segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

ESPIRITUALIDADE E A NOVA COSMOVISÃO

Deus é espírito? É. O que é espírito? Resposta de uma incógnita. O que é matéria? Outro problema. Santo Agostinho via na filosofia dos maniqueus que tudo era matéria. No mundo e em nós, coisa nada boa. Teve a sorte de ler Plotino, e nessa filosofia de Plotino leu que Deus é espírito. Aí esbarrou e deu-se conta dessa grande novidade. Mas como Deus era espírito, e era bom, então o problema era em nós, que participando de Deus deveríamos  partilhar o seu espírito e por isso seríamos compostos do espírito bom de Deus e da matéria do mundo que é má. Essa reviravolta encaminhou-o para escrever o livro “Cidade de Deus", onde dividiu o mundo em dois: a cidade de Deus que era o mundo bom, e a cidade do mundo que era o mundo mau da matéria. Sem dúvida que daí derivou o jargão “mundano” com toda a carga da maldade própria desse mundo carregado de matéria má, onde incluía a carne humana. Isso deu a origem a uma espiritualidade milenária que levava os cristãos a fugir do mundo, odiar o mundo, a “não se conformar com este mundo” que está aí. E ao mesmo tempo esta ‘maldição’ caía na carne que era o problema do ser humano. De tal maneira que a ‘santidade’ se realizava em “dar morte à carne” para que o “espírito” vivesse, ou ‘mortificar a carne’. A palavra-chave da ‘santidade’ era então mortificar ‘a carne’, e sacrificar a carne, inventando maneiras as mais absurdas e sofisticadas. Não admira que esta luta desigual desse origem a paranoias e patologias esquizofrênicas que acompanhavam inúmeros cristãos, com uma vida de angústia, insatisfação e decepção indecifráveis. Porquê? Porque viviam  com o seu principal inimigo dentro de casa, e não podiam livrar-se dele, a sua carne, que odiavam até à morte: não faltava quem se ‘flagelasse’, quem se mordesse como quem morde um inimigo ‘mais forte’, e quem desse baixa em albergues de doentes mentais. Digamos, esta ‘espiritualidade’ era escravizante e mortal. Quem iria livrar-nos deste “corpo de morte”? como gritaria São Paulo (Rom.7,24, “miserável homem que eu sou”). Seria preciso uma espiritualidade libertadora. Falei noutro capítulo que esta situação resulta daquela cosmologia tradicional que considerava Deus “lá em cima”, fora deste mundo e feito supervisor e investigador da nossa vida, pronto para condenar o menor deslize. E fruto daquela formação bíblica do jardim do Éden, onde Deus colocou querubins “com espadas flamejantes” para expulsar os homens do paraíso e não tentar entrar por qualquer motivo. Esta espiritualidade criou um imaginário de um Deus cruel e um ditador mau. Herdamos essa imagem do mundo em tenra idade, e a aceitamos, na maioria das vezes, sem questionar, e procuramos ser fiel a ela. Formados por padrões de pensamento religioso e visões do mundo que passou e não podem existir hoje mais. Querer continuar hoje com essa espiritualidade seria um pouco como tentar realizar uma cirurgia cardíaca em um hospital moderno com o conhecimento da ciência médica de séc.XV. Um dos problemas consiste assim: Por quê ficamos olhando noutro lugar para encontrar Deus? Por que ficamos trancados em uma espiritualidade que procura Deus nos céus de preferência a uma espiritualidade que se concentra no Deus dentro de nós e entre nós? Tanto é verdade que o Papa não tem mais Deus do que o caminhoneiro ou a enfermeira. A cozinha, o lugar de trabalho, o jardim, o quintal, o centro comunitário e o quarto de dormir, bem como a igreja paroquial e o tabernáculo estão impregnados da presença de Des. Deus não está mais na catedral do que na sala de dormir ou da TV.  É importante o que diz Morwood: “Em mim Deus fala, move-se, dança, compõe música ou escreve poesia, faz amor e cria vida, ri da imperfeição de tudo e chora por ela” (M.Morwood, O católico de amanhã, pag.101). Estranhamos a lentidão do nosso aperfeiçoamento. Quereríamos passar em todos os Enem, e também para uma perfeição sem pecados. Porém, Deus estava tanto na lentidão dos tempos passados em que a fala humana levou milhares ou milhões de anos para se aperfeiçoar, como na paciência em que a criança aprende a balbuciar as primeiras falas e a dar os primeiros passos. “Reflitamos em quem ´que nós somos: essa realidade infinita que chamamos Deus ganha expressão vivida em cada um de nós. Vamos