segunda-feira, 4 de maio de 2026

VIOLÊNCIA, MIMETISMO E PSICOLOGIA

Para início de conversa vamos dizer que mimetismo é imitação dos outros e escolher não ser você mesmo. A humanidade viveu e vive de ondas de violência, que geram a psicologia mimética. A violência tem a sua fonte na fome do poder. “A fome do poder perverte o tecido interno do ser humano donde resulta a relação de senhor-escravo e a coisificação do homem como joguete na mão do ímpio. A violência anda de mãos dadas com o poder. O poder demonstra-se pela força, e pela violência. É histórico que os homens antigos trocavam de deuses quando o seu deus era “vencido” pelo deus mais forte, então eles trocavam, porque deus “perdia” as guerras quando eles perdiam. E então havia a substituição desse deus fraco por outro mais forte. Na Bíblia há sinais disso numa Carta de Paulo quando fala na entronização de Cristo como filho de Deus, mas lembra que não era por substituição ou usurpação, dando um tchau a Deus Pai, mas com a ordem a anuência dele: “pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus” (Fil.2,6). Aliás noutro lugar Jesus prevenia a Igreja de não ser uma semelhança com os poderes imperiais: “Vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem autoridade sobre elas. Não será assim entre vós” (Mt.20,25). Aqui, violência e poder caminham juntos. Aqui há duas vertentes do ser humano que se subvertem: uma é a dignidade do ser humano como construtor de si próprio que é subvertida, e outra é a dimensão do ser humano frente à interpelação do “outro” que também fica truncada.  Para interromper esse ciclo de violência torna-se necessário atentar no termo simbólico que é “o outro” na sua alteridade inabarcável; esta atitude se forma, antes de mais nada, por um critério crítico denunciador e superador de uma cultura do individualismo egoísta” (Cf. Duque, João Manuel, “Para o diálogo com a pós-modernidade, Coimbra,48). Isto pressupõe dar lugar a um “humanismo do outro homem”                                               como paradigmaticamente lhe chama Levinas. Nenhuma atitude religiosa pode prescindir desse humanismo fundamental, sem correr o grave risco de se tornar atitude desumana, mesmo anti-humana, e, como tal, anti-divina, ou seja, falsamente religiosa”. (Apud Duque, o.c.p.48). Por outro lado, nasce daí a responsabilidade de denunciar a cultura de todos os idealismos especulativos e ideológicos, de todas as falsas utopias que sacrificam a realidade concreta, e sobretudo a realidade das vítimas da história ao totalitarismo de um sistema filosófico, político ou religioso. Nenhuma atitude religiosa autêntica pode prescindir de uma profunda solidariedade com o “outro” sofredor, e da memória dos mártires da história” (o.c.p.49). Na base da nossa análise está em jogo a psicologia do conflito e da violência, dando-nos conta de que os seres humanos são mais violentos que os animais, num tipo de conflito que é interno, recíproco e potencialmente interminável, ao qual nenhum sistema judiciário consegue pôr freio. Historicamente, a violência tem fabricado vítimas inocentes e bodes expiatórios exigindo sacrifícios rituais nas religiões. E, como diz Duque, “as religiões fabricam bodes expiatórios e depois os divinizam sem saber o que estão fazendo” (o.c.p.27). No dizer de Girard, “a linguagem dos evangelhos confirma a interpretação da morte de Jesus como bode expiatório: um de seus epítetos ou sinónimos é “Cordeiro de Deus”, o que é sinônimo de bode expiatório” (Girard, “Cristianismo e relativismo”, pg.105). Por outro lado, daí origina-se o “contágio mimético”, que significa que uma multidão é contagiada por uma convicção unânime de ter encontrado um culpado, uma vítima para todos os seus crimes; não há comportamentos individuais, mas apenas a lógica mimética da multidão. No meio disto aparece o lugar das religiões. Estudiosos das religiões afirmam que por milhões de anos as religiões, apesar de tudo foram aquilo que permitiu às comunidades primitivas não se autodestruírem, inventando o símbolo do bode expiatório e a vítima e os sacrifícios. No cristianismo, a vítima é inocente, nas outras religiões a vítima é culpada como no mito de Édipo onde é morto o pai Laio para casar com Jocarta. Isto sem falar da violência contra a Natureza que hoje se pratica. Coisa que não existia antigamente porque os homens primitivos não cultivavam a terra pelo medo dos espíritos e divindades que nela habitavam e permeavam a natureza. (Girard,31). Vem ao nosso caso a expressão usada na teologia da pós-modernidade da concepção de um “Deus sobre nós” (Deus super nos), ou de um “Deus entre nós” (E.Jungel, apud Duque, o.c.p.98) respondendo à eterna pergunta da metafísica “Onde está Deus?” Esta é uma questão que brota já do próprio texto escriturístico. Esse contexto surge no âmbito da discussão sobre o Deus de Israel ou dos outros deuses. E “onde está o Deus de Israel, se parece estar sempre ausente? Aqui surge o dilema: a ânsia da identidade do ser divino acompanha a literatura bíblica. Isto afeta também a consciência mais refinada que o homem passou a ter do mundo, como obra sua, pois passa a ser o espelho da sua atividade  tornando supérflua a ação de Deus. O peso do mundo então cai sobre o homem tornando supérflua a referência a Deus. Peso demasiado pesado, sobretudo frente às injustiças de que a história é testemunha. O recurso a Deus poderia então aliviar o homem desse demasiado peso. Mas é então neste contexto que se volta à pergunta: “Onde está Deus?” pergunta que parece perder-se no vazio do próprio ressoar.  