segunda-feira, 6 de abril de 2026

RESSURREIÇÃO EM PAULO COMO CONEXÃO COM A TRADIÇÃO JUDAICA.

 

 

A narrativa da ressurreição em Paulo tem duas explicações. A primeira é nos dizer que todos os conteúdos nas Cartas estão repletos de referências ao Livro do Gênesis, cap. 01-03, onde os conceitos de ressurreição são embasados no conceito de uma nova criação depois que a primeira fracassou. A segunda é nos informar em que consistia o conceito de ressurreição na teologia judaica: ressurreição-restauração, ou seja ação “vindicativa” do deus de Israel sobre todos os malfeitos dos outros povos sobre o povo de Deus; era a restauração das novas glórias de Israel: “agora mostra-nos a tua glória castigando as nações” (Eclo. 36,3). Comecemos pela primeira explicação: “Pois assim como através de um homem veio a morte também através de um homem veio a ressurreição dos mortos; pois assim como em Adão todos morreram, da mesma maneira em Cristo todos reviverão” (1 Cor.15,21-22). Aqui Paulo tem a intenção de nos comunicar que Deus colocou Jesus Cristo no lugar de Adão, numa segunda criação, como o verdadeiro homem novo. A tese é que Adão falhou na sua missão e por ele a humanidade também falhou e morreu, mas em Cristo reviveu e voltou à vida, ou ressuscitou. Com efeito, esta passagem toda trata da nova criação como cumprimento e resgate da antiga. “As histórias da criação e queda narrada em Gn.1,26-28 e 3,17-19 fazem o lastro da narrativa. Além disso há ainda o salmo oito onde se diz: Destes-lhe  poder sobre as obras de vossas mãos e lhe submetestes todo o universo” (Sl.8,7). O teólogo N.T.Wright afirma: “Não temos aqui um simples apelo à Escritura como se Paulo estivesse elaborando um argumento, mas com a sua reflexão ele abre seu caminho através de uma teologia da criação e da humanidade, e as alusões bíblicas indicam a narrativa da qual a ressurreição constitui o clímax, ajudando a história a chegar a seu objetivo pretendido” (N.T.Wright “A Ressurreição do filho de Deus”, p.471). Há uma pergunta intrigante na Carta aos Coríntios que diz: “Com qual corpo ressuscitarão os mortos?”, Ou: que tipo de corpo os mortos receberão quando forem ressuscitados? (1 Cor. 15,35). Aqui Paulo pensa na antropologia dos filósofos antigos que era assim: “A maioria dos filósofos pagãos da época, que acreditavam na existência das almas pensava que elas eram, como os corpos, compostas de matéria, ainda que em partículas sutis. Daí tinha que haver a ressurreição corpórea. Não tinham ainda os nossos conceitos que temos desde Descartes, de “físico” e “espiritual”; “material” e “imaterial” (o.c.p.444). Paulo combinou bem a filosofia antiga com a judaica surgida do livro do Gênesis, da primeira criação, da qual ele ia fazer surgir a segunda nova criação, quando fala do 1º Adão e do 2º Adão em 1 Cor.15,45-47. Sobre isto continua o autor citado: “Uma rápida olhada em Gênesis revela o quanto dos seus temas mais importantes bebeu no livro do Gênesis. O Deus criador fez o céu e a terra, e encheu ambos com as suas criaturas; Paulo as menciona e amplia seu discurso sobre elas para distinguir  o 1º Adão do último Adão. Para Paulo o vértice da história é a recriação da humanidade através da ação do último Adão cuja imagem será “portada por todos aqueles que pertencem a ele” como se diz em Cor.15,49. Esta é uma teologia reflexiva e cuidadosa de um novo gênesis, isto é, de uma nova criação  renovada. (cf. o.c.p479-480).  