pôr nossa fé nessa verdade básica de Deus em nós, de quem somos e de como o dom da vida nos chamou a essa parceria com Deus. Seremos só os herdeiros de uma geração como “filhos de Eva” ou como lugares de habitação do sagrado em nos? Qual dessas visões refletiremos na maneira como rezamos, cultuamos e nos comportamos?" (o.c.p. 103). Já parou para pensar que Deus tanto criou parceria com o desenvolvimento dos homens e das mulheres dos períodos dos Primatas como dos neandertais, como do homo sapiens, como do aprendizado da criança, como da estatura de você e eu agora? A maravilha não é pensar numa divindade externa, distante, que se digna romper o silêncio ou reconsiderar a amizade conosco, Deus está todo ao redor de nós. Toda a criação faz parte do dna de Deus. Já parou para pensar na água que você bebe? De onde vem? Para onde volta? A comida que você come? Tem comida que vem da Ásia, das Américas, do outro lado mundo, e para onde volta? As rosas tiram as “cores” e os perfumes de onde? Como? As plantas tiram  os sabores das frutas de onde? Como? Não dizem os estudiosos de teologia bíblica que tudo compartilha o dna de Deus? Não são manifestações da sua presença? E o seu pensamento agora? Os íons do cérebro dependem do alimento, o alimento depende de fótons produzidos no centro do sol, o sol resulta de explosões anteriores de estrelas quando estrelas explodiram, e tudo isso resulta de seja o que aconteceu no primeiro momento do início dos tempos e lhe fortalecem agora mesmo, neste instante. O que você pensa e sente neste momento só é possível através do fogo cósmico. Todo o seu sistema nervoso é rico deste fogo” (Sallie McFague, The body of God: An Ecological Miniapolis, 1993, p 40-42). Por isso repito o dito: “A cozinha, o lugar de trabalho, o jardim, o centro comunitário e o quarto de dormir, bem como a igreja paroquial e  o tabernáculo estão impregnados da presença de Deus. Só que, falando em Jesus, depois de sua morte, os autores cristãos expressaram os fundamentos da espiritualidade cristã. São esses fundamentos que permaneceram constantes, enquanto a cultura, a visão do mundo e até as nossas imagens de Deus mudaram. E ainda: “As pessoas comuns que lutam e batalham para ser fiéis a seus compromissos e responsabilidade não estão menos repletas de Deus do que o maior dos santos, pois ousamos crer que Deus é amor e quando vivemos no amor vivemos em Deus e Deus vive em nós. Deus não é Deus sem nós e nós não somos nós sem Deus. Na verdade, a realidade de Deus impregna toda nossa existência. “É essencial para a espiritualidade atual que a crença de que a divindade não é uma realidade que existe somente “no céu” ou que a realidade que chamamos “Deus” é uma realidade que existe em outro lugar. A realidade de Deus impregna toda nossa existência, como toda a criação. Como o restante da criação, a humanidade está saturada da divindade”. (Morwood, o.c.p.108). Chegamos ao ponto de, olhando o início deste capítulo, possamos ver como estaria ultrapassada a espiritualidade da fuga e da condenação do “mundo”, por herança das filosofias maniqueias e do livro “Cidade de Deus” de Agostinho. Torna-se necessário portanto abraçar uma espiritualidade coerente com as novas situações devidas à rápida e profunda mudança cultural do momento presente” (M.Castillo, Espiritualidade para os insatisfeitos, p.260). Hoje, noutro tempo, noutra cultura se faz urgente outra espiritualidade: a espiritualidade deste tempo e desta cultura e da nova cosmovisão. O “mundo” está em nós, faz parte de nós, como os metais e minerais que fazem parte de nossos ossos, nossos músculos e nossos intestinos, como faziam parte dos ossos, dos músculos e dos intestinos de Jesus. As plantas estão em nós pelos frutos e vitaminas e minerais que nos transmitem. A mesma água que nos moldou no útero materno continua em nós na medida de 75% do nosso organismo. O sol e a estrela donde a terra saiu continua em nós com a energia de seus íons e fótons luminosos que brilham nos seus olhos e nos meus, e no córtex cerebral que um dia deu origem à nossa consciência. Esta teia divina faz parte do nosso dna, como fazia parte  do dna de Jesus, e tudo compartilhado com o DNA de Deus.

P.Casimiro João    smbn

www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.r

 

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