segunda-feira, 8 de abril de 2024

TEOLOGIA BÍBLICA, PARÁBOLA SOCIOLÓGICA VERSUS TEOLOGIA CAPITALISTA


 

Trata-se do rico e do pobre, consequências e causas das consequências. Estamos pensando na parábola do rico avaro e do pobre que na parábola tomou o nome de lázaro. Durante a existência terrena estes dois personagens não viviam juntos e por isso não foram juntos depois desta vida. Entre eles havia um grande abismo de vida, um de banquetes “todos os dias”, o outro “com chagas” e com fome todos os dias. De tal maneira conviveram com esse abismo que só se deram conta mais tarde, mas já era tarde demais. No centro da parábola, e como consequência da divisão, vem a resposta para o sofrimento do rico que pedia ao “pai Abraão” para que mandasse  o Lázaro “molhar ao menos a ponta do dedo para refrescar a sua língua” (Lc. 16,24). Resposta do pai Abraão: Não é possível, “porque há um grande abismo entre nós, porque ninguém pode passar daqui para aí, e nem os daí podem passar até nós” (Lc.16,24). Quem fabricou esse abismo?

No concilio vaticano II a Igreja fez ou sinalizou o caminho para a opção preferencial pelos pobres (G.et Spes,n.26). Essa orientação foi especialmente acolhida nos países da América do Sul, onde as consequências do colonialismo tinham feito muitas marcas, e, depois disso, a maior parte dos países estavam em voltas com as ditaduras, impostas pelos presidentes dos USA, que no auge da guerra fria estavam espalhando uma dominação econômica, ideológica, religiosa fundamentalista e politica como um bloco contra as pretensões do Leste europeu. As pessoas eram tratadas e manobradas como instrumentos a serviço dessa ideologia e não como pessoas. Não podiam pensar por elas mas tinham que pensar pelo pensamento dos Estados Unidos da América. Lyndon Johnson e Ronald Reigan surgiu como o maior furacão do poder e da imposição dos interesses americanos, não olhando a meios nem modos.  (https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-brasil/2024/04/07/espero-que-nos-deem-credito-como-eua-apoiaram-os-militares-no-golpe-de-64.htm). A pobreza e os pobres não podiam reclamar nem cobrar seus direitos porque a ideologia e a religião americana proibiam. E apareceu a religião fundamentalista que só era religioso quem defendesse os Estados Unidos. Caso contrário, os Estados Unidos mobilizavam os exércitos e as polícias locais para prender, torturar e matar. Um detalhe importante é que os Estados Unidos encontraram um forte aliado para impor esta sua ideologia. A Igreja. E de quebra foi nessa época que aumentaram as igrejas protestantes nestes países das Américas. Foi como mel nos favos. Os Estados Unidos invadiram nossos países com seus pastores, suas bíblias, seus grossos salários a igrejas e a pastores. O carro chefe era a Igreja católica, e de quebra espalharam seitas e igrejas por todo canto. É historicamente certo e comprovado que os mesmos Estados Unidos encheram os deputados e o senado de Brasília de dinheiro para iniciar a ditadura militar no Brasil em 1964. Igualzinho como já tinham feito no México, no Chile e na Colômbia. Estava instaurada a religião fundamentalista, e o império neo-colonialista dos USA não só no Brasil mas nos países vizinhos. O suporte religioso era a teologia capitalista que defendia que só era religioso quem defendesse os Estados Unidos. E não só. Quem fosse defender as classes da pobreza estaria contra os interesses dos USA. Nessa altura e nessa situação dramática em que foram mergulhadas as nações da América do Sul foi a época que encerrou o concílio vaticano II. E como seria para enfrentar esta situação em toda América do Sul? Com o desenvolvimento do concílio formou-se a teologia que visava se colocar ao lado das classes marginalizadas e esquecidas, já que ninguém as atendia nos seus direitos básicos de salários, trabalho, saúde moradia. Além do medo natural do pobre ainda vinham todas as ameaças, se arriscassem falar alguma coisa. Em contrapartida à teologia capitalista, esta foi chamada teologia de libertação, inspirada na Bíblia quando marca o perfil do futuro Messias e que Jesus assumiu para a sua vida: “O Espírito do Senhor está sobre mim e me ungiu para levar a boa nova aos pobres, anunciar a libertação aos cativos, a vista aos cegos e publicar o ano da graça do Senhor”(Lc.4,18). Ficou bem claro que enquanto a teologia capitalista escolhia o capital, esta teologia escolhia não ser rica. A teologia capitalista dando sempre o braço aos donos do capital, a teologia da libertação dando o braço a quem sofria os abusos do capital. A capitalista dando o braço ao político que flerta com o capital, a da libertação se afastando deste tipo de flerte. A teologia capitalista visando sempre os interesses e a obediência aos Estados Unidos, a da libertação não visando esses interesses, nem essa subserviência e nem essa obediência. Não admira então que os detentores daquela política e daquela teologia capitalista ficassem de olho na teologia da libertação e nas igrejas. Até porque nas ditaduras foram proibidos e controlados os Sindicatos, associações e até as reuniões de oração eram vigiadas.

Conclusão. A teologia capitalista seguiu aliás a tradição histórica como regra geral. Desde a entrega do poder político que os primeiros imperadores cristãos no séc.IV fizeram à Igreja, ao mesmo tempo lhe entregavam a teologia capitalista. Embora eles sejam chamados de “imperadores cristãos”, de cristãos não tinham nada, só mudaram o nome de “pagãos” para convertidos de fachada. E esta fachada eram seus interesses políticos e pessoais para se aproveitarem da Igreja. Isto levou a Igreja a entrar no seu trem de domínio, de ditadura, de poder absoluto e de riqueza e ostentação. Desse jeito, por regra geral a teologia da Igreja caminhava com a política capitalista que geralmente oprime o povo. E a teologia da libertação tinha o lema de caminhar com o povo. “Não sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam?” Entre vocês não deverá ser assim”(Mt.20,17).

