segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

COSMOLOOGIA ANTIGA OU ATUAL E O CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

Fala-se muito em cosmologia e afinal o que é cosmologia? Vamos tentar explicar, e as implicações que tem com a fé e a teologia. Cosmologia é a maneira de nós mortais olharmos o cosmo, ou seja o universo, e criar narrativas sobre ele e ciência. Falo em narrativas porque desde que se conhece a história escrita dos humanos houve tentativas de falar sobre o cosmo, e do relacionamento entre o cosmo, e Deus e os seres humanos. O que é o cosmo? Onde está Deus? E os seres humanos no meio disso tudo? Lá entre os gregos já houve tentativas de medir a distância da terra à lua, e de medir o diâmetro da terra. Os humanos começaram pensando que as estrelas estariam presas na abóbada do céu. E que haveria as águas superiores e as águas inferiores. E Deus, nesta primitiva cosmologia, qual o lugar que ocupava? Só podia ter o seu trono lá no alto em algum lugar, fora desse mundo. Quer fosse ele que tivesse criado ou não, ocupava o lugar de “comandante” do mundo que funcionava como uma máquina. Quando essa máquina do mundo tivesse alguma avaria Deus viria socorrer, assim como num estalar os dedos, ou tipo de varinha mágica. Era o que se chamava na filosofia antiga “Deus ex maquina”, o deus da máquina. Um dia, esse Deus teria mandado o seu filho cá para baixo neste planeta. E então acreditava-se que as revelações caíam do céu, dessa deidade exterior que tentava foçar as suas verdades por meio de algumas pessoas ou por meio de um determinado grupo. Esta visão vinha do início da criação quando Deus “lá de fora” decidiu “comunicar-se diretamente com alguém, no caso com os hebreus. Assim, os hebreus entenderam-se que eram o povo escolhido de Deus em sentido exclusivista. Essa maneira de se identificar foi mais tarde assumida pela Igreja. E assim como os hebreus tinham isso na sua Bíblia, a Igreja transferiu num trabalho de “copia e cola” para o Catecismo da Igreja Católica, (CIC, &54-73) que se baseia todo na cosmologia do Antigo Testamento, coisa de “copía e cola” da cosmologia antiga e primitiva do Gênesis do Antigo Testamento. Aliás, o histórico do Catecismo da Igreja Católica é assim: 1)- Antes do ano de  900 havia um Ensino das crianças, nas Escolas dos Conventos, na Alemanha; 2)-Em 1.100 Honório de Antuã, aluno de S.to Anselmo fez um Elucidário (“para esclarecer”); 3)-Em 1.400 Jean Gerson da universidade de Paris fez um Resumo da Doutrina Cristã. 4)- Em 1.509 em Colónia, na Alemanha apareceu um “Catecismo” anônimo. 5)-Em 1.526 Andreas de Nuremberg fez o seu Catecismo e em 1.529 Lutero fez dois: “Catecismo Maior e Catecismo Menor; 6)- Por ocasião da Dieta de Augsburgo, na Alemanha, em 1.536 os Católicos compuseram também um Catecismo, do teólogo George Witzel. 7)- Aí houve disputas como esta: A quem pertencia o nome de CATECISMO? 8)- Em 1.566 apareceu o Catecismo Romano, para os párocos depois do concílio de Trento; 8)- Em 1.908 apareceu o Catecismo de São Pio X baseado no trabalho de S.Roberto Belarmino; 9)- Em 1.992, 20 anos depois do concílio Vaticano II saiu o atual Catecismo da Igreja Católica baseado no anterior de Trento, com os votos de duas comissões: a comissão de 10 Cardeais e a Comissão editorial de 7 Bispos diocesanos. Infelizmente, não levou em conta o documento da Pontifícia Comissão Bíblica que saiu em 1994 que diz: “O fundamentalismo tem igualmente tendência a uma grande estreiteza de visão pois considera conforme à realidade uma antiga cosmologia já ultrapassada, só porque se encontra na Bíblia.” (Pont.Com.Bíblica  São Paulo, Loyola, 1944, pag.40-41). Ora, os judeus e todos os povos da antiguidade nos seus escritos consideravam-se “escolhidos” de Deus para falar em nome de Deus, desde o rei Hamurabi quando fez o primeiro Código do mundo, onde começa: “Estas são as palavras e ordenações de Deus, onde ninguém pode tocar nem trocar uma letra. E dessa maneira a Igreja assim passou a considerar-se igual a eles, até se comparar que acima da Igreja só Deus, como falou o Papa Inocêncio III no séc. XII, que “eu julgo todos