segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

TEOLOGIA BÍBLICA E ÁRVORES COMO PRIMEIRO LUGAR DE CULTO NA BÍBLIA


A árvore foi o primeiro lugar de culto na Biblia. A ciência é neutra, e tem que ser neutra para ser ciência. Não que o cientista não seja religioso, mas entrando no campo da ciência tem que entrar num campo neutro. No caso, uma descoberta arqueológica tem o mesmo valor para quem tem religião e para quem não tem religião. Sem ideias preconcebidas. Já por exemplo os autores bíblicos, no seu aspecto histórico, aproveitando memórias do passado, refletem as suas preocupações religiosas e teológicas, de tal maneira que só um estudo científico irá descobrir o que pertence à história e o que pertence à fé. Na verdade, os grandes trabalhos da Bíblia com aparência histórica contêm vários níveis de composição: o passado, a reflexão religiosa e às vezes ainda visam o futuro da escatologia, de modo que geram uma confusão na mente do leitor leigo. O resultado final desse quadro dificilmente se parece com o esquema da própria Bíblia sobre a historicidade de Israel (Cf.Mark Smith, o memorial de Deus, pag38). “A história bíblica construída na Torá e na história do Deuteronômio representa a história nacional fundadora de Israel como refém das condições do presente do povo e de suas esperanças no futuro”. Por isso, “apesar de não ser considerada historicamente inútil, a Bíblia não ocupa mais o lugar privilegiado de ditar as normas para a reconstrução do passado de Israel. O testemunho bíblico é “considerado” e “pesado” com evidências arqueológicas e textos extrabiblicos depois de terem sido avaliados separadamente por seu valor histórico” (o.c.p.35). As fontes disponíveis na Bíblia são principalmente instantâneos do passado por meio de narradores posteriores impondo suas próprias interpretações do passado de Israel sobre estes antigos retratos. Os autores bíblicos, ao escreverem história refletem as preocupações dos seus tempos. O que parece então ser narrativas históricas são respostas atuais aos desafios dos tempos passados. Os escritos bíblicos são então produtos de seus próprios autores em sua própria época refletindo a memória coletiva”.(o.c.p.37). Então, a Bíblia torna-se uma mistura do passado de Israel e das memórias ou reflexões coletivas sobre esse passado.

Vejamos algumas curiosidades sobre o passado de Israel e partindo da árvore que foi o primeiro lugar de adoração, “postes sagrados” ou tocos de plantas. Os antigos tinham no seu imaginário que os deuses moravam nos “lugares altos”, como por exemplo as árvores. Aí eram feitas as celebrações de nascimento, casamento, morte e luto. A essa árvore ou “poste sagrado” era dado o nome de “asherah” que posteriormente virou deusa, “deusa asherah”, a qual depois foi considerada a consorte ou esposa de Javé, quando Javé ganhou o status de deus de Israel, já que o primeiro era o deus “EL, dos edomitas. Cf. o.c.p.61 e 91. Daí partiram para os “lugares altos”, onde eles colocavam a moradia dos deuses, já que os deuses dos edomitas e ugaríticos eram também os deuses de Israel e moravam nos “lugares altos”. Daí vieram as construções dos templos nos lugares altos, às vezes chamados só de “lugares altos”. Daí vieram também as “torres” das igrejas porque Deus só podia habitar nos lugares altos. E daí vieram as lendas da “torre  de Babel” por onde os deuses desciam mas os mortais não podiam subir. Alguns lugares começaram a ganhar mais aglomerações de pessoas: peregrinações” festas do outono, colheitas das frutas e festas das tendas. O chefe do culto era o pai de família, o patriarca. E daí, algum outro ocupava o nome de “homem de deus”, na falta do pai de família, como Samuel e sucessores, que também resolviam problemas sociais e de guerra; foi a origem dos “Juizes” e do livro dos “Juizes”.

Avançando mais na linha do nosso tema sobre a historicidade da Bíblia, grandes narrativas tidas como históricas, veremos que são reflexões do tempo em que foram escritas sobre variações de tempos passados, e tais escritos viraram epopeia. “Não há evidências históricas sobre a historicidade do Êxodo ou algum tipo de historicidade por trás da grande epopeia que foi construída. A narrativa do Êxodo até Números pode conter tradições mais antigas que foram moldadas para responder a questões posteriores. Alguns ancestrais puderam ter andado nessas trilhas mas sem nenhuma escravidão. Não há evidências históricas sobre a historicidade do êxodo ou algum tipo de historicidade por trás da grande epopeia que foi construída (o.c.p.45).

