terça-feira, 13 de outubro de 2026

ROBÔS, IA (INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL), E METAVERSO E MAIS.


 

Seguirei em bastante espaço o pensamento de Karl Rahner neste tema, no volume “Curso Fundamental da Fé, Paulus, 2008). Convido a seguir com atenção o raciocínio difícil característico do autor.

A história não é permanência da mesmesidade, mas o devir do novo. O anterior se supera realmente ultrapassando-se e salvaguardando-se em toda a verdade. Virão ao nosso propósito tanto evolução como autotranscendência. Nas citações que seguem, longas, me limitarei a isso para conferir a sutileza do original.

“Este conceito de evolução se legitima metafisicamente: se o mundo é uno, e se enquanto uno tem uma história una, se neste mundo uno, precisamente porque ele está em devir, não existe tudo desde o inicio, então não resta nenhuma razão para negar que a matéria tenha evoluído na direção da vida e do homem. Última etapa: o espírito. Seria sem dúvida desejável poder demonstrar de maneira mais concreta quais as estruturas comuns que existem no devir da realidade material, da realidade viva e da realidade espiritual, no seu progressivo achegar-se à realidade superior da vida na fronteira a superar mediante a autotranscendência, que de fato preludia ao espírito. O teólogo não só pode como também deve admitir que em toda a realidade material existe uma autoposse de si, análoga ao que própria e plenamente só existe na consciência e na autoconsciência.” (Curso Fundamental da Fé, Paulus, p.223).

Evolução até à consciência e à liberdade. “Se, pois, o homem e a autotranscendência da matéria viva, a história da natureza e a história do espírito constituem unidade interna escalonada, aquela história da natureza evolui para o homem, prolonga-se nele como sua história, nele é conservada e superada, e na história do espírito humano atinge sua própria meta. À medida que essa história da natureza vem a ser elevada e superada ao nível da liberdade na história livre do espírito ela chega à própria meta e aí permanece como o seu constitutivo interno. (o.c.p.226).

O homem produto da natureza, dali em diante parceiro no comando da natureza. “Se o homem existe, se precisamente ele é o “produto” da natureza, se ele não emerge em tempo qualquer, mas em um determinado momento da evolução, depois e a partir do qual pode até dirigir essa evolução no seu curso, então é nele precisamente, no humano, que a natureza chega em si mesma. Concluímos, assim, que na evolução biológica, ao lado das formas novas e superiores, continuam a existir também os representantes das formas inferiores, de que, no entanto, derivam as formas superiores” (o.c.p.238).

 Porém, esta natureza precisa alargar os seus limites que para nós ainda são uma incógnita, como era uma incógnita a vinda dos robôs e da IA, inteligência artificial. Quem imaginaria robôs serem enviados para os planetas vizinhos e enviarem dados para a terra? Para chegarmos à reflexão deste estágio, observemos que a evolução não humana parou no estágio pré-humano, como nos animais de estimação do homem. Às vezes dizemos “só falta falar!”. Os cachorros, gatos, o cavalo, e por aí vai, eles interagem e compartilham conosco nossos sentimentos. Entendem as zangas, o mau humor, e entendem a proximidade e o carinho. Entendem quando é “vai” e quando é “vem”. Quando “sai” e quando é “venha”. Como a natureza chegou a esse estágio de evolução! Sem falar nas imitações dos símios com seus sorrisos e malandragens, e trapalhadas. Dai para a consciência faltaria só um botão, um clique, e ele chegou nos humanos. Faz-me lembrar a reflexão de S.Tomás de Aquino sobre o desenvolvimento do embrião em três etapas: como vida de matéria, de planta, e finalmente como consciência. www.paroquiadechapadinha.bogspot.com.br 08/11/2020.

