segunda-feira, 17 de agosto de 2026

ATÉ ONDE VAI A PIEDADE E ATÉ ONDE VAI A TEOLOGIA

Podemos dizer que a piedade procede da espiritualidade, das tradições, das heranças, dos medos, dos tabus e da religiosidade familiar. A teologia procede dos documentos, da arqueologia, da investigação, das ciências interdisciplinares, da linguística, da filosofia.

Em muitas questões bíblicas, a piedade aparece em primeiro lugar, e aí os críticos descobriram que não são históricas; ou seja, viram que muitas narrativas não são históricas, mas fruto da piedade, ou construções piedosas da época. E a isso chamamos de parábolas, o que os judeus chamavam de midrash, casos para tirar uma lição moral. Um caso desses será por exemplo o caso tão manjado da “mulher adúltera”, cap.8 de João. Os críticos históricos dão este texto como uma parábola igual o “filho pródigo”. Veremos mais à frente outros exemplos, como o caso de Suzana, "pega em adultério” (Dn.13,1-21), aliás como todo o Livro de Daniel; e os primeiros capítulos da Bíblia, a Criação etc. Tobias, e o Livro de Jó aparecem como duas grandes parábolas, assim como o Livro de Jonas. E ainda as narrativas apocalíticas, e as incluídas pari passu nos evangelhos e Cartas. Em todos esses escritos se expressa a piedade e não a história.

Por quais meios se expressa a piedade? Por meio de hinos, orações de salmos, parábolas, apocalipses e narrações épicas. Não haveria tempo nem ocasião de falar em todos estes itens, apenas umas indicações:  Por exemplo, a Criação é uma liturgia de louvor ao Criador. Hinos como este são da piedade popular, passando para o Novo Testamento e inseridos em muitas Cartas que traduzem a piedade popular. A piedade popular tem em vista só emoção; tantas vezes é um cantor que passa para o público sua arte de poesia baseada no louvor, na admiração, fundando-se nas emoções e no que sente no momento. Talvez no dia seguinte já poderia dizer o contrário, como quando um Salmo pede a Deus para “despedaçar os filhos dos inimigos, contra a rocha” (Sl.137,9); “O sol perderá o brilho e a lua escurecerá” (Joel, 3,15); a “terra tremerá e as rochas se abrirão”(Is.2,19 e Jer,47,12).

Voltemos ao capitulo oito de João, da “mulher adúltera”. A lição moral a tirar daí é um exemplo de como a religião e a piedade pode atrapalhar o ser humano. Na parábola em questão o primeiro lugar deve ser dado para o ser humano, depois é que vem a religião e as suas leis. Nascemos todos “sem religião”, só como “ser humano”; depois cada um escolhe a religião que quer. Claro que a maioria das pessoas segue a religião dos pais. No entanto poderá adotar outra, ou até nenhuma. Você é católico ou católica, porquê? E se seus pais fossem protestantes ou religião afro? Você não seria? Trata-se da liberdade de consciência e de religião, como asseverou o Vaticano II (Decreto Sobre a Dignidade Humana e Liberdade religiosa, Seção II, pg.2). No decorrer da História a “religião” pode ter atrapalhado muito o ser humano, porque os religiosos não se davam conta que antes de ser “religioso” a gente é “ser humano”. E quando se destrói um ser humano por causa da religião, se destroem as duas coisas, o ser humano e o “religioso”. Se uma pessoa deixa de ser um ”ser humano” para ser “religioso” então não é nem “religioso” e nem um “ser humano”. É por isso que na história muitas pessoas pensaram assim: se para ser religioso tenho  que deixar de ser humano, então não vale a pena ser religioso, vale mais ser humano. É isso que muitos escolhem, e que Jesus mostrou por toda a sua vida e sem dúvida esta parábola da “mulher adultera” nos quererá mostrar.

Até onde vai a piedade, e donde recebemos a piedade? Da espiritualidade familiar, como disse;  das tradições, das heranças, dos medos, dos tabus, e da religiosidade,  ou do religiosismo. Levaríamos tempo para desenrolar estes conceitos. Somente vamos resumi-los em três: a herança familiar, a tradição e os tabus. A espiritualidade e herança familiar é o jeito de gestos, modos e comportamentos e palavras que vão moldando a criança. São colados no âmago da criança com um grude poderoso até aos três anos, e formarão em dois terços a cabeça e a personalidade futura da pessoa. São irrefletidos e mecânicos como camadas estáticas que se sobrepõem. E geram hábitos, que são maneiras mecânicas de agir e pensar. A criança e o adulto faz porque faz, e sem saber por que faz; pensa o que pensa e sem saber por que pensa. Pergunte um dia o “porquê” das coisas e responderá: “por que sim”; “porque aprendi em casa”. E quantos pais não usaram de maneiras violentas para inculcar essas coisas nos filhos? Pergunte só o sentido de algumas palavras, não saberá responder. Pergunte sobre análise do texto do que diz, do que fala e do que lê na Bíblia. E muitos jovens e adultos olharão para o vazio. Isso, digamos, faz a pessoa um religioso autômato e um cristão mecânico e inconsciente, e repetidor do que não sabe. O teólogo Karl Rahner fala na fé baseada em mitologias, heranças e antigas tradições; e na fé refletida, baseada na reflexão crítica, na ciência bíblica, nas ciências humanas, na cosmologia, na antropologia e na teologia. (Curso fundamental da fé, p.348).