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 1 de abril de 2024

TEOLOGIA BÍBLICA, A FÚRIA DOS DEUSES E OS FILHOS PRIMOGÊNITOS


 

Segundo Platão, o deus Zeus recusou sacrifícios humanos. Um dia em que Neféle  ia sacrificar o seu filho Frixo ele enviou-lhe um carneiro de ouro para substituir o filho que ele queria sacrificar. Isto nos faz lembrar o episódio de Abraão quando, por uma suposta  “ordem de Deus” estava também pronto para sacrificar o filho Isaac, quando Yaweh lhe teria apresentado um carneiro ali preso nos espinhos. (Gn.22,1-18).

Devemos ter em conta que os judeus conviviam com deuses, sacrificavam aos mortos, e ofereciam sacrifícios de crianças, mormente em tempos de crise. (Cf M.Smith, “O memorial de Deus”, p.150). Desta maneira, o filho mais velho estava destinado para ser a próxima vítima para os deuses quando aconteciam calamidades, epidemias, ou grande abalos da natureza como pestes e terramotos. Nessas horas os antigos atribuíam isso como castigos de Deus, e eram a vingança dos deuses por causa dos pecados do povo. E os deuses exigiam a morte do filho mais velho para aplacar a sua ira. A morte dos primogênitos dos egípcios é um reflexo dessa mentalidade, pois Deus estava irado com o Egito. E de quebra também na circuncisão dos meninos dos judeus que teriam que ser “resgatados” pela oferta de um animal, porque eles pertenciam a Deus. Segue esse mesmo padrão a cena típica do sacrifício do filho primogênito de Abraão: “Toma teu filho único, dirija-se à terra de Moriá e ofereça-o aí em sacrifício sobre um monte que eu te indicarei” (Gn.22,2). Aqui aconteceu a troca do filho por  um carneiro, igual como na história de Neféle onde houve a troca por um carneiro de ouro. As antigas religiões viviam desse imaginário de sacrificar filhos pelos pecados do povo. Estas exceções de Abraão e a outra de Platão são casos extremos da troca por animais, o que iria acontecer muito mais tarde como regra geral, como está ordenado no Livro de Levítico quando fala dos sacrifícios. *Lv.cap. 1; cap.9, 13 e 17). Em consequência vem a teologia de Paulo nas suas Cartas onde diz: “Deus não poupou seu próprio filho, mas o entregou por todos nós”(Rom 8,32). Sempre a mesma ideologia de sacrificar o filho primogênito, ou o filho único, pelos pecados do povo. Porquê? Porque era preciso acalmar a fúria dos deuses, e de Yaweh quando os judeus sacrificavam, e do Pai do céu quando “entregou” o filho “pelos pecados dos homens”. Dessa teologia paulina se desenvolveu a teologia dos Padres da Igreja, passou pela época medieval e chegou aos nossos dias. Porém, agora sabemos por meio de novos conceitos que a fúria dos deuses não existe, e nem existiu a fúria de Javé no Éden quando “postou os querubins” com espada flamejante para guardar o caminho e a porta do Éden, depois de ter expulsado o homem, (Gn.3,24). Essa ordem nunca existiu, porque o conto é um conto e não uma história física. Então, como não existia a fúria, como acontecia com os “deuses antigos”, também não é exigido “sacrificar” o filho  pelos pecados dos homens. Até que se sabe agora que o Gênesis é uma “etiologia” ou um catecismo antigo para “adivinhar” como teria sido a “criação do mundo”, e “adivinhar” de “onde teria vindo a morte, e de onde teria vindo o sofrimento”. E o Gênesis , como o Gilgamesh e Enuma Elish dos babilônicos, mais antigos que o Gênesis, cada um de sua maneira  imaginaram uma explicação, mas todos os três compartilhando com todos os três. Há novos dados antropológicos e científicos e cosmológicos  onde não se vai pela imaginação mas pela certeza que antes desses livros já existia o mundo há 15 bilhões de anos, céus, mar, plantas, terra e animais há 10 bilhões de anos, oito e sete respectivamente, e o ser humano há cinco milhões de anos. E morria gente e vivia, faziam amor e enterravam seus entes queridos com respeito e orações, sem nunca ter visto querubim nenhum com “espadas flamejantes”.

Que a Igreja caminha junto com a humanidade está hoje afirmado, quando pela primeira vez, perdeu na quebra de braço quando viu que errou quando condenou a ciência, nos casos de Nicolau Copérnico, Giordano Bruno e Galileu Galilei. E quando largou a teologia de Agostinho sobre a condenação ao inferno de quem não era batizado, como até as crianças, e adultos. Quando, depois de condenar as teorias do Iluminismo, da “liberdade de religião” e “liberdade de consciência” hoje está retirando esses anátemas. Vale dizer, o mundo caminha, não é um mundo paralítico; e a Igreja tem que caminhar, não pode ser uma Igreja paralítica.

Conclusão. A vida é um show como diz o cantor, o mundo é um palco. É uma surpresa  olhar os inicios do pensamento da humanidade, como ela lidava com os deuses e como os imaginava: seres devoradores que devoravam vidas, mas primeiro porque eles se devoravam uns aos outros. E os mortais que assim os consideravam se acomodavam aos seus desejos vorazes. E se os homens extrapolavam era também devorados por eles. Esse imaginário ainda vem acompanhando 98 por cento dos mortais gerando medos, pavor e depressões. Entrou no Novo Testamento com a obrigação de entregar o filho mias velho para ser “devorado” pelos deuses. Até a ousadia foi tão grande que o Deus cristão também apanhou o título de ser devorador dos mortais por “causa dos pecados”. E até, como não havia “equivalência entre as ofertas humanas que apaziguassem a “dívida e fúria divina”, esse Deus se teria visto na necessidade de entregar o seu filho que, teria caido na “armadilha” de viver uns tempos com os homens, para exigir a morte dele para ser também “devorado” pela fúria divina”. Assim estaria feito o “equilíbrio” entre “a dívida” e o “pagamento” pelos pecados. Deus por Deus, filho por filho. Foi nesta teologia de Paulo que caminhou a Igreja e ainda continua caminhando.

P.Casimiro João   smbn

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segunda-feira, 25 de março de 2024

TEOLOGIA BÍBLICA, “Olharão para aquele que transpassaram.” (Jo,19,37).


