Não é sobre número 40,
mas sobre uma vida inteira. Quando a Bíblia fala que Moisés passou 40 anos no deserto, (Dt.8,2) é para dizer que
devemos passar a vida inteira procurando a nossa salvação, que eles verbalizavam na "terra prometida". E quando fala que
Jesus passou 40 dias no deserto, (Mt.4,1-11)
é para dizer que Jesus passou toda a sua vida debaixo das provocações e
perseguições dos seus inimigos, quais outros demônios. Com os 40 anos de Moisés
se diz que o tempo médio de duração de uma vida era de 40 anos: todas as pessoas morriam nessa faixa etária, entre os 30 e 40 anos. Quando se fala dos 40 dias de Jesus no deserto é uma
referência para cumprir o “plano” de Deus e os seus compromissos com a
humanidade em toda a sua vida. Simples assim e metafórico assim. E as nossas vidas, a sua e a
minha, não estão também dentro dos 40 anos de Moisés e dos 40 dias de Jesus?
Certamente que sim.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
OS 40 ANOS DE MOISÉS NO DESERTO E OS 40 DIAS DE JESUS
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
JESUS E OS ESTRANGEIROS SIMBOLIZADOS PELA MULHER SÍRIO-FENÍCIA
Um dia uma mulher pagã sírio-fenícia foi até Jesus que se
encontrava no seu território estrangeiro e lhe pediu que expulsasse um espírito
impuro de sua filha, “Ela suplicou a Jesus que expulsasse de sua filha o
demônio. Jesus lhe disse: deixa primeiro que os filhos fiquem saciados, porque
não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-los aos cachorrinhos. A mulher
respondeu: é verdade, mas também os cachorrinhos debaixo da mesa, comem as
migalhas que as crianças deixam cair. Então Jesus disse: “Por causa do
acabas de dizer, podes voltar para casa; o demônio já saiu de tua filha”
(Mc.7,25-30). Este CrCode não é sobre fé, mas sobre a purificação dos
territórios estrangeiros que são purificados por meio da expulsão dos demônios.
Isto porque na doutrina dos Judeus os territórios estrangeiros eram habitados
por demôniios ou espíritos impuros. Não é sobre “milagre”, mas sobre
purificação de territórios pagãos, simbolizados
por aquela mãe pagã
e estrangeira e sua filha que não pertenciam ao povo judeu e portanto não eram
“filhos” mas “cachorrinhos”. O resumo e a lição teológica e catequética é
portanto esta: o demônio que habitava em todos os pagãos e nessa filha e nessa
mãe já tinha saído. Observemos a cena: “Primeiro os filhos devem ficar saciados, porque não está certo tirar o
pão dos filhos e jogá-lo aos
cachorrinhos”. Os filhos eram os
judeus; os cachorrinhos eram ela e a sua filha. Assim era eram tratados, como
cachorros ou gente habita por demônios e espíritos impuros. Por sua vez, a
resposta de Jesus nos surpreende: “Por causa do que acabas de dizer podes
voltar para casa, o demônio já saiu de tua filha”. Não é sobre fé mas sobre
que a mulher entrou por suas próprias palavras no povo dos filhos. Como quem
diz: se os filhos comem o pão, nós também queremos embora seja o que sobra ou
que cai mas é o pão dos filhos que eu e minha filha queremos comer, “por causa
do que acabas de dizer você e sua filha já não são gente possuída por demônios”.
Também não é sobre milagre, mas como nós estamos cheios da síndrome de
milagres, tudo achamos como “milagre”. Porém os ouvintes daquela época não
entendiam como milagre mas como lição de purificação daqueles territórios
pagãos: aquela filha e aquela mãe, pelas suas palavras já se tinham tornado
“filhas” do povo dos filhos de Deus. Este QrCode é paralelo ao homem de Gerasa,
o geraseno, também de território pagão possuído por uma legião de demônios
(Mc.5,1-20). Era também um território pagão e estrangeiro. Pela ação de Jesus,
simbolizada na saída dos demônios do corpo daquele homem e entrando em porcos
que se jogaram no mar, tanto aquele homem estrangeiro como o seu território
estrangeiro ficaram purificados. São dois QrCodes paralelos e com a mesma lição
teológica e catequética. Notemos que a linguagem era usada para o entendimento
e a cultura daquela época. Porque a Bíblia não fala a nossa linguagem de hoje,
mas da época em que foram escritos os
evangelhos. O nosso trabalho agora é saber ver as distâncias e as diferenças de
cultura e de linguagem. Por isso já dizia uma professora que a "Bíblia tem que ser lida com uma lupa". Quisemos clarear este CrCode de Jesus e os estrangeiros explanando esse
episódio da mulher sírio fenícia. Sempre recordando na nossa lupa e no nosso
QrCode o que diz a teologia bíblica no seguinte jargão: Os evangelhos não são
geográficos nem históricos mas teológicos.
