segunda-feira, 9 de março de 2026

ORAÇÃO E MAGIA E BATISMO.

 



Há um exemplo muito elucidativo numa etapa do crescimento ou não crescimento do povo da Bíblia, onde se mostra uma mentalidade primitiva mágica. É no livro do Êxodo, pelo ano 1.200 a.C: “Amanhã estarei de pé no alto da montanha com a vara de Deus na mão. Quando Moisés conservava as mãos levantadas, Josué vencia o inimigo, quando Moisés deixava cair as mãos, o inimigo vencia. Pegando então uma pedra colocaram-na debaixo dele, e então Arão e Ur, um de cada lado sustentavam as mãos de Moisés, e Josué derrotou os inimigos a fio de espada” (Ex.17,9-13).  Ainda hoje há essa atitude. Adulto que não cresceu na fé e no entendimento continua na fé de criança, assim como os judeus pensando que num estalar de dedos Deus resolvia todas as coisas, ou na expressão de hoje “fazia milagres.” Vamos ver que esta magia não se infiltrou só na oração mas também no sacramento. Comecemos pelo  batismo. Comumente o batismo se torna um rito muito simples: é só botar a água na criança e pronto. A gente acha que o batismo automaticamente salva, como uma coisa mágica. Porém, etimologicamente batismo significa muito mais do que isso. Batismo é um mergulho. Mergulho na vontade de Deus e na missão que temos que fazer, do qual o mergulho na água é o símbolo ou a comparação. Sem dúvida, como Jesus terá dito um dia: “devo receber um batismo, e não vejo a hora para que isso se cumpra” (Lc.12,50). Qual era esse batismo? Não era ir para a paixão e morte próxima? Para nós, batismo é muito simples, mas ele é esse mergulho de corpo inteiro na vontade de Deus e nas tarefas que temos que fazer, assim como Jesus fez esse mergulho. Infelizmente, nas catequeses habituais se insinua que o batismo perdoa os pecados e pronto. E veio a tradição que sem o batismo não havia salvação. E de quebra que quando estamos batizados estamos salvos. A mágica funcionou. De tal maneira entrou na cabeça do povo que ficou resumido que a vida do cristão é só ser batizado. Porém agora a Igreja diz que não são só os batizados que se salvam. Nesta lógica poderá alguém perguntar: então para que serve o batismo? Eu respondo: O batismo não é para a outra vida, é para esta. Se é na Igreja católica é para cumprir as tarefas da Igreja católica; Se for nos evangélicos é para cumprir as tarefas dos evangélicos, e assim por diante. Imagine só isto: o militar é para esta vida, não é para a outra vida; o advogado é para esta vida, não é para a outra vida; o médico é só para esta vida, não é para a outra vida. Na outra vida não vai ter militar, nem médico, nem advogado, e nem padre, nem bispo e nem Papa, porque lá não precisa. Onde precisa é aqui nesta terra. É assim que Jesus disse: “tenho que receber um batismo, e era para cumprir as tarefas que ainda faltavam. Assim nós. Na verdade, o desenvolvimento da humanidade teve o paralelo com o desenvolvimento da criança. Vejamos.

