segunda-feira, 31 de agosto de 2026

DE UM GRITO DE GUERRA À CONSTRUÇÃO DE UM MONUMENTO DE FÉ

 


Antigamente, as guerras faziam parte da vida cotidiana dos povos, digamos, como hoje o futebol. E eram o esporte preferido e único dos reis, e seu passatempo. “No retorno do ano, na época em que os reis costumam fazer a guerra...(II Sam.11,1) Neste sentido, cada povo tinha o seu grito distintivo de avançar para o ataque. O grito distintivo de Israel era “emanú”, que significa: “quem está conosco”? O comandante gritava “emanú” e os saldados respondiam: ‘El”, que significava: “Deus”. Daí veio a palavra Emanuel. Daí em diante, “Emanuel”, de um simples grito de guerra passou a significar a presença de Deus no meio do povo.

 Na época do primeiro Isaías, o rei Acaz estava acuado e ameaçado por dois reinos e  dois reis que iriam avançar contra ele: o reino do norte de Israel, e o reino da Síria. O profeta então correu para dar-lhe conselhos e coragem. Na verdade, com essa história o profeta mudou o nome de um filho do rei para Emanuel, que seria o mesmo nome das vitórias das guerras. Foi o  passo para fazer o paralelo para épocas futuras, quando apareceu o mensageiro do céu à mãe de Jesus, e que o filho Jesus seria o grito de todas as lutas e de todas as vitórias. 

Não é sem motivo que NªSª Senhora é invocada domo Nossa Senhora da Vitória, NªSª da Ajuda, do Amparo, do Socorro, Auxiliadora, da Boa Hora, da Boa Viagem, do Bom Conselho, do Bom Despacho, do Bom Sucesso, da Esperança, da Luz, da Consolação, dos Desamparados, Desatadora dos Nós, das Dores, da Piedade, da Estrela, Rainha,  N.S. da Glória, da Lampadosa, do Livramento, das Mercês, da Misericórdia, dos Navegantes, dos Remédios, da Saúde. E digamos, não foi só em vida que Jesus é o Emanuel, o Deus conosco, também na cruz e na morte. O grito abafado na cruz e escondido na morte fez-se ecoar quando Deus o ressuscitou ao terceiro dia. E, como frisa e evangelho: “segundo as escrituras”. Porque segundo as Escrituras, o grito da vitória de “Emanuel” estava-lhe garantido. Lembremos que o Evangelho de Mateus é um evangelho de judeus cristãos. E foi nessa linha e nessa tradição, e com base nessa história que eles transmitiram essa teologia. Por isso, ao nome de Jesus que quer dizer “Deus salva”, foi aplicado o de “Emanuel”, Deus está conosco”. E ainda, o anjo falou que “ele vai salvar seu povo”. Seu povo de quê? Do poder romano? Dos dirigentes corruptos? Não somente o seu povo judeu, mas o povo de Jesus abrangendo todas as nações e todos os poderes e corrupções. “O Filho da Virgem Mãe será chamado Emanuel”(Mt.123). Se no diálogo de Isaías com Acaz esse nome poderia lembrar apenas um grito de guerra, aqui tem significado pleno.  Ele é Deus conosco, não apenas nos dando forças, mas também sendo a presença de Deus no meio da humanidade, Deus que vem caminhar com todos os lutadores. Jesus é a presença vitoriosa de Deus.

 

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

MORTE E POLÍTICA EM JESUS



 O reino de Deus  era o absoluto, e todas as outras coisas eram relativas.

Ainda que seus concidadãos ficassem admirados e escandalizados, porque ele não assumia e até rejeitava os atributos de messias, Jesus ia em frente. “E ficavam escandalizados por causa dele” (Mc. 6, 3). Como Paulo também Jesus podia dizer” quando me assumo fraco é então que sou forte” (2.Cor. 12, 10). “Porque aos filhos de cabeça dura e coração de pedra dirás: assim diz o Senhor Deus, quer te escutem quer não, pois são um bando de rebeldes, ficarão sabendo que houve entre eles um profeta”(Ez. 2,4-5).

Os conterrâneos de Jesus esperavam ver nele os títulos e prerrogativas de um Messias. No entanto, nesses momentos de sua vida, como durante o silêncio ao pender da cruz corresponde a lógica da decisão de recusa de todo messianismo de força e de poder. Por isso a consequência de vida radical do serviço à justiça e ao amor em favor dos pobres e marginalizados levou Jesus à decisão de enfrentar a morte na cruz. No meio de um mundo mau, todo esforço em prol da justiça e do amor significa risco de vida.