Falemos sobre o politeísmo em Israel. “A realidade mais antiga é que muitas divindades residiam no antigo Israel, o que foi amplamente esquecido” (o.c.p.53). Até porque as falas contra os deuses foram escritas depois que Israel nadava tranquilamente por séculos na convivência com todos os deuses do seu panteão, com deuses superiores e outros inferiores como os “Angeli” (“Anjos”, “mensageiros”) que faziam as ordens dos deuses maiores. Inclusive, com Javé com sua consorte Asherah como falei já. As várias críticas contra os “deuses” dos pagãos são devidas à amnésia coletiva do povo, no dizer do mesmo autor M.Smith: “A amnésia coletiva de Israel sobre os outros deuses, a saber, que muitos destes deuses tinham pertencido primeiramente a Israel ajudou-os a esquecer seu próprio passado politeísta, e portanto serviu para induzir a amnésia coletiva.” (o.c.p.25)

Vejamos várias estratégias da narrativa bíblica. Uma delas é aquela luta contra os vários deuses. Esse politeísmo em que sempre nadaram e mergulharam os judeus inventou a história do “bezerro de ouro”. Essa é uma estratégia do reino do Sul (judá) contra o reino do Norte que também tinha o santuário de Dã e Betel e diziam: “estes também são os deuses que nos tiraram do Egito” (1 R.12,28). E a estratégia da narração foi colocar esta crítica no episódio de Moisés no Sinai, coisa nem pensável naquela época. “A luta contra o ‘bezerro de ouro’ é uma reação contra os santuários da Samaria e foi colocada no relato do Sinai para fazer do Sinai o centro de toda a história bíblica. É portanto uma transposição moral e atemporal. O que vemos em Êx.32,4.8 é uma reação contra os santuários de Samaria no Norte em 1 Reis 12,28” (o.c.p.30 e 63). E o autor citado Mark Smith conclui: “O problema não era o politeísmo mas a competição entre diferentes divindades apoiadas por diferentes santuários. O monoteísmo deles não se originou historicamente no primeiro momento no Sinai com Moisés e a Aliança feita lá”.(o.c.p.86 e p.133). A arqueologia encontrou documentos dos reis babilônicos dizendo: “capturamos os deuses da confiança dos judeus nas suas cidades” (o.c.p.93).

Outra estratégia de como o deus “El” virou Javé para os israelitas foi a lenda de Jacó versus Isaú com a seguinte conotação: Jacó, o filho mais novo de Isaque tomou o lugar do mais velho que era Isaú. Por isso, assim como Isaú, o mais velho perdeu para Jacó, o mais novo, assim “El”, o deus mais velho perdeu para Yahweh, o nome do deus mais novo escolhido agora. (o.c.p.45), Gn.32,23-33). Foi quando Jacó trocou o nome por Israel, que era o mesmo nome da nação “Tu te chamarás Israel”; e de quebra “El” trocou o nome por “Yahweh”, (Gn.cap.32). Este foi o jogo entre os escritores “E” e “J”, isto é a tradição “eloista” e a tradição “javeista”. O livro de Gênesis corrobora isto quando fala que Jacó, no Norte ofereceu sacrifício ao seu deus El: “Aí (em Siquém) fez um altar, que denominou El, o deus de Israel”(Gn.33,20). E tudo isto porque ainda não existiam as inimizades entre Israel e os edomitas como depois aconteceram nas diversas lutas sobretudo quando eles ajudaram os inimigos a derrubar o templo de Jerusalém em 586 a.C.

Sobre Davi: “Os últimos sucessos militares de Davi são descritos em termos adulativos, e mesmo esses sucessos não podem ser defendidos como históricos; as questões de cronologia levantadas pelos arqueólogos e as questões críticas levantadas pelos estudiosos demoliram a visão gloriosa que Davi recebera na tradição religiosa posterior, assim como como suas habilidades são lendárias”(o.c.p. 59). Afinal, reina também entre as mesmas pesquisas que isso á atribuído também a Salomão. Na verdade, “polêmicas reais e apologéticas são frequentemente escritas como fatos históricos, e esta monarquia não deve ter sido tão grande quanto no início se pensou” (Finkenlstein, Mazar e Stager, o.c.p.60). “A história lendária de Salomão são contos populares atribuídos a ele, como as lendas do bebê e as duas prostitutas, e da rainha de Sabá. A própria construção do templo e a figura do templo é mais ideológica do que real, segundo o maior investigador bíblico israelense Finkenlstein, pois nas escavações arqueológicas não se encontram sinais evidentes do seu tamanho. (id. pp.61ss.).

Conclusão. A Bíblia é composta de edições e reedições, e cada época de uma reedição tinha novas versões sobre os mesmos fatos e novas ideologias e defender. E, como disse, pertence à investigação e erudição científica destrinchar e avaliar; é o que a gente tem que ir aprendendo e não ficar sempre pensando as mesmices de que tudo era como antigamente.

P.Casimiro João   smbn

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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Quem eram os “servos inúteis” do evangelho


 

Uma certa vez, no evangelho de Lucas, encontramos esta expressão: “Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: ‘somos servos inúteis’, fizemos o que devíamos fazer” (Lc. 17,10).

Em primeiro lugar, a quem era dirigida esta palavra? A uma autoridade? A um sumo sacerdote? A um doutor da lei? Ou a um governador? Não? Era a um trabalhador manual ou rural, talvez um escravo. Na época do colonialismo era assim que tratavam os colonos, mas ninguém diria isso a um “europeu”. Infelizmente seguimos muito os vícios da antiga Grécia e Judeia neste campo. Os antigos gregos seguiam a filosofia de Platão segundo a qual as ideias moravam no Olimpo celeste, e eram separadas da matéria da terra. E havia uma parte da humanidade que se devia dedicar ao estudo das ideias. Esta classe de pessoas não podia se ocupar com trabalhos manuais e do campo. E deviam ter uma formação adequada de estudo, ou “skolé”, donde deriva a nossa palavra Escola. Esta era a filosofia de Platão e Aristóteles. A outra classe de pessoas era dos trabalhadores rurais. Eles não estudavam e tinham que produzir os bens para aqueles primeiros. Já para Homero e Hesíodo, o trabalho era um castigo que Zeus impôs aos homens, coisa semelhante ao que encontramos no Gênesis.