A criança é por natureza mágica. Ela nasce mágica. Porquê? Porque não sabe fazer ainda nada. É o pai e a mãe que fazem tudo. O pai faz os brinquedos, conserta os brinquedos. O pai é forte. Defende do cachorro, defende dos bichos, pega no colo, nas cacundas, cura as doenças, bota o carro para andar, conserta os estragos, sabe onde está a água, onde está o mercado, bota tudo em casa. O pai é o herói. É maior que todos. A humanidade era uma criança. Ela também nasceu mágica. Assim como para a criança o pai pode tudo, também para a humanidade Deus podia tudo. Era Deus que fazia tudo, o fogo, as nuvens, as plantas, o mar e os frutos. Vai ver, se a criança não crescesse, ela iria ficar sempre criança e na dependência total da mãe e do pai o tempo todo. Pais que fazem tudo para as crianças, botam as crianças na vida sem aprender a fazer nada.. Ao contrário, a criança que começou a ganhar independência pouco a pouco, aprenderá a não depender dos outros e a resolver os seus problemas. Sua experiência junto com o seu estudo lhe ensinarão a resolver os seus problemas. Assim aconteceu com a humanidade. Tem aquela parte da humanidade que, apesar de muitos séculos que passaram, ainda ficaram como crianças que não desenvolveram. Quem sabe, seriam os pais que o pouco que sabiam não ensinaram aos filhos. Justo pelo medo de que os filhos aprendessem demais, e mais do que eles. Isto aconteceu nas sociedades que guardavam muitos segredos. Alguns velhos que tiveram sorte de aprender mais coisas não é que guardariam muitos conselhos a sete chaves? E por isso são temidos, porque eles podem fazer mal aos outros, por vingança. Não será daí que vem a tradição e a cultura dos feiticeiros e dos gurus? Em contrapartida, em outras partes do mundo democratizou-se o ensino. E foi onde os pais não tiveram medo de ensinar os filhos. Pais e filhos frequentaram círculos de mais ensino, ou eles mesmos os criaram. Nasceram assim as escolas e as Universidades. Aplicando este aporema agora ao pensamento e à religião acontece a mesma coisa. Aristóteles observava que o ser humano, por natureza, tende ao saber. E também à religião. Neste desenvolvimento, a humanidade também se dividiu em duas etapas. Na primeira etapa, a humanidade  quando era criança punha todo poder em Deus, como a criança no poder do pai. Mas quando cresceu livremente começou vendo que tudo não dependia de Deus mas também dela mesma. A humanidade que entregava tudo a Deus pra ele tudo fazer, continuaria com uma atitude mágica de só Deus fazer tudo pra ela como num estalar de dedos. E daqui temos ainda hoje dois tipos de humanidade: Uma que faz, inventa, faz coisas acontecer, transforma coisas e inventa outras. E assim se chegou à inteligência artificial, aos robôs e ao celular. Isto aconteceu numa parte da humanidade onde o estudo acompanhou o crescimento da humanidade. Em contrapartida, naquela parte da humanidade onde o estudo não acompanhou, a humanidade ainda vive bastante na época da magia e dos segredos dos feiticeiros e dos gurus.

Conclusão. Falta-nos o tempo de avançar para a narrativa de outros sacramentos, pois falamos no batismo. Mas, pelo dito, dará para descobrir sinais de magia também, e coisificação, noutros sacramentos. Dizemos “coisificação” porque é o mesmo significado de magia. E infelizmente essa magia ficou por muito tempo “consagrada” na Igreja com a expressão que os sacramentos agem “ex opere operato”, ou seja, posto o rito, tudo acontece automaticamente. É o fato de reduzir Deus a uma “coisa”, e os sacramentos também a “uma coisa”.

P.Casimiro João      smbn

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segunda-feira, 2 de março de 2026

QrCode DOS LUGARES ALTOS, SOBRE O MONTE TABOR


QrCode não é sobre o quadro, é sobre o que tem dentro. Há muitas narrativas na Bíblia que aparecem assim como os qrcode da moderna informática. Aqui o significado também não é sobre o que se vê escrito na letra como num quadro mas no que tem dentro. Por exemplo no evangelho de Mateus se conta que “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João  e  os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha” (Mt.17,1). E no nosso CrCode logo vai aparecer o significado dos “lugares altos” no Antigo Testamento. Os antigos tinham a ideia de que  os lugares altos eram o lugar onde desciam os deuses e ali se podia falar com os deuses e até fazer refeições com os deuses. Não só, mas onde se ofereciam sacrifícios aos deuses.

Os lugares altos então eram lugares privilegiados onde se podia entrar em contato com o sagrado. “Um lugar à parte”. Não fica fora do nosso objetivo se conseguirmos comparar com o nosso qrcode: Aqui também não é sobre o lugar alto ou alta montanha, mas sobre “ouvir e “escutar”. Escutar quem? "O meu filho amado." Efetivamente “da nuvem uma voz dizia: “Este é o meu Filho amado em quem pus todo meu agrado, escutai-o” (Mt.17.5). Essa é a principal mensagem a ter em conta. E tem ainda a segunda mensagem que é a “presença” de Moisés e Elias”. Esta  segunda mensagem revela quem não deveriam mais ouvir: Moisés e Elias, do Antigo Testamento. Isso para nós agora não diz muita coisa mas para eles dizia, porque para eles Moisés era quase como um deus. Todos os outros detalhes pertencem ao gênero tradicional das teofanias, ou manifestações de Deus: relâmpagos, luzes, nuvens, medo e sono, dormir e acordar.

