Quando eu sou pobre,
olho o rico com olhos de pobre. Quando eu sou rico, olho o rico com olhos de
rico, e quando sou político olho o político com olhos de político. Ou seja, há
um certo corporativismo, chamado de nível de percepção. Eu me ponho no nível do
igual a mim, quando a pobreza nos iguala; e no lugar do rico quando a riqueza nos
iguala também. A tendência do pobre vai na direção de culpar o rico; e o rico
vai na tendência de desculpar o rico. Esta sentença vem bastante oculta num
episodio da Bíblia, que pode até nos surpreender pela política que envolve o
caso. Certa ocasião um seguidor de Jesus, Pedro, quis reivindicar os seus
direitos e as suas credenciais de seguir Jesus, e perguntou de mansinho: “Eis
que deixei tudo para te seguir, o que receberei de volta?” (Mt.19,27). Ao que Jesus respondeu: “Todo aquele que
por minha causa deixou casa, ou irmãos ou irmãs, ou pai ou mãe, ou filhos ou
terras, receberá neste mundo 100 vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos,
terras” (Mc.10,30). Este papo vem em seguimento de outro quando “alguém
saiu correndo” e foi perguntar a Jesus: “O que farei para alcançar a vida
eterna”? E ao mesmo tempo apresentou as suas credenciais: “Porque eu
cumpro todos os mandamentos”. E a
resposta de Jesus vem assim: “Porém, falta-te uma coisa: vai vender o que tens
e dê aos pobres”. Ele retirou-se muito triste “porque possuía muitos
bens”. Olhando ele se retirar, comentou Jesus: “Quão dificilmente
entrarão no Reino dos céus os que têm muitas riquezas; é mais fácil passar um
camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus”
(Mc.10,21-25). Este discurso corresponde àquele que falei antes: a
avaliação do pobre a respeito do rico: Dois níveis desiguais. E isto, queiramos
ou não, corresponde também a uma etapa da história da primitiva Igreja, que se
achava na pobreza real, concreta, histórica, ideológica e evangélica. É a
primeira face da moeda: “Quão dificilmente entrarão no Reino dos céus os que
têm muitas riquezas” Porém, vem a segunda face da moeda, com as mesmas
palavras do evangelho em segunda cena. “Aos homens isto é impossível, mas
não a Deus; pois a Deus tudo é possível” (Mc.10,27). Isto porque Pedro e os outros tinham
ficado de queixo caído e tinham replicado: “Quem pode então salvar-se”? E vem a
hermenêutica interpretativa de Ched Myers que explica como segue: “Este texto
foi notoriamente manipulado por aqueles cujo interesse reside em atenuar e
abrandar sua crítica contra os ricos. O trocadilho de Marcos sobre o camelo e a
agulha principalmente tem recebido um ingênuo tratamento nas mãos de exegetas
burgueses preocupados em tranquilizar as consciências” (C.Miers. O evangelho de
Marcos, p. 332, citando José Miranda). Ou seja, trata-se provavelmente de outra
época, e de outro comentarista posterior que, considerando já o avanço da
igreja no tempo e nas estruturas de riqueza que já a envolviam, terá aumentado
a segunda resposta, para tranquilizar as consciências: “para Deus tudo é
possível”. E agora já não olhava o rico com os olhos do pobre, para condenar,
mas com os olhos de rico para “não
condenar”. Porquê? Porque condenando o rico condenava-se a si mesmo. Chamamos a
isto adaptação aos interesses pessoais, nivelamento de rico com rico e,
resumindo, ficava tudo politicamente correto. E não só, mas se escorando no
nome de Deus dizendo que “para Deus tudo é possível”. Mas vamos colocar Deus no
seu lugar, ou, como diz Bonhoeffer, “ser honestos com Deus”: Será que para Deus
é possível um camelo passar pelo fundo de uma agulha? Será possível parar uma
pessoa no ar quando está caindo de um prédio de dez andares? Nenhuma oração fez
isso e nunca nenhum santo o fez. Mas sempre os bombeiros é que vão colocar
colchões de espuma. Por
isso, é melhor tirar da boca de rico e de político aquele “para Deus tudo é
possível” e trocar por aquela outra coisa “Ah, não, para nós Deus não está
nem aí!” É mais geográfica, mais localizada, mais histórica, menos
hipócrita, e mais “politicamente correta”.
P.Casimiro João
www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br

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