segunda-feira, 27 de abril de 2026

PRA SE SALVAR ERA PRECISO SER JUDEU.


 

Antigamente, pra se salvar era preciso ser judeu. Depois, pra se salvar era preciso ser cristão. Hoje em dia, pra se salvar é preciso ser humano. Por estas     três etapas vem passando o entendimento humano da salvação. Noutra página eu coloquei a seguinte questão: Quando a Lua e o planeta Marte forem habitados, como será? Qual será a religião deles? O que dirá a Bíblia para eles? O que será para eles o “mar vermelho”? O que eles dirão da Palestina? Moisés e os profetas? O que eles imaginarão? O que será para eles o Jesus que nasceu nesta terra? Será que tem que nascer lá também para eles?  Estas questões vão surgir e não são brincadeira. Os Judeus pensavam que só o judeu se salvava. O cristão pensava que só o cristão se salvava. E os habitantes do Marte, o que dirão? Eles vão pensar isso daqui a 100 anos? Vamos agora botar os pés no chão. Outro dia topei no evangelho de João com esta afirmação: “Aquele que acredita no Filho possui a vida eterna; aquele que rejeita o Filho não terá a vida pois a ira de Deus permanece sobre ele” (Jo.3,36).  Tratava-se de um discurso sobre o batismo, completando com outras palavras: “Aquele que vem do alto, está acima de todos; aquele que é da terra pertence à terra” (Jo.3,31). Fala então dos filhos de Deus e dos filhos da terra: quem é filho do alto é filho de Deus; quem não é, é filho da natureza. Quem era batizado era filho de Deus e nasceu do alto; quem não era batizado, não era filho de Deus, e era daqui debaixo. Era isto o que diziam os cristãos. E nesse sentido substituíam os judeus que tinham a circuncisão como garante da salvação. “Se vocês não se circuncidarem segundo o rito de Moisés não poderão ser salvos” (At.15,1).  E agora o garante era o batismo. “Quem não for batizado não será salvo?” (Mc.16,16). Ainda avançando: Os cristãos sabiam que a Lei dos Judeus era para ser abraçada e seguida por todo o mundo; ela era a “luz” para todo o mundo. Em consequência para os cristãos a lei cristã tinha que ser para todo o mundo, porque eles eram os herdeiros do Antigo Testamento. Porém, num novo entendimento da humanidade e da Igreja, há a declaração que quem não conhece Cristo e a sua lei também se salva, como dizem os documentos do Vaticano II (AG,n.1; LG.n 16; Nostra Aetate, n 2). Indo agora ao evangelho de Marcos encontramos as palavras  Quem crer e for batizado será salvo; quem não crer será condenado” (Mc.16,16). Temos a observar o seguinte: esta passagem de Marcos não é original, assim como a passagem do evangelho de João que estávamos analisando. (Cf. R.Brown, Comentário ao Evangelho de João, pag.348-373). Pertence às catequeses dos primeiros cristãos sobre o batismo. Os estudiosos descobriram que o evangelho de João não tinha sido aprovado para a lista ou cânon dos livros do Novo Testamento porque não falava nos sacramentos. Então, lá mais à frente, na data do século III e IV foram acrescentadas essas palestras sobre a preparação dos batismos, e assim já ganhou a aprovação, para não correr o risco de ficar como um evangelho apócrifo. Por seu lado, o final do evangelho de   Marcos, como dissemos, também não é original. Os pregadores judeus inseriram essas palavras no final do evangelho dele. O evangelho de Marcos é um belo exemplo da prática que se fazia naquela época, e como ainda hoje se faz na esfera civil, isto é, de como se aumentam dados e se maquilham narrativas para ficar mais aceitáveis. Como exemplo disso temos a “narrativa da guerra do Vietnam que os Estados Unidos perderam, que para entrar na história dos Estados Unidos foi submetida a uma boa maquilhagem antes de aparecer nos textos oficiais de história dos Cursos Médios e Superiores dos Estados Unidos.” (Ched Myers, O Evangelho de Marcos, pag. 476). Do mesmo modo, no final do evangelho