Vejamos lugares paralelos em que se conta a presença de Deus com os homens nos lugares altos, e até com refeições, quando os deuses desciam nas montanhas. “Jacó ofereceu um sacrifício sobre a montanha onde se erigiu a estela de pedras e convidou todos os parentes que ali estavam para uma refeição de confraternização. Eles comeram e passaram a noite sobre a montanha.” (Gn.31,54). “Acaz Ofereceu sacrifícios e incenso nos lugares altos, nas colinas e debaixo de toda árvore verdejante”(2 Rs. 16,4). A célebre cena com Abraão: “Disse Deus: toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas que eu te direi." (Gn.22,2). E sobre os sacrifícios dos pagãos: “Devereis destruir totalmente todos os lugares altos nos quais as nações pagãs que estais desalojando costumam adorar seus deuses, tanto nos altos montes como nas colinas e à sombra de toda árvore frondosa.”(Dt.12,2). Avalie você a adequação da nossa colocação, até porque nenhum dos evangelistas dá nome à tal montanha, mas só “alta montanha” em Mateus 17,1; “alto monte” em Marcos 9,2 e “um monte” em Lucas 9,28. Por quê nenhum dos evangelistas deu nome nenhum? Na sua opinião este detalhe não é que define melhor o nosso título inicial: O QRCODE DOS LUGARES ALTOS? que, como ficou dito, não é sobre montanha, mas sobre "ouvir"; ouvir quem "Jesus," o filho dileto de Deus. E não mais Moisés.

P.Casimiro João       smbn

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

OS 40 ANOS DE MOISÉS NO DESERTO E OS 40 DIAS DE JESUS


 

Não é sobre número 40, mas sobre uma vida inteira. Quando a Bíblia fala que Moisés passou  40 anos no deserto, (Dt.8,2) é para dizer que devemos passar a vida inteira procurando a nossa salvação, que eles verbalizavam na "terra prometida". E quando fala que Jesus passou 40 dias  no deserto, (Mt.4,1-11) é para dizer que Jesus passou toda a sua vida debaixo das provocações e perseguições dos seus inimigos, quais outros demônios. Com os 40 anos de Moisés se diz que o tempo médio de duração de uma vida era de 40 anos: todas as pessoas morriam nessa faixa etária, entre os 30 e 40 anos. Quando se fala dos 40 dias de Jesus no deserto é uma referência para cumprir o “plano” de Deus e os seus compromissos com a humanidade em toda a sua vida. Simples assim e metafórico assim. E as nossas vidas, a sua e a minha, não estão também dentro dos 40 anos de Moisés e dos 40 dias de Jesus? Certamente  que sim.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