Um pouco da história de Paulo: Paulo foi formado na escola dos fariseus; essa escola surgiu na época dos macabeus, em 160 a.C, quando começaram a formar a sua teologia da ressurreição. Mas que tipo de “ressurreição”? Para eles era uma ressurreição-restauração, ou seja o restauro da poderio da nação judaica depois de todos os fracassos. Seria a época da “vingança” divina sobre os inimigos do povo de Israel, a prestação de contas e o juízo ou julgamento de todas as nações. Este é o ponto fulcral que nos leva à segunda explicação que falamos no início: a teologia judaica da ressurreição. E aqui se une a teologia de Paulo na teologia da “nova criação” do Gênesis com a teologia judaica da nova criação da nação judaica, que posteriormente ficou sendo chamada de “restauração” da Nação e finalmente de “ressurreição” juntando os dois termos “ressurreição-restauração”. Mais à frente ainda nos diz o mesmo autor falando sobre as narrativas evangélicas da ressurreição, resumindo tudo com a narrativa de Mateus 20,1-10 a respeito do qual afirma: “Ao longo de toda a tradição posterior, de Paulo a Tertuliano, desde os primeiros dias desta tradição, a ressurreição de Jesus foi vista como tendo ocorrido precisamente ‘de acordo’ às Escrituras. Desde muito cedo, os primeiros cristãos desenvolveram uma sofisticada rede de exegese bíblica a fim de demonstrar que a ressurreição de Jesus foi exatamente o que era de se esperar, e que ela proporcionou tanto o cumprimento das esperanças de Israel e profecias quanto o fundamento para a sua própria missão” (o.c.p.825-826). Temos aí o significado  da expressão: “Segundo as Escrituras”. E continua: “A ressurreição assim  no pensamento farisaico situa-se claramente dentro  de uma teologia do reino de Deus; e todo judeu do 1º século sabia que uma teologia do reino de Deus inevitavelmente carregava um significado político: colocar as nações “debaixo de seus pés”.(Sal.47,3).      Desta maneira, a “ressurreição” na cabeça de todo judeu era trocar a atual ‘ordem’ do império de César pelo império do Messias, como falou Paulo as Colossenses: “Despojando os principados e potestades, expondo-os ao ridículo no triunfo sobre eles” (Col.2,15). Na verdade Paulo aí imagina um desfile triunfal romano onde o general vitorioso exibe publicamente os inimigos conquistados mostrando sua autoridade e vitória. Assim como no salmo 8,6 onde, em termos também militares se fala da vitória do criador sobre o ‘governantes, autoridades e poderes tanto humanos quanto sobre humanos que ameaçavam a boa criação (o.c.p 473). Paulo tinha uma formação farisaica e partilhava a teologia radical nacionalista, como é observado quando trocou a sua luta contra os cristãos para depois defendê-los naquela mudança de direção que ele chamou a visão de Damasco. Como afirmado, tanto Paulo  pulava da teologia judaica nacionalista, como pulava para a narrativa mítica da criação. Sua reflexão era então: Adão trouxe a morte, outro Adão trouxe a nova vida e uma nova criação. Fica claro que Paulo está no mapa judaico: dentro deste mapa judaico ele se situa justamente como a maioria dos judeus, no mesmo lugar que os fariseus e muitos autores de apocalipses.. Isto é, ele acreditava na futura ressurreição de todo o povo de Israel pela qual Deus vingaria  todas as mortes do povo judeu, na mesma linha da visão do vale dos “ossos ressequidos” do cap.37 de Ezequiel.. Isso seria o maior sinal da vingança divina definitiva em duas vertentes: a primeira, dando a vida aos mortos do povo de Israel; a segunda, vencendo a morte em definitivo. Porquê? Porque se desse alguma chance de a morte continuar no mundo então o Messias não se manifestaria como o novo “Adão”, e como o “senhor do novo universo onde todos os inimigos seriam derrotados e levados em “cortejo de  triunfo”, e onde o “último inimigo seria a morte”, para poder dizer “ó morte, onde está a tua vitória, ó morte, onde está o teu aguilhão e a tua força” (1Cor.15,55).