P.Casimiro João smbn
www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
O QRCODE DA MOEDA NA BOCA DO PEIXE.
“Vai ao mar, lança o anzol e ao primeiro peixe que pegares, abre a boca e encontrarás a moeda do dízimo"(Mt.24,26). Muitas narrativas nos evangelhos funcionam como um QrCode. Um qrcode na sua aparência é só um quadrado, mas é um ícone carregado de sentidos. O que este qrcode nos mostra? Esta é uma dupla catequese. A primeira se refere à fábula de um peixe que uma vez entregou uma moeda de ouro saída da sua boca ao imperador Vespasiano, porque o imperador era considerado o dono “das terras, dos mares e dos ares”. E todos os pescadores tinham que pagar imposto por cada peixe que pescavam. A lição aí é que o imperador não era o dono dos mares e dos peixes, mas Jesus. A segunda lição: Esse tema da antiga fábula era comumente contada na forma de pérola preciosa na boca do peixe; é claro que aí se toma um tema de fábula para dizer que tudo estava à disposição de Jesus porque o Pai cuidava dele. Nenhum dos leitores daquela época interpretava esse texto em sentido literal.(Schillebeeckz, Jesus, a história de um Vivente, p.183). Entendiam-no, antes como parábola ou QrCode para esclarecer a catequese. Vamos dar uma olhada nalgumas expressões como “a tua fé te salvou”; “grande é a tu a fé”, e: “tudo é possível a quem crê”: Cada uma delas não é afirmação teológica, mas uma admiração pela fé das pessoas e para admirar o poder de Jesus. Dito de outra maneira: “São afirmações ou ditos que pertencem ao gênero das narrativas de cura”. Fé aqui se compara com confiança. “Quem confia consegue” “Dá os seus pulos, como diz o provérbio brasileiro, ou “se vira nos trinta”. E o evangelho: “quem pede recebe”, “quem procura encontra”(Mt.7,8). Havia um consenso geral que Jesus vinha para restaurar a nação de Israel, “as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt.10,7); Ora quem tivesse essa preocupação adequava com a missão de Jesus, ou seja estava em consonância com a sua missão e com o seu trabalho. Esta “tua fé te salvou” e “grande é a tua fé” cabiam dentro da missão de Jesus, até mesmo ditas pelos não judeus. Vem daí a exclamação de Jesus: “ Não encontrei tamanha fé em Israel” (Mt.8,10). Por outro lado, “contar milagres era costume na Antiguidade” (Schillebeeckz, o.c.p.176). Também trovão e relâmpago eram naquele tempo “milagres” da natureza criada por Deus, enquanto para nós, com base científica julgamos de outra maneira” (id). Para eles, o “milagre” não era problema, mas ao serem confrontados com os milagres de Jesus se tornou um desafio concreto. Seria obra de quem? Dos demônios? Seria obra Deus? Esse era o problema. Porque os filhos deles também faziam milagres de curar e de expulsar demônios no entendimento semítico deles. (Lc.11,19). Devemos saber que nos evangelhos nunca é usada a palavra do grego profano “thauma”, “milagre”, mas “thaumadein”, admirar ou se maravilhar (o.c.p.176). E isto assombrava tanto os seguidores de Jesus como os opositores. E aí se colocava o ponto central dos milagres nos evangelhos. Se para os opositores Jesus agia com o poder dos demônios, para os seguidores agia com o poder de Deus. Quando isto acontecia ninguém pensava em leis da natureza, nem Jesus nem seus ouvintes. É por isso que alguns veem em Marcos a figura de Jesus como um “curandeiro milagroso de aldeia e como ‘mago’ segundo o conceito da época (o.c.p. 178). Neste sentido estes curandeiros e magos de exorcismos existiam também entre os contemporâneos de Jesus. “Se eu expulso os demônios pelo poder de belzebu, os vossos filhos expulsam pelo poder de quem?” (Lc.11,19). Devemos fazer o