
“Viver em Deus sem Deus, como se Deus não existisse” (Arthur
Robinson). Assim: o filho que se emancipa. Assim a sua liberdade. Os pais
ficaram para trás. Age por sua conta e risco. Não está mais esperando ser
manipulado. Vive de experiências, e de ver como é. Objetivo dele? Querer
avançar. E fazer diferente. Deu certo? Às vezes. Deu errado? Às vezes. A
natureza tem em si as energias do conserto. Esta afirmação leva a outra que diz
o mesmo, mas parecendo contraditória, no
entanto completa a outra: Deus não é Deus sem nós e nós não somos nós sem Deus.
Há uma pergunta no subconsciente de todos nós que parece barrar a ideia de que
Deus não seria nosso parceiro: Como Deus permite o mal? A resposta depende de
como eu entendo Deus. Se manipulador fora do universo, ou se é íntimo a nós e
nosso parceiro. Não será que exigimos um Deus que nas aflições, basta um
estalar de dedos para resolver nossos problemas? Mas, se nossa imagem de Deus
concentra-se na presença e na parceria de Deus que em todas as coisas criou um
ambiente livre e é parceiro da nossa liberdade, então as coisas mudam de
aspecto. “O universo ordenado contém dentro dele muita coisa que é desordenada
e incompleta. A criatividade múltipla torna inevitável um pouco de desordem e
conflito. Leva em conta a possibilidade de grande desordem e mal. No modelo ecológico
o mal origina-se do acaso e da liberdade que ele permite, não da providência. A
razão pela qual a providência não elimina o acaso é porque um mundo sem acaso é
um mundo sem liberdade. Toda entidade natural, todo átomo precisa ter um
aspecto de autodeterminação ou espontaneidade e a interseção até de dois, sem
falar em miríades de atos de autodeterminação é precisamente acaso. De fato, Deus
controlar completamente o mundo seria o mesmo que aniquilá-lo. Uma pergunta dessa
faria de Deus como onipotente ditador do universo, responsável por tudo que
acontecesse e que, se quisesse, poderia mudar o curso dos acontecimentos num estalar
de dedos ou de varinha mágica.” (Charles Birch, apud Michael Morwood “O católico
de amanhã”, Paulus, 2013, pg 45). Nossa
linguagem religiosa torna-se perigosa quando pensamos num Deus que realmente
manipula tudo. É perigoso falar abusivamente usando a “vontade de Deus”. Se por
exemplo, o marido morre de repente de um ataque cardíaco, que imagem de Deus é transmitida
à mulher, ao lhe dizer que isso deve ser o que Deus queria? Ou, que imagem de
Deus é transmitida aos filhos desse casal na missa de sétimo dia se o padre fizer
uma declaração no sentido de que “Deus levou” este homem de nós? Em vez disso
não seria melhor outro discurso como: a vida tem validade de prazo no ser
humano e em toda criação; em contrapartida, ao mesmo tempo traz um princípio de
continuidade; deste modo, no princípio de continuidade estão os filhos e os
familiares onde a vida se reconstrói e se recupera, assim como aquele que doa
órgãos continua na vida do outro. O cosmo e a humanidade são duas realidades
conectadas. Os estudiosos dizem que imperfeições vieram junto com a vida desde
os 15 bilhões de anos no Big-bang. Mas a mesma criação que trouxe imperfeição
trouxe também um princípio de recuperação ou o jeito de tudo recuperar. Isto já
a filosofia e a religião hindú intuíu quando definiu três princípios divinos na
criação: o princípio criador, o destruidor e o reparador ou técnico do conserto
de tudo. Dentro desta sinfonia da vida os seres humanos somos os únicos
conscientes desta realidade cósmica: destrutiva e reconstrutiva. Porque, no
meio do cosmo sem consciência, a vida humana ficou como cabeça pensante e
consciente. E ao princípio criador onipresente
em toda a criação damos um nome: Deus. “Pense na maravilha da existência
humana: Damos literalmente a Deus voz e braços; damos ao amor aparência e forma,
nós o personificamos. É literalmente verdade que Deus como espírito não fala.
