segunda-feira, 27 de abril de 2026

PRA SE SALVAR ERA PRECISO SER JUDEU.


 

Antigamente, pra se salvar era preciso ser judeu. Depois, pra se salvar era preciso ser cristão. Hoje em dia, pra se salvar é preciso ser humano. Por estas     três etapas vem passando o entendimento humano da salvação. Noutra página eu coloquei a seguinte questão: Quando a Lua e o planeta Marte forem habitados, como será? Qual será a religião deles? O que dirá a Bíblia para eles? O que será para eles o “mar vermelho”? O que eles dirão da Palestina? Moisés e os profetas? O que eles imaginarão? O que será para eles o Jesus que nasceu nesta terra? Será que tem que nascer lá também para eles?  Estas questões vão surgir e não são brincadeira. Os Judeus pensavam que só o judeu se salvava. O cristão pensava que só o cristão se salvava. E os habitantes do Marte, o que dirão? Eles vão pensar isso daqui a 100 anos? Vamos agora botar os pés no chão. Outro dia topei no evangelho de João com esta afirmação: “Aquele que acredita no Filho possui a vida eterna; aquele que rejeita o Filho não terá a vida pois a ira de Deus permanece sobre ele” (Jo.3,36).  Tratava-se de um discurso sobre o batismo, completando com outras palavras: “Aquele que vem do alto, está acima de todos; aquele que é da terra pertence à terra” (Jo.3,31). Fala então dos filhos de Deus e dos filhos da terra: quem é filho do alto é filho de Deus; quem não é, é filho da natureza. Quem era batizado era filho de Deus e nasceu do alto; quem não era batizado, não era filho de Deus, e era daqui debaixo. Era isto o que diziam os cristãos. E nesse sentido substituíam os judeus que tinham a circuncisão como garante da salvação. “Se vocês não se circuncidarem segundo o rito de Moisés não poderão ser salvos” (At.15,1).  E agora o garante era o batismo. “Quem não for batizado não será salvo?” (Mc.16,16). Ainda avançando: Os cristãos sabiam que a Lei dos Judeus era para ser abraçada e seguida por todo o mundo; ela era a “luz” para todo o mundo. Em consequência para os cristãos a lei cristã tinha que ser para todo o mundo, porque eles eram os herdeiros do Antigo Testamento. Porém, num novo entendimento da humanidade e da Igreja, há a declaração que quem não conhece Cristo e a sua lei também se salva, como dizem os documentos do Vaticano II (AG,n.1; LG.n 16; Nostra Aetate, n 2). Indo agora ao evangelho de Marcos encontramos as palavras  Quem crer e for batizado será salvo; quem não crer será condenado” (Mc.16,16). Temos a observar o seguinte: esta passagem de Marcos não é original, assim como a passagem do evangelho de João que estávamos analisando. (Cf. R.Brown, Comentário ao Evangelho de João, pag.348-373). Pertence às catequeses dos primeiros cristãos sobre o batismo. Os estudiosos descobriram que o evangelho de João não tinha sido aprovado para a lista ou cânon dos livros do Novo Testamento porque não falava nos sacramentos. Então, lá mais à frente, na data do século III e IV foram acrescentadas essas palestras sobre a preparação dos batismos, e assim já ganhou a aprovação, para não correr o risco de ficar como um evangelho apócrifo. Por seu lado, o final do evangelho de   Marcos, como dissemos, também não é original. Os pregadores judeus inseriram essas palavras no final do evangelho dele. O evangelho de Marcos é um belo exemplo da prática que se fazia naquela época, e como ainda hoje se faz na esfera civil, isto é, de como se aumentam dados e se maquilham narrativas para ficar mais aceitáveis. Como exemplo disso temos a “narrativa da guerra do Vietnam que os Estados Unidos perderam, que para entrar na história dos Estados Unidos foi submetida a uma boa maquilhagem antes de aparecer nos textos oficiais de história dos Cursos Médios e Superiores dos Estados Unidos.” (Ched Myers, O Evangelho de Marcos, pag. 476). Do mesmo modo, no final do evangelho de Marcos aconteceram coisas semelhantes. Conforme Myers, o final do evangelho de Marcos teve aumentos apócrifos. Essa afirmação, de “quem crer e for batizado será salvo e quem não crer será condenado” é considerada como “uma reedição imperial”. (o.c.p.476). As razões são avaliadas da forma seguinte: “Esta ideologia não só contradiz a insistência de Marcos em outros lugares segundo o qual “os que não são contra nós estão conosco” Mc.9,40, mas também se apoiam na expressão histórica da divisão da humanidade em “cristandade” e gentilismo. É importante lembrar que o uso que fazia a Igreja imperial do “julgamento” transformou a cruz em espada, e isto foi a mais profunda traição histórica do Evangelho.” (o.c.p. 477). Sobre o restante do final do evangelho de Marcos, “os sinais ‘milagrosos’ apresentamos ainda a seguinte reflexão do mesmo autor para “maquilhar” a apresentação e aceitação do evangelho: “Não podemos deixar de criticar os inúmeros esforços da “mágica cristã” deste texto, chegados até os dias de hoje e veiculados pela imposição das mãos e a cura pela fé. Isso significaria que ser cristão significava demonstrar poder visível.  Isso serviu particularmente para a América do Norte, onde o “povo escolhido” que eles se consideravam, em vez de significar serviço vestia o look de império e domínio” (o.c.p.477). Devemos não esquecer que os discípulos de Jesus eram judeus, e que as primeiras comunidades eram formadas na maior parte por judeus convertidos. Apesar de todas as proibições de Jesus de comparar o “seu reino” com os “reinos e impérios mundanos, eles não deixaram essa ideia de uma vez por todas ou da noite para o dia. E em quantas vezes em  lições e pregações e orações não teriam esses deslizes ou por esquecimento ou propositalmente para manifestar que o reino de Jesus era ainda mais “poderoso,” “milagroso” e “mágico” do que os outros, conforme a ideia que eles traziam nas suas cabeças? É só a gente, nós mesmos, olhar para a nossa introspecção para constatarmos que em nós também é ainda assim também. Haja vias-sacras, haja pregações, haja retiros, haja filmes, haja livros, mas não largamos, no fundo essas mesmas nossas projeções e convicções. Podemos até criticar outros, mas nós temos isso. Os judeus  tinham isso no cerne do seu DNA, o qual passou também para nós, pensando que eles eram o povo escolhido; e que sua Lei tinha que se espalhar para todos os povos; e o primeiro sinal era a circuncisão, que era a primeira imposição: Vós não podeis ser salvos se não vos circundardes” (At.15,1), que passou para os cristãos na afirmação: “se não formos batizados não seremos salvos” de Mc.16,16. É este imaginário que eu estou dizendo que também passou para nós e ainda subsiste. Para reforçar, vale outra observação: Os primeiros cristãos viveram misturados por mais de 100 anos com seus conterrâneos judeus e frequentavam a mesma sinagoga com eles. Escutavam  as mesmas leituras, as mesmas pregações e rezavam os mesmos salmos. Como não poderiam então ter na sua cabeça o que continuavam ouvindo na sinagoga? Agora só para nós: Nós também podemos escutar que aconteceu um concílio; que antes era  daquela maneira mas agora tem que ser doutra, mas a gente continua falando e pensando e defendendo o que o que era como antes e não o que é para ser agora. Por isso voltamos ao nosso título: Para salvar-se era preciso tornar-se judeu. Depois: para salvar-se era preciso ser cristão; e para ser católico é preciso ser como antes do Concílio. Enquanto que o concílio hoje diz que para salvar-se é preciso ser humano. E para muitos ainda continua: para ser cristão tem que ser como antes do concílio; e para ser católico tem que ser como há 500 anos.