Conclusão. A ressurreição em Paulo girava então em volta de dois polos. O primeiro polo, partindo do primeiro e do segundo “Adão” do livro do Gênesis; o segundo polo partindo da teologia judaica da “vindicação” ou vingança divina  e definitiva em favor do povo de Israel diante de todo mundo, uma vez que no Messias estava representado todo o povo, que futuramente, depois dele, ia ser premiado com a mesma ressurreição-vindicação definitiva.

P. Casimiro João      smbn

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segunda-feira, 30 de março de 2026

A CORAGEM DE JESUS


 

A coragem de Jesus se manifestou em primeiro lugar em enfrentar uma sociedade inflada por dois orgulhos: o orgulho de ser religioso, e o orgulho da nação. O orgulho de ser religioso leva ao desprezo dos outros. E o orgulho da nação leva ao nacionalismo, ou um tipo de nazismo. O orgulho de ser religioso cria uma casta de piedosos e virtuosos que se separam dos que eles desprezam. O orgulho da nação leva a se considerar como dono do mundo Eram as duas faces da mesma moeda de todo judeu. No lado religioso excediam-se em preocupação da observância dos mínimos preceitos. Colocavam aí os seus créditos religiosos e de quebra a obrigação por parte de Deus de lhes pagar como um salário. (Rom.4,4). E de quebra ainda buscando posições e privilégios enquanto mantinham raiva e nojo com os não cumpridores, sendo quais fossem  os motivos, como o sufoco da cada dia de encontrar o alimento de cada dia, coisa que para eles não existia porque viviam na abundância e no luxo.  O orgulho de nação consistia na ideologia que formaram de serem a nação “escolhida” por Deus para ser um dia a maior do mundo, o “carro chefe” da humanidade.  Porém, nos evangelhos, o Deus que Jesus chama de Pai é um Deus que não se permite monopolizar por uma casta de piedosos e virtuosos que estão seguros da recompensa correspondente à sua observância. Deus não quer ser garante de posições e privilégios na sociedade civil e religiosa”(Schillebeeckz, História humana revelação de Deus, pag.154). Na verdade para esses abastados e vivendo no luxo, o sofrimento dos pobres e sem salário não os comovia, muito menos suas doenças e carências. Muito ao contrário, pelo seu jeito da agir se transformavam numa máquina de fabricar lázaros pobres como aquele que vivia coberto de chagas à porta do rico que se banqueteava todos os dias com largos banquetes (Lc.16,19). Para eles só existia o reino deste mundo onde impera o lucro, a ganância e o desprezo dos excluídos. Quando Jesus falava de outro reino, o “reino de Deus”,  para eles esse reino não existia. Na verdade, “o ‘reino de Deus’ é um mundo novo sem sofrimento, mundo cheio de pessoas sãs e curadas numa sociedade em que domina a paz e não existe nenhuma relação de senhor-escravo, uma situação inteiramente diversa da sociedade do tempo de Jesus”.  (o.c.p.156). Imaginemos a coragem de Jesus para anunciar esse reino especial sem dominação e sem exploração. Dominação da parte da religião oficial e da política oficial, onde o pobre era excluído, sem nenhum direito de sobreviver, como aquele das dívidas que aconteciam quando os pobres tinham que entregar suas terras aos grandes fazendeiros para pagar suas contas. (Mt.18,25). Por isso aquele ‘reino de Deus’ acontecia no anúncio e na coragem de Jesus quando teimava em afirmar: “aos pobres é anunciada a salvação e a boa nova” (Lc.4,18). O que era a salvação? Era a salvação das amarras em que os pobres estavam amarrados pelas leis da religião. Jesus arriscava curar em dia de sábado