JESUS E OS ESTRANGEIROS SIMBOLIZADOS PELA MULHER SÍRIO-FENÍCIA

Um dia uma mulher pagã sírio-fenícia foi até Jesus que se encontrava no seu território estrangeiro e lhe pediu que expulsasse um espírito impuro de sua filha, “Ela suplicou a Jesus que expulsasse de sua filha o demônio. Jesus lhe disse: deixa primeiro que os filhos fiquem saciados, porque não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-los aos cachorrinhos. A mulher respondeu: é verdade, mas também os cachorrinhos debaixo da mesa, comem as migalhas que as crianças deixam cair. Então Jesus disse: “Por causa do acabas de dizer, podes voltar para casa; o demônio já saiu de tua filha” (Mc.7,25-30). Este CrCode não é sobre fé, mas sobre a purificação dos territórios estrangeiros que são purificados por meio da expulsão dos demônios. Isto porque na doutrina dos Judeus os territórios estrangeiros eram habitados por demôniios ou espíritos impuros. Não é sobre “milagre”, mas sobre purificação de territórios pagãos, simbolizados por aquela mãe pagã e estrangeira e sua filha que não pertenciam ao povo judeu e portanto não eram “filhos” mas “cachorrinhos”. O resumo e a lição teológica e catequética é portanto esta: o demônio que habitava em todos os pagãos e nessa filha e nessa mãe já tinha saído. Observemos a cena: “Primeiro os filhos devem  ficar saciados, porque não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo  aos cachorrinhos”.  Os filhos eram os judeus; os cachorrinhos eram ela e a sua filha. Assim era eram tratados, como cachorros ou gente habita por demônios e espíritos impuros. Por sua vez, a resposta de Jesus nos surpreende: “Por causa do que acabas de dizer podes voltar para casa, o demônio já saiu de tua filha”. Não é sobre fé mas sobre que a mulher entrou por suas próprias palavras no povo dos filhos. Como quem diz: se os filhos comem o pão, nós também queremos embora seja o que sobra ou que cai mas é o pão dos filhos que eu e minha filha queremos comer, “por causa do que acabas de dizer você e sua filha já não são gente possuída por demônios”. Também não é sobre milagre, mas como nós estamos cheios da síndrome de milagres, tudo achamos como “milagre”. Porém os ouvintes daquela época não entendiam como milagre mas como lição de purificação daqueles territórios pagãos: aquela filha e aquela mãe, pelas suas palavras já se tinham tornado “filhas” do povo dos filhos de Deus. Este QrCode é paralelo ao homem de Gerasa, o geraseno, também de território pagão possuído por uma legião de demônios (Mc.5,1-20). Era também um território pagão e estrangeiro. Pela ação de Jesus, simbolizada na saída dos demônios do corpo daquele homem e entrando em porcos que se jogaram no mar, tanto aquele homem estrangeiro como o seu território estrangeiro ficaram purificados. São dois QrCodes paralelos e com a mesma lição teológica e catequética. Notemos que a linguagem era usada para o entendimento e a cultura daquela época. Porque a Bíblia não fala a nossa linguagem de hoje, mas da época  em que foram escritos os evangelhos. O nosso trabalho agora é saber ver as distâncias e as diferenças de cultura e de linguagem. Por isso já dizia uma professora que a "Bíblia tem que ser lida com uma lupa". Quisemos clarear este CrCode de Jesus e os estrangeiros explanando esse episódio da mulher sírio fenícia. Sempre recordando na nossa lupa e no nosso QrCode o que diz a teologia bíblica no seguinte jargão: Os evangelhos não são geográficos nem históricos mas teológicos.

P.Casimiro João       smbn

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O QRCODE DA MOEDA NA BOCA DO PEIXE.