P.Casimiro João       mbn

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segunda-feira, 20 de abril de 2026

COMO ERAM AS PRIMEIRAS “MISSAS” DOS PRIMEIROS CRISTÃOS.


 

Não havia igrejas. Não havia hóstias. Não havia o nome de missa. Não havia sacrário. Não havia “adoração”. As hóstias começaram só no século XIII. O sacrário começou no século XIII ou XV. O nome missa começou no século décimo. Então a missa começou assim: Os cristãos reuniam-se nas casas e levavam suas comidas e seus pães e suas bebidas de vinho. Não se chamava “missa”, mas “fração do pão”, ou ceia do Senhor, onde se partilhava o pão. “Os que haviam se convertido eram perseverantes na fração do pão; partiam o pão pelas casas e, unidos, tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração” (At.42.46). Mas havia um “senão”. Os mais ricos levavam suas comidas e quando chegavam, não esperam pelos mais pobres. Sentavam-se e começavam a comer suas iguarias, e assim, quando chegavam os mais pobres já não encontrava nada. Eles partilhavam o pouco que traziam. O ministro abençoava aqueles pães e todos comiam, igual Jesus tinha feito na última Ceia, quando tomou aquele pão grande da época, partiu e distribuiu pelos apóstolos. Nesse meio tempo então, os mais abastados já tinham acabado suas refeições, e alguns, de barriga cheia e até bêbados xingavam dos mais pobres. Isto suscitou a atitude de São Paulo e teve que avisá-los naquela primeira Carta     aos Coríntios onde falou assim: “Em primeiro lugar, ouço dizer que, quando se reúne a vossa assembleia há desarmonia entre vocês. Desse modo, quando vos reunis já não é para comer a ceia do Senhor porquanto, quando vos pondes à mesa, cada um se apressa a tomar a sua própria refeição e enquanto uns têm fome, outros se fartam...e quereis envergonhar aqueles que nada têm?” 1 Cor.11,20-22. É isso que o Paulo corrigia, dirigindo essas palavras duras nessa Carta. Depois, partindo deste cenário e comparando com a Ceia do Senhor acrescentou” Cada um se examine a si mesmo e assim coma desse pão e beba desse cálice. Aquele que come e bebe sem distinguir o corpo do Senhor come e bebe a própria condenação” (1 Cor.11,28-29). Santo agostinho interpretava que esse “corpo do Senhor” era o corpo  da igreja reunida, não o “corpo físico” do Senhor. Para clarear esta realidade conta-se que certa vez uma senhora quando ouvia o estalar da hóstia na missa nas nossas igrejas dizia: “lá estão partindo os ossinhos do Menino Jesus”. Não se trata então de materializar assim as coisas. Essa discussão chegou até o concílio de Trento e enfrentou vários discursos, mas o concílio deixou essa discussão para a teologia. O Papa Francisco, no Documento A Alegria do Amor sai em defesa de que se trata aí do corpo da igreja, justo como dizia Santo Agostinho”. Vejamos: “Distinguir o corpo: “Nesta linha convém levar muito a sério um texto bíblico que habitualmente é interpretado fora do seu contexto ou de uma maneira muito geral, pelo que é possível negligenciar o seu sentido mais imediato e direto que é marcadamente social. Trata-se da primeira Carta aos Coríntios (11,17-34), na qual São Paulo enfrenta uma situação vergonhosa da comunidade. Nela, algumas pessoas ricas tendiam a discriminar os pobres, e isto verificava-se mesmo no ágape que acompanhava a celebração da eucaristia. Enquanto os ricos se deleitavam com seus manjares, os pobres olhavam e passavam fome. “Enquanto um passa fome, o outro se embriaga. Não tendes casas para comer e beber? ou desprezais a igreja de Deus, e quereis envergonhar aqueles que nada têm? (v.21-22). Este texto bíblico é um sério aviso para as famílias que se fecham na própria comodidade e se isolam e, de modo especial, para as famílias que ficam indiferentes aos sofrimentos das famílias pobres e mais necessitadas Assim, a celebração eucarística torna-se um apelo constante a cada um para que “examine-se cada um a si mesmo” (v.28), a fim de abrir as portas da própria família a  uma maior comunhão com os descartados da sociedade e depois, sim, receber o sacramento do amor eucarístico que faz de nós um só corpo. Não se deve esquecer que a “mística” do sacramento tem um caráter social. Quando os comungantes se tornam relutantes em deixar-se impelir a um compromisso a favor dos pobres e atribulados ou consentem diferentes formas de divisão, desprezo e injustiça, recebem indignamente a Eucaristia” (Amoris Laetitiae, n.185-186). O Papa Francisco diz que é preciso partir daquelas cenas da não partilha dos ricos fartos e debochando dos pobres, e quem isso faz come e bebe a própria condenação. Estamos explicando então como eram cheias de problemas as primeiras “missas” dos primeiros cristãos, e como, pra começar, já eram cheias de problemas. Não admira que hoje também aconteçam problemas e mal entendidos. E o pão que eles levavam era consagrado e “comungado” era o pão fabricado nas casas. Não havia o nome de “missa”. Não havia “sacrário”. E não havia também “adoração” e “horas de adoração”. Isso são outros quinhentos, que começaram depois do século  XVI em diante. Antes de avançarmos façamos uma breve reflexão