proibido, e juntar marginalizados na mesma refeição. Proibir a cura no sábado? Você já imaginou o que é proibir a saúde, a vida? Todo humano normal tem isso em primeiro lugar: zelar pela saúde e vida do irmão. Imagine proibir isso por conta da religião. Já viu maior amarra e mais perversa do que essa? Essa era a coragem de Jesus de romper com as proibições religiosas. E ao mesmo tempo civis porque na teocracia o que é religioso funciona como civil e o que é civil funciona como religioso. Por outro lado, esse reino de Deus trazido e anunciado por Jesus era a dimensão muito importante no que toca à socialização. Jesus encontrou a salvação negada, a socialização negada, a igualdade negada e a fraternidade negada. Para os “de fora” que não pertenciam a Israel não havia salvação; nem havia socialização porque o convívio e as refeições separavam e excluíam; a sinagoga excluía; a doença excluía, a lepra excluía; o pecado excluía, a raça excluía, o gênero excluía. Já referi várias vezes que antes da religião há a pessoa humana, e quem exclui a pessoa humana em  nome da religião não é nem humano e nem religioso. Na verdade a Igreja durante muitos tempos herdou sem sentido crítico a perversa cultura da negação da convivência e da socialização com o insulto chamado excomunhão. Seria igual à excomunhão que expulsava os leprosos para viver no mato, “fora” da sociedade, e “fora” da sinagoga, e “fora” de alguém poder tocar neles. Também temos dito várias vezes que o “amor vale mais do que a fé”. Neste ponto tem sido contrária a práxis da Igreja nas excomunhões: a “fé tem tido mais valor do que o amor” (Confira 1Cor.13,13). Infelizmente, já dissemos também que logo a 2ª Carta de João deu esse mau exemplo para a Igreja futura quando disse: “Se alguém vier a vós sem trazer esta doutrina não o recebam em vossa casa nem o saúdem, porque quem o saúda tem  parte em suas obras”(2Jo.10-11).  Não foi de graça que os participantes do concílio vaticano II inovaram uma nova fase de um novo entendimento em que a Igreja não é feita para condenar e excomungar mas para dialogar e acolher. Isso tinha um nome: imperialismo, que é resumo de vários ismos: exclusivismo, obscurantismo, despotismo, tiranismo e ditadurismo. Adequando com isto nos diz um autor: “A Igreja e os homens das Igrejas podem cair na idolatria por absolutização do que simplesmente é relativo” (Schillebeebckz o.c.p.12). Vejamos que quando havia a vontade de excomungar alguém havia a convicção de que a Igreja tinha o “depósito da verdade” no sentido de que todas as coisas do Novo Testamento fossem escritos do próprio Jesus. O que acontece é que a teologia bíblica foi descobrindo que “não possuímos nenhum escrito de Jesus, dele próprio, nenhum documento direto. Os discípulos posteriores buscaram compreender o significado que Jesus tinha para os seus primeiros discípulos, uma vez que também eles não escreveram nada”.(Schillebeeckz, o.c.p.140). Um exemplo de que um significado mal entendido teria sido essa citação da 2 Carta de João que referimos. E, como relata H.Koester, essa citação pode ter dado muito pano para a Igreja posterior, e até chegar aos nossos dias, isto é, até o concílio vaticano II: a cultura da excomunhão. Concluindo: havia um ditado entre os romanos que dizia “onde há religião aí há subversão”. E para os judeus funcionava também numa afirmação do profeta Jeremias: “O justo se opõe a nós, nós para ele somos como moeda falsa”(Jer.6,30). Foi preciso uma coragem sobre humana  da parte de Jesus para enfrentar Judeus e romanos em duas frentes.