desconto do tempo, lembrando que toda a doença andava ligada com a presença de um demônio, tudo segundo as lendas da época. Por outro lado, devemos entender que nos evangelhos o “elemento histórico e o elemento querigmático ou catequético compõem muitas vezes um tecido difícil de destrinchar. Nesse sentido é difícil afirmar se todos os milagres dos evangelhos aconteceram de fato, ou se são catequeses sobre o Jesus pós pascal" (Cf.o.c.p.181). Um dos “milagres” paradigmáticos neste sentido é a “moeda” do dízimo encontrada na boca do peixe, como já relatamos acima. Há outra afirmação impactante que diz assim: “Quem tiver fé como um grão de mostarda dirá a esta montanha: retira-te daqui e atira-te no meio do mar”(Mc.11,23). Os estudiosos dizem que era uma referência ao templo de Jerusalém construído sobre a montanha de Sião e que merecia ser jogado no mar, como aconteceu com a manada de demônios que saíram do possesso geraseno feitos porcos e se jogaram no mar. Na verdade há aí a conotação entre o possesso e o templo que estava “possuído” por ladrões e se tornou “covil de ladrões” (Mt.21,13). (Cf. Ched Myers, Evangelho de Marcos, pag.366). Seria um outro qrcode para dizer que quem adequasse com a fé libertadora de Jesus entraria no mesmo ritmo da sua atividade e aceitaria a afirmação de Jesus sobre o fim de validade do templo, que, como a religião praticada pelos judeus estava deteriorada e tinha que acabar; Não valia "botar remendo novo em pano velho"(Mt.9,16).
P.Casimiro João smbn
www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
QRCODE DA MONTANHA:JESUS SUBIU AO MONTE E SENTOU-SE.
A teologia bíblica atual afirma que “montanha” no evangelho não é lugar
geográfico, mas teológico. (Huberto Rohden). Hoje, na linguagem da informática
podemos dizer que é um QrCode. “Vendo aquelas multidões, Jesus subiu à
montanha. Sentou-se e seus discípulos aproximaram-se dele. Então abriu a boca e
lhes ensinava” (Mt.5,1-2) Puxando o nosso QrCode aparecem as narrativas de como
Moisés subiu ao monte Sinai, e lá formou o povo de Deus com as Doze tribos. Ele
formou a “constituição” do povo de Deus na promulgação dos Mandamentos do
Sinai. A figura de Moisés aparece agora na pessoa de Jesus, como o novo Moisés
que sobe também na montanha, e promulga a nova “constituição” do novo povo de
Deus com as Bem-aventuranças. E, paralelamente com as Doze tribos, convocou os
Doze apóstolos para formar a base do novo Povo de Deus. Lei, ou Torá do Antigo
Testamento é agora substituída pela nova Lei de Jesus Cristo. O resumo desta
nova lei que fica codificada nas Sete Bem-aventuranças Mt.5,3-11 é a partilha. O
Deus da Lei de Moisés era o deus do medo, do pavor, dos relâmpagos e dos trovões, da
montanha flamejante e dos limites marcados no chão para não se
aproximar de Deus senão morriam. Dessa lei do medo se originaram os milhares de
preceitos e tabus de impureza que encheram livros como o Levítico do Antigo Testamento. O Deus da lei de
Jesus Cristo é o Deus da proximidade, companheiro, irmão, que pensa no próximo e no
irmão e na partilha entre todos. Por
isso se fala nos que sabem partilhar: bem-aventurados os que têm coração de
pobre que sabem partilhar; bem-aventurados os que choram pelo sofrimento dos
outros; os mansos que sabem controlar as situações; os que lutam pela justiça;
os que praticam a misericórdia; os puros de um coração sem hipocrisia ou fingimento; os
homens de paz, e até os que sofrem para salvar alguém. Este é o mundo de Deus
ou o Reino de Deus. Um mundo não partilhado é um mundo malvado. O mundo sem
partilha é o mundo sem Deus. Esse mundo sem Deus existia no Egito da escravidão do povo judeu.