“Vai ao mar, lança o anzol e ao primeiro peixe que pegares, abre a boca e encontrarás a moeda do dízimo"(Mt.24,26). Muitas narrativas nos evangelhos funcionam como um QrCode. Um qrcode na sua aparência é só um quadrado, mas é um ícone carregado de sentidos. O que este qrcode nos mostra? Esta é uma dupla catequese. A primeira se refere à fábula de um peixe que uma vez entregou uma moeda de ouro saída da sua boca ao imperador Vespasiano, porque o  imperador era considerado o dono “das terras, dos mares e dos ares”. E todos os pescadores tinham que pagar imposto por cada peixe que pescavam. A lição aí é que o imperador não era o dono dos mares e dos peixes, mas Jesus. A segunda lição: Esse tema da antiga fábula era comumente contada na forma de pérola preciosa na boca do peixe; é claro que aí se toma um tema de fábula para dizer que tudo estava à disposição de Jesus porque o Pai cuidava dele. Nenhum dos leitores daquela época interpretava esse texto em sentido literal.(Schillebeeckz, Jesus, a história de um Vivente, p.183). Entendiam-no, antes como parábola ou QrCode para esclarecer a catequese. Vamos dar uma olhada nalgumas expressões como “a tua fé te salvou”; “grande é a tu a fé”, e: “tudo é possível a quem crê”: Cada uma delas não é afirmação teológica, mas uma admiração pela fé das pessoas e para admirar o poder de Jesus. Dito de outra maneira: “São afirmações ou ditos que pertencem ao gênero das narrativas de cura”. Fé aqui se compara com confiança. “Quem confia consegue” “Dá os seus pulos, como diz o provérbio brasileiro, ou “se vira nos trinta”. E o evangelho: “quem pede recebe”, “quem procura encontra”(Mt.7,8). Havia um consenso geral que Jesus vinha para restaurar a nação de Israel, “as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt.10,7); Ora quem tivesse essa preocupação adequava com a missão de Jesus,  ou seja estava em consonância com a sua missão e com o seu trabalho. Esta “tua fé te salvou” e “grande é a tua fé” cabiam dentro da missão de Jesus, até mesmo ditas pelos não judeus. Vem daí a exclamação de Jesus: “ Não encontrei tamanha fé em Israel” (Mt.8,10). Por outro lado, “contar milagres era costume na Antiguidade” (Schillebeeckz, o.c.p.176). Também trovão e relâmpago eram naquele tempo “milagres” da natureza criada por Deus, enquanto para nós, com base científica julgamos de outra maneira” (id). Para eles, o “milagre” não era problema, mas ao serem confrontados com os milagres de Jesus se tornou um desafio concreto. Seria obra de quem? Dos demônios? Seria obra Deus? Esse era o problema. Porque os filhos deles também faziam milagres de curar e de expulsar demônios no entendimento semítico deles. (Lc.11,19). Devemos saber que nos evangelhos nunca é usada a palavra do grego profano “thauma”, “milagre”, mas “thaumadein”, admirar ou se maravilhar (o.c.p.176). E isto assombrava tanto os seguidores de Jesus como os opositores. E aí se colocava o ponto central dos milagres nos evangelhos. Se para os opositores Jesus agia com o poder dos demônios, para os seguidores agia com o poder de Deus. Quando isto acontecia ninguém pensava em leis da natureza, nem Jesus nem seus ouvintes. É por isso que alguns veem em Marcos a figura de Jesus como um “curandeiro milagroso de aldeia e como ‘mago’ segundo o conceito da época (o.c.p. 178). Neste sentido estes curandeiros e magos de exorcismos existiam também entre os contemporâneos de Jesus. “Se eu expulso os demônios pelo poder de belzebu, os vossos filhos expulsam pelo poder de quem?” (Lc.11,19). Devemos fazer o desconto do tempo, lembrando que toda a doença andava ligada com a presença de um demônio, tudo segundo as lendas da época. Por outro lado, devemos entender que nos evangelhos o “elemento histórico e o elemento querigmático ou catequético compõem muitas vezes um tecido difícil de destrinchar. Nesse sentido é difícil afirmar se todos os milagres dos evangelhos aconteceram de fato, ou se são catequeses sobre o Jesus pós pascal" (Cf.o.c.p.181).  Um dos “milagres” paradigmáticos neste sentido é a “moeda” do dízimo encontrada na boca do peixe, como já relatamos acima. Há outra afirmação impactante que diz assim: “Quem tiver fé como um grão de mostarda dirá a esta montanha: retira-te daqui e atira-te no meio do mar”(Mc.11,23). Os estudiosos dizem que era uma referência ao templo de Jerusalém construído sobre a montanha de Sião e que merecia ser jogado no mar, como aconteceu com a manada de demônios que saíram do possesso geraseno feitos porcos e se jogaram no mar. Na verdade há aí a conotação entre o possesso e o templo que estava “possuído por ladrões e se tornou “covil de ladrões (Mt.21,13). (Cf. Ched Myers, Evangelho de Marcos, pag.366). Seria um outro qrcode para dizer que quem adequasse com a fé libertadora de Jesus entraria no mesmo ritmo da sua atividade e aceitaria a afirmação de Jesus sobre o fim de validade do templo, que, como a religião praticada pelos judeus estava deteriorada e tinha que acabar; Não valia "botar remendo novo em pano velho"(Mt.9,16).

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

QRCODE DA MONTANHA:JESUS SUBIU AO MONTE E SENTOU-SE.


