A coragem de Jesus se
manifestou em primeiro lugar em enfrentar uma sociedade inflada por dois
orgulhos: o orgulho de ser religioso, e o orgulho da nação. O orgulho de ser
religioso leva ao desprezo dos outros. E o orgulho da nação leva ao
nacionalismo, ou um tipo de nazismo. O orgulho de ser religioso cria uma casta
de piedosos e virtuosos que se separam
dos que eles desprezam. O orgulho da nação leva a se considerar como dono do
mundo Eram as duas faces da mesma moeda de todo judeu. No lado religioso
excediam-se em preocupação da observância dos mínimos preceitos. Colocavam aí
os seus créditos religiosos e de quebra a obrigação por parte de Deus de lhes
pagar como um salário. (Rom.4,4). E de quebra ainda buscando posições e
privilégios enquanto mantinham raiva e nojo com os não cumpridores, sendo quais
fossem os motivos, como o sufoco da cada
dia de encontrar o alimento de cada dia, coisa que para eles não existia porque
viviam na abundância e no luxo. O
orgulho de nação consistia na ideologia que formaram de serem a nação “escolhida” por Deus para ser
um dia a maior do mundo, o “carro chefe” da humanidade. Porém, nos evangelhos, o Deus que Jesus chama
de Pai é um Deus que não se permite monopolizar por uma casta de piedosos e
virtuosos que estão seguros da recompensa correspondente à sua observância. Deus
não quer ser garante de posições e privilégios na sociedade civil e
religiosa”(Schillebeeckz, História humana revelação de Deus, pag.154). Na
verdade para esses abastados e vivendo no luxo, o sofrimento dos pobres e sem
salário não os comovia, muito menos suas doenças e carências. Muito ao
contrário, pelo seu jeito da agir se transformavam numa máquina de fabricar
lázaros pobres como aquele que vivia coberto de chagas à porta do rico que se
banqueteava todos os dias com largos banquetes (Lc.16,19). Para eles só existia
o reino deste mundo onde impera o lucro, a ganância e o desprezo dos excluídos.
Quando Jesus falava de outro reino, o “reino de Deus”, para eles esse reino não existia. Na verdade,
“o ‘reino de Deus’ é um mundo novo sem sofrimento, mundo cheio de pessoas sãs e
curadas numa sociedade em que domina a paz e não existe nenhuma relação de
senhor-escravo, uma situação inteiramente diversa da sociedade do tempo de
Jesus”. (o.c.p.156). Imaginemos a
coragem de Jesus para anunciar esse reino especial sem dominação e sem
exploração. Dominação da parte da religião oficial e da política oficial, onde
o pobre era excluído, sem nenhum direito de sobreviver, como aquele das dívidas
que aconteciam quando os pobres tinham que entregar suas terras aos grandes
fazendeiros para pagar suas contas. (Mt.18,25). Por isso aquele ‘reino de
Deus’ acontecia no anúncio e na coragem de Jesus quando teimava em afirmar:
“aos pobres é anunciada a salvação e a boa nova” (Lc.4,18). O que era a
salvação? Era a salvação das amarras em que os pobres estavam amarrados pelas
leis da religião. Jesus arriscava curar em dia de sábado proibido, e juntar
marginalizados na mesma refeição. Proibir a cura no sábado? Você já imaginou o
que é proibir a saúde, a vida? Todo humano normal tem isso em primeiro lugar:
zelar pela saúde e vida do irmão. Imagine proibir isso por conta da religião.
Já viu maior amarra e mais perversa do que essa? Essa era a coragem de Jesus de
romper com as proibições religiosas. E ao mesmo tempo civis porque na teocracia
o que é religioso funciona como civil e o que é civil funciona como religioso.
Por outro lado, esse reino de Deus trazido e anunciado por Jesus era a dimensão
muito importante no que toca à socialização. Jesus encontrou a salvação negada,
a socialização negada, a igualdade negada e a fraternidade negada. Para os “de
fora” que não pertenciam a Israel não havia salvação; nem havia socialização
porque o convívio e as refeições separavam e excluíam; a sinagoga excluía; a
doença excluía, a lepra excluía; o pecado excluía, a raça excluía, o gênero excluía. Já referi
várias vezes que antes da religião há a pessoa humana, e quem exclui a pessoa
humana em nome da religião não é nem
humano e nem religioso. Na verdade a Igreja durante muitos tempos herdou sem
sentido crítico a perversa cultura da negação da convivência e da socialização
com o insulto chamado excomunhão. Seria igual à excomunhão que expulsava os
leprosos para viver no mato, “fora” da sociedade, e “fora” da sinagoga, e
“fora” de alguém poder tocar neles. Também temos dito várias vezes que o “amor
vale mais do que a fé”. Neste ponto tem sido contrária a práxis da Igreja nas
excomunhões: a “fé tem tido mais valor do que o amor” (Confira 1Cor.13,13).
Infelizmente, já dissemos também que logo a 2ª Carta de João deu esse mau
exemplo para a Igreja futura quando disse: “Se alguém vier a vós sem trazer
esta doutrina não o recebam em vossa casa nem o saúdem, porque quem o saúda
tem parte em suas obras”(2Jo.10-11). Não foi de graça que os participantes do
concílio vaticano II inovaram uma nova fase de um novo entendimento em que a
Igreja não é feita para condenar e excomungar mas para dialogar e acolher. Isso
tinha um nome: imperialismo, que é resumo de vários ismos: exclusivismo,
obscurantismo, despotismo, tiranismo e ditadurismo. Adequando com isto nos diz
um autor: “A Igreja e os homens das Igrejas podem cair na idolatria por
absolutização do que simplesmente é relativo” (Schillebeebckz o.c.p.12).
Vejamos que quando havia a vontade de excomungar alguém havia a convicção de
que a Igreja tinha o “depósito da verdade” no sentido de que todas as coisas do
Novo Testamento fossem escritos do próprio Jesus. O que acontece é que a
teologia bíblica foi descobrindo que “não possuímos nenhum escrito de Jesus,
dele próprio, nenhum documento direto. Os discípulos posteriores buscaram
compreender o significado que Jesus tinha para os seus primeiros discípulos, uma vez que
também eles não escreveram nada”.(Schillebeeckz, o.c.p.140). Um exemplo de que
um significado mal entendido teria sido essa citação da 2 Carta de João que referimos. E,
como relata H.Koester, essa citação pode ter dado muito pano para a Igreja
posterior, e até chegar aos nossos dias, isto é, até o concílio vaticano II: a
cultura da excomunhão. Concluindo: havia um ditado entre os romanos que dizia
“onde há religião aí há subversão”. E para os judeus funcionava também numa
afirmação do profeta Jeremias: “O justo se opõe a nós, nós para ele somos como
moeda falsa”(Jer.6,30). Foi preciso uma coragem sobre humana da parte de Jesus para enfrentar Judeus e
romanos em duas frentes.
P.Casimiro João smbn
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