e todas as coisas, e eu não sou julgado por ninguém”. Isto é, acima de mim só Deus. Estamos no ambiente da cosmologia antiga, do deus que “lá de cima” fala para algumas pessoas, mas  não como um princípio criador presente em toda a criação, e em toda a humanidade não “fora do mundo” mas fazendo parceria com ele. Assim, Deus como espírito não tem braços, mas precisa dos nossos braços; Deus, como espirito, não fala, ele precisa da nossa fala; Deus como espírito não compõe música, por nós Deus compõe música e escreve poesia e faz amor” (M.Morwood, “O católico de amanhã, pag.101). Esta nova cosmologia considera Deus dentro da carruagem da máquina, e a criação é matéria-mente, isto é, toda a criação participa da mente de Deus como fazendo parte do DNA de Deus, como muito bem o expressa o físico Shirley Macklaine: “Todos nós somos parte do divino, não havendo separação entre Deus e nós;” e na fala do poeta C.de Brito: “Em cada homem existe  um Deus escondido”. E o mesmo Morwood: “Meus pais e meus irmãos e minhas irmãs dizem que me amam e me alimentam, não deverei ver neles a presença de Deus em forma humana”? A nova cosmologia trouxe por tabela a Física quântica segundo a qual a própria mente cósmica partilha a mente divina. Este princípio desafia as reivindicações exclusivistas de qualquer religião determinada que queira enfatizar que “Somos a religião verdadeira, os únicos que temos a revelação divina, como tendo Deus do nosso lado: vocês não. Se quiserem ser salvos, vocês têm que que aceitar nossa cultura, nossos padrões de pensamento, nossos dogmas e nossos ritos, do contrário não há esperança para vocês” (Morwood, o.c.p.53). Ou seja, não se pode trancar Deus em nenhum movimento religioso. Deus fala tanto com indianos e indígenas e africanos tanto como com judeus, e tanto nas culturas de uns como nas culturas de outros. Mas o foco principal da cosmologia antiga se reporta ao fato da lenda da criação em seis dias, que apesar da aceitação das conclusões da ciência atual ainda é o imaginário tanto do Catecismo da Igreja católica como das nossas mentes e das nossas liturgias. Eis o que nos diz o autor citado: “Grande parte da teologia cristã dependia de uma visão de mundo que afirmava terem os seres humanos vindo ao paraíso e que as coisas deram errado. O que acontece agora quando somos confrontados com provas esmagadoras de que desenvolvimento, morte, desastre e revolução eram partes essenciais da existência deste planeta milhões e milhões de anos antes que os seres humanos entrassem em cena? “(Morwood, o.c.p33). Quer dizer que pode acontecer que teologias e doutrinas dependem de mitos e lendas que ainda andam nos ares. Continuam as perguntas: “O que acontece, por exemplo, com a doutrina profundamente arraigada da Criação e da Queda? E se não houve uma “queda” nada parecida com o que foi descrito no livro do Gênesis? Como então falamos expressivamente sobre a realidade do pecado, nossa ligação com o divino, a vida de Jesus e a realidade de ser salvador para nós?...A nova cosmologia e sua visão do mundo não são ameaça ao cristianismo”. (o.c.p.36). Outro dia eu fiz a pergunta: No concílio do ano 325 convocado pelo imperador Constantino, ele mesmo decidiu por um lado entre duas opiniões que eram o centro da discussão onde não faltaram motivações políticas; e se tivesse decidido por outro lado? Fica a pergunta. Hoje, em outro tempo, outra cultura, outra visão do mundo damo-nos conta de que os seres que nós chamamos inanimados partilham o dna de Deus. Já parou para pensar no mistério das plantas e das flores: onde cada flor vai buscar a sua cor, e o seu perfume? Da mesma terra uma tira a cor vermelha, outras a cor amarela, outras a cor branca, outras a cor azul? E aquele pefume das rosas? E o sabor de cada fruta? Se isso é assim no reino das plantas, imagine como os seres humanos conscientes e pensantes, partilhamos o DNA divino. Carl Sagan disse que somos faíscas de estrelas; mais além podemos dizer que somos faíscas de Deus.

P.Casimiro João     smbn

www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br

 


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