de Marcos aconteceram coisas semelhantes. Conforme Myers, o final do evangelho de Marcos teve aumentos apócrifos. Essa afirmação, de “quem crer e for batizado será salvo e quem não crer será condenado” é considerada como “uma reedição imperial”. (o.c.p.476). As razões são avaliadas da forma seguinte: “Esta ideologia não só contradiz a insistência de Marcos em outros lugares segundo o qual “os que não são contra nós estão conosco” Mc.9,40, mas também se apoiam na expressão histórica da divisão da humanidade em “cristandade” e gentilismo. É importante lembrar que o uso que fazia a Igreja imperial do “julgamento” transformou a cruz em espada, e isto foi a mais profunda traição histórica do Evangelho.” (o.c.p. 477). Sobre o restante do final do evangelho de Marcos, “os sinais ‘milagrosos’ apresentamos ainda a seguinte reflexão do mesmo autor para “maquilhar” a apresentação e aceitação do evangelho: “Não podemos deixar de criticar os inúmeros esforços da “mágica cristã” deste texto, chegados até os dias de hoje e veiculados pela imposição das mãos e a cura pela fé. Isso significaria que ser cristão significava demonstrar poder visível.  Isso serviu particularmente para a América do Norte, onde o “povo escolhido” que eles se consideravam, em vez de significar serviço vestia o look de império e domínio” (o.c.p.477). Devemos não esquecer que os discípulos de Jesus eram judeus, e que as primeiras comunidades eram formadas na maior parte por judeus convertidos. Apesar de todas as proibições de Jesus de comparar o “seu reino” com os “reinos e impérios mundanos, eles não deixaram essa ideia de uma vez por todas ou da noite para o dia. E em quantas vezes em  lições e pregações e orações não teriam esses deslizes ou por esquecimento ou propositalmente para manifestar que o reino de Jesus era ainda mais “poderoso,” “milagroso” e “mágico” do que os outros, conforme a ideia que eles traziam nas suas cabeças? É só a gente, nós mesmos, olhar para a nossa introspecção para constatarmos que em nós também é ainda assim também. Haja vias-sacras, haja pregações, haja retiros, haja filmes, haja livros, mas não largamos, no fundo essas mesmas nossas projeções e convicções. Podemos até criticar outros, mas nós temos isso. Os judeus  tinham isso no cerne do seu DNA, o qual passou também para nós, pensando que eles eram o povo escolhido; e que sua Lei tinha que se espalhar para todos os povos; e o primeiro sinal era a circuncisão, que era a primeira imposição: Vós não podeis ser salvos se não vos circundardes” (At.15,1), que passou para os cristãos na afirmação: “se não formos batizados não seremos salvos” de Mc.16,16. É este imaginário que eu estou dizendo que também passou para nós e ainda subsiste. Para reforçar, vale outra observação: Os primeiros cristãos viveram misturados por mais de 100 anos com seus conterrâneos judeus e frequentavam a mesma sinagoga com eles. Escutavam  as mesmas leituras, as mesmas pregações e rezavam os mesmos salmos. Como não poderiam então ter na sua cabeça o que continuavam ouvindo na sinagoga? Agora só para nós: Nós também podemos escutar que aconteceu um concílio; que antes era  daquela maneira mas agora tem que ser doutra, mas a gente continua falando e pensando e defendendo o que o que era como antes e não o que é para ser agora. Por isso voltamos ao nosso título: Para salvar-se era preciso tornar-se judeu. Depois: para salvar-se era preciso ser cristão; e para ser católico é preciso ser como antes do Concílio. Enquanto que o concílio hoje diz que para salvar-se é preciso ser humano. E para muitos ainda continua: para ser cristão tem que ser como antes do concílio; e para ser católico tem que ser como há 500 anos.

P.Casimiro João       mbn

www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br

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