Entre os romanos havia os cidadãos livres e os não livres, estes que tinham sido derrotados nas guerras e faziam os trabalhos servis, isto é de servos e escravos. E havia os detentores dos direitos de propriedades e os que trabalhavam nelas sem nenhum direito. Os donos de propriedades tinham todos os direitos perante os servos. Os servos eram desprovidos de todos os direitos e de personalidade jurídica.

Em consequência temos que olhar portanto as categorias sociais da época.: “servo inútil” seria igual a animal de carga, que você pode espancar para andar, trabalhar, pode maltratar, berrar com ele; se ele morrer tem logo outro animal. Por isso o trabalhador só tem que comer para entrar logo no trabalho, como se fazia com qualquer animal. Daí que esse desprezo de “servo inútil” significa isso, e não vamos pensar que será um discurso de Jesus mas uma composição da época usando as mesmas categorias sociais da época. Estamos longe ainda da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1949 e dos direitos sociais dos trabalhadores que foram se desenvolvendo do séc.XVIII em diante até chegar aos nossos dias. Já vimos noutro BLOG como a própria Igreja, durante muito tempo foi conivente com a situação de opressão, finalmente despertando e reagindo com a publicação das Encíclicas Sociais. (www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br 01/01/23), e no Brasil com as SEMANAS SOCIAIS.

Aqui no Brasil, a primeira vez que se falou nos direitos dos trabalhadores foi na Constituição de Getúlio Vargas, de 1934, onde foi instituído pela primeira vez o salário mínimo, 08 horas de jornada de trabalho, e a organização do trabalho de mulheres e crianças, muito requisitadas pela indústria porque eram mais baratas. E solidificaram-se e aperfeiçoaram-se mais os direitos trabalhistas com a famosa CLT, Consolidação das Leis de trabalho de 1943.

Conclusão. “Somos servos inúteis” portanto é uma daquelas sentenças que passaram de prazo de época de validade e não dá para alguém se aplicar a si  com aquela iludida “humildade” que se julgaria “evangélica”. Pelo contrário é falsamente evangélica porque uma diminuição do ser humano. Tudo que é contra o ser humano é anti-evangélico. E contra toda a mentalidade de Jesus que disse: “Eu não lhes chamo de servos mas amigos” (Jo.15,15).

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

TEOLOGIA BÍBLICA E SEUS DESAFIOS


 

Há duas ordens de conhecimento: o saber da fé e o saber da razão.(G.Sp, 59). O saber da fé baseia-se no testemunho de experiências religiosas confiáveis de primeiros fãs de Deus que tiveram a capacidade de transmiti-las com sua vida e suas comunicações verbais. O saber da ciência baseia-se em métodos de investigação empírica, matemática e histórica. Na Grécia antiga, Platão considerava o corpo como prisão da ama; a vida espiritual tinha como meta a libertação da alma. Para Platão e Plotino o mundo material era apenas uma sombra. A verdadeira realidade era o “mundo espiritual”.  Digamos já de início que Platão cortava toda a possibilidade de acreditar na ciência e nos seus métodos, para ele só havia o valor da “experiência religiosa”, uma vez que o “mundo material” era “uma sombra”, e a verdadeira realidade era o “mundo espiritual”. Ainda faz parte do imaginário de 90% por cento de cristãos este espectro da mente humana que veio desses primeiros pensadores gregos. Entre cardeais, bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas e fiéis de ambos os gêneros. Do Antigo Testamento e do Novo Testamento. E essa era a eclesiologia dominante antes do vaticano II, época da cristandade, jurisdicista e triunfalista. Quando o século 19 teve um despertar deste imaginário milenar para restabelecer o valor do mundo material, a voz da Igreja, pela voz do Papa Pio IX promulgou o Syllabus, condenando todas as novas filosofias que começavam a pulular, se afastando do tal Platão e Plotino. Aquelas raízes da filosofia de Platão e Plotino criavam uma separação escandalosa entre corpo x alma; terra x céu; mundo x Igreja; profano x sagrado; natureza x graça. O vaticano II abandonou essa postura para afirmar que Deus e o mundo não são rivais, mas o mundo é obra de Deus, ele é constitutivo da Igreja e do cristão. Isto leva ao problema candente sempre atual, queiramos ou não, do binômio fé e ciência, teologia e razão.

