Fala-se muito em
cosmologia e afinal o que é cosmologia? Vamos tentar explicar, e as implicações
que tem com a fé e a teologia. Cosmologia é a maneira de nós mortais olharmos o
cosmo, ou seja o universo, e criar narrativas sobre ele e ciência. Falo em
narrativas porque desde que se conhece a história escrita dos humanos houve
tentativas de falar sobre o cosmo, e do relacionamento entre o cosmo, e Deus e
os seres humanos. O que é o cosmo? Onde está Deus? E os seres humanos no meio
disso tudo? Lá entre os gregos já houve tentativas de medir a distância da
terra à lua, e de medir o diâmetro da terra. Os humanos começaram pensando que
as estrelas estariam presas na abóbada do céu. E que haveria as águas
superiores e as águas inferiores. E Deus, nesta primitiva cosmologia, qual o
lugar que ocupava? Só podia ter o seu trono lá no alto em algum lugar, fora
desse mundo. Quer fosse ele que tivesse criado ou não, ocupava o lugar de
“comandante” do mundo que funcionava como uma máquina. Quando essa máquina do
mundo tivesse alguma avaria Deus viria socorrer, assim como num estalar os
dedos, ou tipo de varinha mágica. Era o que se chamava na filosofia antiga
“Deus ex maquina”, o deus da máquina. Um dia, esse Deus teria mandado o seu
filho cá para baixo neste planeta. E então acreditava-se que as revelações
caíam do céu, dessa deidade exterior que tentava foçar as suas verdades por
meio de algumas pessoas ou por meio de um determinado grupo. Esta visão vinha
do início da criação quando Deus “lá de fora” decidiu “comunicar-se diretamente
com alguém, no caso com os hebreus. Assim, os hebreus entenderam-se que eram o
povo escolhido de Deus em sentido exclusivista. Essa maneira de se identificar
foi mais tarde assumida pela Igreja. E assim como os hebreus tinham isso na sua
Bíblia, a Igreja transferiu num trabalho de “copia e cola” para o Catecismo da
Igreja Católica, (CIC, &54-73) que se baseia todo na cosmologia do Antigo
Testamento, coisa de “copía e cola” da cosmologia antiga e primitiva do Gênesis
do Antigo Testamento. Aliás, o histórico do Catecismo da Igreja Católica é
assim: 1)- Antes do ano de 900 havia um Ensino
das crianças, nas Escolas dos Conventos, na Alemanha; 2)-Em 1.100 Honório
de Antuã, aluno de S.to Anselmo fez um Elucidário (“para esclarecer”);
3)-Em 1.400 Jean Gerson da universidade de Paris fez um Resumo da Doutrina
Cristã. 4)- Em 1.509 em Colónia, na Alemanha apareceu um “Catecismo”
anônimo. 5)-Em 1.526 Andreas de Nuremberg fez o seu Catecismo e em 1.529 Lutero
fez dois: “Catecismo Maior e Catecismo Menor; 6)- Por ocasião da Dieta de
Augsburgo, na Alemanha, em 1.536 os Católicos compuseram também um Catecismo,
do teólogo George Witzel. 7)- Aí houve disputas como esta: A quem pertencia o nome
de CATECISMO? 8)- Em 1.566 apareceu o Catecismo Romano, para os párocos
depois do concílio de Trento; 8)- Em 1.908 apareceu o Catecismo de São Pio X
baseado no trabalho de S.Roberto Belarmino; 9)- Em 1.992, 20 anos depois do
concílio Vaticano II saiu o atual Catecismo da Igreja Católica baseado
no anterior de Trento, com os votos de duas comissões: a comissão de 10
Cardeais e a Comissão editorial de 7 Bispos diocesanos. Infelizmente, não levou
em conta o documento da Pontifícia Comissão Bíblica que saiu em 1994 que diz: “O
fundamentalismo tem igualmente tendência a uma grande estreiteza de visão pois
considera conforme à realidade uma antiga cosmologia já ultrapassada, só porque
se encontra na Bíblia.” (Pont.Com.Bíblica
São Paulo, Loyola, 1944, pag.40-41). Ora, os judeus e todos os povos da
antiguidade nos seus escritos consideravam-se “escolhidos” de Deus para falar
em nome de Deus, desde o rei Hamurabi quando fez o primeiro Código do mundo,
onde começa: “Estas são as palavras e ordenações de Deus, onde ninguém pode
tocar nem trocar uma letra. E dessa maneira a Igreja assim passou a
considerar-se igual a eles, até se comparar que acima da Igreja só Deus, como
falou o Papa Inocêncio III no séc. XII, que “eu julgo todos e todas as coisas,