O novo mundo agora é posto em teste: Se não se praticar a nova aliança da partilha
das bem-aventuranças corremos o risco de cair no mesmo mundo malvado de outras
escravidões, como: onde existem pobres é porque não existe partilha; onde há
aflitos é porque há quem causa aflições; onde se elogiam os mansos é porque
há violência; onde há fome e sede de justiça é porque a injustiça corre solta; onde
se recomenda a misericórdia é porque não há misericórdia; onde se louvam os de
coração sem hipocrisia é porque a
hipocrisia campeia em toda espécie de subornos, injustiças e propinas; onde se
louvam os que promovem a paz é porque a
violência impera contra as leis; onde há perseguidos por causa da justiça é
porque a justiça não é praticada. Porque o Reino de Deus é um projeto de
humanização; um mundo sem humanização é um mundo sem Deus. Projeto de
humanização é um projeto de vida e felicidade para todos, porque
Deus não quer o sofrimento. Nosso QrCode com a palavra-chave “monte”,
“montanha” nos ensina os significados metafóricos escondidos na materialidade das palavras,
como atrás da materialidade de um QrCode se esconde uma lição de catequese e de
teologia. Assim, não vale a pena a pergunta: Onde era o monte? Ele existe?
Existe o monte das Bem-Aventuranças? Existe o monte do Tabor? Se, como afirmam
os teólogos, a questão é uma questão teológica, então não cabe a pergunta sobre
geografia mas sobre teologia. E o QrCode que está oculto neste trecho do
evangelho também não é sobre geografia, mas sobre teologia.
P.Casimiro João
smbn
www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
ESPIRITUALIDADE E A NOVA COSMOVISÃO
P.Casimiro João smbn
www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.r
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
COSMOLOOGIA ANTIGA OU ATUAL E O CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA
Fala-se muito em
cosmologia e afinal o que é cosmologia? Vamos tentar explicar, e as implicações
que tem com a fé e a teologia. Cosmologia é a maneira de nós mortais olharmos o
cosmo, ou seja o universo, e criar narrativas sobre ele e ciência. Falo em
narrativas porque desde que se conhece a história escrita dos humanos houve
tentativas de falar sobre o cosmo, e do relacionamento entre o cosmo, e Deus e
os seres humanos. O que é o cosmo? Onde está Deus? E os seres humanos no meio
disso tudo? Lá entre os gregos já houve tentativas de medir a distância da
terra à lua, e de medir o diâmetro da terra. Os humanos começaram pensando que
as estrelas estariam presas na abóbada do céu. E que haveria as águas
superiores e as águas inferiores. E Deus, nesta primitiva cosmologia, qual o
lugar que ocupava? Só podia ter o seu trono lá no alto em algum lugar, fora
desse mundo. Quer fosse ele que tivesse criado ou não, ocupava o lugar de
“comandante” do mundo que funcionava como uma máquina. Quando essa máquina do
mundo tivesse alguma avaria Deus viria socorrer, assim como num estalar os
dedos, ou tipo de varinha mágica. Era o que se chamava na filosofia antiga
“Deus ex maquina”, o deus da máquina. Um dia, esse Deus teria mandado o seu
filho cá para baixo neste planeta. E então acreditava-se que as revelações
caíam do céu, dessa deidade exterior que tentava foçar as suas verdades por
meio de algumas pessoas ou por meio de um determinado grupo. Esta visão vinha
do início da criação quando Deus “lá de fora” decidiu “comunicar-se diretamente
com alguém, no caso com os hebreus. Assim, os hebreus entenderam-se que eram o
povo escolhido de Deus em sentido exclusivista. Essa maneira de se identificar
foi mais tarde assumida pela Igreja. E assim como os hebreus tinham isso na sua
Bíblia, a Igreja transferiu num trabalho de “copia e cola” para o Catecismo da
Igreja Católica, (CIC, &54-73) que se baseia todo na cosmologia do Antigo
Testamento, coisa de “copía e cola” da cosmologia antiga e primitiva do Gênesis
do Antigo Testamento. Aliás, o histórico do Catecismo da Igreja Católica é
assim: 1)- Antes do ano de 900 havia um Ensino
das crianças, nas Escolas dos Conventos, na Alemanha; 2)-Em 1.100 Honório
de Antuã, aluno de S.to Anselmo fez um Elucidário (“para esclarecer”);
3)-Em 1.400 Jean Gerson da universidade de Paris fez um Resumo da Doutrina