 

Esta expressão de João reporta-se a uma cena narrada no Livro de Números, cap.21, em que o povo murmurava contra Moisés porque não tinham carne nem mantimentos no deserto, e então, no eufemismo de época, o livro descreve que “Deus mandou serpentes venenosas que os picaram, e morreram muitas pessoas”. (Num. 21, 1-6) Aí, “por indicação” de Deus, Moisés teria levantado uma serpente de bronze num poste, e quem olhasse para ela seria curado.” (Num.21,6s). Afinal, em tempos mais antigos o filho de um deus teria vindo em socorro de pessoas que também andavam no deserto, e eram picadas por serpentes. O povo orou ao seu deus, assim como fez Moisés, e ele mandou o seu filho em socorro desse povo. Ele ficou enrolado numa planta, o povo olhou bem para ele, e ficaram curados. Ficou conhecido como Esculápio o filho do deus Apolo. Essa lenda deu origem ao logotipo da Medicina, e deu origem à narrativa da Bíblia de que falei acima.(Cf.Philipe Wajdenbaum, “os argonautas do deserto”, p.190). Naquela época os autores já tinham este método de “Ctrl” (copia e cola), e assim fez o autor do Livro de Números, num método de adaptação como aconteceu com a data do NATAL. Por seu lado os autores do evangelho de João se inspiraram aí para completar: “do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos que nele crerem tenham a vida eterna”.(Jo.3,6).  Isto é, no seu catecismo os autores  deste evangelho foram buscar a citação de Números, assim como o livro de Números foi buscar a cena de Esculápio. Isto chama-se uma adaptação. Há outros exemplos destas adaptações na Igreja. Uma delas é a data do Natal. Ninguém sabia a data do nascimento de Jesus na época de Constantino, séc.IV, então a Igreja aproveitou a festa do deus Mytra o deus Sol, que era celebrada em Roma no dia 25 de dezembro, para transformá-lo no dia do nascimento de Jesus. Esse dia era conhecido como  a festa do “dies solis invicti natalis” quer dizer, o dia do nascimento do Sol invicto. Trocado em miúdos, ficou chamada a Festa do Natal. Assim a celebração do Natal transformou e adaptou a maior festa pagã do império romano para a festa do Natal. Assim a festa do deus Mytra passou a ser a festa de Jesus no Novo Testamento. No próprio império romano nascia a maior festa cristã nas raízes da maior festa pagã. A isto chama-se transformação e adaptação. Se fossemos enumerar o que há de mais casos históricos levaria muito tempo e páginas e paciência. No título desta página fizemos referência a outro dito do evangelho de João, referindo-se justamente à posição de Jesus na cruz: “olharão para aquele que transpassaram” (Jo.19,37). Mais uma referência à recomendação de Números: “Os que olharem, i.é, os que virem ficarão curados”. Essas mesmas palavras vêm no primitivo quadro do deus Esculápio filho do deus Apolo: ”Olhem bem para ele, escondido na planta, para ficarem curados”.(Ph. Wajdenbaum o.c.p.197). João também diz que isso já tinha sido proferido pelo profeta Zacarias. No entanto os comentadores referem o pronunciamento de Zacarias à morte de Josias, o último rei de Judá, morto por um sodado egípcio na batalha de Meguido. E as palavras são diferentes: Eles olharão para mim por causa daqueles que foram transpassados e lamentarão como quem lamenta a morte de seu único filho, ou a morte de um primogênito” (Zac.12,10). Também os estudiosos notam que esta citação não aparece em nenhum outro evangelho, nem em lado nenhum do N.T. e nem em São Paulo. Aliás, em épocas posteriores ao profeta Zacarias eram lidas também edições do escritos do famoso Apolônio de Rodes, o autor do livro original que referimos "Os argonautas" onde narra as curas de Esculápio.

Conclusão. Parafraseando o evangelho, no nosso tempo diríamos que não basta olhar só para Jesus na cruz. Essa atitude era a atitude histórica do povo sofredor no meio das “serpentes”, mas agora o povo sofredor está no meio das ruas das grandes cidades, e são picados pelos venenos das políticas exclusivas que os desprezam, os marginalizam e matam de morte matada pela arma das policias, pela arma dos vigias de supermercados dos que os vigiam como não tendo o direito de entrar nos supermercados. E no meio de tudo isso há a mística quase nunca entendida: “O que fizerem ao menor dos meus irmãos é a mim que estarão fazendo”. (Mt.25,40).

P.Casimiro João

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segunda-feira, 18 de março de 2024

TEOLOGIA BÍBLICA, UMA SÓ LETRA OU UMA VÍRGULA.


 

Tomemos um exemplo em Mateus: “Não penseis que vim para abolir a lei e os profetas; não vim para abolir mas para dar-lhes pleno cumprimento. Antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra. Portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos, por menor que seja e ensinar os outros a fazerem o mesmo será considerado o menor no Reino dos Céus; porém quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus”(Mt.5,17-19). Em primeiro lugar, se tomarmos este discurso à letra, Paulo seria o menor no Reino dos Céus, ou mesmo excluído. Mas ele é um dos maiores no Reino dos Céus. E então? Ou a Bíblia brinca ou temos que procurar uma explicação. É o que tentaremos fazer.