sobre a teologia do “corpo de Cristo” na eucaristia. O concílio vaticano II abordou este assunto e enfocou também a presença de Cristo na hóstia como “corpo místico de Cristo, onde os fiéis, ao participarem do sacramento na Eucaristia são elevados à comunhão com ele e entre si. Santo Agostinho, já na mesma linha, dizia que a eucaristia não é o alimento que nos transforma, mas nós é que somos transformados em Cristo. Teólogos atuais, como Schillebeeckx, afirmam  que o corpo ressuscitado e glorioso de Cristo não está no sacramento da mesma forma como os corpos físicos estão num lugar, isto é, não tem as mesmas dimensões em local físico. É uma presença sacramental, real, mas num modo de ser diferente do céu. Pois Cristo está na eucaristia para a comunidade que celebra, tornando-se alimento na refeição comunitária, a “fração do pão”. Por exemplo, se a hóstia cai e é comida pelos animais como por exemplo algum cabrito, ali não está o corpo de Cristo. Mais: a Eucaristia é entendida como o sacramento que constrói o corpo de Cristo que é a Igreja. Onde não tem igreja com fé não tem corpo de Cristo. A união com Cristo na comunhão é o que une os fiéis entre si, formando a comunidade de fé. Sobre a presença “física” de Cristo explicam: o corpo de Cristo está presente de modo verdadeiro e real, mas dentro de uma “ontologia intersubjetiva”     ou seja: uma realidade que se manifesta na relação entre Deus que se dá e a pessoa que o recebe na fé; como dissemos, se a hóstia cai e for comida por animais não há corpo de Cristo. Resumindo: Enfatiza-se que o que está presente na hóstia é o Cristo vivo e glorioso que usa o sinal do pão para se tornar disponível aos fiéis, e não uma presença física espacialmente limitada. Como dissemos um sinal disponível aos fiéis e não aos animais, como diz a Oração Eucarística n.II após a invocação ao Espírito Santo sobre os dons do pão e o vinho "A fim de que se tornem para nós o Corpo e o Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo". Isto nos reporta ainda ao costume de “adoração” que vem desde o séc  XV, e começou com o pedido de uma freira santa Juliana de Cornillon que propugnava uma presença intimista e “pessoal” com a presença da hóstia. Enquanto que tudo na eucaristia aponta para o corpo social, como disse o Papa Francisco na Alegria do Amor, explicando o ambiente social que deu ocasião às expressões de Paulo de “comer e beber a própria condenação” quando reinava o “individualismo” nas reuniões e refeições eucarísticas. Notemos bem que a santa vivia de “experiência mística individualista” e foi ela a primeira que pediu ao bispo Tiago Pantaleon de Troyes a festa de Corpus Christi. Esse senhor foi depois Papa, o Papa Urbano IV. E tendo autorizado a festa, primeiro na sua diocese de Liège, a estendeu para toda a Igreja apoiando-se nas palavras do evangelho: “Eu estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt.28,20). E, de quebra foi daí que veio o costume da “adoração” ao Santíssimo a pedido da mesma freira. Não sem grande relutância da parte de todos que conviviam com  ela, de tal maneira que teve que deixar o convento várias vezes, e partir da França para a cidade de Liège na Bélgica onde encontrou esse bispo que a tinha conhecido tempos atrás. Para completar, devemos ver o histórico do sacrário. Nesses primeiros tempos antes e depois das hóstias se guardava o pão que sobrava da refeição nalgum lugar da casa onde se comia a ceia, com a finalidade de ser levado aos presos que não puderam participar da ceia. Esse pão se chamava "reserva." Como não havia luz elétrica, durante a noite e no escuro, a família lembrava de acender uma luz  para saber o local. Quando se construíram igrejas, continuaram a fazer a mesma coisa, colocando a reserva atrás do altar. Com o tempo, esse lugar ganhava realce, e a arte com que se faziam as igrejas passou também para enfeitar esse local, que começou a chamar-se "sacrário." No concílio vaticano II, na Constituição "Sacrossantum Concilium" sobre a reforma e renovação da Sagrada Liturgia, cap. VII, n.128, e em vários documentos que vieram depois ficou aconselhado que o sacrário ficasse numa capela ao lado ou atrás do altar, e não no centro da igreja, para dar mais destaque à palavra de Deus e à assembleia cristã como corpo de Cristo. E é assim que se pratica agora. Vem ao caso uma polêmica destes dias a respeito de uma declaração do bispo dom Lisboa, da prelazia de Marajó quando questionou a prática de adoração da eucaristia afirmando que “o propósito  principal da eucaristia seria a comunhão e não o culto fora da missa, sobretudo através de televisão e da internet”. Por coisa de nada teve denúncias endereçadas até à Congregação da Fé em Roma. Permitam-me a pergunta:  porque esses mesmos não fazem a mesma denúncia sobre o cardeal de São Paulo quando proibiu o Padre Júlio Lancelloti de usar a internet nas redes sociais em prol da população de rua de São Paulo?

P.Casimiro João        smbn

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segunda-feira, 13 de abril de 2026

A “CAUSA DE DEUS” E A “CAUSA DO HOMEM” NA ÓTICA DE JESUS.