Cristã. 4)- Em 1.509 em Colónia, na Alemanha apareceu um “Catecismo”
anônimo. 5)-Em 1.526 Andreas de Nuremberg fez o seu Catecismo e em 1.529 Lutero
fez dois: “Catecismo Maior e Catecismo Menor; 6)- Por ocasião da Dieta de
Augsburgo, na Alemanha, em 1.536 os Católicos compuseram também um Catecismo,
do teólogo George Witzel. 7)- Aí houve disputas como esta: A quem pertencia o nome
de CATECISMO? 8)- Em 1.566 apareceu o Catecismo Romano, para os párocos
depois do concílio de Trento; 8)- Em 1.908 apareceu o Catecismo de São Pio X
baseado no trabalho de S.Roberto Belarmino; 9)- Em 1.992, 20 anos depois do
concílio Vaticano II saiu o atual Catecismo da Igreja Católica baseado
no anterior de Trento, com os votos de duas comissões: a comissão de 10
Cardeais e a Comissão editorial de 7 Bispos diocesanos. Infelizmente, não levou
em conta o documento da Pontifícia Comissão Bíblica que saiu em 1994 que diz: “O
fundamentalismo tem igualmente tendência a uma grande estreiteza de visão pois
considera conforme à realidade uma antiga cosmologia já ultrapassada, só porque
se encontra na Bíblia.” (Pont.Com.Bíblica
São Paulo, Loyola, 1944, pag.40-41). Ora, os judeus e todos os povos da
antiguidade nos seus escritos consideravam-se “escolhidos” de Deus para falar
em nome de Deus, desde o rei Hamurabi quando fez o primeiro Código do mundo,
onde começa: “Estas são as palavras e ordenações de Deus, onde ninguém pode
tocar nem trocar uma letra. E dessa maneira a Igreja assim passou a
considerar-se igual a eles, até se comparar que acima da Igreja só Deus, como
falou o Papa Inocêncio III no séc. XII, que “eu julgo todos e todas as coisas,
e eu não sou julgado por ninguém”. Isto é, acima de mim só Deus. Estamos no
ambiente da cosmologia antiga, do deus que “lá de cima” fala para algumas
pessoas, mas não como um princípio
criador presente em toda a criação, e em toda a humanidade não “fora do mundo”
mas fazendo parceria com ele. Assim, Deus como espírito não tem braços, mas
precisa dos nossos braços; Deus, como espirito, não fala, ele precisa da nossa
fala; Deus como espírito não compõe música, por nós Deus compõe música e
escreve poesia e faz amor” (M.Morwood, “O católico de amanhã, pag.101). Esta
nova cosmologia considera Deus dentro da carruagem da máquina, e a criação é
matéria-mente, isto é, toda a criação participa da mente de Deus como fazendo
parte do DNA de Deus, como muito bem o expressa o físico Shirley Macklaine:
“Todos nós somos parte do divino, não havendo separação entre Deus e nós;” e na
fala do poeta C.de Brito: “Em cada homem existe
um Deus escondido”. E o mesmo Morwood: “Meus pais e meus irmãos e minhas
irmãs dizem que me amam e me alimentam, não deverei ver neles a presença de
Deus em forma humana”? A nova cosmologia trouxe por tabela a Física quântica
segundo a qual a própria mente cósmica partilha a mente divina. Este princípio
desafia as reivindicações exclusivistas de qualquer religião determinada que
queira enfatizar que “Somos a religião verdadeira, os únicos que temos a
revelação divina, como tendo Deus do nosso lado: vocês não. Se quiserem ser
salvos, vocês têm que que aceitar nossa cultura, nossos padrões de pensamento,
nossos dogmas e nossos ritos, do contrário não há esperança para vocês”
(Morwood, o.c.p.53). Ou seja, não se pode trancar Deus em nenhum movimento
religioso. Deus fala tanto com indianos e indígenas e africanos tanto como com
judeus, e tanto nas culturas de uns como nas culturas de outros. Mas o foco
principal da cosmologia antiga se reporta ao fato da lenda da criação em seis
dias, que apesar da aceitação das conclusões da ciência atual ainda é o
imaginário tanto do Catecismo da Igreja católica como das nossas mentes e das
nossas liturgias. Eis o que nos diz o autor citado: “Grande parte da teologia
cristã dependia de uma visão de mundo que afirmava terem os seres humanos vindo
ao paraíso e que as coisas deram errado. O que acontece agora quando somos
confrontados com provas esmagadoras de que desenvolvimento, morte, desastre e
revolução eram partes essenciais da existência deste planeta milhões e milhões
de anos antes que os seres humanos entrassem em cena? “(Morwood, o.c.p33). Quer
dizer que pode acontecer que teologias e doutrinas dependem de mitos e lendas