Comparemos com estas afirmações de Paulo:”O homem é justificado pela fé, sem a observância da lei”(Rom.3,28). E: “Ele(Jesus) aboliu na sua própria carne as obras da Lei”(Ef.3,15). Paulo pôs a cabeça a prêmio para acabar com a circuncisão. Jesus falou contra a observância do sábado: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado”(Mc.2,27). Falou contra a obsessão da lei de lavar jarros e copos segundo o mandamento deles (Mt.15,20). Contra o conceito de comer “alimentos impuros” (Mt.19 ss). Faremos a pergunta: Então o evangelho está cheio de contradições? Sobre o mudar “uma só letra ou vírgula”, há um grande reparo a fazer. Os estudiosos dos pergaminhos e documentos antigos estão carecas de observar que os copistas omitiam e trocavam letras, palavras, vírgulas e pontos por falta de certezas e por falta de clareza do que estavam copiando. Ou por engano próprio ou por falta de visão devido à fraca luz das lamparinas de óleo ou de azeite, por cansaço do trabalho e de letras apagadas. Quantas trocas devem ter acontecido, é impossível de calcular. Além de outra coisa: as traduções de uma língua para outra: do aramaico para o grego, grego para o latim, de novo para o aramaico e hebraico. Impossível de imaginar. Todos os estudiosos e investigadores das ciências bíblicas afirmam que não existe mais nenhuma Bíblia “original”, nenhum evangelho “original”. Dois pontos importantes a considerar: Nos primeiros tempos da era cristã o povo era livre de “aumentar” palavras, frases e textos nos evangelhos, Cartas, etc. Assim como também faziam isso os próprios Judeus na sua Bíblia do Antigo Testamento. Um cristão lembrava de fazer um comentário de tal discurso, de tal evangelho, e fazia; o seu escrito ficava lá grudado junto com o evangelho, de tal maneira que ninguém sabia se eram de Jesus essas palavras ou dos primeiros autores ou de quem. Simplesmente ficavam lá. Podia ser um pregador, um catequista ou outro cristão. Quem sabe, às vezes era de alguém que não concordava com o que estava escrito e aumentava no texto a sua opinião. Do mesmo modo os Judeus na sua Bíblia, como disse. Até que por fim os Judeus puseram um ponto final nisso e determinaram acabar com esse costume e essa liberdade. Isso foi no século II d.C. o chamado “canon.” Depois deles os cristãos fizeram a mesma coisa mas só mais tarde, no século IV, o “canon” do Novo Testamento. Até essa data, o que não terá acontecido de acrescentos e comentários nos evangelhos? Você pode imaginar. Vejamos o que dizem os autores: “A Bíblia não é mais a mesma desde que começou a ser elaborada. Há diferentes razões para isso, como traduções, e reinterpretações dos manuscritos; as cópias eram feitas à mão, e não sempre por profissionais. Ela não é um livro único mas um compilado de diversos livros reunidos, que foram sendo escritos ao passar dos anos. Esse detalhe resulta em erros, omissões de partes dos manuscritos e, importante, tanto por problemas na tradução como por desejo de quem fazia a cópia. Caso você não saiba de química básica, folhas de celulose ou fibra, como papiros, ou couro de animal, se deterioram na presença da humidade, por este motivo não se tem os originais dos textos bíblicos. Não existe originais da Bíblia em local nenhum do mundo. O papiro p66, por exemplo, data do séc. III e não contém a famosa passagem da mulher adúltera. A Bíblia é baseada na sua grande maioria nos textos fragmentados, faltando partes, e tentando completar o que faltava. De qualquer forma, o livro que conhecemos como “Bíblia sagrada” não tem um original”.(C. Grossmann, Quora, 2009). No caso presente era a época quente das polêmicas sobre a “circuncisão”. O Paulo pregava que não mais necessária a circuncisão, outros que sim. Os cristãos convertidos do Judaismo faziam muita polêmica. O Paulo já não estava vivo, mas ficaram as Cartas dele. As Cartas de Paulo começavam rodando. As Cartas foram escritas antes dos evangelhos. No caso, este evangelho de Mateus foi escrito nos anos 80-85. Por outro lado, na comunidade onde foi escrito o evangelho de Mateus havia muita influência de Pedro, pois era a região de Antioquia onde Pedro tinha pregado. E como sabemos, entre Pedro e Paulo havia embates sobre a circuncisão. Pedro era indeciso e Paulo era firme na sua decisão. Não é então de admirar que, ou no início da escrita do evangelho, ou depois, qualquer pregador aumentasse a sua opinião e escrevesse mesmo no evangelho contra a doutrina de Paulo. Aí havia o perigo seguinte: muitas pessoas podiam ficar confusas sobre se foi Jesus ou não quem falou este discurso que até só vem no evangelho de Mateus. É o que aconteceu em toda a Idade Média até há pouco tempo que se ia repetindo. Infelizmente a Igreja ensina-nos só a repetir, e não a pensar, e ameaçando com os dogmas. Até que estudos e documentos encontrados e comparados, como os documentos do Mar Morto em 1946 levaram os estudiosos a descobrir por sinais certos que muitas palavras não são originais de Jesus nem dos primitivos evangelhos, como no caso que estamos estudando. Há uma ciência que consiste em comparar essas cópias em busca do que seria o texto original.

Conclusão. É divertido o estudo da Bíblia. Afinal, à primeira vista alguém poderia ficar amarrado com o tal “quem mexer numa só letra ou virgula” (Mt.5,19), como a galinha fica amarrada por um fio desenhado no chão, e afinal a Bíblia não foi só mexida numa letra mas em muitas, e muitas virgulas. Naquela época havia uma “polarização”, digamos, entre os radicais ou fundamentalistas contra um Paulo e os cristãos e comunidades que avançavam na compreensão da revelação e da fé e que, parafraseando Jesus, podiam dizer que “o homem não foi feito para a revelação, mas a revelação é que foi feita para o homem”, e da mesma maneira a fé: “o homem não foi feito para a fé, mas a fé é que foi feita para o homem”. Uma observação: O que veio primeiro o homem ou a revelação? O homem ou a fé”?

P.Casimiro joão      smbn

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segunda-feira, 11 de março de 2024

TEOLOGIA BÍBLICA, DEUS YAHWEH FRACO E FORTE.


 