Você precisa de um corpo para fazer sons. Deus como espírito não compõe música.
Deus como espírito não me abraça nem me carrega para a escola. Mas o Deus que
vem à expressão humana em Elton Jhon compõe música que toca para sempre as vidas
humanas. O Deus personificado nos poetas como Cora Coralina ou Florbela Spanca
faz poesia que toca para sempre o coração e a mente dos seres humanos. Meus
pais e meus irmãos e minhas irmãs dizem que me amam e me alimentam. Não deverei
acreditar que neles a presença de Deus recebe forma humana?” (M.Morwood, o.c.p.44).
Por outro lado, segundo a Física Quântica, não podemos mais separar o mundo
material em Matéria inanimada e Mente. Mas ele é “Matéria-Mente”. “A ciência moderna
nos diz que não devemos continuar a separar o mundo material em Matéria inanimada e Mente como duas realidades
diferentes. No entendimento atual a mente não se limita a ser uma função consciente
ligada ao cérebro. A mente está presente em todas as coisas e torna-se
consciente nos seres humanos, como dizíamos atrás. Eis um modelo científico de
pensamento que nos permite ver a presença de Deus impregnando tudo que tem
existência e os seres humanos de maneira especial. E essa presença criadora
chame-se de Mente ou chame-se de Energia da Vida ou de qualquer outro nome,
leva em conta o acaso e a liberdade e a espontaneidade e o totalmente
inesperado.” (o.c.p42). A física quântica não nos diz que ISTO é o que Deus é, como a “sarça ardente”. Pelo contrário, aqui
Deus é entendido como presença encarnada em vez de como um “manipulador exterior
(id, id). Posto isto, não há mais margem para manter uma visão mecanicista do
mundo: um governante de fora da máquina ou da matéria, não raro impressa na
imaginação popular, que ordenaria e disporia como quisesse, aumentando a emoção
bajuta do dito popular que “tudo está na mão de Deus”; um Deus que pudesse
planejar tudo passo a passo, e tudo resolveria num estalar de dedos. “O deísmo entendia Deus como o
agente externo ao mundo, que intervém só para iniciar a criação e preencher as
lacunas. É esse o Deus que ainda é atual demais em muitos lugares
contemporâneos da Igreja: uma superpessoa exterior que pudesse intervir na vida de
determinados indivíduos em tempos de desespero para resolver problemas. Seria
como o supervisor da máquina quando ela adoece” (M.Fague, apud M.Morwood,
o.c.o.p41-42). Avançando para margens mais largas, vamos “enfrentar o
desafio em primeiro lugar com a verdade básica da encarnação. O cristianismo
tradicional nos ensina que em Jesus Deus se tornou humano. E se tomássemos
esse entendimento cristão básico do envolvimento de Deus com a humanidade e o
fizéssemos retroceder ao começo da criação? E se, ainda transcendendo e sendo
maior que a soma total da criação, Deus se “encarnasse” em toda a criação, de
modo que toda ela fosse infundida com a energia que é Deus e por ela fosse
sustentada e guiada? No mesmo instante teríamos de abandonar a tendência
limitadora e permitir que o nome “Deus” significasse, por um lado, uma
realidade ilimitada infinitamente vasta, totalmente além de nossa imaginação.