P.Casimiro João       smbn

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segunda-feira, 23 de março de 2026

O HOMEM INVISÍVEL, OU “O TERCEIRO HOMEM”


 

“O ‘terceiro homem’ é aquele que toma consciência de que o universo das fórmulas que se repetem e dos ritos que se cumprem, simplesmente deixa, de lhe falar; por isso se afasta sem ruído nem drama. Fazendo-se valer sobretudo da sua própria consciência, procura a abre-se a outras referências para ele ler a realidade e orientar a própria vida” (François Roustang, citado por José Frazão Correia em livro recente: “Quem quiser ganhar há de perder”, Sete Margens, 29/10/26). (Obs: falamos do homem ou mulher invisível).

Continua o Padre Frazão: “Concílio Vaticano II? Apenas recordação, mas a vida continua se orientando pelos “cânones” tridentinos”.

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 16 de março de 2026

NÃO IDOLATRAR A BÍBLIA, VALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO.

Não é novidade que havia validades de prazo do Antigo Testamento. Essa descoberta não é só da visão teológica e da crítica atual, mas “já foi manifestado por autores de diversos escritos do Novo Testamento, pois há partes do A.T. que foram abrogadas, outras deixaram de ser normativas e outras foram relativizadas ou corrigidas, especialmente as leis do Pentateuco” (Eduardo Arens, “A Bíblia sem mitos” Paulus, 2014, pag.199). Sem contar que teólogos antigos como Marcião excluíam do seu cânon o Antigo Testamento. Partes que foram abrogadas  ou deletadas não é difícil de encontrar, como Circuncisão. Abluções, Leis sabáticas, todas as leis de morte para “pecados sexuais” (Lev.19,20-29); leis de morte e apedrejamento. E pecados que eram castigados com fogueira, “os três serão queimados vivos” (Lev.20,14). Outras que deixaram de ser normativas, como sacrifícios de animais, cultos e suas cerimônias e suas vestes e leis de sangue. E leis relativizadas, como de gênero, de todo tipo de exclusão por conta de raça, de riqueza, doença, ou pobreza ou gênero. Assim como maldições (Lev.26, 15-46). E também leis de escravidão que permitiam a venda de pessoas como escravas (Lev.25,44-54). Todas estas situações tiveram seu tempo que dependia da cultura atrasada e primitiva da humanidade e dos judeus. Acabou o prazo de validade. Embora que a própria Igreja tivesse imitado até há bem pouco tempo essas situações de morte, de queima etc. pelos séculos XVI até XVIII. Isto nos leva a ver que seria incômodo afirmar que estas eram “palavra” de Deus e “ordens de Deus”. Eram palavras e ordens das pessoas humanas daquela época primitiva, que se atribuíam autoridade com coisas tão odiosas. E não iríamos dizer que essas autoridades eram constituídas por Deus, mas nasciam de relações primitivas de como os povos entre si se organizavam, tanto na ordem social como na religião. E nem que essa religião e essa autoridade vinha de Deus porque se fosse de Deus, seria  Deus que era o culpado. Como vimos noutra página, cada povo teve sempre uma religião e seus sistemas religiosos, assim como teve uma política e seus sistemas políticos.  Tanto entre judeus como não judeus. Já vimos o que é religião e o que são sistemas religiosos: religião é a busca de Deus e de obediência à consciência; sistemas religiosos são as formas e as formatações de como exprimir e manifestar a amizade com Deus, ou o temor, ou o louvor, e “aplacar” Deus para ele não “castigar”, e depois agradecê-lo. E isto inclui gestos, ofertas de animais, danças, e livros que contam as coisas de cada época, e as louvações ou sacrifícios de cada época, que mudavam segundo as circunstâncias e os entendimentos de cada época. É isso que estamos detectando também na Bíblia, que faz parte desses sistemas religiosos universais. Vejamos alguns exemplos de coisas que acabaram com o tempo na Bíblia, além do relatado atrás: A poligamia(vários casamentos) praticada por todos os reis de Israel; a facilidade do divórcio, como ficou escrito no Deuteronômio, e como  era praticado por todo o judeu: “Se um homem toma uma mulher e se casa com ela, e resulta que esta mulher não ache graça a seus olhos porque descobre nela algo que lhe desagrada, lhe redigirá uma ata de repúdio, colocará na mão dela e a despedirá de sua casa” (Dt.24,1-5). Eis o que diz Eduard Arns a respeito: “A Bíblia não é um livro onde se encontram respostas a todos os problemas, tal como controle da natalidade, corrida armamentista, ecologia. Os problemas daqueles tempos não são idênticos aos nossos. Não somente isso, mas as respostas correspondem ao grau de compreensão de cada época. É assim que o problema do divórcio recebeu diferentes respostas em diferentes escritos da Bíblia (Dt.22,13; e cap.24,1-5; Mc.10,1-12 e Mt.19,3-9). As respostas estavam condicionadas pela teologia do momento e dirigiam-se a auditórios concretos daqueles tempos. A vontade de Deus para nosso momento histórico atual deve ser buscada para tempos de hoje. Os escritores bíblicos  ofereciam referências e orientações para o tempo deles. Eles não tinham condição de ensinar sobre questões de biologia, de antropologia, de psicologia social, mas para comunicar suas crenças” (o.c.p.233-234). Para terminar vejamos alguns erros da Bíblia: *A arqueologia descobriu que Jericó não era habitada nos tempos de Canaã (Js.6-9) *Nabucodonosor era rei da Babilônia, e nunca foi rei de Nínive (Jd.1,1) *Em Dn.cap.5 se dia que Baltazar era filho de Nabucodonosor, mas não era; ele era filho de Nabomid, o último rei da Babilônia. *Não foi Dário que conquistou a Babilônia, mas Ciro (Dn.6,1). *Dário não era filho de Xerxes, ao contrário, ele é que era o  pai de Xerxes (Dn.9,1). *Na arca de Noé se diz duas coisas contrárias, uma vez que entrou um casal de cada ser vivo e noutro lugar que entraram sete casais de cada ser vivo (Gn.6,19 e Gn.7,2). * Também num lugar diz que o dilúvio foi de 40 dias, e noutro lugar de 150 dias (Gn.7,12 e Gn.7,24). *Que o rei Joaquim não tinha filhos (Jer.22,19) mas quem lhe sucedeu foi seu filho (2Rs.24,6). *Em 2Sam. se diz que Davi comprou um terreno por 50 ciclos de prata, e em 1Cr. que comprou o mesmo terreno por 600 ciclos de ouro.(1Cr.21,25). Enquanto há o mandamento “Não matarás” (Ex.20,13), em Josué Deus mandou “passar a fio de espada” todos os habitantes das cidades conquistadas, inocentes ou não (Jer.10,28). Para terminar, “como poderia explicar-se que teria sido Deus quem inspirou a ideia de que a terra era plana e o centro do universo, quando sabemos que a terra é somente um planeta que gira em redor do sol, e não o contrário? Caso tivesse sido assim, Deus se teria equivocado muitas vezes e seria responsável pelos erros que estão na Bíblia” (E.Arnes, “A Bíblia sem mitos”, p.243).