De novo temos a resposta de Jungel: “A fé não pode falar da presença de Deus sem pensar simultaneamente na sua ausência”.(Apud Duque, o.c.p.99). Foi esta a experiência que Dietrich Bonhoeffer nos deixou na experiência do “Viver em Deus sem Deus, como se Deus não existisse” como ele assim se expressou na sua expressão “Honest to God”, honestos com Deus. O recurso do “Deus entre nós” deu-se na cruz, onde “o Deus que morre não é um Deus sobre nós, mas um “Deus entre nós” (Jungel, apud Duque, o.c.p.101). Porém reste recurso à cruz de Jesus há dois imaginários a ter em conta: um é o recurso ao bode expiatório, segundo o qual Jesus “carregou sobre si as nossas culpas” (Is. 53,4). O outro é que aí se manifesta a vingança de Deus sobre todo mundo que é transferida para uma pessoa, o seu filho que “foi castigado por nossos pecados” (Is.53,5). Notemos então que quando lemos uma passagem na Bíblia estamos lendo culturas e preconceitos e imaginários de religiões antigas tanto pagãs como hebraicas. Na linguagem cristã Jesus na cruz mostrou-nos não o lado da violência, mas da mansidão. Não do poder, mas da fraqueza igual à nossa fraqueza. Não o Deus sobre nós, mas o “Deus entre nós”, apesar de manter o aspecto do imaginário antigo do bode expiatório. Vem ainda a propósito que, pela cruz se ilumina a libertação do homem, mas também o reverso, a condenação. O que dizer da sentença evangélica: “Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos?” (Mt.25,41). Teólogos como Sclllebeeckx interpretam assim: esta sentença remete ao gênero literário apocalítico, além da exaltação dos oprimidos: todos os opressores são destituídos do trono e aniquilados. O cristianismo não assumiu este modelo, apocalítico, pois de fato a ressurreição não trouxe nenhum dos efeitos tais como se esperavam da parte dos visionários judeus apocalíticos. Para “explicar” a não-vinda desses efeitos muitos cristãos falaram de um adiamento divino da parusia e do juízo final escatológico. Dentro de um horizonte apocalítico, na verdade, era preciso falar de um adiamento da aniquilação de todos os opressores formando parte desse esquema de pensamento de vitória dos oprimidos. Mas depois da Páscoa continuou simplesmente e ainda continua hoje a história de opressão e violência como se Jesus não tivesse existido. Ficou-se desiludido na esfera apocalítica da vingança punitiva para o mal e os opressores. Com base nas possibilidades humanas, as ameaças e perspectivas bíblicas do “céu” e “inferno” são uma imagem de futuro terapêutica e pedagogicamente significativa. Também se refere a algo real. Se essa possibilidade interna antropológica é também uma possibilidade de Deus é outro assunto. A expressão de Teresa de Lisieux: “Eu creio no inferno, mas creio que ele está vazio” não me parece de maneira alguma ser não-bíblica. Também em diversas tradições religiosas existe o mesmo problema. Vários Padres da Igreja falam de “apocatástase", ou de geral “recapitulação” com o que se pensa que todos os homens seriam salvos, com as divergências que veremos em seguida. Explicando melhor: “A ‘cidade’ da tristeza de Dante, ao lado dos palácios alegres dos santos no céu é imagem pedagógica: a opressão destrutiva, a maldade persistente não têm futuro. Na maldade e no mal nada existe que possa se considerar para a vida eterna. Por seu próprio vazio e conteúdo sem peso, desaparece o homem mau, outrora tão poderoso. (E.Schllebeeckx o.c.p.181-182). Eu mesmo já me vi a pensar naquela sentença atribuída a Jesus Cristo no evangelho de João: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo.,54). Pensando na comunhão eucarística “eu o ressuscitarei no último dia”, ele participará da minha sobrevivência. Mas do outro, daquele “que não come nem bebe o meu corpo e o meu sangue”, Jesus não falou nada. A mesma coisa vem na Liturgia das Horas do terceiro sábado do tempo pascal: “Roguemos a Cristo, pão da vida, que ressuscite os que se alimentam à mesa de sua palavra e de seu corpo”. E os outros? Esses outros simplesmente deixarão de existir? É o sumiço dos maus, destinados ao vazio devido ao “conteúdo sem peso”, destinados a desaparecer no nada do seu próprio ser. Isto é tudo o contrário da religiosidade onde “tudo vale”, porque “nada tem valor”, exceto a promoção individual e o dinheiro, e onde se cria a era do vazio e do “homem light”, onde se fabrica também a “self religião” como um “self service” no restaurante. E também a religião ‘de mercado’ onde a religião é apresentada com a mesma facilidade com que se vai ao mercado comprar um parafuso para completar a engrenagem de uma máquina e pô-la a funcionar. Concluindo, a atitude normal de fé não é então uma atitude de supremacia em relação ao mundo e aos outros, mas uma atitude de entrega de si mesmo” (Duque, o.c.p. 156).