Falemos logo nos outros dois elementos, a tradição e os tabus, e iremos vendo que no final das contas tudo se junta como num funil. Por exemplo na tradição e nos tabus o seguinte caso: nas culturas antigas todos os objetos materiais estavam no domínio dos espíritos impuros. Nas práticas religiosas as coisas materiais não podiam não podiam diretamente ser introduzidas no mundo sagrado sem antes ser “abençoadas”. Porque se acreditava serem habitadas por espíritos. E o primeiro passo consistia em invocar o espírito de Deus para que expulsasse os maus espíritos dos objetos materiais.

Neste detalhe, por exemplo o teólogo João Libanio comenta que alguns liturgistas veem um desvio material coisificando a presença divina nos elementos materiais do altar, enquanto que se esquece que o Espírito divino é invocado para que venha sobre a comunidade dos que participam da mesma mesa, e transforme o corpo eclesial numa comunidade de união. (Cf. João Batista Libanio, Creio na Trindade, p.144-145). Nos nossos templos assistimos a momentos bizarros quando os celebrantes se inflamam conclamando os fiéis para que mostrem seus objetos, como chaves, documentos, santinhos, quadros, para serem “benzidos”. Eu pergunto se esses clérigos que exibem esse afã, também fazem a mesma coisa com seus objetos pessoais, “suas chaves”, “seus documentos”, “seus quadros”?

Como as coisas afunilam; além da “tradição”, aqui se nota a fase de infância e dos tabus, e dos medos. Ali há uns perigos de “espíritos” nas “minhas chaves”. Não vá com os cuidados do trânsito, e na velocidade legal, e não encha a cabeça de álcool, e verá que os perigos dos espíritos não estavam nas chaves mas na sua pessoa.

Conclusão. Revendo o questionamento: até onde vai a piedade, e até onde vai a teologia? A “piedade” pode sofrer muitas deficiências e mazelas, como vimos. A teologia nos elucida com documentos, arqueologia estudada e decifrada, investigações científicas, ciências interdisciplinares como cosmologia, antropologia, psicologia, linguística, filosofia.

Queria enfatizar por último que os da “piedade” são por vezes muito fáceis em “condenar” jornalistas, artistas, comunicadores, escritores, teatrólogos. Não imaginamos que todos estes e estas são senhores e senhoras altamente formados em todas estas ciências, coisa  que os da “piedade” talvez não tenham nem uma desconfiança. Por isso afirmei que “a piedade pode atrapalhar muito a teologia e a história” e perguntei: Até onde vai a piedade, e até onde vai a teologia.

 

 

 

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A ALMA MORAVA NO CÉU E CAIU NO CORPO


 

Para entendermos este problema temos que retroceder dois mil anos atrás, e nos colocar no pensamento desse mundo que era também o mundo dos inícios do cristianismo.

Veja bem, no pensamento dessa época, Deus estava longe do mundo e não tem nenhuma influência sobre a vida espiritual das pessoas. A ideia era que a alma morava no céu e caiu no corpo, um dia ela teria que retornar ao paraíso. Quando a alma conquista o conhecimento, ela inic   ía o processo de viagem ao céu.

A cada ser humano restava o desafio de tornar-se um ser espiritual. Como? Abstendo-se da vida sexual ou de cair nos prazeres do corpo para enfrentar essa viagem. Essa viagem era perigosa, pois no trajeto entre a terra e o céu vivem os anjos decaídos, os anjos maus, prontos para tomar a alma. A alma, então, tinha de ser sábia para enfrentá-los. A sua única arma seria a pureza virginal que lhe garantiria a natureza divina.