Nos padrões do antigo Oriente a derrota de uma nação poderia também indicar a impotência de seu deus. A nação da Bíblia, que sempre considerou o seu deus Yahweh como o mais forte, um dia entrou em crise com as sucessivas derrotas de que foi alvo. E agora? Era a pergunta. Nessa hora tiveram que amargar e enfrentar a sanha dos deuses vizinhos que “teriam derrotado” Yahweh assim como tinham derrotado a nação. Ashur, o deus mais vizinho era visto como um imperador divino sobre todos os deuses das outras nações. Assim o deus Ashur tinha o mesmo nome da Assíria e tinha derrotado Yahweh. E o pior era que a Assíria dominava o mundo todo, desde o Egito até a Palestina. Israel era um país quebrado. E de quebra, há um dado importante nisso tudo: a base social de Israel foi quebrada, ao mesmo tempo que a nação, qual era a base social? A família. E como é que a família foi quebrada? Com os sucessivos cativeiros onde eram escravos. Como a terra fazia parte da família, ela foi deixada para trás; os filhos foram deixados e separados dos pais, e as mulheres separadas dos maridos. E ainda mais, os reis ficaram também na cadeia feitos prisioneiros, ou mortos. Foi assim o retorno do exílio quando essa nação quebrada voltou aos pedaços das terras estrangeiras. Foi quando, em vez do rei, era nomeado o sumo sacerdote para o governo no lugar dos reis que já não existiam mais, com exceção de João Hircano, (104 a.C.) quando os romanos lhe concederam o título de rei antes de ser assassinado. Isto era o ano 537 a.C. quando Ciro mandou eles de volta para suas casas, mas na condição ainda de escravos da Pérsia que tinha vencido a Babilônia, e depois ainda no poder de Alexandre, o grego em 333 a.C. no período helenístico, tendo uma folga de 40 anos no período dos macabeus até cair no poder dos romanos em 63 a.C. Digamos que isto teria sido providencial da seguinte maneira: Antes, os reis tínham os seus deuses, como qualquer um dos reis das nações vizinhas, ou quando casavam com estrangeiras ou tinham concubinas que traziam os seus deuses. Agora não tinham mais o rei, não tinham os deuses do rei e das concubinas. E aquilo que anteriormente tinha sido tão criticado sobre os “deuses” das outras nações eles esqueceram que tinham sido também os seus deuses. Era agora a hora de começar a cumprir. Era o século III e II antes de Cristo, quando Israel começou a considerar-se povo de um só deus ou monoteísta porque disseram Yahweh é o nosso rei e o nosso deus porque não temos outro rei, (Cf.Daniel, 3, 37ss.) Aliás, muito antigamente já tinha havido o Akenatón do Egito que em 1.200 a.C. tinha decretado um só deus para toda a nação, o que foi praticado até a morte dele.

Nesta época que estamos falando, a Bíblia foi editada, e reeditada, e o monoteísmo que agora adotaram, digamos, na marra, eles o estenderam como se tivesse sido praticado em épocas anteriores, o que é uma falácia. E nas reedições que agora fizeram assim colocaram nas novas reedições, desde o Êxodo, Deuteronômio, Crônicas etc.(Cf. 2Cr.36,14) Autores modernos colocam esta data como a mais produtiva da escrita e reescrita da Bíblia, dizendo que antes tinham só “ensaios”, nós diríamos rascunhos. E teria sido esta a data da elaboração definitiva da Torah e dos Livros Históricos, de Gênesis até Reis. (Cf. Mark Smith, “O memorial de Deus”, p.170). E também Philippe Wajdenbaum, “Os argonautas do deserto, pari passu). Vejamos o que diz M.Smith: “As reedições de grandes textos religiosos sobre o passado parece ajudarem a gerar e a modificar a ideia de uma deidade única na história bíblica”(o.c.p.177). E assim, esta atividade de editar e reeditar textos antigos envolveu também sua configuração: Textos deste tipo e deste tempo canalizaram todos os papéis dos deuses anteriores para esta única divindade agora adotada, o Yahweh. Deste modo foi construída uma afirmação pós-exílica sobre o monoteísmo como sendo constante em todo o passado de Israel. “No contexto pós-exílico uma das mais importantes asserções do monoteísmo reside na construção da primeira metade da Bíblia Hebraica canónica, a Torá e os Livros Históricos” (M.Smith, o.c.p.179). Na verdade, vejamos a data em que os estudos modernos colocam a escrita da Torá e dos Livros Históricos: “O formato destas obras foi concluído ao redor de 198 a.C. à época de Ben Sirac, sendo a última reedição do fim do império persa. Desta maneira, e nesta estratégia, o politeísmo foi empurrado para as sombras, ou negado, como se em todo o período tivesse havido “um só deus em  Israel” (o.c.p178), estratégia que já foi explicada neste blog (www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br de 25/2/24). Um exemplo flagrante: “Em Êxodo, 6,2-3 fica bem claro que que os patriarcas não conheciam a deidade pelo nome que a tradição javista associou ao chamado de Moisés” (o.c.p179). Estamos vendo como a “memória coletiva de Israel e a amnésia coletiva de Israel ajudou a gerar e visão monoteísta da Bíblia fora da cosmovisão politeísta israelita mais antiga e, então, interpretaram os fatos antigos à luz da nova visão” (o.c.p.179). Estamos agora observando como no mundo acontecem coisas estranhas: religião e política caminham juntas, ou para bem ou para mal. Sobre as acirradas críticas aos santuários de Dã e Betel, com o deus Baal se recusando a unir-se aos cultos de Jerusalém com o deus Yahweh mas também com a deusa Asherá o autor M.Smith observa o seguinte: “O problema não era ter ou não ter outros deuses mas era a competição de diferentes divindades apoiadas por diferentes santuários”.(o.c.p.81). Isto é, não eram problemas religiosos mas políticos porque tanto em Betel como em Jerusalém cultuavam vários deuses e deusas, como a Asherá, esposa de Yaweh. E tanto assim que eles levaram esta briga até transportá-la para o Monte Sinai, onde estrategicamente montaram a cena do “bezerro de ouro”. E tanto em Betel o deus Baal era representado como um “bezerro de ouro” como em Jerusalém o deus Yaweh era representado também como um “bezerro”, junto com a consorte “Asherá”, a “Rainha do céu”(Cf. o.c.p.101; cf. Jer.7,18 e 44,19).   Esse bezerro de ouro estava acontecendo nesse momento entre eles. Na verdade O Sul queria que todos viessem em Jerusalém, mas os do Norte não queriam e fizeram seus santuários e os seus deuses (Dã e Betel). Embora que tanto uns como outros tinham vários deuses, com suas imagens. O povo da Samaria fez esses cultos “a fim de impedir a sua população de continuar sua peregrinação a Jerusalém,” (o.c.p.62; cf. 1 Reis, cap.12), i.é, para que os Baal do Norte não fossem adorar os Baal de Jerusalém. Antes de concluir, diremos com M.Smith que com todas as habilidades e estratégias de época em época o Sinai conseguiu firmar-se como “uma realidade quase divina, consistindo de múltiplas partes de diferentes períodos; em resumo, como uma unidade “divina e eterna”, ainda que um amálgama humano unido pelo tempo”. (o.c.p.215). Assim como “mudanças posteriores sobre as figuras de Davi e Moisés foram transformados em figuras heróicas e lendárias”(id.p.230). Em consequência: ”Historicamente falando, a revelação no Sinai, como ela é apresentada na Bíblia, não “aconteceu” no ponto de origem de Israel. Em vez disso, como vimos, a apresentação bíblica do Sinai envolveu descrições construídas em vários pontos no tempo, apresentadas como uma única narrativa” (o.c.p.232). Além disso, como dissemos na página anterior, Não há evidências claras da estadia de Israel no Egito nem em fontes e documentos egípcios, nem na arqueologia. (M.Smit, O memorial de Deus,p.176-177).