A teologia é um serviço à fé e uma instância crítica necessária para evitar que a prática religiosa degenere em fideismo, fundamentalismo e fanatismo. Justamente as três coisas que estão incluídas no imaginário do mundo recebido de Platão, como o “corpo prisão da alma”, e o mundo “material” como uma “sombra”, e a “vida espiritual” como a “verdadeira realidade” donde, dessas três raízes, se gera o tal fideísmo, fundamentalismo e o fanatismo. É aí que entra a teologia. A teologia vem dar o entendimento entre o mundo da ciência e o mundo da fé. Os dois campos têm suas atribuições e seus limites. O mal que havia nos postulados dos primeiros ditados do tal Platão era que o estudo do espiritual devida abranger, regular, organizar e dominar o estudo do mundo da matéria. Veio daí que a ciência tinha que ser escrava da fé, porque o mundo material era apenas “uma sombra” e a vida espiritual “tinha como tarefa libertar a alma”. Estava feita a plataforma para que a fé dominasse a ciência, e que sempre a fé tivesse a última palavra, aumentando o desprestigio da Igreja como aconteceu com a publicação da encíclica “Humanae Vitae” de Pio XII. E assim sucedeu em toda a Idade Média e Antiga, até o despertar de novo mundo e um novo modo de entender o mundo e a fé. Foi aí, no séc.19, quo Pio IX se apavorou e pôs a Igreja em pé de guerra contra a ciência. Foi nessa época que a ciência se independenciou da fé e que os cientistas fizeram a seguinte afirmação quando perderam a paciência vendo que a Igreja teimava sempre em se imiscuir em todos os caminhos da ciência, e colocava a ciência numa camisa de forças: Quanto maior a fé, menor a ciência, e vice-versa” (Dawkins). Nessa época a fé passava a ser vista como um estágio a ser superado pela ciência, no dizer de Augusto Comte, porque só atrapalhava a progresso da sociedade. Na verdade nesta época e depois de Galileu Galilei não só se passou a questionar a autoridade da Igreja mas a própria existência de Deus. Se uma Igreja assim era o caminho para chegar a Deus, esse caminho não levava a Deus nenhum e era melhor ficar sem a Igreja e seu Deus. Os cientistas dispensaram a hipótese de Deus ao mesmo tempo que  dispensaram a intervenção da Igreja. Vejamos alguns passos da ciência nos últimos séculos: 1642 a máquina de calcular por Blaise Pascal; 1897 a telegrafia sem fio, por Morse; 1902 o rádio; 1925 a TV; 1934 o radar; 1964 o laser e calculadoras eletrônicas; 1967, primeiro transplante de coração; 1972, inicio da engenharia genétia por Herbert Boyer e Stanley Cohen; 1957 lançamento do primeiro satélite não tripulado em volta da terra; 1960, os foguetes teleguiados; 1961, a primeira viagem tripulada em volta da terra; 1968, a primeira viagem tripulada em redor da lua; 1969, a primeira alunissagem feita pelo homem; 1942, a energia nuclear; DNA, em 1953 por Francis Crick.

A Igreja, em todos os tempos reivindicava para si o direito de sentenciar sobre verdade e falsidade da pesquisa científica. E a marcha vitoriosa da ciência foi por isso erroneamente interpretada como derrota da crença em Deus. Mesmo que agora vá respeitando paulatinamente o direito inalienável da ciência, mesmo assim fica sempre uma tradição de se expressar nas categorias da metafisica medieval estranhas à cultura contemporânea determinada pela moderna tecnologia. Na verdade, todos os conceitos ou imagens de Deus, por mais adequados que nos pareçam, não são Deus”.  Santo Anselmo de Cantuária dizia que Deus é sempre maior pois não cabe em categorias filosóficas ou científicas. (Cf. Cf.Urbano Zilles, Desafios atuais para a Teologia, pag.29).  A Igreja nunca se libertou desse medo histórico e inconsciente da ciência, como também nunca se libertou da ambição inconsciente de querer “controlar” a ciência e os avanços científicos. Por isso já se criou o jargão que a “Igreja anda 500 anos atrasada”. E as boas consciências atribuem isso à “sabedoria da Igreja”, para não dizer que essa sabedoria é inércia, medo e paralisia.

Conclusão. À guisa de conclusão podemos resumir a relação entre razão e fé nos seguintes itens: 1) A fé e a razão são diferentes modos de conhecer; 2) A fé e a razão não se podem contradizer porque o autor de ambos é  Deus; 3) No homem que se abre à experiência religiosa Deus se revela e o capacita para que possa ser um elo de transmissão para outros humanos, tendo em vista tanto em Israel como na revelação cósmica; 4) A razão exerce papel fundamental na formulação da fé tanto nos preâmbulos como para ilustrar por meio de comparação semelhanças e dessemelhanças. (Cf.o.c.p.82)

P.Casimiro João    smbn

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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

O matrimônio um palco; o mundo um palco.


 

“Este mundo é um palco, cada individuo cumpre o seu ato e dá a continuação do drama a outros indivíduos. É o todo que é o drama. Os indivíduos, na verdade, depois de cumprir seu papel aqui, não saem de um drama, que no seu conjunto continua a marchar sem fim e, por assim dizer, em um palco firmemente montado continuam sempre dando a outros indivíduos espirituais a possibilidade da apresentar o seu ato” (K.Rahner, Curso fundamental da fé, p.514).