Por outro lado, defender a virgindade era também sinal de que o corpo não tinha valor. Nesse desprezo pelo corpo, os cristãos receberam influência do pensamento dualista que pregava a separação entre alma e corpo, trevas e luz, vida e morte, Deus e  mundo. Assim, tudo o que se dizia pertencer ao mundo era desprezado, pois o mundo era considerado uma armadilha dos poderes do mal. Considerando que já pela mulher tinha entrado o mal no mundo (Eclo. 25,24)

A Igreja dos primeiros tempos participava desta concepção. Basta olhar o calendário: Santas do calendário romano, 85 por cento são “virgens” ou “virgem e mártir”. Além destas e dos mártires, tem monges e bispos. Pouco mais. O primeiro casal que foi canonizado foram os pais de Santa Teresinha.

Para continuar entendendo o conceito de “virgindade” temos que continuar a história, e o mito greco-romano da deusa Vesta, deusa de Roma, e suas sacerdotisas, as virgens Vestais.

A deusa Vesta (em grego Héstia) era filha do Cronos, um deus dos Titãs. Mas foi devorada pelo pai. Porém, conseguiu ser salva pelo deus Zeus, irmão do pai; Quando se viu salva pediu ao tio-irmão que nunca lhe fosse permitido tirar a virgindade para não gerar mais guerras entre os outros deuses para conquistá-la.

Zeus atendeu o seu pedido e para isso reservou um lugar para ela no centro das cidades como forma de agradecimento. Por isso ela era servida por sacerdotisas virgens que no centro da cidade de Roma tinha o seu templo sempre com fogo aceso como garante da Paz de Roma. Se o fogo apagasse aconteciam castigos para Roma, fomes, pestes ou guerras. E se a guerra  falhava  a culpa não era dos generais mas das Vestais.

O templo de Vesta ficava no centro de Roma. As Vestais eram encarregadas de manter no centro do templo o fogo aceso de dia e de noite como garantia da paz romana “Pax Romana”.

Nas sociedades arcaicas, o sacerdócio feminino era considerado essencial, porque se preservavam da atividade sexual, como modelos de paz numa sociedade violenta. E porque a atividade sexual era considerada uma das “portas de entrada” da violência na sociedade. Com efeito, no Gênesis já é dito que daí vieram todos esses males.

E como é que os primeiros cristãos  trataram a vida da Virgem Mãe de Deus com estes conceitos na cabeça? Será que não tiveram influência? Quando Maria foi para casa de José, cinco jovens virgens a acompanharam, que deveriam permanecer com ela na casa de José. Esses virgens a chamavam de “rainha das virgens”.

Quando José soube da gravidez de Maria, as outras virgens contaram-lhe que tinham vigiado Maria. Somente anjos conversavam com ela. “Se queres que te confessemos nossa suspeita, nenhum outro a tornou grávida senão o anjo do Senhor”.

Outra tradição diz que o escriba de Anás, numa visita que fez à casa de José percebeu a gravidez de Maria e  os denunciou ao tribunal do templo. Maria e José foram submetidos ao teste da “água da prova do Senhor”. Conforme o costume judaico, eles deviam beber essa água preparada com ervas amargas e dar sete voltas em torno do altar (Nm.5,12). Os culpados receberiam de Deus um sinal no rosto. A inocência de ambos foi comprovada.

Então Maria foi conduzida a sua casa com grande exultação e júbilo acompanhada por uma multidão de virgens.

No trânsito de Maria para o céu como foi? “No seu velório, virgens prepararam o seu corpo e seguiram o cortejo. João, aquele que recebeu o encargo de cuidar dela, levava a palma da virgindade de Maria, porque também se conservara virgem”.

Esses e tantos outros elementos nos mostram como as comunidades discutiam a questão da virgindade mariana, e como alguns elementos passaram para os evangelhos canônicos. Por outro lado, essa obsessão pela virgindade era também sinal de que o corpo não tinha valor. Os primeiros cristãos foram influenciados pela negatividade da matéria, segundo a qual Deus não criou a matéria e o mundo, e de nada se interessava com ele; o “demiurgo”, o deus intermediário entre o mundo e Deus é que foi o criador do mundo e da matéria, que é chamado nos evangelhos como o “príncipe deste mundo” (Jo.14,30 e Jo.16,10).

Assim, tudo o que se dizia pertencer ao “mundo” era desprezado e considerado uma armadilha dos poderes do mal. Deus está longe do mundo e não tem muita influência sobre a vida espiritual das pessoas. A cada ser humano restava o desafio de tornar-se um ser espiritual de verdade, abstendo-se da vida sexual e do contato com a matéria do corpo. A alma morava no céu e caiu no corpo, um dia ela teria que retornar ao paraiso. Quando a alma conquistasse o conhecimento, ela iniciaria o processo de viagem ao paraíso.

Esta era uma viagem perigosa porque tinha que enfrentar os anjos maus nesse trajeto onde eles estavam prontos para tomar a alma. A alma teria que ser sábia para enfrentá-los. A única segurança da alma seria a pureza virginal, que lhe garantiria a natureza divina.

