de Deus: relâmpagos, luzes, nuvens, medo e sono, dormir e acordar.

Vejamos lugares paralelos em que se conta a presença de Deus com os homens nos lugares altos, e até com refeições, quando os deuses desciam nas montanhas. “Jacó ofereceu um sacrifício sobre a montanha onde se erigiu a estela de pedras e convidou todos os parentes que ali estavam para uma refeição de confraternização. Eles comeram e passaram a noite sobre a montanha.” (Gn.31,54). “Acaz Ofereceu sacrifícios e incenso nos lugares altos, nas colinas e debaixo de toda árvore verdejante”(2 Rs. 16,4). A célebre cena com Abraão: “Disse Deus: toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas que eu te direi." (Gn.22,2). E sobre os sacrifícios dos pagãos: “Devereis destruir totalmente todos os lugares altos nos quais as nações pagãs que estais desalojando costumam adorar seus deuses, tanto nos altos montes como nas colinas e à sombra de toda árvore frondosa.”(Dt.12,2). Avalie você a adequação da nossa colocação, até porque nenhum dos evangelistas dá nome à tal montanha, mas só “alta montanha” em Mateus 17,1; “alto monte” em Marcos 9,2 e “um monte” em Lucas 9,28. Por quê nenhum dos evangelistas deu nome nenhum? Na sua opinião este detalhe não é que define melhor o nosso título inicial: O QRCODE DOS LUGARES ALTOS? que, como ficou dito, não é sobre montanha, mas sobre "ouvir"; ouvir quem "Jesus," o filho dileto de Deus. E não mais Moisés.

P.Casimiro João       smbn

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

OS 40 ANOS DE MOISÉS NO DESERTO E OS 40 DIAS DE JESUS


 

Não é sobre número 40, mas sobre uma vida inteira. Quando a Bíblia fala que Moisés passou  40 anos no deserto, (Dt.8,2) é para dizer que devemos passar a vida inteira procurando a nossa salvação, que eles verbalizavam na "terra prometida". E quando fala que Jesus passou 40 dias  no deserto, (Mt.4,1-11) é para dizer que Jesus passou toda a sua vida debaixo das provocações e perseguições dos seus inimigos, quais outros demônios. Com os 40 anos de Moisés se diz que o tempo médio de duração de uma vida era de 40 anos: todas as pessoas morriam nessa faixa etária, entre os 30 e 40 anos. Quando se fala dos 40 dias de Jesus no deserto é uma referência para cumprir o “plano” de Deus e os seus compromissos com a humanidade em toda a sua vida. Simples assim e metafórico assim. E as nossas vidas, a sua e a minha, não estão também dentro dos 40 anos de Moisés e dos 40 dias de Jesus? Certamente  que sim.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

JESUS E OS ESTRANGEIROS SIMBOLIZADOS PELA MULHER SÍRIO-FENÍCIA

Um dia uma mulher pagã sírio-fenícia foi até Jesus que se encontrava no seu território estrangeiro e lhe pediu que expulsasse um espírito impuro de sua filha, “Ela suplicou a Jesus que expulsasse de sua filha o demônio. Jesus lhe disse: deixa primeiro que os filhos fiquem saciados, porque não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-los aos cachorrinhos. A mulher respondeu: é verdade, mas também os cachorrinhos debaixo da mesa, comem as migalhas que as crianças deixam cair. Então Jesus disse: “Por causa do acabas de dizer, podes voltar para casa; o demônio já saiu de tua filha” (Mc.7,25-30). Este CrCode não é sobre fé, mas sobre a purificação dos territórios estrangeiros que são purificados por meio da expulsão dos demônios. Isto porque na doutrina dos Judeus os territórios estrangeiros eram habitados por demôniios ou espíritos impuros. Não é sobre “milagre”, mas sobre purificação de territórios pagãos, simbolizados por aquela mãe pagã e estrangeira e sua filha que não pertenciam ao povo judeu e portanto não eram “filhos” mas “cachorrinhos”. O resumo e a lição teológica e catequética é portanto esta: o demônio que habitava em todos os pagãos e nessa filha e nessa mãe já tinha saído. Observemos a cena: “Primeiro os filhos devem  ficar saciados, porque não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo  aos cachorrinhos”.  Os filhos eram os judeus; os cachorrinhos eram ela e a sua filha. Assim era eram tratados, como cachorros ou gente habita por demônios e espíritos impuros. Por sua vez, a resposta de Jesus nos surpreende: “Por causa do que acabas de dizer podes voltar para casa, o demônio já saiu de tua filha”. Não é sobre fé mas sobre que a mulher entrou por suas próprias palavras no povo dos filhos. Como quem diz: se os filhos comem o pão, nós também queremos embora seja o que sobra ou que cai mas é o pão dos filhos que eu e minha filha queremos comer, “por causa do que acabas de dizer você e sua filha já não são gente possuída por demônios”. Também não é sobre milagre, mas como nós estamos cheios da síndrome de milagres, tudo achamos como “milagre”. Porém os ouvintes daquela época não entendiam como milagre mas como lição de purificação daqueles territórios pagãos: aquela filha e aquela mãe, pelas suas palavras já se tinham tornado “filhas” do povo dos filhos de Deus. Este QrCode é paralelo ao homem de Gerasa, o geraseno, também de território pagão possuído por uma legião de demônios (Mc.5,1-20). Era também um território pagão e estrangeiro. Pela ação de Jesus, simbolizada na saída dos demônios do corpo daquele homem e entrando em porcos que se jogaram no mar, tanto aquele homem estrangeiro como o seu território estrangeiro ficaram purificados. São dois QrCodes paralelos e com a mesma lição teológica e catequética. Notemos que a linguagem era usada para o entendimento e a cultura daquela época. Porque a Bíblia não fala a nossa linguagem de hoje, mas da época  em que foram escritos os evangelhos. O nosso trabalho agora é saber ver as distâncias e as diferenças de cultura e de linguagem. Por isso já dizia uma professora que a "Bíblia tem que ser lida com uma lupa". Quisemos clarear este CrCode de Jesus e os estrangeiros explanando esse episódio da mulher sírio fenícia. Sempre recordando na nossa lupa e no nosso QrCode o que diz a teologia bíblica no seguinte jargão: Os evangelhos não são geográficos nem históricos mas teológicos.

P.Casimiro João       smbn

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