Não poderíamos restringir essa realidade a um “ele” que está no céu. Shirley Macklaire afirma que "todos nós somos parte do divino, não havendo separação entre Deus e nós". E o poeta C.de Brito reforça essa intjuição ao afirmar que em cada homem existe um Deus escondido, uma forma perfeita perdida numa aldeia de demônios." Tudo aponta para a mesma direção ao todo, ao conjunto à unidade profunda da vida. Por seu lado, Ettt.Hillesum: "Torna-se cada vez mais claro que Deus não pode nos ajudar, no sentido mágico que esperamos; somos nós que devemos ajudá-lo e, ao fazê-lo ajudamos a nós mesmos. Deus não nos poupa das cirfcunstâncias pois elas fazem parte da vida. Ele não assume a responsabilidade por elas: somos nós que seremos chamados à responsabilidade. A morada de Deus em nós precisa ser defendida até o fim. É uma fé adulta sem ilusões infantis, que entende Deus não como interventor externo mas como presença interior que precisa ser acolhida e protegida." Do mesmo jeito o teólogo Libanio: "Não se trata de imaginar Deus esperando nossos pedidos para agir milagrosamente, mas de compreender Deus presente e atuando em nós, promovendo as forças da vida existentes. Presença esta que depende da nossa abertura, acolhida e disposição" Na mesma sintonia, vejamos a intuição dos teólogos da teologia africana: "Se pelos ritos de passagem Jesus se tornou plenamente humano, pela ressurreição ele passa a integrar a comunidade dos antepassados. A morte não é o fim mas outra modalidade do processo cíclico da existência humana, cuja referência maior são os ancestrais" (Antônio Silva, apud Armando, josé, RTA). Aqui as novas reflexões da teologia adequam com a ciência quântica, corroboram a presença de Deus em toda parte como força, energia ou poder de
vida. "Mas também devemos advertir que essa é linguagem inadequada e se esforça
para estar em contato com a verdade de encarnação: Deus em tudo, com tudo e
através de tudo. Simplesmente tentamos dar sentido à realidade que chamamos “Deus”
em vez de afirmarmos que ISTO é o que o Deus é. Afirmamos que tudo está impregnado
da presença de Deus. Chamamos a atenção dos seres humanos para o amor que está
em nosso coração; chamamos a atenção para
o DNA e para os átomos e moléculas em nossa estrutura corporal onde há
espontaneidade e vida e movimento; onde há crescimento; onde há liberdade de
movimentos e possibilidades ilimitadas, e há também doenças, e há saúde. Isso é
encarnação no nível básico. Deus realmente está em, com e através
de tudo. Não teremos de adaptar então nossa imagem de Deus se formos levar isso
a sério? (M.Morwood o.c.p.40-41). Dado que o entendimento tradicional de Deus e de
nosso relacionamento com Deus foi formado pelos padrões de pensamento e visão
de mundo da cultura judaica e cristã primitiva, e sofreu dos limites de uma
cosmologia antiquada, somos desafiados com a visão atual. Aceitamos o desafio? Hoje,
este outro tempo, outra cultura, outra ciência e outra visão do mundo não nos
darão mais esclarecimentos? Antes de concluirmos, notemos que a Matéria e a Mente podem
colaborar para uma maior validade de prazo da nossa vida, retomando o nosso
pensamento expressado na página anterior. Prazo de vida ou prazo de menos vida, como
muito bem investigou Renate J.de Moraes nos seus dois grandes volumes “O Inconsciente
sem fronteiras”, onde ela detectou que a mente do feto já tem o poder de fazê-lo
aparecer com câncer ou sem ele (o.c.p.426). E onde ela afirma: “Existe energia
elétrica no cérebro que irradia fora dele”(o.c.p.328)
Na verdade, dessas premissas descritas resulta o corolário
que dá o título a este capítulo e a este
volume, o primeiro volume de PÁGINAS DE TEOLOGIA BÍBLICA PARA HOJE: Deus não é
Deus sem nós e nós não somos nós sem Deus. Este volume com este novo título é o
primeiro de Dois novos volumes, em 2ª edição. Em 1ª edição editamos 10 volumes,
que, como disse agora ficam reunidos neste dois volumes, o 1º: “Deus não é Deus
sem nós e nós não somos nós sem Deus”. O 2º volume continuará com o mesmo nome
dos 10 livros da 1ª edição: “Páginas de Teologia Bíblica para Hoje”.
P.Casimiro João
smbn
www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br