A tradição revela que Maria teve medo de encontrar-se com esses anjos maus quando saísse de seu corpo, por isso pedia a proteção dos apóstolos na custódia de seu corpo.

Como vemos há nestas tradições uma cultura baseada em mitos trabalhados por aquelas gerações de pagãos e cristãos. E de uma maneira ou outra  influenciaram os escritos dos evangelhos.

Como diz o historiador dos inicios do Cristianismo Frei Jacir de Freitas “muitas crenças de nossa devoção popular mariana provêm dos evangelhos apócrifos” (As origens apócrifas do cristianismo, 122).

Já deu para dar uma resposta ao nosso título desta matéria que preocupava demais as primeiras gerações de nossos antepassados, os primeiros cristãos, e procuravam encontrar respostas:  A ALMA MORAVA NO CÉU E CAIU NO CORPO; COMO SERÁ A VIAGEM DE VOLTA AO PARAISO ?

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A ALMA E AS ESTRELAS.


“Eu me tornei uma estrela da manhã entre os deuses”, dizia um epitáfio antigo. Sêneca dizia que a alma humana imortal veio de fora deste mundo, das estrelas, e fará seu caminho de volta para lá. Sendo assim ela ia reunir-se com os deuses. Para Platão, a alma humana é imortal, e, como imortal, é divina, porque divinos são os “imortais” que são os deuses. A morte se define em termos de separação entre alma e corpo, e alguns filósofos da corrente de Platão diziam que a alma, na sua separação, carregava o corpo com ela. Quando o imperador Otaviano foi assassinado, uma testemunha afirmava ter visto a alma do imperador subindo aos céus, e que ele não tinha sido assassinado porque sua divindade não podia ser extinguida. Como era explicada a origem da alma humana? “No princípio o Criador fez um número igual de almas igual ao número de estrelas, e tendo-as colocado ali como numa carruagem mostrou-lhes as leis do destino. As almas assim devem ser implantadas nos corpos humanos. A sua principal tarefa é governar os sentimentos e desejos do corpo. Depois do seu tempo de vida retornarão e habitarão junto à sua estrela gêmea, e lá terão a bem-aventurança e agradável existência”. ( em Aristófones: O Timeu de Platão, apud N.T.Wright, “A ressurreição do Senhor”, pag.107). Por isso, ninguém em sã consciência, uma vez libertados do corpo que é o cárcere da alma, iria querê-lo ou algo parecido de volta. Porque assim chamavam vida essa libertação, e morte à vida encarcerada no corpo. Não se deve portanto temer a morte, ela é o dia em que nascemos na eternidade e todos vão para a ilha das bem-aventuranças. Epicteto, nessa época, dizia que o nosso objetivo na vida é que se deve aprender a ser feliz, ou, ao menos, não infeliz. Na verdade, a alma libertada do corpo ia de volta para as estrelas e para os deuses. Ali os mortos irão ganhar uma vida bastante completa com Osíris, e como Osíris nos deleites da eternidade. E como muitos pensavam que, na separação do corpo a alma carregava também o corpo, para eles a cremação era inaceitável e uma coisa hedionda. A morte era uma saída à luz do dia. Falamos que a habitação da alma seria na estrela gêmea da qual tinha saído. Durante muito tempo houve um grande debate filosófico acerca de qual material exatamente era o das estrelas e da alma, mas havia o sentido geral de que não seria de coisas muito diferentes. Eram, por assim dizer, feitas umas para as outras. Por exemplo, muitos acreditavam que a alma era um tipo particularmente especial de matéria feito de uma substância ígnea, exatamente o que estava presente nas estrelas. Ficamos com a impressão de que estamos em termos de cristianismo. Mas esta era a teoria de Platão, no séc.V a.C. desenvolvida por seus discípulos como Sêneca, Aristóteles e Epicteto, entre os gregos; e por Cícero, Virgilio e Cipião entre os latinos. Platão fez uma reviravolta da teoria do Homero, sec.VIII a.C. que foi o pioneiro desta  filosofia, junto com seus discípulos Ésquilo e Sófocles. Por isso alguns autores têm Homero como o iniciador do A.T. do helenismo antigo, e Platão como o N.T. do mesmo mundo antigo helenístico. A mudança de Homero para Platão deu-se com o seguinte objetivo: Proporcionar aos jovens aprender a verdadeira concepção filosófica para amar a Pátria e a sociedade sobre a morte não ser algo lamentável, mas algo bem vindo, a vida aquirida na ilha das bem-aventuranças. É o meio pelo qual a alma imortal se liberta da prisão domiciliar do corpo em que viveu na terra. “Se o mundo antigo não judaico tinha uma Bíblia, seu antigo testamento era Homero, e Platão o novo testamento do mesmo mundo helenístico antigo”. (N.T.Wright, o.c.p.71). Dizemos isto porque no Antigo Testamento da Bíblia judaica também não se falava na ressurreição, justamente como Homero que viveu na mesma época de Moisés. Só começou a surgir a teoria da ressurreição num tipo de conceito platónico pelo ano 167 antes da vinda de Cristo e por circunstâncias históricas, na época dos Macabeus.