Para Jesus, a causa de Deus –o reino de Deus enquanto salvação do ser humano- era maior que a importância de sua vida .

Na verdade, não foi Deus, para quem, de acordo com Lv. 18, 21  os sacrifícios humanos são um horror, que levou Jesus à cruz, foi a ação dos homens.

E por isso, não obstante a ameaça de morte Jesus permaneceu fiel à sua mensagem, e se despediu dos seus em banquete festivo, a Ceia. Por isso, ultimamente os teólogos são levados a pensar e ensinar que a morte de Jesus teve um aspecto político. Como diz Edwuard Schillebekkx: “a frase sob Pôncio Pilatos do símbolo cristão envolve além de tudo o que possa significar teologicamente a morte de cruz, um aspecto político”(História humana – revelação de Deus, p. 160).

 

Na realidade, Jesus envia seus discípulos não apenas para comunicar sua mensagem do perdão dos pecados e a vida eterna, mas também com a tarefa de tornar de novo sãs e curadas as pessoas. O reino de Deus implica perdão dos pecados, mas é mais. Jesus toma partido por pessoas que não têm defensores, mas acusadores que, apelando para a lei e dedurando-as, as reduzem à marginalidade, impedindo-lhes que possam até dar um passo em frente” (id). Pense no aleijado da piscina de Betesda (Jo.5, 7)

 

Quando Jesus em sua vida e opções mudou a perspectiva de olhar o reino de Deus não só em direção a Deus, ao templo e aos ritos da circuncisão, foi quando “colocou pimenta nos olhos dessa gente”: a observância  concreta do sábado cai diante do valor de pessoas pobres, acusadas e marginalizadas.

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

ATÉ ONDE VAI A PIEDADE E ATÉ ONDE VAI A TEOLOGIA

Podemos dizer que a piedade procede da espiritualidade, das tradições, das heranças, dos medos, dos tabus e da religiosidade familiar. A teologia procede dos documentos, da arqueologia, da investigação, das ciências interdisciplinares, da linguística, da filosofia.

Em muitas questões bíblicas, a piedade aparece em primeiro lugar, e aí os críticos descobriram que não são históricas; ou seja, viram que muitas narrativas não são históricas, mas fruto da piedade, ou construções piedosas da época. E a isso chamamos de parábolas, o que os judeus chamavam de midrash, casos para tirar uma lição moral. Um caso desses será por exemplo o caso tão manjado da “mulher adúltera”, cap.8 de João. Os críticos históricos dão este texto como uma parábola igual o “filho pródigo”. Veremos mais à frente outros exemplos, como o caso de Suzana, "pega em adultério” (Dn.13,1-21), aliás como todo o Livro de Daniel; e os primeiros capítulos da Bíblia, a Criação etc. Tobias, e o Livro de Jó aparecem como duas grandes parábolas, assim como o Livro de Jonas. E ainda as narrativas apocalíticas, e as incluídas pari passu nos evangelhos e Cartas. Em todos esses escritos se expressa a piedade e não a história.

Por quais meios se expressa a piedade? Por meio de hinos, orações de salmos, parábolas, apocalipses e narrações épicas. Não haveria tempo nem ocasião de falar em todos estes itens, apenas umas indicações:  Por exemplo, a Criação é uma liturgia de louvor ao Criador. Hinos como este são da piedade popular, passando para o Novo Testamento e inseridos em muitas Cartas que traduzem a piedade popular. A piedade popular tem em vista só emoção; tantas vezes é um cantor que passa para o público sua arte de poesia baseada no louvor, na admiração, fundando-se nas emoções e no que sente no momento. Talvez no dia seguinte já poderia dizer o contrário, como quando um Salmo pede a Deus para “despedaçar os filhos dos inimigos, contra a rocha” (Sl.137,9); “O sol perderá o brilho e a lua escurecerá” (Joel, 3,15); a “terra tremerá e as rochas se abrirão”(Is.2,19 e Jer,47,12).

