Há um livro intitulado “História humana revelação de Deus”. É do que eu vou falar neste capítulo. Não vou falar daquele conceito de “revelação” sobre o qual diz Eduard Schillebeeckx que “desde que há homens há revelação”. Nem da revelação por antonomásia, a “revelação” cristã que até há pouco era considerada a única e válida para toda humanidade. Não, é da revelação de Deus na vida de Jesus de Nazaré. Me levou a esta reflexão um olhar atento quando me vi parado num olhar sobre o título desse livro de Eduard Schillebeeckx “História humana revelação de Deus”. O meu pensamento me levou à vontade de ver como a vida humana de Jesus já era uma vida ressuscitada antes da “ressurreição”. Estamos no tempo da Páscoa do ano de 2026, e fluiu daí. O mesmo E. Schillebeeckx tirou a mesma conclusão dizendo que “a ressurreição” já vinha embutida na vida e na “derrota” da vida de Jesus. Na verdade Jesus achava maior Deus e as promessas de Deus do que as suas tarefas dolorosas e rechaçadas, e aí já se manifestava a ressurreição. Essa já era revelação da ressurreição. Como afirma o autor, Jesus apreciava menos a sua vida do que o valor de Deus em sua vida. E em toda uma reflexão sobre este assunto o autor se baseia não na vingança de Deus contra o mal, nem contra as injustiças feitas ao inocente, e nem na vingança dos maus que rejeitavam e provocavam Jesus e o condenaram à morte. Na vida de Jesus recusada e rechaçada, aí já vinha como companheira a mesma ressurreição. “A força de Deus já estava em ação na própria vida de Jesus, e dela participa a sua morte” (o.c.p.169). Este conceito de ressurreição vai em sentido contrário ao conceito de ressurreição como revanche ou vingança divina sobre os inimigos do povo como corria entre os judeus. E, queiramos ou não, está no subconsciente de todo nosso conceito de ressurreição, em que se propugna o “castigo” para os maus, e a “ressurreição” para os bons, que afinal das contas vira conceito de vingança que não cabe em Deus nem em Jesus. Por isso conclui o autor citado: “falar de morte expiatória de Jesus ou de valor redentor de sua morte sem reflexão crítica pode tornar-se pura ideologia”. E a pura ideologia é todo conceito de ressurreição tratado como vingança de Deus que “premeia” uns e “castiga” outros. Sobre a total entrega da vida de Jesus que ela tinha em pouco valor, vejamos como Jesus estava presente nas circunstâncias da vida das pessoas ameaçadas pela natureza, pela opressão social e religiosa e pela autoalienação. Jesus se empenhava nessa tarefa de tal sorte que não se importava com o cuidado pela própria sobrevivência. Pela sua vida Jesus dizia que a opressão não tem direito de existir, e o direito do mais forte não deve valer na vida dos homens na sociedade. O caminho da vida de Jesus é, em si mesmo, práxis do reino de Deus, antecipação histórica da ressurreição, e sua morte é parte integrante deste caminho como força suprema onde estava escondida já a ressurreição; a vida de Jesus devia manifestar antecipações positivas da ressurreição, para que a fé na ressurreição não continuasse sendo pura ideologia” (o.c.p.170). Falei noutro capítulo na coragem de Jesus ao enfrentar estruturas de morte, de opressão das pessoas em nome de Deus e da religião. Nessa sua ação e práxis de vida Jesus já vinha embutida a ressurreição. Ele Já estava certo da vitória de Deus, porque Deus não estava na morte das pessoas, seja em nome de poderes públicos, econômicos ou religiosos. Ali já era o Jesus negado, perseguido e ressuscitado. Quando Jesus curava e transgredia dias e leis ele sabia que ali estava Deus com ele, e ali a perseguição de Jesus já era ressurreição. Porque ali se processava já a morte de Jesus, mas também a sua ressurreição. Ali acabava o reino da morte e começava o reino da vida. Acabavam as estruturas de morte e começavam as estruturas de vida. Digamos: onde Jesus morria já ressuscitava. Onde a religião dos fariseus espalhava a morte, Jesus espalhava a vida. “Mulher, eu te digo fique curada”, Mc.5,34; “É dia de sábado? pois pegue sua cama e caminhe para sua casa” Jo.5,8. As raposas que eram Herodes e Pilatos decretaram a morte. Jesus decretou a vida: “vão dizer a essa raposa que expulsarei demônios e curarei o povo hoje e amanhã, e no terceiro dia estarei pronto”, Lc.13,22. Onde o mundo fabricava a morte Jesus fabricava a vida. Jesus