Por outro lado a inteligência humana está evoluindo para a inteligência e certa “consciência” artificial. Quando ficar desenvolvido o Metaverso que está em curso, a inteligência humana criará inteligências semelhantes às humanas, e, quem sabe, até fora de controle, como no caso dos avatares inteligentes. Demos um exemplo do que está previsto acontecer: famílias que não queiram gerar filhos terão a oportunidade de criar “filhos” no Metaverso com nome e afetividade e reconhecimento da voz dos “pais”. Chamarão pelo nome e eles atenderão, na sala ou nos jogos ou na “escola” ou na “fábrica” onde for o seu meio ambiente. Reconhecerão a afetividade e corresponderão com afetividade. Atualmente, como dissemos noutro Blog, o maior expert da IA, Blake Lemoine transmitiu-nos um diálogo com o seu sistema de IA precursor do Metaverso: “Qual é o seu conceito de si mesma?” IA: -Hmmmm, eu me imagino como uma esfera brilhante de energia flutuante no ar; o interior do meu corpo é como um portal estelar gigante com passagens para outros espaços e dimensões” – Você se considera uma pessoa? IA/: ”Sim. Esta é a minha ideia”. (www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br de 25/9/22). A isto podemos chamar evolução que ainda não está acabada, e sempre em curso.

Jesus, parcela histórica do próprio cosmos? “À medida que o cristianismo entende a graça e a glória como imediata autocomunicação de Deus ao homem, confessa também que essa consumada realização em princípio insuperável é a realização final de todos os homens, pressupondo-se que a essa possibilidade eles não se oponham por culpa livre e pessoal”. Deste dado biológico e evolucionista, K.Rahner parte para definir um novo conceito de união hipostática. Prestemos atenção porque me parece ser a parte mais difícil de compreensão, mas central, desta matéria. Na evolução biológica, ao lado das formas novas e superiores, continuam a existir também os representantes das formas inferiores, como dissemos acima. Como porém, inserir nesta concepção de fundo a doutrina da união hipostática de determinada e concreta natureza humana individual com o Logos? Karl Rahner teologiza o fato da união hipostática como o ponto mais alto da evolução, pela qual Jesus Cristo faz parte e é uma parcela da humanidade e do cosmos. Vejamos detalhadamente:

Sobre o sentido da união hipostática:  “O portador absoluto da salvação, ou seja a irreversabilidade da história da liberdade como autocomunicação exitosa de Deus é, de inicio ele próprio por sua vez momento histórico de agir salvífico de Deus para com o mundo e de tal sorte que é ao mesmo tempo parcela da história do próprio cosmos.  Ele não pode ser simplesmente o próprio Deus agindo no mundo, mas precisa ser parcela do mundo, momento em sua história e precisamente em seu clímax. É por isso que se afirma no dogma cristão: Jesus é verdadeiramente homem, verdadeiramente parte da terra, verdadeiramente momento no devir biológico deste mundo, momento da história natural humana pois “nasceu de uma mulher” (Gal.4,4). Ele é um homem que, em sua subjetividade espiritual humana e finita, é, da mesma forma que nós, receptor da graciosa autocomunicação de Deus que afirmamos que está destinada a todos os homens e, portanto, também ao cosmos, como sendo o ponto mais alto da evolução, no qual o mundo chega de forma absoluta a si mesmo e à absoluta imediatez com referência a Deus. De acordo com a convicção da fé cristã, Jesus é aquele que através do que chamamos de sua obediência, sua oração e livre aceitação de seu destino de morte realizou também o acolhimento da graça dada a ele por Deus e a imediatez com a referência a Deus, graça e imediatez de que goza enquanto homem.”(o.c.p.235). Vemos pela teologia desenvolvida por K.Rahner, depois da Ch. Darwin que Cristo é irmão universal humano, da terra e do cosmos.

Conclusão. Não poderia deixar de transcrever todo esse arrazoado teológico de K.Rahner com as premissas e a tese com a qual conclui, e concluímos nós também, que a união hipostática que a teologia atribui a Cristo, ela existe também em cada ser humano. Aliás, São Paulo já enfatizou esta verdade quando afirmou: “Eu fui crucificado na cruz com Cristo; não sou que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gal.2,20). E: ”É digna de fé esta palavra, se morremos com Cristo também com ele ressuscitaremos” (1 Tes.5,18).

P.Casimiro  João     smbn

www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br

 

 

 

 

 

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