 

A teologia bíblica atual afirma que “montanha” no evangelho não é lugar geográfico, mas teológico. (Huberto Rohden). Hoje, na linguagem da informática podemos dizer que é um QrCode. “Vendo aquelas multidões, Jesus subiu à montanha. Sentou-se e seus discípulos aproximaram-se dele. Então abriu a boca e lhes ensinava” (Mt.5,1-2) Puxando o nosso QrCode aparecem as narrativas de como Moisés subiu ao monte Sinai, e lá formou o povo de Deus com as Doze tribos. Ele formou a “constituição” do povo de Deus na promulgação dos Mandamentos do Sinai. A figura de Moisés aparece agora na pessoa de Jesus, como o novo Moisés que sobe também na montanha, e promulga a nova “constituição” do novo povo de Deus com as Bem-aventuranças. E, paralelamente com as Doze tribos, convocou os Doze apóstolos para formar a base do novo Povo de Deus. Lei, ou Torá do Antigo Testamento é agora substituída pela nova Lei de Jesus Cristo. O resumo desta nova lei que fica codificada nas Sete Bem-aventuranças Mt.5,3-11 é a partilha. O Deus da Lei de Moisés era o deus do medo, do pavor, dos relâmpagos e dos trovões, da montanha flamejante e dos limites marcados no chão para não se aproximar de Deus senão morriam. Dessa lei do medo se originaram os milhares de preceitos e tabus de impureza que encheram livros como o Levítico do Antigo Testamento. O Deus da lei de Jesus Cristo é o Deus da proximidade, companheiro, irmão, que pensa no próximo e no irmão e  na partilha entre todos. Por isso se fala nos que sabem partilhar: bem-aventurados os que têm coração de pobre que sabem partilhar; bem-aventurados os que choram pelo sofrimento dos outros; os mansos que sabem controlar as situações; os que lutam pela justiça; os que praticam a misericórdia; os puros de um coração sem hipocrisia ou fingimento; os homens de paz, e até os que sofrem para salvar alguém. Este é o mundo de Deus ou o Reino de Deus. Um mundo não partilhado é um mundo malvado. O mundo sem partilha é o mundo sem Deus. Esse mundo sem Deus  existia no Egito da escravidão do povo judeu. O novo mundo agora é posto em teste: Se não se praticar a nova aliança da partilha das bem-aventuranças corremos o risco de cair no mesmo mundo malvado de outras escravidões, como: onde existem pobres é porque não existe partilha; onde há aflitos é porque há quem causa aflições; onde se elogiam os mansos é porque há violência; onde há fome e sede de justiça é porque a injustiça corre solta; onde se recomenda a misericórdia é porque não há misericórdia; onde se louvam os de coração sem hipocrisia é porque a hipocrisia campeia em toda espécie de subornos, injustiças e propinas; onde se louvam os  que promovem a paz é porque a violência impera contra as leis; onde há perseguidos por causa da justiça é porque a justiça não é praticada. Porque o Reino de Deus é um projeto de humanização; um mundo sem humanização é um mundo sem Deus. Projeto de humanização é um projeto de vida e felicidade para todos, porque Deus não quer o sofrimento. Nosso QrCode com a palavra-chave “monte”, “montanha” nos ensina os significados metafóricos  escondidos na materialidade das palavras, como atrás da materialidade de um QrCode se esconde uma lição de catequese e de teologia. Assim, não vale a pena a pergunta: Onde era o monte? Ele existe? Existe o monte das Bem-Aventuranças? Existe o monte do Tabor? Se, como afirmam os teólogos, a questão é uma questão teológica, então não cabe a pergunta sobre geografia mas sobre teologia. E o QrCode que está oculto neste trecho do evangelho também não é sobre geografia, mas sobre teologia.