Voltemos ao capitulo oito de João, da “mulher adúltera”. A lição moral a tirar daí é um exemplo de como a religião e a piedade pode atrapalhar o ser humano. Na parábola em questão o primeiro lugar deve ser dado para o ser humano, depois é que vem a religião e as suas leis. Nascemos todos “sem religião”, só como “ser humano”; depois cada um escolhe a religião que quer. Claro que a maioria das pessoas segue a religião dos pais. No entanto poderá adotar outra, ou até nenhuma. Você é católico ou católica, porquê? E se seus pais fossem protestantes ou religião afro? Você não seria? Trata-se da liberdade de consciência e de religião, como asseverou o Vaticano II (Decreto Sobre a Dignidade Humana e Liberdade religiosa, Seção II, pg.2). No decorrer da História a “religião” pode ter atrapalhado muito o ser humano, porque os religiosos não se davam conta que antes de ser “religioso” a gente é “ser humano”. E quando se destrói um ser humano por causa da religião, se destroem as duas coisas, o ser humano e o “religioso”. Se uma pessoa deixa de ser um ”ser humano” para ser “religioso” então não é nem “religioso” e nem um “ser humano”. É por isso que na história muitas pessoas pensaram assim: se para ser religioso tenho  que deixar de ser humano, então não vale a pena ser religioso, vale mais ser humano. É isso que muitos escolhem, e que Jesus mostrou por toda a sua vida e sem dúvida esta parábola da “mulher adultera” nos quererá mostrar.

Até onde vai a piedade, e donde recebemos a piedade? Da espiritualidade familiar, como disse;  das tradições, das heranças, dos medos, dos tabus, e da religiosidade,  ou do religiosismo. Levaríamos tempo para desenrolar estes conceitos. Somente vamos resumi-los em três: a herança familiar, a tradição e os tabus. A espiritualidade e herança familiar é o jeito de gestos, modos e comportamentos e palavras que vão moldando a criança. São colados no âmago da criança com um grude poderoso até aos três anos, e formarão em dois terços a cabeça e a personalidade futura da pessoa. São irrefletidos e mecânicos como camadas estáticas que se sobrepõem. E geram hábitos, que são maneiras mecânicas de agir e pensar. A criança e o adulto faz porque faz, e sem saber por que faz; pensa o que pensa e sem saber por que pensa. Pergunte um dia o “porquê” das coisas e responderá: “por que sim”; “porque aprendi em casa”. E quantos pais não usaram de maneiras violentas para inculcar essas coisas nos filhos? Pergunte só o sentido de algumas palavras, não saberá responder. Pergunte sobre análise do texto do que diz, do que fala e do que lê na Bíblia. E muitos jovens e adultos olharão para o vazio. Isso, digamos, faz a pessoa um religioso autômato e um cristão mecânico e inconsciente, e repetidor do que não sabe. O teólogo Karl Rahner fala na fé baseada em mitologias, heranças e antigas tradições; e na fé refletida, baseada na reflexão crítica, na ciência bíblica, nas ciências humanas, na cosmologia, na antropologia e na teologia. (Curso fundamental da fé, p.348).

Falemos logo nos outros dois elementos, a tradição e os tabus, e iremos vendo que no final das contas tudo se junta como num funil. Por exemplo na tradição e nos tabus o seguinte caso: nas culturas antigas todos os objetos materiais estavam no domínio dos espíritos impuros. Nas práticas religiosas as coisas materiais não podiam não podiam diretamente ser introduzidas no mundo sagrado sem antes ser “abençoadas”. Porque se acreditava serem habitadas por espíritos. E o primeiro passo consistia em invocar o espírito de Deus para que expulsasse os maus espíritos dos objetos materiais.

Neste detalhe, por exemplo o teólogo João Libanio comenta que alguns liturgistas veem um desvio material coisificando a presença divina nos elementos materiais do altar, enquanto que se esquece que o Espírito divino é invocado para que venha sobre a comunidade dos que participam da mesma mesa, e transforme o corpo eclesial numa comunidade de união. (Cf. João Batista Libanio, Creio na Trindade, p.144-145). Nos nossos templos assistimos a momentos bizarros quando os celebrantes se inflamam conclamando os fiéis para que mostrem seus objetos, como chaves, documentos, santinhos, quadros, para serem “benzidos”. Eu pergunto se esses clérigos que exibem esse afã, também fazem a mesma coisa com seus objetos pessoais, “suas chaves”, “seus documentos”, “seus quadros”?