Este trecho leva-nos a pensar na questão do cristão perante o pluralismo da existência humana. Na 1ª Carta de Paulo aos coríntios ele limita a vida do homem cristão e da mulher cristã ao “sagrado” e ao “profano”: “Meus irmãos, eu gostaria que estivésseis livres de preocupações. O homem não casado é solícito pelas coisas do Senhor e procura agradar ao Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo e procura agradar à sua mulher e assim está dividido. Do mesmo modo a mulher não casada tem zelo pelas coisas do Senhor e procura ser santa de corpo e espírito. Mas a que se casou preocupa-se com as coisas do mundo e procura agradar ao seu marido”.(1Cor.7,32-34).Esta reflexão de Paulo é fruto do dualismo da sua época que separava Deus e o mundo, Deus e marido, Deus e esposa, espírito e corpo como coisas opostas e proibidas, filosofia e antropologia agora fora de época e que perdeu a validade de prazo. Ele louvava a mulher solteira pelo fato de estar “livre”para servir o Senhor, como se o Senhor fosse inimigo do “mundo” e do “marido”, e vice-versa o homem solteiro, como se o Senhor fosse inimigo do “mundo” e da “mulher”. Enquanto que existe uma unidade: servir o marido e servir o “mundo” aí se serve ao mesmo tempo o Senhor, como uma medalha com verso e reverso. Quem quisesse usar esses versículos para uma pastoral familiar e tomasse à letra poderia cair numa grande alienação e alienar o auditório. É por isso que a Bíblia cria muitas armadilhas e pode iludir muita gente. Na verdade, o homem cristão e a mulher cristã são confrontados com o pluralismo da vida, com uma vida plural, e nessa pluralidade devem realizar a unidade do seu entendimento e do seu agir, e não devem cair na tentação de querer agir como uma barata correndo em todas as direções sem encontrar um rumo de uma unidade: “onde eu encontro Deus se eu tenho que dar conta do meu balcão? e dos meus relacionamentos com agnósticos, com ateus, e com gente que faz assédios? e dar conta do meu namoro, e dos meus relacionamentos com o marido? e logo depois como posso encarar a igreja, a missa e as tarefas dos meus compromissos religiosos?...”

Na verdade, o cristão tem o direito e o dever de se entregar tranquilamente e cheio de confiança ao pluralismo de sua própria existência. “E de experimentar o amor e a morte, o ódio e a ternura, sucesso e desilusão. E no meio de tudo isso, cheio de confiança, deixar-se interpelar pelo próprio Deus que quis este pluralismo do seu mundo a fim de que o homem faça ideia de que tudo isso está envolvido pelo mistério eterno. E algumas vezes o homem cristão e a mulher cristã tem que contar com uma realidade plural obscura, cheia de trevas e incompreensível” (o.c.p.421), onde terão ocasião de exercitar a calma e o discernimento do seu espírito. O cristão é o que aceita tranquilamente a diferença entre o que somos e o que devemos ser, como tarefa. E nisto supõe a relatividade do presente. E estará habilitado a dizer um “não” a alguma coisa e um “sim” a outra coisa.

Esta diferença faz parte do palco da vida humana e coloca o cristão em pé diante dela. Precisamente o homem cristão e a mulher cristã aceitarão tranquilamente este palco da vida, ou seja, a distância entre o que somos e o que devemos ser; assim como vemos o mundo como é e como devia ser e tomar uma atitude de “aceitar-se”. Aceitar-se quando erramos e aceitar-se quando acertamos, sabendo de antemão que nem sempre vamos acertar. É maravilhosamente confortante fazer a cabeça pensando que não se é perfeito. E ainda mais cultivando a resiliência e a predisposição para prosseguir mais alto.

O homem cristão e a mulher cristã saem sempre de sua própria falha e se voltam para o que lhe está adiante. Na incompreensibilidade de sua liberdade por vezes cheia de trevas e escuridão sabem-se continuamente envolvidos pela graça de Deus e que sempre devem refugiar-se nessa graça. E são sempre aqueles que jamais fazem cálculos perante Deus mas, pelo contrário, entregam a Deus e à sua graça todo cálculo, todo esforço moral, uma vez mais sem a pretensão de fazer contas perante Deus” (o.c.p.475). Deste modo avaliamos aquela teologia de que falamos embasada numa cosmologia tradicional e fora de validade de prazo. Para manter seu otimismo, o homem cristão e a mulher cristã poderão afirmar em sua fé cristã e na esperança coletiva a ela vinculada que o mundo no seu conjunto está salvo, que o drama da história da salvação terá em seu conjunto êxito positivo, que Deus já superou por Jesus Cristo crucificado e ressuscitado o “não” dito pelo mundo com o pecado” (o.c.p.479).

Conclusão. K.Rahner encerra o seu livro “Curso fundamental da fé” com o dito que formou o título desta matéria, “Este mundo é um palco”. E o cantor Francisco Marinho, natural de Chapadinha tem um título “A vida é um show: eu sou o palco e a vida é o show”. Vejamos mais algo da letra do hino: “O ar que eu respiro faz parte do show, e os instrumentos que tocam é a paz e o amor; Jesus é o artista; eu sou o palco e a vida é um show. Respeitar a vida é simples assim: saber dar valor à arte e à cultura: viver o amor. É deixar o amor tomar conta de ti: a vida é um show. A vida é dez e até mais de cem: a vida é uma festa e não tem pra ninguém: a vida é linda, a vida é um show”. Para ouvir digite o site: (www.franciscomarinhoreligiao).

P.Casimiro João             smbn

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segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

TEOLOGIA BÍBLICA E REVELAÇÃO CÓSMICA


 

Falamos noutra página da encarnação ou união hipostática cósmica. Falemos agora da revelação cósmica.

