A autoridade é sempre considerada como como sem culpa, e os fiéis considerados sempre como culpados. Em outra nossa publicação dissemos que Cristo não quis para si o título de “rei”. E hoje em dia os reis acabaram praticamente no mundo Os povos não quiseram mais os reis. Porém, tempos atrás, acabou o império romano, e a Igreja definitivamente ocupou o lugar dele. Aí nasceu a Igreja feita pirâmide: Papa, bispos, padres, leigos. E na sociedade civil: Clero, nobreza e povo, como era classificada em toda a Idade Média. A missão do Espirito Santo era só de fazer os fiéis acatarem e aceitarem na obediência o que decidiam e programavam os que estavam no topo da pirâmide.
Historicamente a
“infalibilidade” do Papa não vem desde o nascimento da Igreja, mas vem a
colegialidade, como se vê no primeiro concílio de Jerusalém onde as decisões
saíram da colegialidade (At. 15). Hoje em dia isso tende a ser revisto cada vez
mais, para deixar essa forma de uma Igreja abusiva usando essa plataforma como
bengala de poder. Vimos ainda que os povos pagãos
simpatizavam com o nome de “rei” dado a Jesus. E de rei passava logo
a imperador, ganhando o conceito de “império supremo de Cristo” sobre o
mundo inteiro. Já se vê que respaldo daria essa ideologia a uma pessoa que se
considerasse na terra o “representante” desse império, o Papa. Nada mais nada
menos de que dar continuidade aos velhos sonhos de Israel de dominar o mundo
com seu messianismo com a vinda do “reino” do filho de Davi e do sonho do velho
Daniel (Dan cap.7), manifestado naquele pedido dos apóstolos: “Senhor, é agora que vais restaurar o “reino”
de Israel”? (At. 1,6).
Na época de Pio X e com
a herança de toda a Idade Média fortaleceu-se a ideia da configuração da Igreja
de Jesus como esse reinado vindo e nascido diretamente de Jesus sem que nada
pudesse ser mudado e mexido nunca mais. Era a “infalibilidade” papal que estava
em jogo. Porém, no concílio Vaticano II já começou sendo
admitido que a tão proclamada infalibilidade só pode ser assim
conceituada dentro de um consenso colegial.
Neste setor temos que reconhecer que após século e meio de resistência às
aquisições das liberdades oficiais do cidadão e do cristão vieram os textos do
mesmo Vaticano II sobre a liberdade de consciência, liberdade religiosa, e
direitos humanos que a muito custo foram sendo aceitos pela Igreja oficial.
Na verdade até esta data, para a hierarquia eclesiástica o homem novo
moderno que evoluía nestes conceitos de liberdade e emancipação e compreensão
era tachado de “o homem velho” pecador e desobediente. Tudo que tinha o gosto
de “moderno” era suspeito para a Igreja e considerado “tabu”. O conc.
Vaticano II corrigiu a imagem anterior da Igreja para uma Igreja mais aberta.
O Papa São João XXIII anunciou uma Igreja mais aberta mesmo e uma reforma
mais ampla do Direito Canônico como frutos do Concílio que ele anunciou.
E dizem os entendidos que a edição que foi feita do Direito canônico não
correspondeu às intenções fundamentais do mesmo Vaticano II,
invertendo o valor dos conceitos institucionais e dando mais valor à
instituição do que à nova definição de Igreja como “povo de Deus” onde se
realça a igualdade e liberdade dos fiéis leigos e os fiéis com outros títulos
no mesmo serviço da Igreja. Vale dizer, na Igreja não tem títulos que
separam, mas serviços que igualam na nova Igreja do Vaticano.
Nesta linha de
compreensão fica corrigida a noção de pirâmide tradicional segundo a qual o
pecado estava sempre do lado dos fiéis, e nunca do lado da hierarquia: a
hierarquia como tendo sempre razão e humilhando sempre os fiéis, que sempre só
“desobedeciam” e sempre eram pecadores. Vale dizer, o conflito era resolvido em
favor da posição mais forte, e chamava-se a isto o pecado de base.
Como consequência psicológica surgiam sobretudo sentimentos de decepção, de
resistência e até de aversão. E afastamento de muito fiéis da Igreja. Só
muitos séculos mais tarde é que veio um ou outro Papa pedir um perdão que já
todo mundo não atendia e podia até ser considerado fora de época.
Na verdade, tantas vezes
a hierarquia praticou uma política eclesiástica e não evangélica e teológica
quando não queria nenhum diálogo com os que lhe eram incômodos, e no entanto
formam parte da mesma Igreja que ela diz que é mistério de que todos participam.
No entanto, estava ofendendo companheiros e não adversários.
Pois na Igreja não há nenhuma relação de senhor e servo.
Resumindo: a
pecaminosidade foi sempre considerada para os fiéis, nunca para a hierarquia; A
autoridade considerada sempre como sem culpa. E os fiéis considerados sempre como culpados.
P.Casimiro João smbn
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