que ainda andam nos ares. Continuam as perguntas: “O que acontece, por exemplo,
com a doutrina profundamente arraigada da Criação e da Queda? E se não houve
uma “queda” nada parecida com o que foi descrito no livro do Gênesis? Como
então falamos expressivamente sobre a realidade do pecado, nossa ligação com o
divino, a vida de Jesus e a realidade de ser salvador para nós?...A nova
cosmologia e sua visão do mundo não são ameaça ao cristianismo”. (o.c.p.36). Outro
dia eu fiz a pergunta: No concílio do ano 325 convocado pelo imperador
Constantino, ele mesmo decidiu por um lado entre duas opiniões que eram o
centro da discussão onde não faltaram motivações políticas; e se tivesse
decidido por outro lado? Fica a pergunta. Hoje, em outro tempo, outra cultura,
outra visão do mundo damo-nos conta de que os seres que nós chamamos inanimados
partilham o dna de Deus. Já parou para pensar no mistério das plantas e das flores: onde cada flor vai buscar a sua cor, e o seu perfume? Da mesma terra uma tira a cor vermelha, outras a cor amarela, outras a cor branca, outras a cor azul? E aquele pefume das rosas? E o sabor de cada fruta? Se isso é assim no reino das plantas, imagine como os seres humanos conscientes e pensantes,
partilhamos o DNA divino. Carl Sagan disse que somos faíscas de estrelas; mais
além podemos dizer que somos faíscas de Deus.
P.Casimiro João smbn
www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br
domingo, 11 de janeiro de 2026
DEUS NÃO É DEUS SEM NÓS E NÓS NÃO SOMOS NÓS SEM DEUS.
“Viver em Deus sem Deus, como se Deus não existisse” (Arthur Robinson). Assim: o filho que se emancipa. Assim a sua liberdade. Os pais ficaram para trás. Age por sua conta e risco. Não está mais esperando ser manipulado. Vive de experiências, e de ver como é. Objetivo dele? Querer avançar. E fazer diferente. Deu certo? Às vezes. Deu errado? Às vezes. A natureza tem em si as energias do conserto. Esta afirmação leva a outra que diz o mesmo, mas parecendo contraditória, no entanto completa a outra: Deus não é Deus sem nós e nós não somos nós sem Deus. Há uma pergunta no subconsciente de todos nós que parece barrar a ideia de que Deus não seria nosso parceiro: Como Deus permite o mal? A resposta depende de como eu entendo Deus. Se manipulador fora do universo, ou se é íntimo a nós e nosso parceiro. Não será que exigimos um Deus que nas aflições, basta um estalar de dedos para resolver nossos problemas? Mas, se nossa imagem de Deus concentra-se na presença e na parceria de Deus que em todas as coisas criou um ambiente livre e é parceiro da nossa liberdade, então as coisas mudam de aspecto. “O universo ordenado contém dentro dele muita coisa que é desordenada e incompleta. A criatividade múltipla torna inevitável um pouco de desordem e conflito. Leva em conta a possibilidade de grande desordem e mal. No modelo ecológico o mal origina-se do acaso e da liberdade que ele permite, não da providência. A razão pela qual a providência não elimina o acaso é porque um mundo sem acaso é um mundo sem liberdade. Toda entidade natural, todo átomo precisa ter um aspecto de autodeterminação ou espontaneidade e a interseção até de dois, sem falar em miríades de atos de autodeterminação é precisamente acaso. De fato, Deus controlar completamente o mundo seria o mesmo que aniquilá-lo. Uma pergunta dessa faria de Deus como onipotente ditador do universo, responsável por tudo que acontecesse e que, se quisesse, poderia mudar o curso dos acontecimentos num estalar de dedos ou de varinha mágica.” (Charles Birch, apud Michael Morwood “O católico de amanhã”, Paulus, 2013, pg 45). Nossa linguagem religiosa torna-se perigosa quando pensamos num Deus que realmente manipula tudo. É perigoso falar abusivamente usando a “vontade de Deus”. Se por exemplo, o marido morre de repente de um ataque cardíaco, que imagem de Deus é transmitida à mulher, ao lhe dizer que isso deve ser o que Deus queria? Ou, que imagem de Deus é transmitida aos filhos desse casal na missa de sétimo dia se o padre fizer uma declaração no sentido de que “Deus levou” este homem de nós? Em vez disso não seria melhor outro discurso como: a vida tem validade de prazo no ser humano e em toda criação; em