Como as coisas afunilam; além da “tradição”, aqui se nota a fase de infância e dos tabus, e dos medos. Ali há uns perigos de “espíritos” nas “minhas chaves”. Não vá com os cuidados do trânsito, e na velocidade legal, e não encha a cabeça de álcool, e verá que os perigos dos espíritos não estavam nas chaves mas na sua pessoa.

Conclusão. Revendo o questionamento: até onde vai a piedade, e até onde vai a teologia? A “piedade” pode sofrer muitas deficiências e mazelas, como vimos. A teologia nos elucida com documentos, arqueologia estudada e decifrada, investigações científicas, ciências interdisciplinares como cosmologia, antropologia, psicologia, linguística, filosofia.

Queria enfatizar por último que os da “piedade” são por vezes muito fáceis em “condenar” jornalistas, artistas, comunicadores, escritores, teatrólogos. Não imaginamos que todos estes e estas são senhores e senhoras altamente formados em todas estas ciências, coisa  que os da “piedade” talvez não tenham nem uma desconfiança. Por isso afirmei que “a piedade pode atrapalhar muito a teologia e a história” e perguntei: Até onde vai a piedade, e até onde vai a teologia.

 

 

 

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A ALMA MORAVA NO CÉU E CAIU NO CORPO


 

Para entendermos este problema temos que retroceder dois mil anos atrás, e nos colocar no pensamento desse mundo que era também o mundo dos inícios do cristianismo.

Veja bem, no pensamento dessa época, Deus estava longe do mundo e não tem nenhuma influência sobre a vida espiritual das pessoas. A ideia era que a alma morava no céu e caiu no corpo, um dia ela teria que retornar ao paraíso. Quando a alma conquista o conhecimento, ela inic   ía o processo de viagem ao céu.

A cada ser humano restava o desafio de tornar-se um ser espiritual. Como? Abstendo-se da vida sexual ou de cair nos prazeres do corpo para enfrentar essa viagem. Essa viagem era perigosa, pois no trajeto entre a terra e o céu vivem os anjos decaídos, os anjos maus, prontos para tomar a alma. A alma, então, tinha de ser sábia para enfrentá-los. A sua única arma seria a pureza virginal que lhe garantiria a natureza divina.

Por outro lado, defender a virgindade era também sinal de que o corpo não tinha valor. Nesse desprezo pelo corpo, os cristãos receberam influência do pensamento dualista que pregava a separação entre alma e corpo, trevas e luz, vida e morte, Deus e  mundo. Assim, tudo o que se dizia pertencer ao mundo era desprezado, pois o mundo era considerado uma armadilha dos poderes do mal. Considerando que já pela mulher tinha entrado o mal no mundo (Eclo. 25,24)

A Igreja dos primeiros tempos participava desta concepção. Basta olhar o calendário: Santas do calendário romano, 85 por cento são “virgens” ou “virgem e mártir”. Além destas e dos mártires, tem monges e bispos. Pouco mais. O primeiro casal que foi canonizado foram os pais de Santa Teresinha.

Para continuar entendendo o conceito de “virgindade” temos que continuar a história, e o mito greco-romano da deusa Vesta, deusa de Roma, e suas sacerdotisas, as virgens Vestais.

A deusa Vesta (em grego Héstia) era filha do Cronos, um deus dos Titãs. Mas foi devorada pelo pai. Porém, conseguiu ser salva pelo deus Zeus, irmão do pai; Quando se viu salva pediu ao tio-irmão que nunca lhe fosse permitido tirar a virgindade para não gerar mais guerras entre os outros deuses para conquistá-la.

Zeus atendeu o seu pedido e para isso reservou um lugar para ela no centro das cidades como forma de agradecimento. Por isso ela era servida por sacerdotisas virgens que no centro da cidade de Roma tinha o seu templo sempre com fogo aceso como garante da Paz de Roma. Se o fogo apagasse aconteciam castigos para Roma, fomes, pestes ou guerras. E se a guerra  falhava  a culpa não era dos generais mas das Vestais.

O templo de Vesta ficava no centro de Roma. As Vestais eram encarregadas de manter no centro do templo o fogo aceso de dia e de noite como garantia da paz romana “Pax Romana”.