Conclusão. A busca da felicidade é uma constante da sabedoria humana. E antes que chegasse a teologia e as teologias surgiu a filosofia e as diversas filosofias. Assim, paralelamente a Moisés existiu um Homero, e paralelamente às preocupações de Daniel, o maior expoente da nova doutrina da ressurreição apareceu um Platão também quase contemporâneos, e  temos ainda influências no conceito de ressurreição hoje em dia tanto de Daniel como de Platão.

P.Casimiro João        smbn

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segunda-feira, 27 de julho de 2026

REINO, ALEGORIA, PARÁBOLA E MÉTODO ALEGÓRICO.


 


Conceito de Reino dos céus: O fim do Antigo Testamento e a vinda de Deus para governar em pessoa. Aí incluía o castigo para os que tinham maltratado o povo de Israel. Digamos, uma ideia nacionalista. Uma prova está na cena da mãe dos filhos de Zebedeu que se aproximou de Jesus para o seguinte: “Permite que estes meus dois filhos sentem-se um à tua direita e o outro à esquerda no teu Reino” (Mt.20,21). Porém, pouco a pouco, a pregação e a piedade cristã foram transformando esse conceito para um conceito personalista do “bom” e do “mau” individual. Este conceito ficou marcado em narrativas plásticas como a “rede que é lançada ao mar”, com a sequência da escolha dos peixes “bons e maus”, de que iremos falar (Lc.5,5). Começava sendo usado o método dos gregos chamado método alegórico. A literatura cristã teve dificuldade para se expressar a esse respeito. Nos primeiros tempos não havia a palavra “céu” nem “inferno”, e digamos purgatório. Estes conceitos já eram originários da religião babilônica, donde passaram para o Judaísmo. Santo Irineu nas suas catequeses dizia que o paraíso seria lugar para onde iriam os justos depois de passar pelo lugar chamado céu das esferas celestes. Este era o lugar intermediário ou o primeiro degrau do paraíso. Outro nome era a Jerusalém restaurada. Orígenes tinha o paraíso como uma escola para os mortos honrados, preparando-os para ascender através das esferas celestes até o céu da abóbada celeste. A propósito, há uma expressão no evangelho de Mateus quando fala da rede e dos peixes, “O pai de família tira do seu tesouro coisas novas e velhas” Mt.13,53. No método alegórico quererá dizer que “coisas novas” serão a nova explicação ou o Novo Testamento; As “coisas velhas”, as do Antigo Testamento. Ou seja, o bom catequista  saberá manusear o Antigo para sacar lições novas. Voltando aos “bons e aos maus”, para os judeus antes do cativeiro só havia o Sheoll, que era o “lugar dos mortos.” enquanto que eles esperavam através da escatologia dos últimos acontecimentos a vitória final de Deus para estabelecer a Jerusalém restaurada. E como essa época parecia não vir mais, depois do exílio começaram a pensar num lugar de prêmio para os torturados pelas nações pagãs, e um lugar de sofrimento e castigo para os torturadores. Falámos atrás no método alegórico. O método alegórico entre gregos consistia em interpretar mitos e rituais do passado para estabelecer relações entre as crenças antigas e a nova sociedade que vai se formando. “A motivação para esta espécie de interpretação era uma genuína reverência pelas tradições religiosas antigas e explicá-las para descobrir significados espirituais ocultos em escritos clássicos de autores famosos. Com esses esforços, o método alegórico passou por um processo de elaboração transformando-se no método hermenêutico padrão da antiguidade que teólogos helenísticos judeus e cristãos adotaram de bom grado mais tarde para interpretar textos bíblicos” (H.Koester Introdução ao Novo Testamento, vol I, §4 1d, p.157). Este método funcionou para essa época helenística, para explicar por exemplo a Odisseia de Homero. Não só, mas também foi adotado pelos Padres da Igreja, e intérpretes bíblicos de toda a Idade Média como único método hermenêutico para interpretar a Bíblia. E digamos que ainda é o “método popular” vigente usado pela espiritualidade de todos os pregadores e comentadores da Bíblia como o mais cómodo, entregue à imaginação e explicação individual sem nenhum fundamento histórico-crítico, ou teológico, ou antropológico. No séc.II a.C. houve uma volta da filosofia às teorias de Sócrates, Platão e Aristóteles. Dois nomes tiveram influência nesse retorno, Panécio e Posidônio. Este último preferiu usar o método alegórico para explicar antigas teorias e adaptá-las às suas novas exigências, deixando para trás epicuristas e estoicos que não o aceitavam. Mas teve sucesso. E das teorias gnósticas e da cosmologia do platonismo deixou-nos o resultado da sua intuição: “O Sol é o puro fogo. O sol é a  fonte do espirito humano, que da Lua recebe a alma, e da terra o corpo” (o.c.§4, p.158). Isto é recorrente da antropologia cósmica do gnosticismo adaptada e pensada por Posidônio. “Aqui a jornada celestial da alma é a seguinte: quando o ser humano morre, o corpo se desintegra, enquanto a alma permanece por algum tempo na região sublunar, até definhar também para libertar o espírito em experiências místicas” (o.c.§4-2ª, p158). Estas reflexões recorrentes do platonismo, antes não bem vistas pelos estoicos acabaram vingando e serviram de base para a cosmologia e a ética estoica que se difundiu no império romano. Falamos do método alegórico e da ética estoica. O método alegórico na prática cristã tenta ir ao Antigo Testamento e sacar lições espiritualizantes para o Novo Testamento e para a vida cristã. A ética estoica propagada por Posidônio tinha três pilares. Primeiro, a finalidade não é o “prazer” mas a racionalidade, i.é, o logos ou razão pessoal que é a verdadeira natureza de cada um; Segundo, o reconhecimento de que o ser humano é “por natureza” uma criatura social, não entendido só na sua cidade mas no universo como um todo; Terceiro, a natureza, i.é, o logos de todos os seres humanos é o mesmo. Por isso distinções sociais, étnicas e raciais não têm sentido porque não são dadas "por natureza”.

