
“Vós
sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa, e a porção escolhida
dentre todos os povos”. (Ex.19,5-6). Estas afirmações são claramente redação da
equipe sacerdotal que fez a terceira edição do Êxodo. Na verdade, o Êxodo foi
escrito no exílio da Babilônia pelos sacerdotes para servir de catecismo e
animar o povo no meio das angústias do exílio. Foi a catequese do sofrimento,
na reedição de histórias passadas, pelos sacerdotes. E foi escrito debaixo das
coordenadas de colocar as coisas como se tivessem acontecido com Moisés:
“Moisés subiu ao monte ao encontro com Deus. ”(v.3). É a transposição da
historicidade do tempo presente para o tempo assado, de Moisés. O tempo
presente era o século VI a.C. O tempo de Moisés o século XIII a.C. Até porque, se fosse naquele remoto tempo de
Moisés o que eles iriam entender por “reino de sacerdotes”? Claro que é uma
teologia já muito rodada fabricada na monarquia pelos sacerdotes do templo.
Outro ponto fulcral é que aí vem a ideologia perigosa que já estava minando o
povo judeu: “e sereis para mim a porção escolhida dentre todos os povos”
(v.5). Não imaginamos as consequências nefastas que se originaram e se
espalharam pelo mundo desta suposta “porção escolhida dentre todos os povos.”
É o chamado orgulho religioso que é
transmitido neste catecismo ao povo, como eu escrevi a longos traços já no
livro “A Bíblia, o livro dos Qr Codes”, p.105. E foi desta ideologia judaica
que surgiram no mundo todas as formas de segregacionismo, negacionismo, e
colonizacionismo do outro, baseadas no racismo, na religião, no gênero e no
nacionalismo. Porque desse orgulho religioso judeu nasceu o orgulho
nacionalista gêmeo do orgulho religioso. Até porque na antiguidade e nos judeus
não havia separação entre nação e religião; entre poder civil e religioso. O
que era uma coisa era outra. Em todas as páginas da Biblia aparece
transversalmente a designação do “nosso deus” e dos “deuses estrangeiros”, i. é, que não eram nacionais, e por isso eram considerados demônios (Cf. Dt.32,16).
Afinal, as outras nações, na hora desta escrita, eram importantes e se impunham
pelo poder e pela riqueza, enquanto que os judeus estavam destruídos e
escravizados. Não lhes restava outra alternativa senão a religião. Donde então
fabricaram essa ideologia de que eles tinham a melhor religião, o melhor deus,
e a melhor “eleição” como sendo o povo “escolhido” e “eleito”, e os outros não?
Os outros eram todos “não escolhidos” portanto abandonados, sem Deus e sem
salvação? Até porque os deuses dos outros eram “demônios”, embora fossem
povos ricos e poderosos? O que causa estranheza nisso tudo é que eles também
admitiam deuses dos outros povos nos seus templos e cultos, pois todas as
rainhas e concubinas estrangeiras dos reis judeus traziam os seus deuses com elas. “O
rei Acab seguia os ídolos dos amorreus” (1R.21,26). Mas esse é outro
capítulo à parte, o capítulo das mentiras políticas, que na fachada são uma
coisa e na prática são outra. Como dizíamos, o judeu se refugiava na religião
quando a política não lhe era favorável, ainda que à custa de toda mentira,
falsidade e hipocrisia. A conclusão dava certo: “estamos escravos, somos
perseguidos, mas somos “os escolhidos”. Vale dizer: agora não temos dinheiro
nem poder mas temos deus do nosso lado. Quando tivermos dinheiro e poder
seremos iguais aos outros; Seremos ricos e poderosos, e deixaremos deus de
lado, deixaremos deus em paz, e ainda iremos aceitar os deuses deles... Mais à
frente, anos depois, o texto de que estamos falando teve mais outra edição e
recebeu o nome de Deuteronômio, i.é, segunda lei, chamada a edição javeista,
onde vamos encontrar as seguintes afirmações: “O Senhor te escolheu dentre
todos os povos da terra para seres o seu povo preferido; o Senhor se afeiçoou a
vós e vos escolheu” (Dt.7,7). Vemos que este texto aumentou a predileção,
transformando-a já em “afeição”. E o lado oposto da moeda vem a seguir: Aos outros Deus “castiga diretamente e
odeia, fazendo morrer e não espera, mas dá-lhes imediatamente o castigo
merecido”, (v.10). Tanto numa versão como na outra se evidencia uma escolha
e uma repulsa. A escolha para eles e a repulsa para os outros. Isto foi tão
exclusivista, que quando da vinda de Jesus, encontrou a sociedade judaica
dividida entre “puros e impuros”, fariseus “santos e salvos” e os “sem
salvação”; tanto em relação aos próprios judeus como sobretudo em vista dos
estrangeiros com quem não se podia nem ter contato, até ser necessário “sacudir
a poeira dos pés quando voltavam dos territórios estrangeiros para entrar na
terra “santa” dos judeus.”(Mt.10,14). Esta situação chegou até à nossa religião
de hoje quando alguns elementos pertencentes a certos grupos se julgam os
“escolhidos e santos” e os outros não. “Eu faço, eu
pertenço”. E não só, chegou à nossa política, que, empunhando a
Bíblia como uma espada, se julgam os sucessores dos “escolhidos” do Antigo
Testamento. Para eles todos os outros perdem o status de cidadãos justos como
faziam os fariseus. De tal maneira que surgiu no Congresso brasileiro o bizarro
nome de “bancada da Bíblia”. Nem se dando conta da ignorância que manifestam de
que estamos num Estado laico. E que poderia haver também a bancada
afro-brasileira ou a bancada do Candomblê ou a bancada dos Pais de santo. E não
só, a essa bancada se juntou outra, a bancada do boi, e a bancada da bala. Da
mesma maneira que os judeus sequestraram Deus como estando só do lado deles, e
sequestraram a riqueza da nação, as terras, as leis e os impostos, da mesma
maneira essa bancada da Biblia sequestrou Deus, as terras, as leis e os
impostos. Para o restante da população que possa sobrar a fome, a doença, os
castigos como vem naquele pedido que os discípulos de Jesus invocaram que
viesse fogo do céu sobre uma parte da população. (Lc.9,51). São os boanerges
modernos, como Jesus apelidou aqueles discípulos que queriam a vingança do céu.
Falei outra vez que nós somos em três quartos ainda em muito do nosso tempo
como judeus, e só uma quarta parte de espírito de cristão. Mas nessas bancadas a tal quarta parte do espírito de cristão virou mais farisaica do que os fariseus.
P.Casimiro
João smbn
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