Conclusão. Para o Islão o livro do seu sistema religioso é o Corão, e eles afirmam que foi escrito por Deus. Eles idolatram o Livro. Em contrapartida o Novo Testamento acabou por idolatrar também a Bíblia porque também pensavam que era  “escrita por Deus. Será que Deus disse uma vez uma coisa e depois outra coisa? Afinal, os dois livros fazem parte de dois sistemas religiosos. O Corão faz parte do sistema religioso deles, e a Bíblia faz parte do sistema religioso dos judeu-cristãos. Não podemos idolatrar a Bíblia.

P.Casimiro João        smnb

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segunda-feira, 9 de março de 2026

ORAÇÃO E MAGIA E BATISMO.

 



Há um exemplo muito elucidativo numa etapa do crescimento ou não crescimento do povo da Bíblia, onde se mostra uma mentalidade primitiva mágica. É no livro do Êxodo, pelo ano 1.200 a.C: “Amanhã estarei de pé no alto da montanha com a vara de Deus na mão. Quando Moisés conservava as mãos levantadas, Josué vencia o inimigo, quando Moisés deixava cair as mãos, o inimigo vencia. Pegando então uma pedra colocaram-na debaixo dele, e então Arão e Ur, um de cada lado sustentavam as mãos de Moisés, e Josué derrotou os inimigos a fio de espada” (Ex.17,9-13).  Ainda hoje há essa atitude. Adulto que não cresceu na fé e no entendimento continua na fé de criança, assim como os judeus pensando que num estalar de dedos Deus resolvia todas as coisas, ou na expressão de hoje “fazia milagres.” Vamos ver que esta magia não se infiltrou só na oração mas também no sacramento. Comecemos pelo  batismo. Comumente o batismo se torna um rito muito simples: é só botar a água na criança e pronto. A gente acha que o batismo automaticamente salva, como uma coisa mágica. Porém, etimologicamente batismo significa muito mais do que isso. Batismo é um mergulho. Mergulho na vontade de Deus e na missão que temos que fazer, do qual o mergulho na água é o símbolo ou a comparação. Sem dúvida, como Jesus terá dito um dia: “devo receber um batismo, e não vejo a hora para que isso se cumpra” (Lc.12,50). Qual era esse batismo? Não era ir para a paixão e morte próxima? Para nós, batismo é muito simples, mas ele é esse mergulho de corpo inteiro na vontade de Deus e nas tarefas que temos que fazer, assim como Jesus fez esse mergulho. Infelizmente, nas catequeses habituais se insinua que o batismo perdoa os pecados e pronto. E veio a tradição que sem o batismo não havia salvação. E de quebra que quando estamos batizados estamos salvos. A mágica funcionou. De tal maneira entrou na cabeça do povo que ficou resumido que a vida do cristão é só ser batizado. Porém agora a Igreja diz que não são só os batizados que se salvam. Nesta lógica poderá alguém perguntar: então para que serve o batismo? Eu respondo: O batismo não é para a outra vida, é para esta. Se é na Igreja católica é para cumprir as tarefas da Igreja católica; Se for nos evangélicos é para cumprir as tarefas dos evangélicos, e assim por diante. Imagine só isto: o militar é para esta vida, não é para a outra vida; o advogado é para esta vida, não é para a outra vida; o médico é só para esta vida, não é para a outra vida. Na outra vida não vai ter militar, nem médico, nem advogado, e nem padre, nem bispo e nem Papa, porque lá não precisa. Onde precisa é aqui nesta terra. É assim que Jesus disse: “tenho que receber um batismo, e era para cumprir as tarefas que ainda faltavam. Assim nós. Na verdade, o desenvolvimento da humanidade teve o paralelo com o desenvolvimento da criança. Vejamos.