P.Casimiro João       smbn

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

ESPIRITUALIDADE E A NOVA COSMOVISÃO

Deus é espírito? É. O que é espírito? Resposta de uma incógnita. O que é matéria? Outro problema. Santo Agostinho via na filosofia dos maniqueus que tudo era matéria. No mundo e em nós, coisa nada boa. Teve a sorte de ler Plotino, e nessa filosofia de Plotino leu que Deus é espírito. Aí esbarrou e deu-se conta dessa grande novidade. Mas como Deus era espírito, e era bom, então o problema era em nós, que participando de Deus deveríamos  partilhar o seu espírito e por isso seríamos compostos do espírito bom de Deus e da matéria do mundo que é má. Essa reviravolta encaminhou-o para escrever o livro “Cidade de Deus", onde dividiu o mundo em dois: a cidade de Deus que era o mundo bom, e a cidade do mundo que era o mundo mau da matéria. Sem dúvida que daí derivou o jargão “mundano” com toda a carga da maldade própria desse mundo carregado de matéria má, onde incluía a carne humana. Isso deu a origem a uma espiritualidade milenária que levava os cristãos a fugir do mundo, odiar o mundo, a “não se conformar com este mundo” que está aí. E ao mesmo tempo esta ‘maldição’ caía na carne que era o problema do ser humano. De tal maneira que a ‘santidade’ se realizava em “dar morte à carne” para que o “espírito” vivesse, ou ‘mortificar a carne’. A palavra-chave da ‘santidade’ era então mortificar ‘a carne’, e sacrificar a carne, inventando maneiras as mais absurdas e sofisticadas. Não admira que esta luta desigual desse origem a paranoias e patologias esquizofrênicas que acompanhavam inúmeros cristãos, com uma vida de angústia, insatisfação e decepção indecifráveis. Porquê? Porque viviam  com o seu principal inimigo dentro de casa, e não podiam livrar-se dele, a sua carne, que odiavam até à morte: não faltava quem se ‘flagelasse’, quem se mordesse como quem morde um inimigo ‘mais forte’, e quem desse baixa em albergues de doentes mentais. Digamos, esta ‘espiritualidade’ era escravizante e mortal. Quem iria livrar-nos deste “corpo de morte”? como gritaria São Paulo (Rom.7,24, “miserável homem que eu sou”). Seria preciso uma espiritualidade libertadora. Falei noutro capítulo que esta situação resulta daquela cosmologia tradicional que considerava Deus “lá em cima”, fora deste mundo e feito supervisor e investigador da nossa vida, pronto para condenar o menor deslize. E fruto daquela formação bíblica do jardim do Éden, onde Deus colocou querubins “com espadas flamejantes” para expulsar os homens do paraíso e não tentar entrar por qualquer motivo. Esta espiritualidade criou um imaginário de um Deus cruel e um ditador mau. Herdamos essa imagem do mundo em tenra idade, e a aceitamos, na maioria das vezes, sem questionar, e procuramos ser fiel a ela. Formados por padrões de pensamento religioso e visões do mundo que passou e não podem existir hoje mais. Querer continuar hoje com essa espiritualidade seria um pouco como tentar realizar uma cirurgia cardíaca em um hospital moderno com o conhecimento da ciência médica de séc.XV. Um dos problemas consiste assim: Por quê ficamos olhando noutro lugar para encontrar Deus? Por que ficamos trancados em uma espiritualidade que procura Deus nos céus de preferência a uma espiritualidade que se concentra no Deus dentro de nós e entre nós? Tanto é verdade que o Papa não tem mais Deus do que o caminhoneiro ou a enfermeira. A cozinha, o lugar de trabalho, o jardim, o quintal, o centro comunitário e o quarto de dormir, bem como a igreja paroquial e o tabernáculo estão impregnados da presença de Des. Deus não está mais na catedral do que na sala de dormir ou da TV.  É importante o que diz Morwood: “Em mim Deus fala, move-se, dança, compõe música ou escreve poesia, faz amor e cria vida, ri da imperfeição de tudo e chora por ela” (M.Morwood, O católico de amanhã, pag.101). Estranhamos a lentidão do nosso aperfeiçoamento. Quereríamos passar em todos os Enem, e também para uma perfeição sem pecados. Porém, Deus estava tanto na lentidão dos tempos passados em que a fala humana levou milhares ou milhões de anos para se aperfeiçoar, como na paciência em que a criança aprende a balbuciar as primeiras falas e a dar os primeiros passos. “Reflitamos em quem ´que nós somos: essa realidade infinita que chamamos Deus