Não havia igrejas. Não havia hóstias. Não havia o nome de missa. Não havia sacrário. Não havia “adoração”. As hóstias começaram só no século XIII. O sacrário começou no século XIII ou XV. O nome missa começou no século décimo. Então a missa começou assim: Os cristãos reuniam-se nas casas e levavam suas comidas e seus pães e suas bebidas de vinho. Não se chamava “missa”, mas “fração do pão”, ou ceia do Senhor, onde se partilhava o pão. “Os que haviam se convertido eram perseverantes na fração do pão; partiam o pão pelas casas e, unidos, tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração” (At.42.46). Mas havia um “senão”. Os mais ricos levavam suas comidas e quando chegavam, não esperam pelos mais pobres. Sentavam-se e começavam a comer suas iguarias, e assim, quando chegavam os mais pobres já não encontrava nada. Eles partilhavam o pouco que traziam. O ministro abençoava aqueles pães e todos comiam, igual Jesus tinha feito na última Ceia, quando tomou aquele pão grande da época, partiu e distribuiu pelos apóstolos. Nesse meio tempo então, os mais abastados já tinham acabado suas refeições, e alguns, de barriga cheia e até bêbados xingavam dos mais pobres. Isto suscitou a atitude de São Paulo e teve que avisá-los naquela primeira Carta aos Coríntios onde falou assim: “Em primeiro lugar, ouço dizer que, quando se reúne a vossa assembleia há desarmonia entre vocês. Desse modo, quando vos reunis já não é para comer a ceia do Senhor porquanto, quando vos pondes à mesa, cada um se apressa a tomar a sua própria refeição e enquanto uns têm fome, outros se fartam...e quereis envergonhar aqueles que nada têm?” 1 Cor.11,20-22. É isso que o Paulo corrigia, dirigindo essas palavras duras nessa Carta. Depois, partindo deste cenário e comparando com a Ceia do Senhor acrescentou” Cada um se examine a si mesmo e assim coma desse pão e beba desse cálice. Aquele que come e bebe sem distinguir o corpo do Senhor come e bebe a própria condenação” (1 Cor.11,28-29). Santo agostinho interpretava que esse “corpo do Senhor” era o corpo da igreja reunida, não o “corpo físico” do Senhor. Para clarear esta realidade conta-se que certa vez uma senhora quando ouvia o estalar da hóstia na missa nas nossas igrejas dizia: “lá estão partindo os ossinhos do Menino Jesus”. Não se trata então de materializar assim as coisas. Essa discussão chegou até o concílio de Trento e enfrentou vários discursos, mas o concílio deixou essa discussão para a teologia. O Papa Francisco, no Documento A Alegria do Amor sai em defesa de que se trata aí do corpo da igreja, justo como dizia Santo Agostinho”. Vejamos: “Distinguir o corpo: “Nesta linha convém levar muito a sério um texto bíblico que habitualmente é interpretado fora do seu contexto ou de uma maneira muito geral, pelo que é possível negligenciar o seu sentido mais imediato e direto que é marcadamente social. Trata-se da primeira Carta aos Coríntios (11,17-34), na qual São Paulo enfrenta uma situação vergonhosa da comunidade. Nela, algumas pessoas ricas tendiam a discriminar os pobres, e isto verificava-se mesmo no ágape que acompanhava a celebração da eucaristia. Enquanto os ricos se deleitavam com seus manjares, os pobres olhavam e passavam fome. “Enquanto um passa fome, o outro se embriaga. Não tendes casas para comer e beber? ou desprezais a igreja de Deus, e quereis envergonhar aqueles que nada têm? (v.21-22). Este texto bíblico é um sério aviso para as famílias que se fecham na própria comodidade e se isolam e, de modo especial, para as famílias que ficam indiferentes aos sofrimentos das famílias pobres e mais necessitadas Assim, a celebração eucarística torna-se um apelo constante a cada um para que “examine-se cada um a si mesmo” (v.28), a fim de abrir as portas da própria família a uma maior comunhão com os descartados da sociedade e depois, sim, receber o sacramento do amor eucarístico que faz de nós um só corpo. Não se deve esquecer que a “mística” do sacramento tem um caráter social. Quando os comungantes se tornam relutantes em deixar-se impelir a um compromisso a favor dos pobres e atribulados ou consentem diferentes formas de divisão, desprezo e injustiça, recebem indignamente a Eucaristia” (Amoris Laetitiae, n.185-186). O Papa Francisco diz que é preciso partir daquelas cenas da não partilha dos ricos fartos e debochando dos pobres, e quem isso faz come e bebe a própria condenação. Estamos explicando então como eram cheias de problemas as primeiras “missas” dos primeiros cristãos, e como, pra começar, já eram cheias de problemas. Não admira que hoje também aconteçam problemas e mal entendidos. E o pão que eles levavam era consagrado e “comungado” era o pão fabricado nas casas. Não havia o nome de “missa”. Não havia “sacrário”. E não havia também “adoração” e “horas de adoração”. Isso são outros quinhentos, que começaram depois do século XVI em diante. Antes de avançarmos façamos uma breve reflexão sobre a teologia do “corpo de