 

Há um livro intitulado “História humana revelação de Deus”. É do que eu vou falar neste capítulo. Não vou falar daquele conceito de “revelação” sobre o qual diz Eduard Schillebeeckx que “desde que há homens há revelação”. Nem da revelação por antonomásia, a “revelação” cristã que até há pouco era considerada a única e válida para toda humanidade. Não, é da revelação de Deus na vida de Jesus de Nazaré. Me levou a esta reflexão um olhar atento quando me vi parado num olhar sobre o título desse livro de Eduard Schillebeeckx “História humana revelação de Deus”. O meu pensamento me levou à vontade de ver como a vida humana de Jesus já era uma vida ressuscitada antes da “ressurreição”. Estamos no tempo da Páscoa do ano de 2026, e fluiu daí. O mesmo E. Schillebeeckx tirou a mesma conclusão dizendo que “a ressurreição” já vinha embutida na vida e na “derrota” da vida de Jesus. Na verdade Jesus achava maior Deus e as promessas de Deus do que as suas tarefas dolorosas e rechaçadas, e aí já se manifestava a ressurreição. Essa já era revelação da ressurreição. Como afirma o autor, Jesus apreciava menos a sua vida do que o valor de Deus em sua vida. E em toda uma reflexão sobre este assunto o autor se baseia não na vingança de Deus contra o mal, nem contra as injustiças feitas ao inocente, e nem na vingança dos maus que rejeitavam e provocavam Jesus e o condenaram à morte. Na vida de Jesus recusada e rechaçada, aí já vinha como companheira a mesma ressurreição. “A força de Deus já estava em ação na própria vida de Jesus, e dela participa a sua morte” (o.c.p.169). Este conceito de ressurreição vai em sentido contrário ao conceito de ressurreição como revanche ou vingança divina sobre os inimigos do povo como corria entre os judeus. E, queiramos ou não, está no subconsciente de todo nosso conceito de ressurreição, em que se propugna o “castigo” para os maus, e a “ressurreição” para os bons, que afinal das contas vira conceito de vingança que não cabe em Deus nem em Jesus. Por isso conclui o autor citado: “falar de morte expiatória de Jesus ou de valor redentor de sua morte sem reflexão crítica pode tornar-se pura ideologia”. E a pura ideologia é todo conceito de ressurreição tratado como vingança de Deus que “premeia” uns e “castiga” outros. Sobre a total entrega da vida de Jesus que ela tinha em pouco valor, vejamos como Jesus estava presente nas circunstâncias da vida das pessoas ameaçadas pela natureza, pela opressão social e religiosa e pela autoalienação. Jesus se empenhava nessa tarefa de tal sorte que não se importava com o cuidado pela própria sobrevivência. Pela sua vida Jesus dizia que a opressão não tem direito de existir, e o direito do mais forte não deve valer na vida dos homens na sociedade. O caminho da vida de Jesus é, em si mesmo, práxis do reino de Deus, antecipação histórica da ressurreição, e sua morte é parte integrante deste caminho como força suprema onde estava escondida já a ressurreição;  a vida de Jesus devia manifestar antecipações positivas da ressurreição, para que a fé na ressurreição não continuasse sendo   pura ideologia” (o.c.p.170). Falei noutro capítulo na coragem de Jesus ao enfrentar estruturas de morte, de opressão das pessoas em nome de Deus e da religião. Nessa sua ação e práxis de vida Jesus já vinha embutida a ressurreição. Ele Já estava certo da vitória de Deus, porque Deus não estava na morte das pessoas, seja em nome de poderes públicos, econômicos ou religiosos. Ali já era o Jesus negado, perseguido e ressuscitado. Quando Jesus curava e transgredia dias e leis ele sabia que ali estava Deus com ele, e ali a perseguição de Jesus já era ressurreição. Porque ali se processava já a morte de Jesus, mas também a sua ressurreição. Ali acabava o reino da morte e começava o reino da vida. Acabavam as estruturas de morte e começavam as estruturas de vida. Digamos: onde Jesus morria já ressuscitava. Onde a religião dos fariseus espalhava a morte, Jesus espalhava a vida. “Mulher, eu te digo fique curada”, Mc.5,34; “É dia de sábado? pois pegue sua cama e caminhe para sua casa” Jo.5,8. As raposas que eram Herodes e Pilatos decretaram a morte. Jesus decretou a vida: “vão dizer a essa raposa que expulsarei demônios e curarei o povo hoje e amanhã, e no terceiro dia estarei pronto”, Lc.13,22. Onde o mundo fabricava