 

Conclusão. Terminamos como começamos: Yahweh, deus fraco e forte. Era fraco quando sofriam derrotas. Mas eles queriam sempre ganhar, e que Yahweh sempre ganhasse. Mas ele ganhou sendo fraco e “derrotado” porque com as derrotas sucessivas do povo judeu ele veio a ser o “deus e o rei dos judeus que já não tinham outros reis nem outros deuses como vimos atrás. E assim a política andou sempre no meio. E apesar da relativa folga depois de voltarem para suas casas, nunca o povo judeu alcançou a liberdade depois da queda da Samaria no séc.VIII a não ser por uns 40 anos com os macabeus, de 123 a 63 a.c. ano da conquista por Roma. E nunca também deixou o politeísmo. Porém, depois dessa sujeição histórica às nações estrangeiras e depois desses deuses que sempre cultuou, Yahweh ficou escolhido, digamos, na marra, como único deus. Foi então o último recurso, e dali em diante Israel, diante do mundo, teve ocasião  de ficar como o padrão de nação monoteísta. Vejamos o que diz uma escrita da época: “Senhor, estamos hoje reduzidos ao menor de todos os povos, somos hoje o mais humilde de toda a terra: estamos sem reis, sem profetas, sem guias, não há holocausto nem sacrifício, não há oblação nem incenso, não há lugar para oferecermos em tua presença as primícias e encontrarmos benevolência”(Dn.3,37-38). É como você quando não tem mais ninguém para quem recorrer é que se apega com Deus. Assim, quando ficaram sem rei e sem seus deuses e suas concubinas, ele ficou como único rei e único deus, como vimos, menos de 200 anos antes de Cristo. “Quando não há mais recursos, só Deus mesmo”. Digamos que pela sua “fraqueza” Yahweh se tornou o deus “forte”, historicamente, politicamente, e teologicamente.

P.Casimiro João  smbn

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segunda-feira, 4 de março de 2024

TEOLOGIA BÍBLICA: SALOMÃO, ESPLENDOR OU MITO


 

Na página anterior tivemos alguma referência à história de Salomão e apresentámos as referências de Mark Smith que “apesar de não ser considerada historicamente inútil, a Bíblia não ocupa mais o lugar privilegiado de ditar as normas para a reconstrução do passado de Israel. O testemunho bíblico é “considerado” e “pesado” com evidências arqueológicas e textos extrabiblicos depois de terem sido avaliados separadamente por seu valor histórico” (Mark Smith “O memorial de Deus”, p.35). O assunto hoje é a historicidade das narrativas salomônicas e, de quebra, de Davi.

Primeiramente, nenhuma construção de Salomão foi encontrada em Jerusalém, como o famoso Templo de Jerusalém. Pelo contrário,  achados arqueológicos de grandes construções foram achados na Samaria, e em Meguido, onde nunca andou Salomão, e de uma data mais de 100 depois dele. Porém a Bíblia desvia os locais e os autores das construções, atribuindo-as a Salomão, em Judá, no Sul, por motivos políticos que veremos em seguida.(Cf. J. Ademar Kaeffer, A Bíblia e a Arqueologia, Paulus, 2018, p.57-58).Em Jerusalém não há vestígios de construções que a Bíblia atribui a Salomão. Nem uma pedra dessa estrutura foi encontrada, apesar de mais de um século de buscas por conexões entre o texto bíblico e as evidências do local de escavações. Essas construções contadas pela Bíblia, afinal de contas são da época da dinastia omrida, dos reis do Norte: Omri e Acab, no Norte e não na Jerusalém de Salomão.”(o.c.p.68). O motivo foi a ideologia dos escritores do Sul que quiseram passar uma borracha na historia do Norte. O templo de Jerusalém só na época de Josias é que começou a funcionar depois da construção subsidiada com o dinheiro da Assíria quando conquistou o país, para com isso manter o domínio sobre Judá que prometeu boa convivência e vassalagem de tributos  a Nabucopalasser e Nabucodonosor II da Assíria. Esta será então a época do Primeiro Templo.

Foi nesta época que teve início a maior atividade literária, que antes constava só de ensaios. Foi assim que a literatura deuteronomista feita no Sul reeditou a história bíblica segundo a sua ótica ideológica. E conseguiu isso aproveitando-se do declínio do Israel Norte (Samaria) tomada por Sargão II e Nabucopalassar. Foi assim que trocou os dados da história, forjando a ideologia do império de Salomão. Depois os assírios resolveram também abocanhar Judá e Jerusalém, quando Judá quis trair a confiança da Assíria, aliando-se secretamente com o rei Necau do Egito.  Como tinha sido o fim da Samaria, no Norte em 722, assim foi o fim de Judá, no Sul em 586. Falámos no inicio do período da escrita. Ele começou na Samaria, Norte. Inscrições hebraicas aparecem pela primeira vez em Hazor e Betsã em 883 na Samaria (Norte), enquanto que no Sul só no século seguinte. E porque é que essa escrita prosperou no Sul, em Judá?  Porque alguns fugitivos da Samaria, quando foi tomada por Nabucodonosor, conseguiram fugir para Judá e levaram consigo esses primeiros escritos, que depois foram transformados pela ideologia do Sul. Temos na cabeça que Davi conquistou Jerusalém em 1.000 a.C. e depois teria sido sucedido por Salomão e daí por diante. Porém, as últimas descobertas e escavações arqueológicas têm mudado a visão que é a seguinte: 1- A formação de Estado da Samaria, Norte não tem nada a ver com os filhos de Salomão depois do ano 1.000 a.C. mas com a dinastia Omrida (Omri e Acab (884-831). 2- Como se formou o Israel bíblico: No séc.VIII (722 a.C.) deu-se a queda de Samaria, Norte, e houve uma migração em massa para Judá e Jerusalém: gente vinda da Samaria, de Betel etc. Jerusalém que tinha 1.000 habitantes ficou com cerca de 15.000 almas. Judá transformou-se em Reino neste momento. A Assíria tinha aniquilado a Samaria porque era perigosa, mas Judá não oferecia perigo nenhum. Foi com esta vinda para Judá que se formou o Novo Estado de Israel bíblico. Não há evidências claras da estadia de Israel no Egito nem em fontes e documentos egípcios, nem na arqueologia. (M.Smit, O memorial de Deus,p.176-177).