Conclusão. Apontamos para o nosso título em que definimos o significado de “Reino dos céus”. Alegoria muitas vezes é uma parábola, como a cena da “rede lançada ao mar” com que no evangelho foi comparado o “Reino dos céus”. E falámos no método alegórico que não olha ao lado histórico, teológico ou crítico, mas só ao aspecto espiritualista e moralizante.

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 20 de julho de 2026

COMO A DITADURA MILITAR DEU FIM NO FUNDADOR DE BRASÍLIA, O DR. JUSCELNO KUBITSCHK DE OLIVEIRA.


 


A ditadura militar via Juscelino Kubitschek de Oliveira, o fundador de Brasília como uma grande ameaça política devido à sua enorme popularidade como fundador da nova capital do Brasil, Brasília e ao grande sucesso econômico de seu governo, como presidente do Brasil. Por isso fizeram de tudo para impedir um segundo mandato em 1965, um ano depois da instauração da ditadura militar. Os militares temiam que ele vencesse as eleições presidenciais nesse segundo mandato em 1965, pois eles quiseram estabelecer uma eleição de fachada um ano após a tomada do poder para paliarem a ditadura, e com a finalidade de eles se perpetuarem no poder. Então eles só tinham uma saída: era exilar Kubistchek, e assim o fizeram. Mas não ficou por aí, pensaram assassiná-lo num falso acidente, ou acidente preparado. Quando ele retornou do exílio  fizeram um atentado contra ele no dia 02 de agosto de 1976, forjando um acidente de carro onde assassinaram o fundador de Brasília botando no laudo o falso acidente. Quando foi criada a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos políticos em 2026 é que se concluiu que a morte de JK se tinha perpetrada nesse falso acidente com o qual quiseram iludir a Nação.

Os principais motivos de oposição foram:

  • Popularidade: JK foi o grande favorito para vencer as eleições de 1965, quando a ditadura já governava há um ano. Os militares golpistas não queriam correr o risco de perder a ditadura.
  • A ditadura queria se manter no poder por muito tempo. Por ter um grande apoio popular, a presença política de Juscelino ameaçava os seus planos.
  • Acusações infundadas: O regime militar usou a Lei de Segurança Nacional para cassar os direitos políticos de JK por 10 anos, e exilá-lo para o estrangeiro.
  • Frente Ampla: JK uniu-se a adversários históricos, como Carlos Lacerda e João Goulart, para criar a Frente Ampla. Esse movimento civil exigia o fim da ditadura e o retorno das eleições diretas, o que  os generais não queriam.
  • Só mesmo com a COMISSÃO ESPECIAL SOBRE MORTOS E DESAPARECIDOS DA DITADURA é que foi possível  descobrir a Fake News da DITADURA para esconder o assassinato do fundador de BRASÍLIA: era o mesmo que pretendiam fazer no atentado do 8/1 de  2.022 para botar de novo essa ditadura podre e assassina pela segunda vez no Brasil. Os podres vivem só de coisas podres como os carniças. SAIBA AGORA AS COISAS CERTAS.