a morte Jesus fabricava a vida. Jesus já vivia ressuscitado. Jesus só espalhava ressurreição. Ele sabia disso. Não era Deus que decretava a morte de cruz para Jesus, como tem proclamado em muitos tempos certa ideologia até da Igreja, o que convém muito bem para o mundo político e até para a política da igreja. Por isso um dos maiores teólogos de nossos tempos tem a lucidez de declarar: “Eu não posso deixar de observar: é melhor não ter absolutamente fé na vida eterna do que confessar um Deus que no “aqui e hoje” humilha os homens, que os apequenece e degrada em vista de um além melhor” (o.c.p.173). Este “além” e este “apequenecer” é que fazem a ideologia que os judeus se fabricavam sobre o “servo sofredor”, e onde, de quebra, se pregava que Deus manda o sofrimento para depois mandar a vingança (Is.cap.50-53), o que passou para o imaginário da cristandade. Ao invés, toda a vida de Jesus foi pautada pela absoluta liberdade e livre escolha. Nunca disse que era o Pai que mandava a perseguição, a cruz e a morte, mas agia pela escolha do bem a fazer às pessoas. E o bem, a saúde, a cura das pessoas era o reino de Deus. Porque para Jesus o Reino de Deus é um reino onde as pessoas vivem curadas, saradas e em fraternidade na mesma mesa da mesma casa. E na verdade, quando alguém se propõe esse programa encontra oposição, perseguição e liquidação. “No meio de um mundo mau, todo esforço em prol da justiça e do amor significa correr risco de vida”. (E. Schillebeeckx, o.c.p 165). Portanto, nesta perspectiva não entra nenhuma ideologia de vingança do tipo: como eles me oprimiram, eu serei vingado, Deus os vingará. Isso não existe em Deus e em Jesus. Isso é ideologia nossa, humana, transposta “religiosamente” para Deus. Com essa liberdade Jesus enfrentava a lei “intocável” no conceito dos fariseus. Porque não existe lei intocável; intocável é só a pessoa humana. A respeito da “lei intocável” eles ensinavam que a Lei era eterna e vinha já antes da fundação do mundo e antes da criação. Ao contrário, a pessoa humana é que tem um valor intocável, não a lei. O homem não é para a lei, mas a lei para o homem”: Mc. 2,27. Por isso Jesus apelava para a mesma liberdade: “quem quiser me seguir tome seus compromissos e venha” Lc.9,23. “caso contrário começa a construir uma torre e não acabará” Lc.14,28. Em Jesus a coragem era tanta, que nos sacrifícios do começo da “torre da sua vida” ele já enxergava o final feliz. Na cruz, antes da Cruz, já enxergava a ressurreição. Isto é o mais bonito e o mais sublime. Viver livre. Amar livre. Fazer o bem, livre. Correr riscos, livre. Isso é tão humano e tão divino. E isso não acontece só em Jesus e nos cristãos, mas em muitos homens e mulheres de nenhuma religião e de todas as religiões. Por isso é que Deus está em todos e em tudo, e já estava antes de Jesus existir e antes de os cristãos existirem. Na verdade, “Deus não é Deus sem nós e nós não somos nós sem Deus” (cf. João, Casimiro, pag.23). Em resumo: O que tem a ver esta reflexão sobre a ressurreição já presente nas ações de Jesus, com o nosso título deste capitulo: “A causa de Deus e a causa do homem na ótica de Jesus”? Justamente, o óbvio do que ficou falado. Isto é, não há separação entre a causa de Deus e a causa do homem. Como não há entre o primeiro mandamento e o segundo, Mt.22,39. Se houver, será a seguinte: quem fanaticamente empunhar e brandir a espada da “causa de Deus”, com a mesma espada mataria o homem. Foi o que fizeram os fariseus matando Jesus. Porém, quem torcer pela “causa” do homem só dá vida e não morte. Porque, na verdade, declarar “eu amo a Deus” pode iludir muito: porque se não amar o próximo, esse “amor” a Deus é uma farsa. “Se não amas o próximo a quem vês, como podes dizer que amas a Deus a quem não vês”? (1 Jo.4,20). E naquele “amar o próximo” já está presente a ressurreição, como estava em Jesus. No próximo porque sentindo-se amado ele “ressuscita” da sua condição de sentir-se apequenado e odiado; e em quem ama o próximo, porque vivendo o amor, está com Deus, e Deus está com ele. Goncluímos então que a causa de Deus é a mesma causa do homem, e a causa do homem é a mesma causa de Deus. E a mesma pena de morte que acompanhava a vida de Jesus por dedicar-se à causa do homem já trazia embutida a ressurreição como combustivel da causa de Deus.