ganha expressão vivida em cada um de nós. Vamos pôr nossa fé nessa verdade básica de Deus em nós, de quem somos e de como o dom da vida nos chamou a essa parceria com Deus. Seremos só os herdeiros de uma geração como “filhos de Eva” ou como lugares de habitação do sagrado em nos? Qual dessas visões refletiremos na maneira como rezamos, cultuamos e nos comportamos?" (o.c.p. 103). Já parou para pensar que Deus tanto criou parceria com o desenvolvimento dos homens e das mulheres dos períodos dos Primatas como dos neandertais, como do homo sapiens, como do aprendizado da criança, como da estatura de você e eu agora? A maravilha não é pensar numa divindade externa, distante, que se digna romper o silêncio ou reconsiderar a amizade conosco, Deus está todo ao redor de nós. Toda a criação faz parte do dna de Deus. Já parou para pensar na água que você bebe? De onde vem? Para onde volta? A comida que você come? Tem comida que vem da Ásia, das Américas, do outro lado mundo, e para onde volta? As rosas tiram as “cores” e os perfumes de onde? Como? As plantas tiram  os sabores das frutas de onde? Como? Não dizem os estudiosos de teologia bíblica que tudo compartilha o dna de Deus? Não são manifestações da sua presença? E o seu pensamento agora? Os íons do cérebro dependem do alimento, o alimento depende de fótons produzidos no centro do sol, o sol resulta de explosões anteriores de estrelas quando estrelas explodiram, e tudo isso resulta de seja o que aconteceu no primeiro momento do início dos tempos e lhe fortalecem agora mesmo, neste instante. O que você pensa e sente neste momento só é possível através do fogo cósmico. Todo o seu sistema nervoso é rico deste fogo” (Sallie McFague, The body of God: An Ecological Miniapolis, 1993, p 40-42). Por isso repito o dito: “A cozinha, o lugar de trabalho, o jardim, o centro comunitário e o quarto de dormir, bem como a igreja paroquial e  o tabernáculo estão impregnados da presença de Deus. Só que, falando em Jesus, depois de sua morte, os autores cristãos expressaram os fundamentos da espiritualidade cristã. São esses fundamentos que permaneceram constantes, enquanto a cultura, a visão do mundo e até as nossas imagens de Deus mudaram. E ainda: “As pessoas comuns que lutam e batalham para ser fiéis a seus compromissos e responsabilidade não estão menos repletas de Deus do que o maior dos santos, pois ousamos crer que Deus é amor e quando vivemos no amor vivemos em Deus e Deus vive em nós. Deus não é Deus sem nós e nós não somos nós sem Deus. Na verdade, a realidade de Deus impregna toda nossa existência. “É essencial para a espiritualidade atual que a crença de que a divindade não é uma realidade que existe somente “no céu” ou que a realidade que chamamos “Deus” é uma realidade que existe em outro lugar. A realidade de Deus impregna toda nossa existência, como toda a criação. Como o restante da criação, a humanidade está saturada da divindade”. (Morwood, o.c.p.108). Chegamos ao ponto de, olhando o início deste capítulo, possamos ver como estaria ultrapassada a espiritualidade da fuga e da condenação do “mundo”, por herança das filosofias maniqueias e do livro “Cidade de Deus” de Agostinho. Torna-se necessário portanto abraçar uma espiritualidade coerente com as novas situações devidas à rápida e profunda mudança cultural do momento presente” (M.Castillo, Espiritualidade para os insatisfeitos, p.260). Hoje, noutro tempo, noutra cultura se faz urgente outra espiritualidade: a espiritualidade deste tempo e desta cultura e da nova cosmovisão. O “mundo” está em nós, faz parte de nós, como os metais e minerais que fazem parte de nossos ossos, nossos músculos e nossos intestinos, como faziam parte dos ossos, dos músculos e dos intestinos de Jesus. As plantas estão em nós pelos frutos e vitaminas e minerais que nos transmitem. A mesma água que nos moldou no útero materno continua em nós na medida de 75% do nosso organismo. O sol e a estrela donde a terra saiu continua em nós com a energia de seus íons e fótons luminosos que brilham nos seus olhos e nos meus, e no córtex cerebral que um dia deu origem à nossa consciência. Esta teia divina faz parte do nosso dna, como fazia parte  do dna de Jesus, e tudo compartilhado com o DNA de Deus.

P.Casimiro João    smbn

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