A escrita tomou agora seu grande momento. E foi reformulada e reeditada toda a história de Israel, sob a ótica dos escribas do Sul. O grande objetivo foi promover os “reis davídicos” como os únicos governantes legítimos, e o Templo de Jerusalém, que de um quase nada foi construído por Dário e os sucessores de Nabucodonosor, como dissemos, para servir à ideologia da Assíria. O que levou pouco tempo, só até 586 quando se deu a queda de Jerusalém e Judá. “O autor de Êxodo incorporou as tradições do Norte mas as sujeitou aos seus principais objetivos ideológicos. Por isso foi necessário a imaginação épica da construção do império salomônico para dar todo o respaldo aos seus objetivos. Por isso é uma história não bem contada na Bíblia, pois é ideologicamente distorcida, a fim de servir aos interesses de Judá num momento em que o reino da Samaria já não existia mais. Isto até que chegasse o momento em que Judá deixou também de não existir mais. 586 a.C. (Cf.o.c.p.91).

Do lado da arqueologia fica evidente que os monumentos tradicionalmente atribuídos a Salomão fazem parte da lenda. Como vimos, em população e em relevância, Judá era desconhecida dos reis do entorno. Nesse primeiro momento Judá não era ainda reconhecida como Estado. Foi devido a isso que a ideologia posterior de Judá elaborou outros dois mitos, Jeroboão e Roboão como filhos de Salomão para daí construir um Salomão fabuloso e de quebra o mesmo Davi, os quais historicamente teriam sido apenas simples chefes tribais. Nos registros da época não se encontram noticias de Salomão nem do seu reinado. “Salomão não é mencionado em nenhum texto extrabíblico nem do Egito nem da Mesopotâmia” (J.Ademar Kaeffer, o.c.p.56).

Conclusão. A história bíblica é muito intrincada. Este pequeno resumo possa servir para nos alertar sobre as nossas seguranças e nos levar a desconfiar de nossas certezas.

P. Casimiro João        smbn

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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

TEOLOGIA BÍBLICA E ÁRVORES COMO PRIMEIRO LUGAR DE CULTO NA BÍBLIA


A árvore foi o primeiro lugar de culto na Biblia. A ciência é neutra, e tem que ser neutra para ser ciência. Não que o cientista não seja religioso, mas entrando no campo da ciência tem que entrar num campo neutro. No caso, uma descoberta arqueológica tem o mesmo valor para quem tem religião e para quem não tem religião. Sem ideias preconcebidas. Já por exemplo os autores bíblicos, no seu aspecto histórico, aproveitando memórias do passado, refletem as suas preocupações religiosas e teológicas, de tal maneira que só um estudo científico irá descobrir o que pertence à história e o que pertence à fé. Na verdade, os grandes trabalhos da Bíblia com aparência histórica contêm vários níveis de composição: o passado, a reflexão religiosa e às vezes ainda visam o futuro da escatologia, de modo que geram uma confusão na mente do leitor leigo. O resultado final desse quadro dificilmente se parece com o esquema da própria Bíblia sobre a historicidade de Israel (Cf.Mark Smith, o memorial de Deus, pag38). “A história bíblica construída na Torá e na história do Deuteronômio representa a história nacional fundadora de Israel como refém das condições do presente do povo e de suas esperanças no futuro”. Por isso, “apesar de não ser considerada historicamente inútil, a Bíblia não ocupa mais o lugar privilegiado de ditar as normas para a reconstrução do passado de Israel. O testemunho bíblico é “considerado” e “pesado” com evidências arqueológicas e textos extrabiblicos depois de terem sido avaliados separadamente por seu valor histórico” (o.c.p.35). As fontes disponíveis na Bíblia são principalmente instantâneos do passado por meio de narradores posteriores impondo suas próprias interpretações do passado de Israel sobre estes antigos retratos. Os autores bíblicos, ao escreverem história refletem as preocupações dos seus tempos. O que parece então ser narrativas históricas são respostas atuais aos desafios dos tempos passados. Os escritos bíblicos são então produtos de seus próprios autores em sua própria época refletindo a memória coletiva”.(o.c.p.37). Então, a Bíblia torna-se uma mistura do passado de Israel e das memórias ou reflexões coletivas sobre esse passado.

Vejamos algumas curiosidades sobre o passado de Israel e partindo da árvore que foi o primeiro lugar de adoração, “postes sagrados” ou tocos de plantas. Os antigos tinham no seu imaginário que os deuses moravam nos “lugares altos”, como por exemplo as árvores. Aí eram feitas as celebrações de nascimento, casamento, morte e luto. A essa árvore ou “poste sagrado” era dado o nome de “asherah” que posteriormente virou deusa, “deusa asherah”, a qual depois foi considerada a consorte ou esposa de Javé, quando Javé ganhou o status de deus de Israel, já que o primeiro era o deus “EL, dos edomitas. Cf. o.c.p.61 e 91. Daí partiram para os “lugares altos”, onde eles colocavam a moradia dos deuses, já que os deuses dos edomitas e ugaríticos eram também os deuses de Israel e moravam nos “lugares altos”. Daí vieram as construções dos templos nos lugares altos, às vezes chamados só de “lugares altos”. Daí vieram também as “torres” das igrejas porque Deus só podia habitar nos lugares altos. E daí vieram as lendas da “torre  de Babel” por onde os deuses desciam mas os mortais não podiam subir. Alguns lugares começaram a ganhar mais aglomerações de pessoas: peregrinações” festas do outono, colheitas das frutas e festas das tendas. O chefe do culto era o pai de família, o patriarca. E daí, algum outro ocupava o nome de “homem de deus”, na falta do pai de família, como Samuel e sucessores, que também resolviam problemas sociais e de guerra; foi a origem dos “Juizes” e do livro dos “Juizes”.