P.Casimiro João      smbn

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segunda-feira, 6 de abril de 2026

RESSURREIÇÃO EM PAULO COMO CONEXÃO COM A TRADIÇÃO JUDAICA.

 

 

A narrativa da ressurreição em Paulo tem duas explicações. A primeira é nos dizer que todos os conteúdos nas Cartas estão repletos de referências ao Livro do Gênesis, cap. 01-03, onde os conceitos de ressurreição são embasados no conceito de uma nova criação depois que a primeira fracassou. A segunda é nos informar em que consistia o conceito de ressurreição na teologia judaica: ressurreição-restauração, ou seja ação “vindicativa” do deus de Israel sobre todos os malfeitos dos outros povos sobre o povo de Deus; era a restauração das novas glórias de Israel: “agora mostra-nos a tua glória castigando as nações” (Eclo. 36,3). Comecemos pela primeira explicação: “Pois assim como através de um homem veio a morte também através de um homem veio a ressurreição dos mortos; pois assim como em Adão todos morreram, da mesma maneira em Cristo todos reviverão” (1 Cor.15,21-22). Aqui Paulo tem a intenção de nos comunicar que Deus colocou Jesus Cristo no lugar de Adão, numa segunda criação, como o verdadeiro homem novo. A tese é que Adão falhou na sua missão e por ele a humanidade também falhou e morreu, mas em Cristo reviveu e voltou à vida, ou ressuscitou. Com efeito, esta passagem toda trata da nova criação como cumprimento e resgate da antiga. “As histórias da criação e queda narrada em Gn.1,26-28 e 3,17-19 fazem o lastro da narrativa. Além disso há ainda o salmo oito onde se diz: Destes-lhe  poder sobre as obras de vossas mãos e lhe submetestes todo o universo” (Sl.8,7). O teólogo N.T.Wright afirma: “Não temos aqui um simples apelo à Escritura como se Paulo estivesse elaborando um argumento, mas com a sua reflexão ele abre seu caminho através de uma teologia da criação e da humanidade, e as alusões bíblicas indicam a narrativa da qual a ressurreição constitui o clímax, ajudando a história a chegar a seu objetivo pretendido” (N.T.Wright “A Ressurreição do filho de Deus”, p.471). Há uma pergunta intrigante na Carta aos Coríntios que diz: “Com qual corpo ressuscitarão os mortos?”, Ou: que tipo de corpo os mortos receberão quando forem ressuscitados? (1 Cor. 15,35). Aqui Paulo pensa na antropologia dos filósofos antigos que era assim: “A maioria dos filósofos pagãos da época, que acreditavam na existência das almas pensava que elas eram, como os corpos, compostas de matéria, ainda que em partículas sutis. Daí tinha que haver a ressurreição corpórea. Não tinham ainda os nossos conceitos que temos desde Descartes, de “físico” e “espiritual”; “material” e “imaterial” (o.c.p.444). Paulo combinou bem a filosofia antiga com a judaica surgida do livro do Gênesis, da primeira criação, da qual ele ia fazer surgir a segunda nova criação, quando fala do 1º Adão e do 2º Adão em 1 Cor.15,45-47. Sobre isto continua o autor citado: “Uma rápida olhada em Gênesis revela o quanto dos seus temas mais importantes bebeu no livro do Gênesis. O Deus criador fez o céu e a terra, e encheu ambos com as suas criaturas; Paulo as menciona e amplia seu discurso sobre elas para distinguir  o 1º Adão do último Adão. Para Paulo o vértice da história é a recriação da humanidade através da ação do último Adão cuja imagem será “portada por todos aqueles que pertencem a ele” como se diz em Cor.15,49. Esta é uma teologia reflexiva e cuidadosa de um novo gênesis, isto é, de uma nova criação  renovada. (cf. o.c.p479-480).  Um pouco da história de Paulo: Paulo foi formado na escola dos fariseus; essa escola surgiu na época dos macabeus, em 160 a.C, quando começaram a formar a sua teologia da ressurreição. Mas que tipo de “ressurreição”? Para eles era uma ressurreição-restauração, ou seja o restauro da poderio da nação judaica depois de todos os fracassos. Seria a época da “vingança” divina sobre os inimigos do povo de Israel, a prestação de contas e o juízo ou julgamento de todas as nações. Este é o ponto fulcral que nos leva à segunda explicação que falamos no início: a teologia judaica da ressurreição. E aqui se une a teologia de Paulo na teologia da “nova criação” do Gênesis com a teologia judaica da nova criação da nação judaica, que posteriormente ficou sendo chamada de “restauração” da Nação e finalmente de “ressurreição” juntando os dois termos “ressurreição-restauração”. Mais à frente ainda nos diz o mesmo autor falando sobre as narrativas evangélicas da ressurreição, resumindo tudo com a narrativa de Mateus 20,1-10 a respeito do qual afirma: “Ao longo de toda a tradição posterior, de Paulo a Tertuliano, desde os primeiros dias desta tradição, a ressurreição de Jesus foi vista como tendo ocorrido precisamente ‘de acordo’ às Escrituras. Desde muito cedo, os primeiros cristãos desenvolveram uma sofisticada rede de exegese bíblica a fim de demonstrar que a ressurreição de Jesus foi exatamente o que era de se esperar, e que ela proporcionou tanto o cumprimento das esperanças de Israel e profecias quanto o fundamento para a sua própria missão” (o.c.p.825-826). Temos aí o significado  da expressão: “Segundo as Escrituras”. E continua: “A ressurreição assim  no pensamento farisaico situa-se claramente dentro  de uma teologia do reino de Deus; e todo judeu do 1º século sabia que uma teologia do reino de Deus inevitavelmente carregava um significado político: colocar as nações “debaixo de seus pés”.(Sal.47,3).      Desta maneira, a “ressurreição” na cabeça de todo judeu era trocar a atual ‘ordem’ do império de César pelo império do Messias, como falou Paulo as Colossenses: “Despojando os principados e potestades, expondo-os ao ridículo no triunfo sobre eles” (Col.2,15). Na verdade Paulo aí imagina um desfile triunfal romano onde o general vitorioso exibe publicamente os inimigos conquistados mostrando sua autoridade e vitória. Assim como no salmo 8,6 onde, em termos também militares se fala da vitória do criador sobre o ‘governantes, autoridades e poderes tanto humanos quanto sobre humanos que ameaçavam a boa criação (o.c.p 473). Paulo tinha uma formação farisaica e partilhava a teologia radical nacionalista, como é observado quando trocou a sua luta contra os cristãos para depois defendê-los naquela mudança de direção que ele chamou a visão de Damasco. Como afirmado, tanto Paulo  pulava da teologia judaica nacionalista, como pulava para a narrativa mítica da criação. Sua reflexão era então: Adão trouxe a morte, outro Adão trouxe a nova vida e uma nova criação. Fica claro que Paulo está no mapa judaico: dentro deste mapa judaico ele se situa justamente como a maioria dos judeus, no mesmo lugar que os fariseus e muitos autores de apocalipses.. Isto é, ele acreditava na futura ressurreição de todo o povo de Israel pela qual Deus vingaria  todas as mortes do povo judeu, na mesma linha da visão do vale dos “ossos ressequidos” do cap.37 de Ezequiel.. Isso seria o maior sinal da vingança divina definitiva em duas vertentes: a primeira, dando a vida aos mortos do povo de Israel; a segunda, vencendo a morte em definitivo. Porquê? Porque se desse alguma chance de a morte continuar no mundo então o Messias não se manifestaria como o novo “Adão”, e como o “senhor do novo universo onde todos os inimigos seriam derrotados e levados em “cortejo de  triunfo”, e onde o “último inimigo seria a morte”, para poder dizer “ó morte, onde está a tua vitória, ó morte, onde está o teu aguilhão e a tua força” (1Cor.15,55).