contrapartida, ao mesmo tempo traz um princípio de continuidade; deste modo, no princípio de continuidade estão os filhos e os familiares onde a vida se reconstrói e se recupera, assim como aquele que doa órgãos continua na vida do outro. O cosmo e a humanidade são duas realidades conectadas. Os estudiosos dizem que imperfeições vieram junto com a vida desde os 15 bilhões de anos no Big-bang. Mas a mesma criação que trouxe imperfeição trouxe também um princípio de recuperação ou o jeito de tudo recuperar. Isto já a filosofia e a religião hindú intuíu quando definiu três princípios divinos na criação: o princípio criador, o destruidor e o reparador ou técnico do conserto de tudo. Dentro desta sinfonia da vida os seres humanos somos os únicos conscientes desta realidade cósmica: destrutiva e reconstrutiva. Porque, no meio do cosmo sem consciência, a vida humana ficou como cabeça pensante e consciente. E ao princípio criador onipresente em toda a criação damos um nome: Deus. “Pense na maravilha da existência humana: Damos literalmente a Deus voz e braços; damos ao amor aparência e forma, nós o personificamos. É literalmente verdade que Deus como espírito não fala. Você precisa de um corpo para fazer sons. Deus como espírito não compõe música. Deus como espírito não me abraça nem me carrega para a escola. Mas o Deus que vem à expressão humana em Elton Jhon compõe música que toca para sempre as vidas humanas. O Deus personificado nos poetas como Cora Coralina ou Florbela Spanca faz poesia que toca para sempre o coração e a mente dos seres humanos. Meus pais e meus irmãos e minhas irmãs dizem que me amam e me alimentam. Não deverei acreditar que neles a presença de Deus recebe forma humana?” (M.Morwood, o.c.p.44). Por outro lado, segundo a Física Quântica, não podemos mais separar o mundo material em Matéria inanimada e Mente. Mas ele é “Matéria-Mente”. “A ciência moderna nos diz que não devemos continuar a separar o mundo material em Matéria inanimada e Mente como duas realidades diferentes. No entendimento atual a mente não se limita a ser uma função consciente ligada ao cérebro. A mente está presente em todas as coisas e torna-se consciente nos seres humanos, como dizíamos atrás. Eis um modelo científico de pensamento que nos permite ver a presença de Deus impregnando tudo que tem existência e os seres humanos de maneira especial. E essa presença criadora chame-se de Mente ou chame-se de Energia da Vida ou de qualquer outro nome, leva em conta o acaso e a liberdade e a espontaneidade e o totalmente inesperado.” (o.c.p42). A física quântica não nos diz que ISTO é o que Deus é, como a “sarça ardente”. Pelo contrário, aqui Deus é entendido como presença encarnada em vez de como um “manipulador exterior (id, id). Posto isto, não há mais margem para manter uma visão mecanicista do mundo: um governante de fora da máquina ou da matéria, não raro impressa na imaginação popular, que ordenaria e disporia como quisesse, aumentando a emoção bajuta do dito popular que “tudo está na mão de Deus”; um Deus que pudesse planejar tudo passo a passo, e tudo resolveria num estalar de dedos. “O deísmo entendia Deus como o agente externo ao mundo, que intervém só para iniciar a criação e preencher as lacunas. É esse o Deus que ainda é atual demais em muitos lugares contemporâneos da Igreja: uma superpessoa exterior que pudesse intervir na vida de determinados indivíduos em tempos de desespero para resolver problemas. Seria como o supervisor da máquina quando ela adoece” (M.Fague, apud M.Morwood, o.c.o.p41-42). Avançando para margens mais largas, vamos “enfrentar o desafio em primeiro lugar com a verdade básica da encarnação. O cristianismo tradicional nos ensina que em Jesus Deus se tornou humano. E se tomássemos esse entendimento cristão básico do envolvimento de Deus com a humanidade e o fizéssemos retroceder ao começo da criação? E se, ainda transcendendo e sendo maior que a soma total da criação, Deus se “encarnasse” em toda a criação, de modo que toda ela fosse infundida com a energia que é Deus e por ela fosse sustentada e guiada? No mesmo instante teríamos de abandonar a tendência limitadora e permitir que o nome “Deus” significasse, por um lado, uma realidade ilimitada infinitamente