Avançando mais na linha do nosso tema sobre a historicidade da Bíblia, grandes narrativas tidas como históricas, veremos que são reflexões do tempo em que foram escritas sobre variações de tempos passados, e tais escritos viraram epopeia. “Não há evidências históricas sobre a historicidade do Êxodo ou algum tipo de historicidade por trás da grande epopeia que foi construída. A narrativa do Êxodo até Números pode conter tradições mais antigas que foram moldadas para responder a questões posteriores. Alguns ancestrais puderam ter andado nessas trilhas mas sem nenhuma escravidão. Não há evidências históricas sobre a historicidade do êxodo ou algum tipo de historicidade por trás da grande epopeia que foi construída (o.c.p.45).

Falemos sobre o politeísmo em Israel. “A realidade mais antiga é que muitas divindades residiam no antigo Israel, o que foi amplamente esquecido” (o.c.p.53). Até porque as falas contra os deuses foram escritas depois que Israel nadava tranquilamente por séculos na convivência com todos os deuses do seu panteão, com deuses superiores e outros inferiores como os “Angeli” (“Anjos”, “mensageiros”) que faziam as ordens dos deuses maiores. Inclusive, com Javé com sua consorte Asherah como falei já. As várias críticas contra os “deuses” dos pagãos são devidas à amnésia coletiva do povo, no dizer do mesmo autor M.Smith: “A amnésia coletiva de Israel sobre os outros deuses, a saber, que muitos destes deuses tinham pertencido primeiramente a Israel ajudou-os a esquecer seu próprio passado politeísta, e portanto serviu para induzir a amnésia coletiva.” (o.c.p.25)

Vejamos várias estratégias da narrativa bíblica. Uma delas é aquela luta contra os vários deuses. Esse politeísmo em que sempre nadaram e mergulharam os judeus inventou a história do “bezerro de ouro”. Essa é uma estratégia do reino do Sul (judá) contra o reino do Norte que também tinha o santuário de Dã e Betel e diziam: “estes também são os deuses que nos tiraram do Egito” (1 R.12,28). E a estratégia da narração foi colocar esta crítica no episódio de Moisés no Sinai, coisa nem pensável naquela época. “A luta contra o ‘bezerro de ouro’ é uma reação contra os santuários da Samaria e foi colocada no relato do Sinai para fazer do Sinai o centro de toda a história bíblica. É portanto uma transposição moral e atemporal. O que vemos em Êx.32,4.8 é uma reação contra os santuários de Samaria no Norte em 1 Reis 12,28” (o.c.p.30 e 63). E o autor citado Mark Smith conclui: “O problema não era o politeísmo mas a competição entre diferentes divindades apoiadas por diferentes santuários. O monoteísmo deles não se originou historicamente no primeiro momento no Sinai com Moisés e a Aliança feita lá”.(o.c.p.86 e p.133). A arqueologia encontrou documentos dos reis babilônicos dizendo: “capturamos os deuses da confiança dos judeus nas suas cidades” (o.c.p.93).

Outra estratégia de como o deus “El” virou Javé para os israelitas foi a lenda de Jacó versus Isaú com a seguinte conotação: Jacó, o filho mais novo de Isaque tomou o lugar do mais velho que era Isaú. Por isso, assim como Isaú, o mais velho perdeu para Jacó, o mais novo, assim “El”, o deus mais velho perdeu para Yahweh, o nome do deus mais novo escolhido agora. (o.c.p.45), Gn.32,23-33). Foi quando Jacó trocou o nome por Israel, que era o mesmo nome da nação “Tu te chamarás Israel”; e de quebra “El” trocou o nome por “Yahweh”, (Gn.cap.32). Este foi o jogo entre os escritores “E” e “J”, isto é a tradição “eloista” e a tradição “javeista”. O livro de Gênesis corrobora isto quando fala que Jacó, no Norte ofereceu sacrifício ao seu deus El: “Aí (em Siquém) fez um altar, que denominou El, o deus de Israel”(Gn.33,20). E tudo isto porque ainda não existiam as inimizades entre Israel e os edomitas como depois aconteceram nas diversas lutas sobretudo quando eles ajudaram os inimigos a derrubar o templo de Jerusalém em 586 a.C.

Sobre Davi: “Os últimos sucessos militares de Davi são descritos em termos adulativos, e mesmo esses sucessos não podem ser defendidos como históricos; as questões de cronologia levantadas pelos arqueólogos e as questões críticas levantadas pelos estudiosos demoliram a visão gloriosa que Davi recebera na tradição religiosa posterior, assim como como suas habilidades são lendárias”(o.c.p. 59). Afinal, reina também entre as mesmas pesquisas que isso á atribuído também a Salomão. Na verdade, “polêmicas reais e apologéticas são frequentemente escritas como fatos históricos, e esta monarquia não deve ter sido tão grande quanto no início se pensou” (Finkenlstein, Mazar e Stager, o.c.p.60). “A história lendária de Salomão são contos populares atribuídos a ele, como as lendas do bebê e as duas prostitutas, e da rainha de Sabá. A própria construção do templo e a figura do templo é mais ideológica do que real, segundo o maior investigador bíblico israelense Finkenlstein, pois nas escavações arqueológicas não se encontram sinais evidentes do seu tamanho. (id. pp.61ss.).

Conclusão. A Bíblia é composta de edições e reedições, e cada época de uma reedição tinha novas versões sobre os mesmos fatos e novas ideologias e defender. E, como disse, pertence à investigação e erudição científica destrinchar e avaliar; é o que a gente tem que ir aprendendo e não ficar sempre pensando as mesmices de que tudo era como antigamente.

P.Casimiro João   smbn

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