Refletimos sobre a filosofia da violência e da lógica mimética e do bode expiatório. A psicologia explica que a violência tem que escolher um bode expiatório para encontrar a desculpa furada da fome de poder e de domínio. Os Hitlers antigos viviam disso, como o da Alemanha nazista, e os hitlers de hoje das guerras atuais. E acontece o fenômeno do “contágio mimético” pelo qual as massas agem por mimetismo ou imitação contagiosa dos seus chefes. Acontece que as teocracias de ontem na sua ignorância de botar o nome de Deus em tudo, revivem hoje com uma nova intenção de ludibriar o povo com o nome de Deus sempre na boca. E, como diz o sociólogo Malina, o “nome de Deus” pode facilmente ser absorvido pelas teocracias, como falsidade, isto é, uma armadilha que a aristocracia pode usar para controlar os pobres, neste sentido: a nós a riqueza, o lucro, o mando, o poder e a violência e para vocês o sofrimento, a pobreza, a obediência e a morte, esperando que o Deus venha socorrer vocês” (Bruce J.Malina, 43). A conclusão será: Não existe nenhum futuro para a maldade e opressão. Deus não se vinga; simplesmente abandona a maldade à sua própria lógica do nada. O “eschaton”, ou as últimas coisas serão exclusivamente positivas; não existe “eschaton” negativo ou realidade última negativa: para estes existe o nada, como conclui E.Schillebeeckx. Como disse Jesus a respeito de Judas: “Melhor que não tivesse nascido”(Mt.26,24).

P.Casimiro João     smbn

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