vasta, totalmente além de nossa imaginação. Não poderíamos restringir essa realidade a um “ele” que está no céu. Shirley Macklaire afirma que "todos nós somos parte do divino, não havendo separação entre Deus e nós". E o poeta C.de Brito reforça essa intjuição ao afirmar que em cada homem existe um Deus escondido, uma forma perfeita perdida numa aldeia de demônios." Tudo aponta para a mesma direção ao todo, ao conjunto à unidade profunda da vida. Por seu lado, Ettt.Hillesum: "Torna-se cada vez mais claro que Deus não pode nos ajudar, no sentido mágico que esperamos; somos nós que devemos ajudá-lo e, ao fazê-lo ajudamos a nós mesmos. Deus não nos poupa das cirfcunstâncias pois elas fazem parte da vida. Ele não assume a responsabilidade por elas: somos nós que seremos chamados à responsabilidade. A morada de Deus em nós precisa ser defendida até o fim. É uma fé adulta sem ilusões infantis, que entende Deus não como interventor externo mas como presença interior que precisa ser acolhida e protegida." Do mesmo jeito o teólogo Libanio: "Não se trata de imaginar Deus esperando nossos pedidos para agir milagrosamente, mas de compreender Deus presente e atuando em nós, promovendo as forças da vida existentes. Presença esta que depende da nossa abertura, acolhida e disposição" Na mesma sintonia, vejamos a intuição dos teólogos da teologia africana: "Se pelos ritos de passagem Jesus se tornou plenamente humano, pela ressurreição ele passa a integrar a comunidade dos antepassados. A morte não é o fim mas outra modalidade do processo cíclico da existência humana, cuja referência maior são os ancestrais" (Antônio Silva, apud Armando, josé, RTA). Aqui as novas reflexões da teologia adequam com a ciência quântica, corroboram a presença de Deus em toda parte como força, energia ou poder de vida. "Mas também devemos advertir que essa é linguagem inadequada e se esforça para estar em contato com a verdade de encarnação: Deus em tudo, com tudo e através de tudo. Simplesmente tentamos dar sentido à realidade que chamamos “Deus” em vez de afirmarmos que ISTO é o que o Deus é. Afirmamos que tudo está impregnado da presença de Deus. Chamamos a atenção dos seres humanos para o amor que está em nosso coração; chamamos a atenção para o DNA e para os átomos e moléculas em nossa estrutura corporal onde há espontaneidade e vida e movimento; onde há crescimento; onde há liberdade de movimentos e possibilidades ilimitadas, e há também doenças, e há saúde. Isso é encarnação no nível básico. Deus realmente está em, com e através de tudo. Não teremos de adaptar então nossa imagem de Deus se formos levar isso a sério? (M.Morwood o.c.p.40-41). Dado que o entendimento tradicional de Deus e de nosso relacionamento com Deus foi formado pelos padrões de pensamento e visão de mundo da cultura judaica e cristã primitiva, e sofreu dos limites de uma cosmologia antiquada, somos desafiados com a visão atual. Aceitamos o desafio? Hoje, este outro tempo, outra cultura, outra ciência e outra visão do mundo não nos darão mais esclarecimentos? Antes de concluirmos, notemos que a Matéria e a Mente podem colaborar para uma maior validade de prazo da nossa vida, retomando o nosso pensamento expressado na página anterior. Prazo de vida ou prazo de menos vida, como muito bem investigou Renate J.de Moraes nos seus dois grandes volumes “O Inconsciente sem fronteiras”, onde ela detectou que a mente do feto já tem o poder de fazê-lo aparecer com câncer ou sem ele (o.c.p.426). E onde ela afirma: “Existe energia elétrica no cérebro que irradia fora dele”(o.c.p.328)
Na verdade, dessas premissas descritas resulta o corolário
que dá o título a este capítulo e a este
volume, o primeiro volume de PÁGINAS DE TEOLOGIA BÍBLICA PARA HOJE: Deus não é
Deus sem nós e nós não somos nós sem Deus. Este volume com este novo título é o
primeiro de Dois novos volumes, em 2ª edição. Em 1ª edição editamos 10 volumes,
que, como disse agora ficam reunidos neste dois volumes, o 1º: “Deus não é Deus
sem nós e nós não somos nós sem Deus”. O 2º volume continuará com o mesmo nome
dos 10 livros da 1ª edição: “Páginas de Teologia Bíblica para Hoje”.
P.Casimiro João
smbn
www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br





