segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O POSSIVEL E O IMPOSSIVEL DE DEUS.


 

Nas épocas antigas tudo era Deus que fazia, desde a chuva aos terremotos. Assim como acontece com a criança, para quem o pai faz tudo, tudo sabe, tudo pode. Eram os tempos em que a humanidade era criança como Paulo diz, “quando eu era menino pensava como menino, raciocinava como menino” (1Cor.13,11). Quando falamos de Deus falamos de nós mesmos. Nós não podemos mas “Deus pode” assim como diz a criança: o pai pode. E o que nós colocamos em Deus quando falamos de “poder”? Não é para vencer o inimigo? Não é para ganhar uma guerra impossível como falavam os hebreus? Por isso nos diz o teólogo: “O cuidado de transferir para Deus o conceito de onipotência se torna perigoso porque no decorrer da história a noção de onipotência de Deus corria pelos mesmos caminhos da violência humana e tirania e prepotência dos poderosos para escravizar  seja inocentes seja inimigos, e fazendo isso em nome de Deus “onipotente”, como nas colonizações e na Inquisição.  Por isso, falar da onipotência de Deus corria o caminho da prepotência dos reis. (Cf. Schillebeeckz, História humana, revelação de Deus,p.117). E por isso, diz Selma Lagorlaf: “não podemos falar da onipotência de Deus como no pensamento medieval onde se chegava a perguntas como esta: “Deus pode fazer um circo quadrado”? Ou como nas lendas populares e historinhas para crianças, onde na linguagem do mito e das fadas tudo é possível. Para se livrar de muitos problemas como este houve muitos arrazoados esquisitos na teologia americana, onde chegaram a dizer que Deus não tem nada a ver com o sofrimento dos homens, como dizia Kushner. Ou então outra corrente que inventou a “morte de Deus”: Deus teria que morrer para que o homem viva” Th.Altizer repetindo um slogan de Nietzsche. Daí surgiram os fundamentos sócio-históricos  e o laço entre a exploração e apropriação dos bens em nome de Deus. Transferiam para Deus o imperialismo cultural, econômico e político que se transformou na ideologia das direitas. Em outra dimensão vem a teologia de Bonhoffer: que Deus participa do sofrimento: é Deus que padece no sofrimento do justo com os pobres e oprimidos. Porém, vem o problema: Onde está o todo poderoso poder de Deus? “O Deus, que apenas tem dó de você e padece conosco deixa a palavra definitiva e última ao mal e ao sofrimento. Então não é Deus mas  o  mal que goza da onipotência. E o que significa neste caso Deus para o homem?” (o.c.p119). Outro caminho: Deixar o poder da “onipotência de Deus” para o fim dos tempos. Um absurdo porque os tempos não têm fim. Mas então qual o sentido do “Creio em Deus- Pai todo poderoso criador do céu e da terra” do nosso Credo? O segredo está no seguinte: A filosofia maniqueia tinha o “Deus” que morava em cima das nuvens, e que não se importava nem com o mundo da matéria nem com os homens, mas tinha também o famoso demiurgo que era um segundo deus menor que um dia se esquivou do céu e baixou anos de luz para brincar criando a terra e o cosmo. Tanto é assim que nos evangelhos vêm referências a ele, e o chamam de “o chefe deste mundo” e  “o príncipe deste mundo.” (Jo.14,30 e 16,11). Quando a Igreja começou a ganhar mais coesão fizeram o chamado “credo apostólico” para barrar essas ideologias afirmando que é o mesmo Deus que junta o poder dos “dois”, e fez o céu e a terra e não tem outro, coisa que mesmo assim ainda entrou no evangelho de João. Foi assim que entrou o “creio em Deus Pai-todo-poderoso” para fugir da filosofia dos maniqueus. Falei noutra página que Deus não é Deus sem nós, e nós  não somos nós sem Deus. Na verdade, na sua criação Deus juntou no ser humano a sua transcendência e a sua imanência, de modo que ele não pode ser Deus sem nós, assim como nós não somos nós sem Deus de tal maneira que ele age conosco e por nós, e a sua onipotência pode depender de nós. Quem diria que os homens um dia atravessariam os espaços cósmicos para achar as primeiras luzes do alvorecer do mundo há 15 bilhões de anos, no início do Big-bang? A onipotência de Deus, segundo Santo Tomás de Aquino é toda poderosa nas coisas possíveis, não nas impossíveis, como foi dito que Deus não pode fazer um círculo quadrado nem mudar que dois e dois sejam quatro e nem parar o caído do décimo andar, mas chamamos o bombeiro. Onde nós chegamos ele chega conosco mas não chega sem nós. Como disse um teólogo: “Deus está tanto na catedral como na cozinha. Em mim fala, move-se, dança, compõe música, ou escreve poesia, faz amor e cria vida, ri da imperfeição de tudo e chora por ela” (M. Morwood, “O católico de amanhã, Paulus, 2013, pag.101). Quer dizer que o ser humano tem a liberdade partilhada com a liberdade de Deus. E Deus precisa da nossa liberdade para agir, como vem repetido nos evangelhos: “A tua fé te salvou” (Mt.9,22). A cópia está na criança e no pai. Respeita a liberdade da criança, mas as duas liberdades colaboram. Vejamos mais uma vez Schilebeeckx: “A onipotência divina torna-se desarmada e vulnerável em nosso mundo. Evidencia-se como energia de amor que convida e outorga vida e liberta os homens, isto é, aos que se abrem à sua colaboração. Ora, este aspecto quer dizer Deus não procede contra a recusa humana.” (o.c.p 121). Ora, quando em linguagem tradicional falamos em “pecado’, podemos falar também em falta de colaboração. Ou, como diz Paulo Coelho, pecado vem de “pecus”, que é falhar o alvo. Um dia, quando Jesus declarou que “dificilmente um rico entrará no reino dos céus” Mt.19,23, os apóstolos perguntaram “então quem poderá salvar-se? Jesus terá respondido: “aos homens isso é impossível mas não para Deus, para Deus tudo é possível” (Mt.19,23). Com esta resposta fica tirado o peso da primeira afirmação e abre pano para dois pesos e duas medidas, ou seja se é possivel para Deus também é possível para os homens e vice-versa. Aí entra o método histórico-crítico na interpretação, e colocaria Jesus em cheque, se a afirmação fosse mesmo dele, o que é duvidoso pelo seguinte: a segunda afirmação teria sido feita por um segundo redator quando a Igreja já estaria se acostumando com as riquezas, e tomando a liberdade de invocar Deus para o seu lado, i.é, para o lado do seu churrasco: “Sim, Deus vai permitir as nossas riquezas, ele não vai cobrar esse tanto não”. E então seria: para os homens “é impossível” mas “para nós Deus permite e não está nem aí. Isso seria o “possível de Deus”,  ou o “tudo é possível para Deus”, ou “tudo é possível para nós, invocando em vão o nome de Deus e apropriando-se dele como donos de Deus; poruqe os ricos da época e não só, sempre se julgam os donos de Deus. Conclusão. Nós, pessoas humanas somos muito fáceis em querer domesticar Deus em nosso favor, adaptando-o aos nossos interesses. Na verdade, somos duros para com os outros e fáceis para nós mesmos. Para os homens isso é impossível. Isto é, para os outros, mas para nós não. Isto é, quando é do nosso interesse já não é impossível, e colocamos Deus do nosso lado.

P. Casimiro João    smbn    www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br

 

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