Perguntaram a um ateu
como pode haver homens bons sem Deus? Ele respondeu: E como, com Deus, pode
haver homens tão maus? Na verdade, religiões não são salvação; são caminhos de
salvação. Fala-se que o comunismo matou muita gente. E quanta gente mataram as
religiões? E “a melhor religião” do mundo não matou o filho de Deus? E quantos governos não têm matado milhões “em nome
de Deus? Sempre houve na igreja a tensão
entre instituição e comunhão, ou carisma, na expressão de Leonardo Boff. Muitos
constatam que as Igrejas se comportaram como sendo as únicas detentoras da
verdade e da salvação. E muitas vezes lutaram umas contra as outras levadas por uma incorreta convicção de que só elas tinham a salvação em suas
mãos. Quantas vezes as Igrejas lutaram entre si e originaram excomunhões e se
trataram umas às outras como “hereges” e fizeram cismas. Hoje inventou-se o Ecumenismo
para a aproximação, cujo melhor significado seria “correr atrás do perdido”.
“A Igreja tem de
distinguir-se de uma administração burocrática centralizadora da dimensão
institucional. Quantas vezes nesse âmbito ocorre política eclesial míope e pouco inteligente,
critérios não evangélicos, arbítrio e agravo à pessoa? Sem essa visão de vida
eclesial que sempre se deve retomar de maneira nova, a Igreja deixa de ser um
movimento originário de salvação, convertendo-se em instituição de poder que
oprime, humilha e faz sofrer pessoas”. (E.Schillebeeckx, “História humana
revelação divina”, pag.206). É justamente neste sentido que se direcionam
muitas advertências do Papa Francisco no documento “A Alegria do Evangelho. O
escritório e o gabinete da administração paroquial está sujeito, como as
instituições jurídicas e civis a cair nesta tendência burocratizante. Além
desta, há ainda a tendência do julgamento das pessoas. Porém, é necessário
olhar que o critério evangélico deve prevalecer. E a isso nos convida e
evangelho quando proíbe essa facilidade do “julgamento”, com a parábola da
trave no próprio olho e do cisco do olho do irmão. (Mt.7,3-5). Assim como
aquela outra advertência que “o julgamento de Deus começa pela casa de Deus”
(1Pd.4,17). Falando nisso, ocorre a tentação de se firmar num certo conceito e
preconceito de que estamos protegidos com colete à prova de bala para manter
uma autoridade indiscutível apoiada na sentença “as portas do inferno não
vencerão” de Mt.16,18; e “Eu estarei convosco todos os dias até à consumação dos séculos” de
Mt.28,20. Devemos, no entanto, ter em conta que o significado destas sentenças
é que elas “não significam garantia automática de salvação e verdade, mas que
sempre haverá homens e mulheres dispostos a se reunir ao movimento eclesial por
causa do evangelho, levando avante o facho da fé cristã e querendo edificar a igreja” (o.c.p.207).
Falamos
que a religião não é salvação, mas caminho de salvação. Quem pensava o contrário disso eram eram
os fariseus no seu orgulho de se considerarem os únicos detentores da salvação e
os “únicos donos de Deus”. E por seu lado a Igreja herdou essa mentalidade ou
ideologia, considerando-se também, por sua vez o único caminho e a única
detentora da salvação e a “única dona de Deus”. Os fariseus tinham nos seus
ensinamentos que a Lei ou Torá tinha sido dada antes da fundação do mundo. E há
lugares sobre a Lei em afirmações do evangelho,
como: “O mandamento é lâmpada, e a Lei da Torah é luz, e as
repreensões da correção são o caminho da vida". (Prov.6,23). O que não
custa admitir que terá sido um link copiado para a edição do evangelho de João:
“Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Aliás afirmações como essa são atribuídas também à
deusa grega Osíris. Porém, a história da humanidade apresenta muitos
caminhos de salvação, além do cristianismo católico e protestante, como o
Islamismo, o hinduísmo, o taoismo, o animismo, os caminhos africanos e
indígenas. O concílio vaticano II declara que “os homens esperam das diversas
religiões respostas aos seus enigmas não resolvidos da existência humana que
hoje como sempre movem os corações dos homens” (Nostra aetate, N.1. Também o
concilio vaticano II questionou o concilio de Florença que negava a salvação a
todos os não católicos. Desde os primórdios do cristianismo os cristãos se
fizeram a pergunta se os “de fora da Igreja” também se salvam? “Então
Pedro tomou a palavra e disse: Em verdade reconheço que Deus não faz distinção
de pessoas, mas em toda a nação lhe é agradável aquele que o temer e fizer o
que é justo” (At.10,34-35). No entanto, no decorrer dos tempos houve mais
quem fechasse as portas da salvação do que quem abrisse. O citado concílio de
Florença divulgou o jargão “Fora da Igreja não há salvação”; porém, por sua vez
o concílio Vaticano II divulgou o jargão
“Fora da Igreja há muita salvação”. Antes do concílio e
durante o concílio vários teólogos
reconheceram que outras religiões são também caminhos de salvação, atribuindo
valor salvífico a essas religiões. São eles, entre outros, Danielou, Henri de
Lubac, Karl Rahner, e o próprio Ratzinger, e essa resolução veio a ser admitida
no documento do Concílio Lumen Gentium, N.16 e Nostra aetate N.1. Repetindo
aqui o nosso jargão “o amor vale mais do que a fé”, podemos concluir como
iniciamos: “a Igreja sem conversão constante deixa de ser um movimento
originário de salvação, convertendo-se em instituição de poder que oprime,
humilha e faz sofrer pessoas”. Inclusive inventando demônios e poderes
diabólicos para sobreviver. Na verdade, o teólogo Leonardo Boff tem uma observação
oportuna dizendo que nos séculos IV e V os convertidos que entravam na Igreja,
porque era lei, carregavam para dentro da sua fé sua cosmovisão mágica cheia de
anjos e demônios, ritos e tradições”. (L.Boff “Igreja Carisma e Poder”
pag.144). Uma vez alguém perguntou a Jesus: Mestre, são muitos os que se
salvam? (Lc.13,29). Ele desviou a conversa e respondeu: “Virão muitos do
Nascente e do Poente, do Norte e do Sul sentar-se à mesa com Abraão, Isaac e
Jacó”. As últimas reflexões da Igreja e do Ecumenismo tiveram a bênção de
sintonizar com a teologia do pluralismo religioso. Desde a Revolução Francesa
convivemos com três verdades fundamentais constantes do novo ser humano:
Igualdade, Fraternidade, Liberdade que são os fundamentos da bíblia laica da
Humanidade: Os Direitos fundamentais do
ser humano. Voltemos à pergunta: Como pode haver homens bons sem Deus? E como, com Deus pode haver homens tão maus?
P.Casimiro João smbn
www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br






