segunda-feira, 8 de junho de 2026

DEUS NÃO ESTÁ NEM AÍ


 

Quando eu sou pobre, olho o rico com olhos de pobre. Quando eu sou rico, olho o rico com olhos de rico, e quando sou político olho o político com olhos de político. Ou seja, há um certo corporativismo, chamado de nível de percepção. Eu me ponho no nível do igual a mim, quando a pobreza nos iguala; e no lugar do rico quando a riqueza nos iguala também. A tendência do pobre vai na direção de culpar o rico; e o rico vai na tendência de desculpar o rico. Esta sentença vem bastante oculta num episodio da Bíblia, que pode até nos surpreender pela política que envolve o caso. Certa ocasião um seguidor de Jesus, Pedro, quis reivindicar os seus direitos e as suas credenciais de seguir Jesus, e perguntou de mansinho: “Eis que deixei tudo para te seguir, o que receberei de volta?” (Mt.19,27).  Ao que Jesus respondeu: “Todo aquele que por minha causa deixou casa, ou irmãos ou irmãs, ou pai ou mãe, ou filhos ou terras, receberá neste mundo 100 vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos, terras” (Mc.10,30). Este papo vem em seguimento de outro quando “alguém saiu correndo” e foi perguntar a Jesus: “O que farei para alcançar a vida eterna”? E ao mesmo tempo apresentou as suas credenciais: “Porque eu cumpro todos os mandamentos”.  E a resposta de Jesus vem assim: “Porém, falta-te uma coisa: vai vender o que tens e dê aos pobres”. Ele retirou-se muito triste “porque possuía muitos bens”. Olhando ele se retirar, comentou Jesus: “Quão dificilmente entrarão no Reino dos céus os que têm muitas riquezas; é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus” (Mc.10,21-25). Este discurso corresponde àquele que falei antes: a avaliação do pobre a respeito do rico: Dois níveis desiguais. E isto, queiramos ou não, corresponde também a uma etapa da história da primitiva Igreja, que se achava na pobreza real, concreta, histórica, ideológica e evangélica. É a primeira face da moeda: “Quão dificilmente entrarão no Reino dos céus os que têm muitas riquezas” Porém, vem a segunda face da moeda, com as mesmas palavras do evangelho em segunda cena. “Aos homens isto é impossível, mas não a Deus; pois a Deus tudo é possível” (Mc.10,27).  Isto porque Pedro e os outros tinham ficado de queixo caído e tinham replicado: “Quem pode então salvar-se”? E vem a hermenêutica interpretativa de Ched Myers que explica como segue: “Este texto foi notoriamente manipulado por aqueles cujo interesse reside em atenuar e abrandar sua crítica contra os ricos. O trocadilho de Marcos sobre o camelo e a agulha principalmente tem recebido um ingênuo tratamento nas mãos de exegetas burgueses preocupados em tranquilizar as consciências” (C.Miers. O evangelho de Marcos, p. 332, citando José Miranda). Ou seja, trata-se provavelmente de outra época, e de outro comentarista posterior que, considerando já o avanço da igreja no tempo e nas estruturas de riqueza que já a envolviam, terá aumentado a segunda resposta, para tranquilizar as consciências: “para Deus tudo é possível”. E agora já não olhava o rico com os olhos do pobre, para condenar, mas com os olhos de rico  para “não condenar”. Porquê? Porque condenando o rico condenava-se a si mesmo. Chamamos a isto adaptação aos interesses pessoais, nivelamento de rico com rico e, resumindo, ficava tudo politicamente correto. E não só, mas se escorando no nome de Deus dizendo que “para Deus tudo é possível”. Mas vamos colocar Deus no seu lugar, ou, como diz Bonhoeffer, “ser honestos com Deus”: Será que para Deus é possível um camelo passar pelo fundo de uma agulha? Será possível parar uma pessoa no ar quando está caindo de um prédio de dez andares? Nenhuma oração fez isso e nunca nenhum santo o fez. Mas sempre os bombeiros é que vão colocar colchões de espuma.  Por isso, é melhor tirar da boca de rico e de político aquele “para Deus tudo é possível” e trocar por aquela outra coisa “Ah, não, para nós Deus não está nem aí!” É mais geográfica, mais localizada, mais histórica, menos hipócrita, e mais “politicamente correta”.

P.Casimiro João

www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br

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