A criança é por natureza mágica. Ela nasce mágica. Porquê? Porque não sabe fazer ainda nada. É o pai e a mãe que fazem tudo. O pai faz os brinquedos, conserta os brinquedos. O pai é forte. Defende do cachorro, defende dos bichos, pega no colo, nas cacundas, cura as doenças, bota o carro para andar, conserta os estragos, sabe onde está a água, onde está o mercado, bota tudo em casa. O pai é o herói. É maior que todos. A humanidade era uma criança. Ela também nasceu mágica. Assim como para a criança o pai pode tudo, também para a humanidade Deus podia tudo. Era Deus que fazia tudo, o fogo, as nuvens, as plantas, o mar e os frutos. Vai ver, se a criança não crescesse, ela iria ficar sempre criança e na dependência total da mãe e do pai o tempo todo. Pais que fazem tudo para as crianças, botam as crianças na vida sem aprender a fazer nada.. Ao contrário, a criança que começou a ganhar independência pouco a pouco, aprenderá a não depender dos outros e a resolver os seus problemas. Sua experiência junto com o seu estudo lhe ensinarão a resolver os seus problemas. Assim aconteceu com a humanidade. Tem aquela parte da humanidade que, apesar de muitos séculos que passaram, ainda ficaram como crianças que não desenvolveram. Quem sabe, seriam os pais que o pouco que sabiam não ensinaram aos filhos. Justo pelo medo de que os filhos aprendessem demais, e mais do que eles. Isto aconteceu nas sociedades que guardavam muitos segredos. Alguns velhos que tiveram sorte de aprender mais coisas não é que guardariam muitos conselhos a sete chaves? E por isso são temidos, porque eles podem fazer mal aos outros, por vingança. Não será daí que vem a tradição e a cultura dos feiticeiros e dos gurus? Em contrapartida, em outras partes do mundo democratizou-se o ensino. E foi onde os pais não tiveram medo de ensinar os filhos. Pais e filhos frequentaram círculos de mais ensino, ou eles mesmos os criaram. Nasceram assim as escolas e as Universidades. Aplicando este aporema agora ao pensamento e à religião acontece a mesma coisa. Aristóteles observava que o ser humano, por natureza, tende ao saber. E também à religião. Neste desenvolvimento, a humanidade também se dividiu em duas etapas. Na primeira etapa, a humanidade  quando era criança punha todo poder em Deus, como a criança no poder do pai. Mas quando cresceu livremente começou vendo que tudo não dependia de Deus mas também dela mesma. A humanidade que entregava tudo a Deus pra ele tudo fazer, continuaria com uma atitude mágica de só Deus fazer tudo pra ela como num estalar de dedos. E daqui temos ainda hoje dois tipos de humanidade: Uma que faz, inventa, faz coisas acontecer, transforma coisas e inventa outras. E assim se chegou à inteligência artificial, aos robôs e ao celular. Isto aconteceu numa parte da humanidade onde o estudo acompanhou o crescimento da humanidade. Em contrapartida, naquela parte da humanidade onde o estudo não acompanhou, a humanidade ainda vive bastante na época da magia e dos segredos dos feiticeiros e dos gurus.

Conclusão. Falta-nos o tempo de avançar para a narrativa de outros sacramentos, pois falamos no batismo. Mas, pelo dito, dará para descobrir sinais de magia também, e coisificação, noutros sacramentos. Dizemos “coisificação” porque é o mesmo significado de magia. E infelizmente essa magia ficou por muito tempo “consagrada” na Igreja com a expressão que os sacramentos agem “ex opere operato”, ou seja, posto o rito, tudo acontece automaticamente. É o fato de reduzir Deus a uma “coisa”, e os sacramentos também a “uma coisa”.