Conclusão. A ressurreição em Paulo girava então em volta de dois polos. O primeiro polo, partindo do primeiro e do segundo “Adão” do livro do Gênesis; o segundo polo partindo da teologia judaica da “vindicação” ou vingança divina  e definitiva em favor do povo de Israel diante de todo mundo, uma vez que no Messias estava representado todo o povo, que futuramente, depois dele, ia ser premiado com a mesma ressurreição-vindicação definitiva.

P. Casimiro João      smbn

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segunda-feira, 30 de março de 2026

A CORAGEM DE JESUS


 

A coragem de Jesus se manifestou em primeiro lugar em enfrentar uma sociedade inflada por dois orgulhos: o orgulho de ser religioso, e o orgulho da nação. O orgulho de ser religioso leva ao desprezo dos outros. E o orgulho da nação leva ao nacionalismo, ou um tipo de nazismo. O orgulho de ser religioso cria uma casta de piedosos e virtuosos que se separam dos que eles desprezam. O orgulho da nação leva a se considerar como dono do mundo Eram as duas faces da mesma moeda de todo judeu. No lado religioso excediam-se em preocupação da observância dos mínimos preceitos. Colocavam aí os seus créditos religiosos e de quebra a obrigação por parte de Deus de lhes pagar como um salário. (Rom.4,4). E de quebra ainda buscando posições e privilégios enquanto mantinham raiva e nojo com os não cumpridores, sendo quais fossem  os motivos, como o sufoco da cada dia de encontrar o alimento de cada dia, coisa que para eles não existia porque viviam na abundância e no luxo.  O orgulho de nação consistia na ideologia que formaram de serem a nação “escolhida” por Deus para ser um dia a maior do mundo, o “carro chefe” da humanidade.  Porém, nos evangelhos, o Deus que Jesus chama de Pai é um Deus que não se permite monopolizar por uma casta de piedosos e virtuosos que estão seguros da recompensa correspondente à sua observância. Deus não quer ser garante de posições e privilégios na sociedade civil e religiosa”(Schillebeeckz, História humana revelação de Deus, pag.154). Na verdade para esses abastados e vivendo no luxo, o sofrimento dos pobres e sem salário não os comovia, muito menos suas doenças e carências. Muito ao contrário, pelo seu jeito da agir se transformavam numa máquina de fabricar lázaros pobres como aquele que vivia coberto de chagas à porta do rico que se banqueteava todos os dias com largos banquetes (Lc.16,19). Para eles só existia o reino deste mundo onde impera o lucro, a ganância e o desprezo dos excluídos. Quando Jesus falava de outro reino, o “reino de Deus”,  para eles esse reino não existia. Na verdade, “o ‘reino de Deus’ é um mundo novo sem sofrimento, mundo cheio de pessoas sãs e curadas numa sociedade em que domina a paz e não existe nenhuma relação de senhor-escravo, uma situação inteiramente diversa da sociedade do tempo de Jesus”.  (o.c.p.156). Imaginemos a coragem de Jesus para anunciar esse reino especial sem dominação e sem exploração. Dominação da parte da religião oficial e da política oficial, onde o pobre era excluído, sem nenhum direito de sobreviver, como aquele das dívidas que aconteciam quando os pobres tinham que entregar suas terras aos grandes fazendeiros para pagar suas contas. (Mt.18,25). Por isso aquele ‘reino de Deus’ acontecia no anúncio e na coragem de Jesus quando teimava em afirmar: “aos pobres é anunciada a salvação e a boa nova” (Lc.4,18). O que era a salvação? Era a salvação das amarras em que os pobres estavam amarrados pelas leis da religião. Jesus arriscava curar em dia de sábado proibido, e juntar marginalizados na mesma refeição. Proibir a cura no sábado? Você já imaginou o que é proibir a saúde, a vida? Todo humano normal tem isso em primeiro lugar: zelar pela saúde e vida do irmão. Imagine proibir isso por conta da religião. Já viu maior amarra e mais perversa do que essa? Essa era a coragem de Jesus de romper com as proibições religiosas. E ao mesmo tempo civis porque na teocracia o que é religioso funciona como civil e o que é civil funciona como religioso. Por outro lado, esse reino de Deus trazido e anunciado por Jesus era a dimensão muito importante no que toca à socialização. Jesus encontrou a salvação negada, a socialização negada, a igualdade negada e a fraternidade negada. Para os “de fora” que não pertenciam a Israel não havia salvação; nem havia socialização porque o convívio e as refeições separavam e excluíam; a sinagoga excluía; a doença excluía, a lepra excluía; o pecado excluía, a raça excluía, o gênero excluía. Já referi várias vezes que antes da religião há a pessoa humana, e quem exclui a pessoa humana em  nome da religião não é nem humano e nem religioso. Na verdade a Igreja durante muitos tempos herdou sem sentido crítico a perversa cultura da negação da convivência e da socialização com o insulto chamado excomunhão. Seria igual à excomunhão que expulsava os leprosos para viver no mato, “fora” da sociedade, e “fora” da sinagoga, e “fora” de alguém poder tocar neles. Também temos dito várias vezes que o “amor vale mais do que a fé”. Neste ponto tem sido contrária a práxis da Igreja nas excomunhões: a “fé tem tido mais valor do que o amor” (Confira 1Cor.13,13). Infelizmente, já dissemos também que logo a 2ª Carta de João deu esse mau exemplo para a Igreja futura quando disse: “Se alguém vier a vós sem trazer esta doutrina não o recebam em vossa casa nem o saúdem, porque quem o saúda tem  parte em suas obras”(2Jo.10-11).  Não foi de graça que os participantes do concílio vaticano II inovaram uma nova fase de um novo entendimento em que a Igreja não é feita para condenar e excomungar mas para dialogar e acolher. Isso tinha um nome: imperialismo, que é resumo de vários ismos: exclusivismo, obscurantismo, despotismo, tiranismo e ditadurismo. Adequando com isto nos diz um autor: “A Igreja e os homens das Igrejas podem cair na idolatria por absolutização do que simplesmente é relativo” (Schillebeebckz o.c.p.12). Vejamos que quando havia a vontade de excomungar alguém havia a convicção de que a Igreja tinha o “depósito da verdade” no sentido de que todas as coisas do Novo Testamento fossem escritos do próprio Jesus. O que acontece é que a teologia bíblica foi descobrindo que “não possuímos nenhum escrito de Jesus, dele próprio, nenhum documento direto. Os discípulos posteriores buscaram compreender o significado que Jesus tinha para os seus primeiros discípulos, uma vez que também eles não escreveram nada”.(Schillebeeckz, o.c.p.140). Um exemplo de que um significado mal entendido teria sido essa citação da 2 Carta de João que referimos. E, como relata H.Koester, essa citação pode ter dado muito pano para a Igreja posterior, e até chegar aos nossos dias, isto é, até o concílio vaticano II: a cultura da excomunhão. Concluindo: havia um ditado entre os romanos que dizia “onde há religião aí há subversão”. E para os judeus funcionava também numa afirmação do profeta Jeremias: “O justo se opõe a nós, nós para ele somos como moeda falsa”(Jer.6,30). Foi preciso uma coragem sobre humana  da parte de Jesus para enfrentar Judeus e romanos em duas frentes.

P.Casimiro João       smbn

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segunda-feira, 23 de março de 2026

O HOMEM INVISÍVEL, OU “O TERCEIRO HOMEM”


 

“O ‘terceiro homem’ é aquele que toma consciência de que o universo das fórmulas que se repetem e dos ritos que se cumprem, simplesmente deixa, de lhe falar; por isso se afasta sem ruído nem drama. Fazendo-se valer sobretudo da sua própria consciência, procura a abre-se a outras referências para ele ler a realidade e orientar a própria vida” (François Roustang, citado por José Frazão Correia em livro recente: “Quem quiser ganhar há de perder”, Sete Margens, 29/10/26). (Obs: falamos do homem ou mulher invisível).

Continua o Padre Frazão: “Concílio Vaticano II? Apenas recordação, mas a vida continua se orientando pelos “cânones” tridentinos”.

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 16 de março de 2026

NÃO IDOLATRAR A BÍBLIA, VALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO.