Nas sociedades arcaicas, o sacerdócio feminino era considerado essencial, porque se preservavam da atividade sexual, como modelos de paz numa sociedade violenta. E porque a atividade sexual era considerada uma das “portas de entrada” da violência na sociedade. Com efeito, no Gênesis já é dito que daí vieram todos esses males.

E como é que os primeiros cristãos  trataram a vida da Virgem Mãe de Deus com estes conceitos na cabeça? Será que não tiveram influência? Quando Maria foi para casa de José, cinco jovens virgens a acompanharam, que deveriam permanecer com ela na casa de José. Esses virgens a chamavam de “rainha das virgens”.

Quando José soube da gravidez de Maria, as outras virgens contaram-lhe que tinham vigiado Maria. Somente anjos conversavam com ela. “Se queres que te confessemos nossa suspeita, nenhum outro a tornou grávida senão o anjo do Senhor”.

Outra tradição diz que o escriba de Anás, numa visita que fez à casa de José percebeu a gravidez de Maria e  os denunciou ao tribunal do templo. Maria e José foram submetidos ao teste da “água da prova do Senhor”. Conforme o costume judaico, eles deviam beber essa água preparada com ervas amargas e dar sete voltas em torno do altar (Nm.5,12). Os culpados receberiam de Deus um sinal no rosto. A inocência de ambos foi comprovada.

Então Maria foi conduzida a sua casa com grande exultação e júbilo acompanhada por uma multidão de virgens.

No trânsito de Maria para o céu como foi? “No seu velório, virgens prepararam o seu corpo e seguiram o cortejo. João, aquele que recebeu o encargo de cuidar dela, levava a palma da virgindade de Maria, porque também se conservara virgem”.

Esses e tantos outros elementos nos mostram como as comunidades discutiam a questão da virgindade mariana, e como alguns elementos passaram para os evangelhos canônicos. Por outro lado, essa obsessão pela virgindade era também sinal de que o corpo não tinha valor. Os primeiros cristãos foram influenciados pela negatividade da matéria, segundo a qual Deus não criou a matéria e o mundo, e de nada se interessava com ele; o “demiurgo”, o deus intermediário entre o mundo e Deus é que foi o criador do mundo e da matéria, que é chamado nos evangelhos como o “príncipe deste mundo” (Jo.14,30 e Jo.16,10).

Assim, tudo o que se dizia pertencer ao “mundo” era desprezado e considerado uma armadilha dos poderes do mal. Deus está longe do mundo e não tem muita influência sobre a vida espiritual das pessoas. A cada ser humano restava o desafio de tornar-se um ser espiritual de verdade, abstendo-se da vida sexual e do contato com a matéria do corpo. A alma morava no céu e caiu no corpo, um dia ela teria que retornar ao paraiso. Quando a alma conquistasse o conhecimento, ela iniciaria o processo de viagem ao paraíso.

Esta era uma viagem perigosa porque tinha que enfrentar os anjos maus nesse trajeto onde eles estavam prontos para tomar a alma. A alma teria que ser sábia para enfrentá-los. A única segurança da alma seria a pureza virginal, que lhe garantiria a natureza divina.

A tradição revela que Maria teve medo de encontrar-se com esses anjos maus quando saísse de seu corpo, por isso pedia a proteção dos apóstolos na custódia de seu corpo.

Como vemos há nestas tradições uma cultura baseada em mitos trabalhados por aquelas gerações de pagãos e cristãos. E de uma maneira ou outra  influenciaram os escritos dos evangelhos.

Como diz o historiador dos inicios do Cristianismo Frei Jacir de Freitas “muitas crenças de nossa devoção popular mariana provêm dos evangelhos apócrifos” (As origens apócrifas do cristianismo, 122).

Já deu para dar uma resposta ao nosso título desta matéria que preocupava demais as primeiras gerações de nossos antepassados, os primeiros cristãos, e procuravam encontrar respostas:  A ALMA MORAVA NO CÉU E CAIU NO CORPO; COMO SERÁ A VIAGEM DE VOLTA AO PARAISO ?

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A ALMA E AS ESTRELAS.