P.Casimiro João      smbn

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segunda-feira, 2 de março de 2026

QrCode DOS LUGARES ALTOS, SOBRE O MONTE TABOR


QrCode não é sobre o quadro, é sobre o que tem dentro. Há muitas narrativas na Bíblia que aparecem assim como os qrcode da moderna informática. Aqui o significado também não é sobre o que se vê escrito na letra como num quadro mas no que tem dentro. Por exemplo no evangelho de Mateus se conta que “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João  e  os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha” (Mt.17,1). E no nosso CrCode logo vai aparecer o significado dos “lugares altos” no Antigo Testamento. Os antigos tinham a ideia de que  os lugares altos eram o lugar onde desciam os deuses e ali se podia falar com os deuses e até fazer refeições com os deuses. Não só, mas onde se ofereciam sacrifícios aos deuses.

Os lugares altos então eram lugares privilegiados onde se podia entrar em contato com o sagrado. “Um lugar à parte”. Não fica fora do nosso objetivo se conseguirmos comparar com o nosso qrcode: Aqui também não é sobre o lugar alto ou alta montanha, mas sobre “ouvir e “escutar”. Escutar quem? "O meu filho amado." Efetivamente “da nuvem uma voz dizia: “Este é o meu Filho amado em quem pus todo meu agrado, escutai-o” (Mt.17.5). Essa é a principal mensagem a ter em conta. E tem ainda a segunda mensagem que é a “presença” de Moisés e Elias”. Esta  segunda mensagem revela quem não deveriam mais ouvir: Moisés e Elias, do Antigo Testamento. Isso para nós agora não diz muita coisa mas para eles dizia, porque para eles Moisés era quase como um deus. Todos os outros detalhes pertencem ao gênero tradicional das teofanias, ou manifestações de Deus: relâmpagos, luzes, nuvens, medo e sono, dormir e acordar.

Vejamos lugares paralelos em que se conta a presença de Deus com os homens nos lugares altos, e até com refeições, quando os deuses desciam nas montanhas. “Jacó ofereceu um sacrifício sobre a montanha onde se erigiu a estela de pedras e convidou todos os parentes que ali estavam para uma refeição de confraternização. Eles comeram e passaram a noite sobre a montanha.” (Gn.31,54). “Acaz Ofereceu sacrifícios e incenso nos lugares altos, nas colinas e debaixo de toda árvore verdejante”(2 Rs. 16,4). A célebre cena com Abraão: “Disse Deus: toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas que eu te direi." (Gn.22,2). E sobre os sacrifícios dos pagãos: “Devereis destruir totalmente todos os lugares altos nos quais as nações pagãs que estais desalojando costumam adorar seus deuses, tanto nos altos montes como nas colinas e à sombra de toda árvore frondosa.”(Dt.12,2). Avalie você a adequação da nossa colocação, até porque nenhum dos evangelistas dá nome à tal montanha, mas só “alta montanha” em Mateus 17,1; “alto monte” em Marcos 9,2 e “um monte” em Lucas 9,28. Por quê nenhum dos evangelistas deu nome nenhum? Na sua opinião este detalhe não é que define melhor o nosso título inicial: O QRCODE DOS LUGARES ALTOS? que, como ficou dito, não é sobre montanha, mas sobre "ouvir"; ouvir quem "Jesus," o filho dileto de Deus. E não mais Moisés.

P.Casimiro João       smbn

www.paroquiadechapadinha.blogspot,com.br

 

 

  

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

OS 40 ANOS DE MOISÉS NO DESERTO E OS 40 DIAS DE JESUS


 

Não é sobre número 40, mas sobre uma vida inteira. Quando a Bíblia fala que Moisés passou  40 anos no deserto, (Dt.8,2) é para dizer que devemos passar a vida inteira procurando a nossa salvação, que eles verbalizavam na "terra prometida". E quando fala que Jesus passou 40 dias  no deserto, (Mt.4,1-11) é para dizer que Jesus passou toda a sua vida debaixo das provocações e perseguições dos seus inimigos, quais outros demônios. Com os 40 anos de Moisés se diz que o tempo médio de duração de uma vida era de 40 anos: todas as pessoas morriam nessa faixa etária, entre os 30 e 40 anos. Quando se fala dos 40 dias de Jesus no deserto é uma referência para cumprir o “plano” de Deus e os seus compromissos com a humanidade em toda a sua vida. Simples assim e metafórico assim. E as nossas vidas, a sua e a minha, não estão também dentro dos 40 anos de Moisés e dos 40 dias de Jesus? Certamente  que sim.