A nossa tese, e a tese de Karl Rahner é a seguinte: A história universal do mundo significa a historia da salvação. A história da salvação e revelação acontece onde quer que esteja acontecendo a história humana individual e coletiva (K.Rahner, Curso fundamental da Fé, p.176 e 179). Isto nos conduz a que a história é tripartite: história humana, história da salvação e história da revelação. A primeira afirmação é que a auto-oferta de Deus é aquela em que ele se comunica absolutamente à totalidade do homem, significando que a história universal do mundo significa história da salvação. Toda a história é também por isso mesmo história da revelação. Onde quer que a história humana seja vivida e sofrida lá está acontecendo a história da salvação e da revelação, e veja bem, não somente onde essa história seja vista de forma explicitamente religiosa, mas em toda a sua abrangência. Na verdade, a mediação dessa experiência transcendental não precisa necessariamente ser vista e vivida como explicitamente religiosa, basta ser humana.

A segunda afirmação: Quando falamos história e história universal de salvação, ela é coexistente com a história universal do mundo. Trata-se aqui da universalidade da salvação, e de quebra, da revelação. Aliás, podemos deduzir esta verdade de várias referências do ensino dogmático cristão. Em virtude da vontade salvífica universal de Deus não temos o direito de limitar o evento real da salvação à explícita história da salvação narrada no Antigo e no Novo Testamento, pois a Igreja evoluiu do axioma “fora da Igreja não há salvação” proferida por S.Justino no séc. II para o axioma “fora da Igreja muita salvação” um dos corolários do concilio vaticano II (L.G. 16). Aí nos avisa o teólogo: “Esta afirmação poderá parecer surpreendente a um primeiro momento para o cristão acostumado a ouvir que a história da  revelação inicia-se com Abraão e Moisés, ou seja, com a história da aliança no Antigo Testamento. Uma compreensão vulgar do cristianismo, de modo geral e sem cuidados, identifica a história explícita da revelação no Antigo e no Novo Testamento e sua escrita no Antigo e no Novo Testamento com a história da salvação simplesmente. Pois aqui nos interessa afirmar que a história da salvação como história da revelação em sentido próprio ocorre em todo lugar onde está ocorrendo a história coletiva e individual do gênero humano” (o.c.p.179).

Uma pergunta é necessária: Uma vez que a revelação não é exclusiva da historia de Israel, perguntamos: haverá alguma diferença entre a “revelação bíblica” e a “revelação universal ou cósmica” de que estamos falando? A resposta empírica é a seguinte: “Tem a historia da revelação transcendental e histórica casos bem e mais bem logrados da necessária autoexplicação dessa revelação transcendental”. Um desses casos bem sucedidos foi a revelação bíblica, o que não tira o mérito da revelação das outras civilizações e culturas. Uma característica da recepção da revelação é que possa chegar à consciência de maneira reflexa dessa história que é coextensiva com a história universal. O povo bíblico expressamente teve consciência muito aguda, mas uma consciência muito iluminada também foi apanágio de outras civilizações. Neste particular, a “vontade salvífica de Deus que na dogmática católica contrasta com o pessimismo de Agostinho, é caracterizada como universal, i.é, prometida e ofertada a todo homem, indiferentemente do tempo e do espaço e implica o que chamamos de visão beatífica. (Cf. o.c.p.181).

No Novo Testamento pode ter havido o seguinte engano quando se falava de “ex opere operato”, i.é, uma vez posta uma ação resultava a salvação, o que é uma falácia que beira a magia. “Uma pessoa que não se realizasse na liberdade e uma salvação que fosse realidade operada só por Deus são conceitos contraditórios. A salvação não realizada na liberdade não pode ser salvação” (o.c.p.182). Estamos falando duma atividade chamada autocomunicação de Deus por parte de Deus, e numa autotranscendência do homem. Não aconteceu apenas nos tempos de Israel e naquelas pessoas determinadas, mas em todos os tempos e raças. Afirma ainda o teólogo: “A experiência transcendental tem uma história, e não ocorre esporadicamente de tempos a tempos inserida na história, porque a experiência transcendental tem uma história idêntica com a história humana e não ocorre apenas em determinados pontos.Tudo isto que estamos apontando adéqua com os últimos documentos da Igreja”(o.c.p.187). Vem nos seguintes documentos do concílio vaticano II: Lumen Gentium, 16; Gaudium et Spes, 22 e Nostra Aetate, 1 ss.

Conclusão. Os historiadores das religiões constataram a existência do profetismo e de profetas nas civilizações anteriores ao judaísmo. Até porque “nas pessoas que nós chamamos de ‘profetas’ vem a ser verbalizado algo que em linha de princípio existe em todos, também em nós que não nos chamamos de ‘profetas’. O profeta, considerado de maneira teologicamente correta, não é nada mais do que o crente que logra expressar corretamente sua experiência transcendental de Deus” (o.c.p.194). Para termino da nossa reflexão, não há dúvida de que seres inteligentes habitam o imenso espaço cósmico. E o mesmo Deus que se autocomunica ao ser humano que há 5 bilhões de anos passeia neste pequeno espaço chamado planeta terra é o mesmo que se revela e se autocomunica a esses admiráveis seres cósmicos. Aí a revelação que já é cósmica vai ser mais cósmica ainda.

P.Casimiro João              smbn

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segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

União hipostática cósmica, Sementes do Verbo, Cristãos anônimos.