Cristo” na eucaristia. O concílio vaticano II abordou este assunto e enfocou também a presença de Cristo na hóstia como “corpo místico de Cristo, onde os fiéis, ao participarem do sacramento na Eucaristia são elevados à comunhão com ele e entre si. Santo Agostinho, já na mesma linha, dizia que a eucaristia não é o alimento que nos transforma, mas nós é que somos transformados em Cristo. Teólogos atuais, como Schillebeeckx, afirmam que o corpo ressuscitado e glorioso de Cristo não está no sacramento da mesma forma como os corpos físicos estão num lugar, isto é, não tem as mesmas dimensões em local físico. É uma presença sacramental, real, mas num modo de ser diferente do céu. Pois Cristo está na eucaristia para a comunidade que celebra, tornando-se alimento na refeição comunitária, a “fração do pão”. Por exemplo, se a hóstia cai e é comida pelos animais como por exemplo algum cabrito, ali não está o corpo de Cristo. Mais: a Eucaristia é entendida como o sacramento que constrói o corpo de Cristo que é a Igreja. Onde não tem igreja com fé não tem corpo de Cristo. A união com Cristo na comunhão é o que une os fiéis entre si, formando a comunidade de fé. Sobre a presença “física” de Cristo explicam: o corpo de Cristo está presente de modo verdadeiro e real, mas dentro de uma “ontologia intersubjetiva” ou seja: uma realidade que se manifesta na relação entre Deus que se dá e a pessoa que o recebe na fé; como dissemos, se a hóstia cai e for comida por animais não há corpo de Cristo. Resumindo: Enfatiza-se que o que está presente na hóstia é o Cristo vivo e glorioso que usa o sinal do pão para se tornar disponível aos fiéis, e não uma presença física espacialmente limitada. Como dissemos um sinal disponível aos fiéis e não aos animais, como diz a Oração Eucarística n.II após a invocação ao Espírito Santo sobre os dons do pão e o vinho "A fim de que se tornem para nós o Corpo e o Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo". Isto nos reporta ainda ao costume de “adoração” que vem desde o séc XV, e começou com o pedido de uma freira santa Juliana de Cornillon que propugnava uma presença intimista e “pessoal” com a presença da hóstia. Enquanto que tudo na eucaristia aponta para o corpo social, como disse o Papa Francisco na Alegria do Amor, explicando o ambiente social que deu ocasião às expressões de Paulo de “comer e beber a própria condenação” quando reinava o “individualismo” nas reuniões e refeições eucarísticas. Notemos bem que a santa vivia de “experiência mística individualista” e foi ela a primeira que pediu ao bispo Tiago Pantaleon de Troyes a festa de Corpus Christi. Esse senhor foi depois Papa, o Papa Urbano IV. E tendo autorizado a festa, primeiro na sua diocese de Liège, a estendeu para toda a Igreja apoiando-se nas palavras do evangelho: “Eu estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt.28,20). E, de quebra foi daí que veio o costume da “adoração” ao Santíssimo a pedido da mesma freira. Não sem grande relutância da parte de todos que conviviam com ela, de tal maneira que teve que deixar o convento várias vezes, e partir da França para a cidade de Liège na Bélgica onde encontrou esse bispo que a tinha conhecido tempos atrás. Para completar, devemos ver o histórico do sacrário. Nesses primeiros tempos antes e depois das hóstias se guardava o pão que sobrava da refeição nalgum lugar da casa onde se comia a ceia, com a finalidade de ser levado aos presos que não puderam participar da ceia. Esse pão se chamava "reserva." Como não havia luz elétrica, durante a noite e no escuro, a família lembrava de acender uma luz para saber o local. Quando se construíram igrejas, continuaram a fazer a mesma coisa, colocando a reserva atrás do altar. Com o tempo, esse lugar ganhava realce, e a arte com que se faziam as igrejas passou também para enfeitar esse local, que começou a chamar-se "sacrário." No concílio vaticano II, na Constituição "Sacrossantum Concilium" sobre a reforma e renovação da Sagrada Liturgia, cap. VII, n.128, e em vários documentos que vieram depois ficou aconselhado que o sacrário ficasse numa capela ao lado ou atrás do altar, e não no centro da igreja, para dar mais destaque à palavra de Deus e à assembleia cristã como corpo de Cristo. E é assim que se pratica agora. Vem ao caso uma polêmica destes dias a respeito de uma declaração do bispo dom Lisboa, da prelazia de Marajó quando questionou a prática de adoração da eucaristia afirmando que “o propósito principal da eucaristia seria a comunhão e não o culto fora da missa, sobretudo através de televisão e da internet”. Por coisa de nada teve denúncias endereçadas até à Congregação da Fé em Roma. Permitam-me a pergunta: porque esses mesmos não fazem a mesma denúncia sobre o cardeal de São Paulo quando proibiu o Padre Júlio Lancelloti de usar a internet nas redes sociais em prol da população de rua de São Paulo?
P.Casimiro João smbn
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