“Eu me tornei uma estrela da manhã entre os deuses”, dizia um epitáfio antigo. Sêneca dizia que a alma humana imortal veio de fora deste mundo, das estrelas, e fará seu caminho de volta para lá. Sendo assim ela ia reunir-se com os deuses. Para Platão, a alma humana é imortal, e, como imortal, é divina, porque divinos são os “imortais” que são os deuses. A morte se define em termos de separação entre alma e corpo, e alguns filósofos da corrente de Platão diziam que a alma, na sua separação, carregava o corpo com ela. Quando o imperador Otaviano foi assassinado, uma testemunha afirmava ter visto a alma do imperador subindo aos céus, e que ele não tinha sido assassinado porque sua divindade não podia ser extinguida. Como era explicada a origem da alma humana? “No princípio o Criador fez um número igual de almas igual ao número de estrelas, e tendo-as colocado ali como numa carruagem mostrou-lhes as leis do destino. As almas assim devem ser implantadas nos corpos humanos. A sua principal tarefa é governar os sentimentos e desejos do corpo. Depois do seu tempo de vida retornarão e habitarão junto à sua estrela gêmea, e lá terão a bem-aventurança e agradável existência”. ( em Aristófones: O Timeu de Platão, apud N.T.Wright, “A ressurreição do Senhor”, pag.107). Por isso, ninguém em sã consciência, uma vez libertados do corpo que é o cárcere da alma, iria querê-lo ou algo parecido de volta. Porque assim chamavam vida essa libertação, e morte à vida encarcerada no corpo. Não se deve portanto temer a morte, ela é o dia em que nascemos na eternidade e todos vão para a ilha das bem-aventuranças. Epicteto, nessa época, dizia que o nosso objetivo na vida é que se deve aprender a ser feliz, ou, ao menos, não infeliz. Na verdade, a alma libertada do corpo ia de volta para as estrelas e para os deuses. Ali os mortos irão ganhar uma vida bastante completa com Osíris, e como Osíris nos deleites da eternidade. E como muitos pensavam que, na separação do corpo a alma carregava também o corpo, para eles a cremação era inaceitável e uma coisa hedionda. A morte era uma saída à luz do dia. Falamos que a habitação da alma seria na estrela gêmea da qual tinha saído. Durante muito tempo houve um grande debate filosófico acerca de qual material exatamente era o das estrelas e da alma, mas havia o sentido geral de que não seria de coisas muito diferentes. Eram, por assim dizer, feitas umas para as outras. Por exemplo, muitos acreditavam que a alma era um tipo particularmente especial de matéria feito de uma substância ígnea, exatamente o que estava presente nas estrelas. Ficamos com a impressão de que estamos em termos de cristianismo. Mas esta era a teoria de Platão, no séc.V a.C. desenvolvida por seus discípulos como Sêneca, Aristóteles e Epicteto, entre os gregos; e por Cícero, Virgilio e Cipião entre os latinos. Platão fez uma reviravolta da teoria do Homero, sec.VIII a.C. que foi o pioneiro desta  filosofia, junto com seus discípulos Ésquilo e Sófocles. Por isso alguns autores têm Homero como o iniciador do A.T. do helenismo antigo, e Platão como o N.T. do mesmo mundo antigo helenístico. A mudança de Homero para Platão deu-se com o seguinte objetivo: Proporcionar aos jovens aprender a verdadeira concepção filosófica para amar a Pátria e a sociedade sobre a morte não ser algo lamentável, mas algo bem vindo, a vida aquirida na ilha das bem-aventuranças. É o meio pelo qual a alma imortal se liberta da prisão domiciliar do corpo em que viveu na terra. “Se o mundo antigo não judaico tinha uma Bíblia, seu antigo testamento era Homero, e Platão o novo testamento do mesmo mundo helenístico antigo”. (N.T.Wright, o.c.p.71). Dizemos isto porque no Antigo Testamento da Bíblia judaica também não se falava na ressurreição, justamente como Homero que viveu na mesma época de Moisés. Só começou a surgir a teoria da ressurreição num tipo de conceito platónico pelo ano 167 antes da vinda de Cristo e por circunstâncias históricas, na época dos Macabeus.

Conclusão. A busca da felicidade é uma constante da sabedoria humana. E antes que chegasse a teologia e as teologias surgiu a filosofia e as diversas filosofias. Assim, paralelamente a Moisés existiu um Homero, e paralelamente às preocupações de Daniel, o maior expoente da nova doutrina da ressurreição apareceu um Platão também quase contemporâneos, e  temos ainda influências no conceito de ressurreição hoje em dia tanto de Daniel como de Platão.

P.Casimiro João        smbn

www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br