P.Casimiro João         smbn

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segunda-feira, 13 de julho de 2026

EVANGELISMO SUL AMERICANO, ANÁLISE EM PRATOS LIMPOS


 

Na época da Guerra Fria, o Estado norte-americano viu a Teologia da Libertação e a Igreja Católica como problema geopolítico, isto é, como problema para o império norte americano de base protestante querendo dar uma cor mais parecida com o protestantismo deles lá. O caminho mais curto seria exportar para a América do Sul a sua vertente neopentecostal. E começaram uma campanha enviando pastores muito bem pagos com seus $dólares para fundarem templos e mais templos em cada canto e esquina. E em maior escala incentivando-os a se infiltrarem na política, de tal maneira que não custou a infestarem o Congresso com deputados e senadores frutos dos $dólares americanos, que logo avançaram para formar a bancada da Bíblia, no pior ultraje que jamais se deu de misturar religião e política.  Relatórios oficiais dos EUA apontavam a Igreja Católica latino-americana como força de mudança social, especialmente após o concilio do Vaticano II. Então o governo americano conseguiu levar o Vaticano para o lado dele através de muitas visitas de deputados e elementos da CIA que foram recebidos no Vaticano. Daí em diante, documentos da Igreja católica defenderam combater a Teologia da Libertação obedecendo assim à política dos Estados Unidos, como conta H.Kung no livro “A Igreja católica tem salvação? E houve aproximação entre política externa dos EUA e o Vaticano. Pesquisadores como David Stoll tratam a expansão evangélica na América Latina como fenômeno religioso combinado, ocorrido num ambiente em que Washington via a nova onda do catolicismo como ameaça, e setores conservadores dos EUA incentivavam alternativas religiosas para combatê-lo, no que conseguiram o apoio do Vaticano na época em que inclusive o Card. Ratzinger deu sinais que não queria aceitar o concílio cem por cento, mas pelo contrário, com muitas reservas. Era o pano de fundo que os Estados Unidos queriam. No Brasil, o crescimento neopentecostal também tem causas internas: urbanização acelerada, televisão, rádio, empreendedorismo religioso, falsas promessas de cura, rigorismo moral, rede de apoio à teologia da prosperidade. Autores como Ricardo Mariano descrevem o neopentecostalismo com forte presença midiática, política e empresarial tendo como pano de fundo a prosperidade ao jeito dos sonhos do Antigo Testamento mediante o imperialismo, o poder e a riqueza. O exemplo maior desta ideologia está na réplica do “Templo de Salomão” construído em São Paulo para trazer de volta o que já tinha a validade de prazo terminada. Afinal, ao que Jesus tinha dito que “não iria ficar pedra sobre pedra” do velho Templo que tinha se tornado “um antro de ladrões”, o seu Edir Macedo foi na mão contrária de querer voltar à réplica do mesmo Templo, ressuscitando de novo outro antro de novos ladrões que à custa de tanta enganação do povo e de tantos dizimeiros projetaram a mais baita safadagem de lavagem de dinheiro até formar o “Dizibanco” que agora enfrenta igual processo da Policia Federal igualzinho o EXBanco Master de Vorcaro. Vale dizer que Edir Macedo e seu Daniel Vorcaro são dois irmãos gêmeos.  E o que vemos hoje é que o neopentecostalismo brasileiro acabou se tornando uma das principais bases  políticas da extrema direita no Brasil. Lideranças religiosas transformaram púlpitos e redes de igrejas em estruturas de mobilização eleitoral. Em contrapartida, todos eles sustentam o pânico moral em torno de gênero e sexualidade, continuando a defender tudo quanto é de ideias arcaicas, e obsoletas tanto em matéria de ciências humanas e filosóficas como de religião. Em um comentário a este estado de coisas trago aqui a opinião e afirmação de um especialista do social, filosófico e religioso: “O povo descobrindo só agora que o neopentecostalismo foi uma estratégia da CIA para combater e enfraquecer a Igreja Católica e americanizar a sociedade brasileira” (Tauat Resende @eutauat).

P.Casimiro João      smbn

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segunda-feira, 6 de julho de 2026

A PECAMINOSIDADE SEMPRE CONSIDERADA PARA OS FIÉIS, NUNCA PARA A “HIERARQUIA”.