já vivia ressuscitado. Jesus só espalhava ressurreição. Ele sabia disso. Não era Deus que decretava a morte de cruz para Jesus, como tem proclamado em muitos tempos certa ideologia até da Igreja, o que convém muito bem para o mundo político e até para a política da igreja. Por isso um dos maiores teólogos de nossos tempos tem a lucidez de declarar: “Eu não posso deixar de observar: é melhor não ter absolutamente fé na vida eterna do que confessar um Deus que no “aqui e hoje” humilha os homens, que os apequenece e degrada em vista de um além melhor” (o.c.p.173). Este “além” e este “apequenecer” é que fazem a ideologia que os judeus se fabricavam sobre o “servo sofredor”, e onde, de quebra, se pregava que Deus manda o sofrimento para depois mandar a vingança (Is.cap.50-53), o que passou para o imaginário da cristandade. Ao invés, toda a vida de Jesus foi pautada pela absoluta liberdade e livre escolha. Nunca disse que era o Pai que mandava a perseguição, a cruz e a morte, mas agia pela escolha do bem a fazer às pessoas. E o bem, a saúde, a cura das pessoas era o reino de Deus. Porque para Jesus o Reino de Deus é um reino onde as pessoas vivem curadas, saradas e em fraternidade na mesma mesa da mesma casa. E na verdade, quando alguém se propõe esse programa encontra oposição, perseguição e liquidação. “No meio de um mundo mau, todo esforço em prol da justiça e do amor significa correr risco de vida”. (E. Schillebeeckx, o.c.p 165). Portanto, nesta perspectiva não entra nenhuma ideologia de vingança do tipo: como eles me oprimiram, eu serei vingado, Deus os vingará. Isso não existe em Deus e em Jesus. Isso é ideologia nossa, humana, transposta “religiosamente” para Deus. Com essa liberdade Jesus enfrentava a lei “intocável” no conceito dos fariseus. Porque não existe lei intocável; intocável é só a pessoa humana. A respeito da “lei intocável” eles ensinavam que a Lei era eterna e vinha já antes da fundação do mundo e antes da criação. Ao contrário, a pessoa humana é que tem um valor intocável, não a lei. O homem não é para a lei, mas a lei para o homem”: Mc. 2,27. Por isso Jesus apelava para a mesma liberdade: “quem quiser me seguir tome seus compromissos e venha” Lc.9,23. “caso contrário começa a construir uma torre e não acabará” Lc.14,28. Em Jesus a coragem era tanta, que nos sacrifícios do começo da “torre da sua vida” ele já enxergava o final feliz. Na cruz, antes da Cruz, já enxergava a ressurreição. Isto é o mais bonito e o mais sublime. Viver livre. Amar livre. Fazer o bem, livre. Correr riscos, livre. Isso é tão humano e tão divino. E isso não acontece só em Jesus e nos cristãos, mas em muitos homens e mulheres de nenhuma religião e de todas as religiões. Por isso é que Deus está em todos e em tudo, e já estava antes de Jesus existir e antes de os cristãos existirem. Na verdade, “Deus não é Deus sem nós e nós não somos nós sem Deus” (cf. João, Casimiro, pag.23). Em resumo: O que tem a ver esta reflexão sobre a ressurreição já presente nas ações de Jesus, com o nosso título deste capitulo: “A causa de Deus e a causa do homem na ótica de Jesus”? Justamente, o óbvio do que ficou falado. Isto é, não há separação entre a causa de Deus e a causa do homem. Como não há entre o primeiro mandamento e o segundo, Mt.22,39. Se houver, será a seguinte: quem fanaticamente empunhar e brandir a espada da “causa de Deus”, com a mesma espada mataria o homem. Foi o que fizeram os fariseus matando Jesus. Porém, quem torcer pela “causa” do homem só dá vida e não morte. Porque, na verdade, declarar “eu amo a Deus” pode iludir muito: porque se não amar o próximo, esse “amor” a Deus é uma farsa. “Se não amas o próximo a quem vês, como podes dizer que amas a Deus a quem não vês”? (1 Jo.4,20). E naquele “amar o próximo” já está presente a ressurreição, como estava em Jesus. No próximo porque sentindo-se amado ele “ressuscita” da sua condição de sentir-se apequenado e odiado; e em quem ama o próximo, porque vivendo o amor, está com Deus, e Deus está com ele. Goncluímos então que a causa de Deus é a mesma causa do homem, e a causa do homem é a mesma causa de Deus. E a mesma pena de morte que acompanhava a vida de Jesus por dedicar-se à causa do homem já trazia embutida a ressurreição como combustivel da causa de Deus.
P.Casimiro João smbn
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