 

De acordo com os ensinamentos  judaicos no Talmude, o Universo era composto de sete céus. E autores judaicos discutiam detalhes destes céus, assim como as distâncias entre um e outro, sendo que havia acordo em que a distância entre eles seria de 500 anos de viagem. Sendo assim, como Deus habitava o sétimo céu(cf.2Cor.12,2) Deus estava a 3.500 anos de viagem dos seres mortais. Estes céus tinham anjos como chefes e guardiões, cada categoria de anjos comandava dez fileiras, nesta ordem: Serafins, Ofanins, Querubins, Shishinins, (com Gabriel como chefe), Tarshinins, Ishins, Hasmalins, e Hishinins,(com Miguel como chefe), Malaquins, e beneHeloins. Estes seriam os dez Arcanjos que foram criados primeiro. Inclusive, quando Moisés subiu aos céus enfrentou muitos problemas com algumas fileiras de anjos até conseguir o seu lugar. Nalgumas categorias havia anjos que se revoltaram contra Deus e estes eram os anjos caídos que na citação de Gênesis tiveram problemas com as filhas dos homens, pois “os filhos de Deus (os anjos) casaram-se com as filhas dos homens (Gn.6,1-4). Deus, estando tanto acima da Terra pouco ia se importar com os seres humanos. (Cf Scholem, Gershom, “Talmud Tradition”,1965 e David Zumerkor, “Numerologia judaica”, 1994, pari passu) E as injustiças reinantes na terra continuavam e aumentavam. O homem não tinha defensor no céu. Somente os poderosos e ricos é que copiavam essa hierarquia e essa separação, se dizendo que eram o deus, ou os filhos dos deuses, e que os homens pobres não tinham deus, eram os sem-deus. Assim como eram os sem-deus, eram os sem-terra porque Deus não tinha deixado terra para eles. E assim nascia a escravatura. Não adiantava o grito do pobre e do sofredor, porque não tinha deus que o escutasse.

Por isso que o evangelho segundo João começou assim: “No princípio era a palavra, e a palavra estava com Deus, e a palavra era Deus”(Jo.1,4). Essa maneira de dizer era uma filosofia grega. Mas, quem ouvia a palavra, essa que era Deus? Então essa palavra-deus veio ao mundo, que não a reconheceu (Jo.1,10). Porém, aos que a reconheceram, ela deu-lhes a capacidade de se tornarem filhos de Deus. (Jo.1-13).  Para vir ao mundo, a palavra-deus fez-se carne. Essa palavra ficou tão próxima como assim: Esta palavra não é muito difícil nem está longe do teu alcance. Eis que não está no céu para que você fique perguntando: quem subirá por nós até o céu para trazê-la a fim de que possamos ouvi-la e colocá-la em prática? Também não está além do mar, para que fiques perguntando: quem irá atravessar por nós o mar para trazê-la a fim de que possamos ouvi-la e colocá-la em prática? Sim, essa palavra está ao teu alcance: está na tua boca e no teu coração para que a coloques em prática” (Dt.30,11-15). Tão próxima se tornou essa palavra-deus, que, segundo o evangelho de João, se fez carne. Afinal, para os Rabinos essa Palavra morava na distância de 3.500 anos de viagem. João e o Deuteronômio, por seu lado disseram que mora na carne de quem a recebe e acolhe.

A cristologia tradicional cristã aplica esta palavra-deus ao Cristo encarnado. A teologia atual de Karl Rahner e outros aplicam-na a todo ente que recebe e vive a palavra de Deus. Para K.Rahner a encarnação, portanto, não é um problema isolado, mas um acontecimento cósmico. Vejamos algum paralelismo com a distância dos 3.500 anos de viagem, e a tese da proximidade de K.Rahner: “Podia-se dizer do Criador, com a Escritura do Antigo Testamento que Deus está no céu e nós na terra; mas do Deus que proclamamos pela fé em Jesus Cristo é preciso dizer que ele está precisamente onde nos achamos e somente ai pode ser encontrado. Quando Deus quis ser não-deus, surge o homem”(K.Rahner, Curso fundamental da Fé, p.269). “A união hipostática ou a autocomunicação de Deus consistiu só num único caso ou deve-se pensar que essa autocomunicação se deve pensar como a divinização da criatura espiritual pela autocomunicação de Deus? Não será ela momento próprio e específico da concessão dessa graça aberta a todos de um modo geral?”(o.c.p.239). “Esse acontecimento global não pode  ser bruscamente acósmico e puramente meta-histórico; pelo contrário, esta comunicação deve ser acontecimento que se expanda desde ponto espacial e temporalmente determinado.” (o.c.p.241). Estamos falando da transcendência e imanência de Deus, tema que trouxemos da “distância” dos Rabinos, e da encarnação na carne, do IV evangelho. Deduzimos daqui que esta “encarnação cósmica”, como no dizer de K.Rahner, se aplica a todos que praticam de coração sincero as suas religiões, como afirma a Gaudium et Spes do Vat. II, N.16. Eis como fala isso o mesmo autor citado: “Ao dizer a Escritura que quem ama o próximo cumpriu a lei, trata-se da verdade última, uma vez que o próprio Deus tornou-se este próximo, e desta sorte em todo o próximo sempre é acolhido e amado Aquele que é simplesmente o mais próximo e o mais longínquo”(o.c.p.272). Quase na mesma página é chamado o homem como a “cifra” de Deus (268). Há uma revelação universal que entra na mesma dança da revelação bíblica, antes e depois de Jesus Cristo: “Não é só a ‘história da revelação bíblica antes de Cristo’ que constitui a ‘história da revelação’ pois categorialmente não existe nada que aconteça também na história de outros povos, mas ela é a interpretação dessa história como evento de comunhão dialogal, e é a interpretação que constitui a história como história de revelação"(K.Raher, o.c.p.204)

