Conceito de Reino dos céus: O fim do
Antigo Testamento e a vinda de Deus para governar em pessoa. Aí incluía o
castigo para os que tinham maltratado o povo de Israel. Digamos, uma ideia
nacionalista. Uma prova está na cena da mãe dos filhos de Zebedeu que se
aproximou de Jesus para o seguinte: “Permite
que estes meus dois filhos sentem-se um à tua direita e o outro à esquerda no
teu Reino” (Mt.20,21). Porém, pouco a pouco, a pregação e a piedade cristã
foram transformando esse conceito para um conceito personalista do “bom” e do
“mau” individual. Este conceito ficou marcado em narrativas plásticas como a
“rede que é lançada ao mar”, com a sequência da escolha dos peixes “bons e
maus”, de que iremos falar (Lc.5,5). Começava sendo usado o método dos gregos
chamado método alegórico. A literatura cristã teve dificuldade para se
expressar a esse respeito. Nos primeiros tempos não havia a palavra “céu” nem
“inferno”, e digamos purgatório. Estes conceitos já eram originários da
religião babilônica, donde passaram para o Judaísmo. Santo Irineu nas suas
catequeses dizia que o paraíso seria lugar para onde iriam os justos depois de
passar pelo lugar chamado céu das esferas celestes. Este era o lugar
intermediário ou o primeiro degrau do paraíso. Outro nome era a Jerusalém
restaurada. Orígenes tinha o paraíso como uma escola para os mortos honrados,
preparando-os para ascender através das esferas celestes até o céu da abóbada celeste.
A propósito, há uma expressão no evangelho de Mateus quando fala da rede e dos
peixes, “O pai de família tira do seu tesouro coisas novas e velhas” Mt.13,53.
No método alegórico quererá dizer que “coisas novas” serão a nova explicação ou
o Novo Testamento; As “coisas velhas”, as do Antigo Testamento. Ou seja, o bom
catequista saberá manusear o Antigo para sacar
lições novas. Voltando aos “bons e aos maus”, para os judeus antes do cativeiro
só havia o Sheoll, que era o “lugar dos mortos.” enquanto que eles esperavam
através da escatologia dos últimos acontecimentos a vitória final de Deus para
estabelecer a Jerusalém restaurada. E como essa época parecia não vir mais,
depois do exílio começaram a pensar num lugar de prêmio para os torturados
pelas nações pagãs, e um lugar de sofrimento e castigo para os torturadores.
Falámos atrás no método alegórico. O método alegórico entre gregos consistia em
interpretar mitos e rituais do passado para estabelecer relações entre as
crenças antigas e a nova sociedade que vai se formando. “A motivação para esta
espécie de interpretação era uma genuína reverência pelas tradições religiosas
antigas e explicá-las para descobrir significados espirituais ocultos em
escritos clássicos de autores famosos. Com esses esforços, o método alegórico
passou por um processo de elaboração transformando-se no método hermenêutico
padrão da antiguidade que teólogos helenísticos judeus e cristãos adotaram de
bom grado mais tarde para interpretar textos bíblicos” (H.Koester Introdução ao
Novo Testamento, vol I, §4 1d, p.157). Este método funcionou para essa época
helenística, para explicar por exemplo a Odisseia de Homero. Não só, mas também
foi adotado pelos Padres da Igreja, e intérpretes bíblicos de toda a Idade
Média como único método hermenêutico para interpretar a Bíblia. E digamos que
ainda é o “método popular” vigente usado pela espiritualidade de todos os
pregadores e comentadores da Bíblia como o mais cómodo, entregue à imaginação e
explicação individual sem nenhum fundamento histórico-crítico, ou teológico, ou
antropológico. No séc.II a.C. houve uma volta da filosofia às teorias de
Sócrates, Platão e Aristóteles. Dois nomes tiveram influência nesse retorno,
Panécio e Posidônio. Este último preferiu usar o método alegórico para explicar
antigas teorias e adaptá-las às suas novas exigências, deixando para trás epicuristas
e estoicos que não o aceitavam. Mas teve sucesso. E das teorias gnósticas e da
cosmologia do platonismo deixou-nos o resultado da sua intuição: “O Sol é o
puro fogo. O sol é a fonte do espirito
humano, que da Lua recebe a alma, e da terra o corpo” (o.c.§4, p.158). Isto é
recorrente da antropologia cósmica do gnosticismo adaptada e pensada por
Posidônio. “Aqui a jornada celestial da alma é a seguinte: quando o ser humano
morre, o corpo se desintegra, enquanto a alma permanece por algum tempo na
região sublunar, até definhar também para libertar o espírito em experiências
místicas” (o.c.§4-2ª, p158). Estas reflexões recorrentes do platonismo, antes
não bem vistas pelos estoicos acabaram vingando e serviram de base para a
cosmologia e a ética estoica que se difundiu no império romano. Falamos do
método alegórico e da ética estoica. O método alegórico na prática cristã tenta
ir ao Antigo Testamento e sacar lições espiritualizantes para o Novo Testamento
e para a vida cristã. A ética estoica propagada por Posidônio tinha três
pilares. Primeiro, a finalidade não é o “prazer” mas a racionalidade, i.é, o
logos ou razão pessoal que é a verdadeira natureza de cada um; Segundo, o reconhecimento
de que o ser humano é “por natureza” uma criatura social, não entendido só na
sua cidade mas no universo como um todo; Terceiro, a natureza, i.é, o logos de
todos os seres humanos é o mesmo. Por isso distinções sociais, étnicas e
raciais não têm sentido porque não são dadas "por natureza”.
Conclusão.
Apontamos para o nosso título em que definimos o significado de “Reino dos
céus”. Alegoria muitas vezes é uma parábola, como a cena da “rede lançada ao
mar” com que no evangelho foi comparado o “Reino dos céus”. E falámos no método
alegórico que não olha ao lado histórico, teológico ou crítico, mas só ao
aspecto espiritualista e moralizante.
P.Casimiro João smbn
www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br

Nenhum comentário:
Postar um comentário