e eu não sou julgado por ninguém”. Isto é, acima de mim só Deus. Estamos no
ambiente da cosmologia antiga, do deus que “lá de cima” fala para algumas
pessoas, mas não como um princípio
criador presente em toda a criação, e em toda a humanidade não “fora do mundo”
mas fazendo parceria com ele. Assim, Deus como espírito não tem braços, mas
precisa dos nossos braços; Deus, como espirito, não fala, ele precisa da nossa
fala; Deus como espírito não compõe música, por nós Deus compõe música e
escreve poesia e faz amor” (M.Morwood, “O católico de amanhã, pag.101). Esta
nova cosmologia considera Deus dentro da carruagem da máquina, e a criação é
matéria-mente, isto é, toda a criação participa da mente de Deus como fazendo
parte do DNA de Deus, como muito bem o expressa o físico Shirley Macklaine:
“Todos nós somos parte do divino, não havendo separação entre Deus e nós;” e na
fala do poeta C.de Brito: “Em cada homem existe
um Deus escondido”. E o mesmo Morwood: “Meus pais e meus irmãos e minhas
irmãs dizem que me amam e me alimentam, não deverei ver neles a presença de
Deus em forma humana”? A nova cosmologia trouxe por tabela a Física quântica
segundo a qual a própria mente cósmica partilha a mente divina. Este princípio
desafia as reivindicações exclusivistas de qualquer religião determinada que
queira enfatizar que “Somos a religião verdadeira, os únicos que temos a
revelação divina, como tendo Deus do nosso lado: vocês não. Se quiserem ser
salvos, vocês têm que que aceitar nossa cultura, nossos padrões de pensamento,
nossos dogmas e nossos ritos, do contrário não há esperança para vocês”
(Morwood, o.c.p.53). Ou seja, não se pode trancar Deus em nenhum movimento
religioso. Deus fala tanto com indianos e indígenas e africanos tanto como com
judeus, e tanto nas culturas de uns como nas culturas de outros. Mas o foco
principal da cosmologia antiga se reporta ao fato da lenda da criação em seis
dias, que apesar da aceitação das conclusões da ciência atual ainda é o
imaginário tanto do Catecismo da Igreja católica como das nossas mentes e das
nossas liturgias. Eis o que nos diz o autor citado: “Grande parte da teologia
cristã dependia de uma visão de mundo que afirmava terem os seres humanos vindo
ao paraíso e que as coisas deram errado. O que acontece agora quando somos
confrontados com provas esmagadoras de que desenvolvimento, morte, desastre e
revolução eram partes essenciais da existência deste planeta milhões e milhões
de anos antes que os seres humanos entrassem em cena? “(Morwood, o.c.p33). Quer
dizer que pode acontecer que teologias e doutrinas dependem de mitos e lendas
que ainda andam nos ares. Continuam as perguntas: “O que acontece, por exemplo,
com a doutrina profundamente arraigada da Criação e da Queda? E se não houve
uma “queda” nada parecida com o que foi descrito no livro do Gênesis? Como
então falamos expressivamente sobre a realidade do pecado, nossa ligação com o
divino, a vida de Jesus e a realidade de ser salvador para nós?...A nova
cosmologia e sua visão do mundo não são ameaça ao cristianismo”. (o.c.p.36). Outro
dia eu fiz a pergunta: No concílio do ano 325 convocado pelo imperador
Constantino, ele mesmo decidiu por um lado entre duas opiniões que eram o
centro da discussão onde não faltaram motivações políticas; e se tivesse
decidido por outro lado? Fica a pergunta. Hoje, em outro tempo, outra cultura,
outra visão do mundo damo-nos conta de que os seres que nós chamamos inanimados
partilham o dna de Deus. Já parou para pensar no mistério das plantas e das flores: onde cada flor vai buscar a sua cor, e o seu perfume? Da mesma terra uma tira a cor vermelha, outras a cor amarela, outras a cor branca, outras a cor azul? E aquele pefume das rosas? E o sabor de cada fruta? Se isso é assim no reino das plantas, imagine como os seres humanos conscientes e pensantes,
partilhamos o DNA divino. Carl Sagan disse que somos faíscas de estrelas; mais
além podemos dizer que somos faíscas de Deus.
P.Casimiro João smbn
www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário