Antigamente, pra se
salvar era preciso ser judeu. Depois, pra se salvar era preciso ser cristão.
Hoje em dia, pra se salvar é preciso ser humano. Por estas três etapas vem passando o entendimento
humano da salvação. Noutra página eu coloquei a seguinte questão: Quando a Lua
e o planeta Marte forem habitados, como será? Qual será a religião deles? O que
dirá a Bíblia para eles? O que será para eles o “mar vermelho”? O que eles
dirão da Palestina? Moisés e os profetas? O que eles imaginarão? O que será
para eles o Jesus que nasceu nesta terra? Será que tem que nascer lá também
para eles? Estas questões vão surgir e
não são brincadeira. Os Judeus pensavam que só o judeu se salvava. O cristão pensava
que só o cristão se salvava. E os habitantes do Marte, o que dirão? Eles vão
pensar isso daqui a 100 anos? Vamos agora botar os pés no chão. Outro dia topei
no evangelho de João com esta afirmação: “Aquele que acredita no Filho possui
a vida eterna; aquele que rejeita o Filho não terá a vida pois a ira de Deus
permanece sobre ele” (Jo.3,36). Tratava-se
de um discurso sobre o batismo, completando com outras palavras: “Aquele que
vem do alto, está acima de todos; aquele que é da terra pertence à terra”
(Jo.3,31). Fala então dos filhos de Deus e dos filhos da terra: quem é
filho do alto é filho de Deus; quem não é, é filho da natureza. Quem era
batizado era filho de Deus e nasceu do alto; quem não era batizado, não era filho
de Deus, e era daqui debaixo. Era isto o que diziam os cristãos. E nesse
sentido substituíam os judeus que tinham a circuncisão como garante da salvação.
“Se vocês não se circuncidarem segundo o rito de Moisés não poderão ser
salvos” (At.15,1). E agora o garante
era o batismo. “Quem não for batizado não será salvo?” (Mc.16,16). Ainda
avançando: Os cristãos sabiam que a Lei dos Judeus era para ser abraçada e seguida
por todo o mundo; ela era a “luz” para todo o mundo. Em consequência para os cristãos a lei cristã tinha que
ser para todo o mundo, porque eles eram os herdeiros do Antigo Testamento.
Porém, num novo entendimento da humanidade e da Igreja, há a declaração que quem
não conhece Cristo e a sua lei também se salva, como dizem os documentos do
Vaticano II (AG,n.1; LG.n 16; Nostra Aetate, n 2). Indo agora ao evangelho de
Marcos encontramos as palavras “Quem
crer e for batizado será salvo; quem não crer será condenado” (Mc.16,16). Temos
a observar o seguinte: esta passagem de Marcos não é original, assim como a
passagem do evangelho de João que estávamos analisando. (Cf. R.Brown,
Comentário ao Evangelho de João, pag.348-373). Pertence às catequeses dos
primeiros cristãos sobre o batismo. Os estudiosos descobriram que o evangelho
de João não tinha sido aprovado para a lista ou cânon dos livros do Novo
Testamento porque não falava nos sacramentos. Então, lá mais à frente, na data
do século III e IV foram acrescentadas essas palestras sobre a preparação dos
batismos, e assim já ganhou a aprovação, para não correr o risco de ficar como
um evangelho apócrifo. Por seu lado, o final do evangelho de Marcos,
como dissemos, também não é original. Os pregadores judeus inseriram essas palavras
no final do evangelho dele. O evangelho de Marcos é um belo exemplo da prática
que se fazia naquela época, e como ainda hoje se faz na esfera civil, isto é, de como
se aumentam dados e se maquilham narrativas para ficar mais aceitáveis. Como
exemplo disso temos a “narrativa da guerra do Vietnam que os Estados Unidos perderam, que para entrar na
história dos Estados Unidos foi submetida a uma boa maquilhagem antes de
aparecer nos textos oficiais de história dos Cursos Médios e Superiores dos Estados
Unidos.” (Ched Myers, O Evangelho de Marcos, pag. 476). Do mesmo modo, no final
do evangelho de Marcos aconteceram coisas semelhantes. Conforme Myers, o final
do evangelho de Marcos teve aumentos apócrifos. Essa afirmação, de “quem
crer e for batizado será salvo e quem não crer será condenado” é considerada
como “uma reedição imperial”. (o.c.p.476). As razões são avaliadas da forma
seguinte: “Esta ideologia não só contradiz a insistência de Marcos em outros
lugares segundo o qual “os que não são contra nós estão conosco” Mc.9,40, mas também se apoiam na expressão histórica da divisão da humanidade em “cristandade”
e gentilismo. É importante lembrar que o uso que fazia a Igreja imperial do “julgamento”
transformou a cruz em espada, e isto foi a mais profunda traição histórica do
Evangelho.” (o.c.p. 477). Sobre o restante do final do evangelho de Marcos, “os
sinais ‘milagrosos’ apresentamos ainda a seguinte reflexão do mesmo autor para “maquilhar”
a apresentação e aceitação do evangelho: “Não podemos deixar de criticar os
inúmeros esforços da “mágica cristã” deste texto, chegados até os dias de hoje
e veiculados pela imposição das mãos e a cura pela fé. Isso significaria que
ser cristão significava demonstrar poder visível. Isso serviu particularmente para a América do
Norte, onde o “povo escolhido” que eles se consideravam, em vez de significar serviço vestia o look de
império e domínio” (o.c.p.477). Devemos não esquecer que os discípulos de Jesus
eram judeus, e que as primeiras comunidades eram formadas na maior parte por
judeus convertidos. Apesar de todas as proibições de Jesus de comparar o “seu
reino” com os “reinos e impérios mundanos, eles não deixaram essa ideia
de uma vez por todas ou da noite para o dia. E em quantas vezes em lições e pregações e orações não teriam esses deslizes
ou por esquecimento ou propositalmente para manifestar que o reino de Jesus era
ainda mais “poderoso,” “milagroso” e “mágico” do que os outros, conforme a ideia
que eles traziam nas suas cabeças? É só a gente, nós mesmos, olhar para a nossa
introspecção para constatarmos que em nós também é ainda assim também. Haja
vias-sacras, haja pregações, haja retiros, haja filmes, haja livros, mas não largamos,
no fundo essas mesmas nossas projeções e convicções. Podemos até criticar outros, mas nós
temos isso. Os judeus tinham isso no
cerne do seu DNA, o qual passou também para nós, pensando que eles eram o povo escolhido; e que sua Lei tinha
que se espalhar para todos os povos; e o primeiro sinal era a
circuncisão, que era a primeira imposição: Vós não podeis ser salvos se não
vos circundardes” (At.15,1), que
passou para os cristãos na afirmação: “se não formos batizados não seremos salvos”
de
Mc.16,16.
É este imaginário que eu estou dizendo que também passou para nós e ainda subsiste.
Para reforçar, vale outra observação: Os primeiros cristãos viveram misturados
por mais de 100 anos com seus conterrâneos judeus e frequentavam a mesma sinagoga
com eles. Escutavam as mesmas leituras,
as mesmas pregações e rezavam os mesmos salmos. Como não poderiam então ter na
sua cabeça o que continuavam ouvindo na sinagoga? Agora só para nós: Nós também
podemos escutar que aconteceu um concílio; que antes era daquela maneira mas agora tem que ser doutra,
mas a gente continua falando e pensando e defendendo o que o que era como antes
e não o que é para ser agora. Por isso voltamos ao nosso título: Para salvar-se
era preciso tornar-se judeu. Depois: para salvar-se era preciso ser cristão; e
para ser católico é preciso ser como antes do Concílio. Enquanto que o concílio
hoje diz que para salvar-se é preciso ser humano. E para muitos ainda continua:
para ser cristão tem que ser como antes do concílio; e para ser católico tem
que ser como há 500 anos.
P.Casimiro João mbn
www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br

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