Conclusão. Karl Rahner passou pela fórmula “as sementes do Verbo”, foi o pioneiro da expressão teológica “cristãos anônimos”, do concílio Vat.II, e avançou para a “encarnação cósmica” no livro “Curso Fundamental da Fé, após o concílio. A fórmula “sementes do Verbo” já vem de São Justino que no séc.II d.C. afirmava que todo ser humano participa do Logos ou seja, da palavra-deus e portanto traz em si uma semente do Verbo. Pela formula “cristãos anônimos” K.Rahner explicava a Lumen Gentium, n.16; e com a teologia da “encarnação ou união hipostática cósmica” torna o acontecimento “encarnação” como acontecimento de que participa ontologicamente todo ser humano consciente ou mesmo inconscientemente. Não vamos nos admirar se por exemplo afirmarmos como inconscientemente participam as crianças. Encerrando: “A teologia não consiste na “simples repetição” de um ensinamento supostamente eterno; ao contrário, trata-se da tradução da mensagem histórica daquele mundo de experiência ao nosso mundo de hoje” (H.Kung, Teologia a caminho, p.198). E mais: “A história não é a permanência da mesmesidade mas o devir do novo. A encarnação surge como o inicio necessário e duradouro da divinização do mundo como um todo”. Isto nos leva a afirmar a possibilidade de genuína história da revelação fora do Antigo e do Novo Testamento, junto com K.Rahner, quando afirma: “Não está dito que encontremos semelhante pureza essencial da revelação somente no âmbito do Antigo e do Novo Testamento”. “A relação com Jesus Cristo constitui ou se afirma como patrimônio geral dos cristãos; porém já no Novo Testamento e depois existem ou têm existido várias cristologias legítimas” (K.Rahner,o.c.p.225, 219, 191 e 247).

P.Casimiro  João    smbn

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terça-feira, 9 de janeiro de 2024

JESUS E SUA MÃE, E O CORDÃO UMBILICAL.


 

O amor da família limita, o amor da solidariedade é nossa vocação.

Um dia Jesus falou assim: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos: quem fizer a  vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc.3,35). O escritor João Mohana inventou esta expressão de um “amor amazônico” no seu livro “Vida sexual de solteiros e casados”, referindo-se que o amor do casal é extensivo a toda humanidade.

Esse ensino de Jesus nos dá duas lições: A primeira era para dizer à sua mãe que já não lhe pertencia mais. A segunda para dizer que ele agora era de todos, já não mais da família de Nazaré, mas da família da humanidade.

Aliás, é o repeteco da lição de outra ocasião quando, segundo o evangelho de Lucas foi encontrado no Templo entre os doutores da lei aos 12 anos, depois de três dias de buscas, e respondeu assim também para sua mãe Maria: “Porque me procuravam, não sabiam que eu devo ocupar-me nas coisas do meu Pai? (Lc. 2,49).

Quanto à 1ª lição, o recado para as mães biológicas é o seguinte: Não adianta prender os filhos a você. Os filhos de vocês já não lhes pertencem mais, desde que assumiram os seus caminhos. Largaram o cordão umbilical quando foram colocados no mundo; e largaram o segundo “cordão umbilical” quando atingiram o uso da razão, e por terceira vez quando atingiram a maioridade. Não adianta querer segurar esses cordões, porque já não existem mais: o primeiro é o cordão umbilical físico e biológico, os outros são cordões umbilicais psicológicos e afetivos. Foi esse recado de Jesus no trecho em questão. Na verdade, Deus não é judeu, nem cristão, Deus é universal. E Jesus também não é judeu, nem cristão, nem de Jerusalém, ou de Atenas ou de Roma. (www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br 17/7/22).

O ser humano é feito para a humanidade, para o “amor amazônico”, e cósmico. Quanto mais se libertar dos cordões que o geraram mais se desenvolverá; quanto mais ficar aprisionado mais se atrofiará.

Vem ao nosso propósito a pergunta: quem sabe o nome da mãe dos grandes homens da humanidade: a mãe de um Einstein, de um Luther King, de Mahatma Gandhi, Copérnico e Galileu, Kepler, Platão e Aristóteles, e de um São Francisco? Isto remete-nos para outra página onde dizíamos que o ser humano é um átomo pensante do universo. Como seria a astronomia se não existisse um Einstein? Como seria a aviação se não existisse o Santos Dumont e os irmãos Wright? E como seria a sabedoria sem os filósofos da Grécia?

Cada cientista, cada filósofo, cada santo, não tem nacionalidade, ele é cósmico, pertence à família cósmica e universal, e cada um de nós também. Eles e nós somos átomos pensantes do universo. (www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br 25/9/22.

Conclusão.  Estes gênios da humanidade participam, no primeiro grau, da magnitude divina de Deus. E como dizia o cientista Carl Sagan “nós somos uma faísca de estrelas”, e glosando “somos faíscas de Deus”. Então eles são faíscas de primeira grandeza. Igual como Jesus, eles pertencem ao número dos principais representantes da humanidade, irmãos universais e cósmicos.

P.Casimiro João       smbn

www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br 11/10/20).