 

A autoridade é sempre considerada como como sem culpa, e os fiéis considerados sempre como culpados. Em  outra nossa publicação dissemos que Cristo não quis para si o título de “rei”. E hoje em dia os reis acabaram praticamente no mundo Os povos não quiseram mais os reis. Porém, tempos atrás, acabou o império romano, e a Igreja definitivamente ocupou o lugar dele. Aí nasceu a Igreja feita pirâmide: Papa, bispos, padres, leigos. E na sociedade civil: Clero, nobreza e povo, como era classificada em toda a Idade Média. A missão do Espirito Santo era só de fazer os fiéis acatarem e aceitarem na obediência o que decidiam e programavam os que estavam no topo da pirâmide.

Historicamente a “infalibilidade” do Papa não vem desde o nascimento da Igreja, mas vem a colegialidade, como se vê no primeiro concílio de Jerusalém onde as decisões saíram da colegialidade (At. 15). Hoje em dia isso tende a ser revisto cada vez mais, para deixar essa forma de uma Igreja abusiva usando essa plataforma como bengala de poder. Vimos ainda que os povos pagãos simpatizavam com  o nome de “rei” dado a Jesus. E de rei passava logo a imperador, ganhando o conceito de “império supremo de Cristo” sobre o mundo inteiro. Já se vê que respaldo daria essa ideologia a uma pessoa que se considerasse na terra o “representante” desse império, o Papa. Nada mais nada menos de que dar continuidade aos velhos sonhos de Israel de dominar o mundo com seu messianismo com a vinda do “reino” do filho de Davi e do sonho do velho Daniel (Dan cap.7), manifestado naquele pedido dos apóstolos:  “Senhor, é agora que vais restaurar o “reino” de Israel”? (At. 1,6).

Na época de Pio X e com a herança de toda a Idade Média fortaleceu-se a ideia da configuração da Igreja de Jesus como esse reinado vindo e nascido diretamente de Jesus sem que nada pudesse ser mudado e mexido nunca mais. Era a “infalibilidade” papal que estava em jogo. Porém, no concílio Vaticano II já começou sendo admitido  que a tão proclamada infalibilidade só pode ser assim conceituada  dentro de um consenso colegial. Neste setor temos que reconhecer que após século e meio de resistência às aquisições das liberdades oficiais do cidadão e do cristão vieram os textos do mesmo Vaticano II sobre a liberdade de consciência, liberdade religiosa, e direitos humanos que a muito custo foram sendo aceitos pela Igreja oficial. Na verdade até esta data, para a hierarquia eclesiástica o homem novo moderno que evoluía nestes conceitos de liberdade e emancipação e compreensão era tachado de “o homem velho” pecador e desobediente. Tudo que tinha o gosto de “moderno” era suspeito para a Igreja e considerado “tabu”. O conc. Vaticano II corrigiu a imagem anterior da Igreja para uma Igreja mais aberta. O Papa São João XXIII anunciou uma Igreja mais aberta mesmo e uma reforma mais ampla do Direito Canônico como frutos do Concílio que ele anunciou.  E dizem os entendidos que a edição que foi feita do Direito canônico não correspondeu às intenções fundamentais do mesmo Vaticano II, invertendo  o valor dos conceitos institucionais e dando mais valor à instituição do que à nova definição de Igreja como “povo de Deus” onde se realça a igualdade e liberdade dos fiéis leigos e os fiéis com outros títulos no mesmo serviço da Igreja. Vale dizer, na Igreja não tem títulos que separam, mas serviços que igualam na nova Igreja do Vaticano.

 

Nesta linha de compreensão fica corrigida a noção de pirâmide tradicional segundo a qual o pecado estava sempre do lado dos fiéis, e nunca do lado da hierarquia: a hierarquia como tendo sempre razão e humilhando sempre os fiéis, que sempre só “desobedeciam” e sempre eram pecadores. Vale dizer, o conflito era resolvido em favor da posição mais forte, e chamava-se a isto o pecado de base. Como consequência psicológica surgiam sobretudo sentimentos de decepção, de resistência e até de aversão. E afastamento de muito fiéis da Igreja. Só muitos séculos mais tarde é que veio um ou outro Papa pedir um perdão que já todo mundo não atendia e podia até ser considerado fora de época.

 

Na verdade, tantas vezes a hierarquia praticou uma política eclesiástica e não evangélica e teológica quando não queria nenhum diálogo com os que lhe eram incômodos, e no entanto formam parte da mesma Igreja que ela diz que é mistério de que todos participam. No entanto, estava ofendendo companheiros e não adversários. Pois na Igreja não há nenhuma relação de senhor e servo.

Resumindo: a pecaminosidade foi sempre considerada para os fiéis, nunca para a hierarquia; A autoridade considerada sempre como sem culpa. E os fiéis considerados sempre  como culpados.

P.Casimiro João         smbn

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