Não é novidade que havia validades de prazo do Antigo Testamento. Essa descoberta não é só da visão teológica e da crítica atual, mas “já foi manifestado por autores de diversos escritos do Novo Testamento, pois há partes do A.T. que foram abrogadas, outras deixaram de ser normativas e outras foram relativizadas ou corrigidas, especialmente as leis do Pentateuco” (Eduardo Arens, “A Bíblia sem mitos” Paulus, 2014, pag.199). Sem contar que teólogos antigos como Marcião excluíam do seu cânon o Antigo Testamento. Partes que foram abrogadas  ou deletadas não é difícil de encontrar, como Circuncisão. Abluções, Leis sabáticas, todas as leis de morte para “pecados sexuais” (Lev.19,20-29); leis de morte e apedrejamento. E pecados que eram castigados com fogueira, “os três serão queimados vivos” (Lev.20,14). Outras que deixaram de ser normativas, como sacrifícios de animais, cultos e suas cerimônias e suas vestes e leis de sangue. E leis relativizadas, como de gênero, de todo tipo de exclusão por conta de raça, de riqueza, doença, ou pobreza ou gênero. Assim como maldições (Lev.26, 15-46). E também leis de escravidão que permitiam a venda de pessoas como escravas (Lev.25,44-54). Todas estas situações tiveram seu tempo que dependia da cultura atrasada e primitiva da humanidade e dos judeus. Acabou o prazo de validade. Embora que a própria Igreja tivesse imitado até há bem pouco tempo essas situações de morte, de queima etc. pelos séculos XVI até XVIII. Isto nos leva a ver que seria incômodo afirmar que estas eram “palavra” de Deus e “ordens de Deus”. Eram palavras e ordens das pessoas humanas daquela época primitiva, que se atribuíam autoridade com coisas tão odiosas. E não iríamos dizer que essas autoridades eram constituídas por Deus, mas nasciam de relações primitivas de como os povos entre si se organizavam, tanto na ordem social como na religião. E nem que essa religião e essa autoridade vinha de Deus porque se fosse de Deus, seria  Deus que era o culpado. Como vimos noutra página, cada povo teve sempre uma religião e seus sistemas religiosos, assim como teve uma política e seus sistemas políticos.  Tanto entre judeus como não judeus. Já vimos o que é religião e o que são sistemas religiosos: religião é a busca de Deus e de obediência à consciência; sistemas religiosos são as formas e as formatações de como exprimir e manifestar a amizade com Deus, ou o temor, ou o louvor, e “aplacar” Deus para ele não “castigar”, e depois agradecê-lo. E isto inclui gestos, ofertas de animais, danças, e livros que contam as coisas de cada época, e as louvações ou sacrifícios de cada época, que mudavam segundo as circunstâncias e os entendimentos de cada época. É isso que estamos detectando também na Bíblia, que faz parte desses sistemas religiosos universais. Vejamos alguns exemplos de coisas que acabaram com o tempo na Bíblia, além do relatado atrás: A poligamia(vários casamentos) praticada por todos os reis de Israel; a facilidade do divórcio, como ficou escrito no Deuteronômio, e como  era praticado por todo o judeu: “Se um homem toma uma mulher e se casa com ela, e resulta que esta mulher não ache graça a seus olhos porque descobre nela algo que lhe desagrada, lhe redigirá uma ata de repúdio, colocará na mão dela e a despedirá de sua casa” (Dt.24,1-5). Eis o que diz Eduard Arns a respeito: “A Bíblia não é um livro onde se encontram respostas a todos os problemas, tal como controle da natalidade, corrida armamentista, ecologia. Os problemas daqueles tempos não são idênticos aos nossos. Não somente isso, mas as respostas correspondem ao grau de compreensão de cada época. É assim que o problema do divórcio recebeu diferentes respostas em diferentes escritos da Bíblia (Dt.22,13; e cap.24,1-5; Mc.10,1-12 e Mt.19,3-9). As respostas estavam condicionadas pela teologia do momento e dirigiam-se a auditórios concretos daqueles tempos. A vontade de Deus para nosso momento histórico atual deve ser buscada para tempos de hoje. Os escritores bíblicos  ofereciam referências e orientações para o tempo deles. Eles não tinham condição de ensinar sobre questões de biologia, de antropologia, de psicologia social, mas para comunicar suas crenças” (o.c.p.233-234). Para terminar vejamos alguns erros da Bíblia: *A arqueologia descobriu que Jericó não era habitada nos tempos de Canaã (Js.6-9) *Nabucodonosor era rei da Babilônia, e nunca foi rei de Nínive (Jd.1,1) *Em Dn.cap.5 se dia que Baltazar era filho de Nabucodonosor, mas não era; ele era filho de Nabomid, o último rei da Babilônia. *Não foi Dário que conquistou a Babilônia, mas Ciro (Dn.6,1). *Dário não era filho de Xerxes, ao contrário, ele é que era o  pai de Xerxes (Dn.9,1). *Na arca de Noé se diz duas coisas contrárias, uma vez que entrou um casal de cada ser vivo e noutro lugar que entraram sete casais de cada ser vivo (Gn.6,19 e Gn.7,2). * Também num lugar diz que o dilúvio foi de 40 dias, e noutro lugar de 150 dias (Gn.7,12 e Gn.7,24). *Que o rei Joaquim não tinha filhos (Jer.22,19) mas quem lhe sucedeu foi seu filho (2Rs.24,6). *Em 2Sam. se diz que Davi comprou um terreno por 50 ciclos de prata, e em 1Cr. que comprou o mesmo terreno por 600 ciclos de ouro.(1Cr.21,25). Enquanto há o mandamento “Não matarás” (Ex.20,13), em Josué Deus mandou “passar a fio de espada” todos os habitantes das cidades conquistadas, inocentes ou não (Jer.10,28). Para terminar, “como poderia explicar-se que teria sido Deus quem inspirou a ideia de que a terra era plana e o centro do universo, quando sabemos que a terra é somente um planeta que gira em redor do sol, e não o contrário? Caso tivesse sido assim, Deus se teria equivocado muitas vezes e seria responsável pelos erros que estão na Bíblia” (E.Arnes, “A Bíblia sem mitos”, p.243).

Conclusão. Para o Islão o livro do seu sistema religioso é o Corão, e eles afirmam que foi escrito por Deus. Eles idolatram o Livro. Em contrapartida o Novo Testamento acabou por idolatrar também a Bíblia porque também pensavam que era  “escrita por Deus. Será que Deus disse uma vez uma coisa e depois outra coisa? Afinal, os dois livros fazem parte de dois sistemas religiosos. O Corão faz parte do sistema religioso deles, e a Bíblia faz parte do sistema religioso dos judeu-cristãos. Não podemos idolatrar a Bíblia.

P.Casimiro João        smnb

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