domingo, 24 de maio de 2026

O PRIMEIRO GÊNESIS DO MUNDO, O MACHADO QUE DIVIDIU O MUNDO EM CÉU E TERRA.


 

A serpente já apareceu no primeiro mito do primeiro livro da humanidade chamado Gilgamesh, esse que poderíamos chamar o primeiro Gênesis do mundo. Gilgamesh queria ser imortal. Um dia teve um sonho e do céu caiu um machado que dividiu o mundo em céu e terra.  O machado transformou-se num deus, o deus Enkidu, que caminhava com Gilgamesh no jardim da terra. Apareceu-lhe também a deusa da beleza, Imaná e convidou Gilgamesh para o seu palácio. Porém, Gilgamesh não aceitou o convite para não perder a sua viagem. Nessa viagem o seu companheiro Enkidu morreu, mas ele resolveu descer à região dos mortos para encontrá-lo. Lá ele ouviu uma voz que dizia: “Eu procuro alguém que possua a imortalidade” Era a voz de Noé que tinha sido salvo do dilúvio. Gilgameshe perguntou a Noé o que era preciso para resgatar o seu companheiro Enkidu. “Uma planta mágica do fundo do mar”, respondeu Noé. Gilgameshe chegou lá e arrancou a planta, e com ela ressuscitou o amigo Enkidu. Mas quando ele descansava, uma serpente roubou-lhe a planta mágica da imortalidade. Os deuses, porém, vieram em seu socorro e deram-lhe um prêmio: ele não iria morrer jamais, ele seria imortal.

E como foi a “criação” do primeiro homem?   O deus da sabedoria, Enkidu sugeriu a criação da humanidade para assumir o trabalho pesado dos deuses. Para isso, um deus rebelde e menor foi escolhido para ser sacrificado. O homem foi feito de argila misturada com o sangue desse deus sacrificado  para assumir o trabalho pesado dos deuses. Para isso, um deus rebelde e menor foi sacrificado. O sangue desse deus foi misturado com barro (ou argila) para formar a carne e o sangue dos primeiros humanos, transmitindo a eles a essência divina.”   Esta narrativa é do livro Atrahasis, da mesma época do Gilgameshe. Esse livro está preservado em tabletes de argila que datam de meados do segundo milênio a.C. antes da nossa Bíblia.

Antes que fosse escrito o livro do Gênesis na Bíblia judaica já existia este gênesis do Gilgamesh, pois gênesis quer dizer “origem”.  Por isso que pode ser considerado o primeiro gênesis do mundo. É de notar tanta coisa igual: A serpente espertalhona, o dilúvio e Noé, e a planta mágica da imortalidade comparada com a árvore do “bem e do mal” da Bíblia judaica.

Daqui passamos para outra serpente, que vemos no livro de Números da Bíblia judaica, quando conta que os judeus se lamentavam no meio da caminhada: “não temos pão nem água e estamos enojados deste pão de miséria. Então Javé mandou contra o povo serpentes venenosas que os picaram, e muita gente de Israel morreu. Moisés suplicou a Javé pelo povo. E Javé lhe respondeu: ‘faça uma serpente de bronze e coloque sobre uma árvore; quem for mordido e olhar para ela será curado”. (Num.21,4-9). Existe um conto semelhante na literatura dos Gregos:“Os caminhantes do deserto chamados argonautas foram picados por serpentes e invocaram o deus Apolo, deus da saúde. Apolo respondeu: ‘Eu vou mandar o meu filho Esculápio escondido numa planta, prestem atenção para não se enganarem. Quando enxergaram Esculápio bem escondido numa planta ofereceram-lhe sacrifícios e ficaram curados. Esculápio deixou com eles o seu melhor discípulo, Hipócrates para cuidar do resto da viagem” ( Philippe Wajdenbaum, “Os Argonautas do deserto, p.120ss). De notar a comparação dos dois relatos: caminhada no deserto; picadas de serpentes; a oração aos deuses; o deus escondido numa planta em forma de serpente; a cura. Esta narrativa é da mesma época da Bíblia judaica também e compartilhada.

Vemos aí alguns dos segredos das “serpentes-deusas” e das serpentes que “falam”. A serpente entrou em todos os mitos da criação assim como nos mitos de cura. Não é em vão que nas culturas antigas a serpente era o símbolo da sabedoria e da astúcia e da enganação. “A serpente era o mais astuto de todos os animais” (Gn.3,1). Tirava a imortalidade ou dava a imortalidade. E a imortalidade era a maior procura da humanidade em todos tempos. Não acabam por aqui as narrativas antigas, vejamos a versão da famosa torre de Babel nos primeiros épicos: Tornando as alturas do céu não mais seguras do que a terra, os primeiros gigantes tentaram tomar o reino celestial empilhando montanhas até as estrelas distantes.”(Ovídio, Metam.I,150).  E Heródoto: “Ao tempo que cavavam o fosso faziam tijolos da terra que veio da escavação e, ao modelarem tijolos suficientes, os colocavam nos fornos; depois, tendo betume quente como argamassa, e cada trinta fileiras de tijolos com enchimento de esteiras de juncos entrelaçados entre elas, eles construíram primeiro as bordas do fosso e, segundo, a  própria muralha da mesma maneira...”(Heródoto,I,179); Ph.Wajdenbaum, Argonautas do deserto, p.140-141). Esta é uma narrativa paralela à do Gênesis, cap.11.

Sem dúvida que a Bíblia e os livros da época traziam narrativas, e estórias semelhantes que o povo contava e não só, mas também os escritores talentosos da época tentavam deixar por escrito. E cada livro de seu jeito contava dum jeito diferente mas compartilhado. A esse respeito eis o que nos diz a Pontifícia Comissão Bíblia da Igreja Católica: “Os textos da Bíblia são a expressão de tradições religiosas que existiam antes deles,  os quais foram retrabalhados e reinterpretados para responderem a situações novas desconhecidas anteriormente”. (Pont. Com. Bíblica, 1994).

P.Casimiro João            smbn

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segunda-feira, 18 de maio de 2026

A MÍSTICA DO NÃO TER, NÃO USAR, NÃO COMPRAR VERSUS A IDEOLOGIA DAS COMMODITIES.


 

“Não leveis ouro, nem prata, nem dinheiro nos vossos cintos. Em vosso caminho anunciai que o Reino dos céus está próximo” (Mc.10,9; Mt.10,7).  Porquê “não levar ouro,  nem prata, nem dinheiro nos cintos”? A resposta vem logo em seguida: Porque “o reino dos céus está próximo”. Era urgente avançar no palco do mundo, onde Jesus mobilizava a sua força tarefa para preparar Israel para a vinda próxima de Deus. O tempo estava reduzido. Porque “não acabareis de percorrer as cidades de Israel antes que venha o Reino dos céus”. (Mt.10,23). Por isso era necessário não ter, não usar e nem comprar para não atrapalhar. Ter o quê? Usar para quê? E para quê comprar? Tudo pela proximidade do Reino dos céus. E o que era o Reino dos céus? Era a vinda próxima de Deus. Deus estaria chegando “em pessoa” para a vingança (Is.61,3). O tempo da colheita chegava, e o “machado já está posto na raiz da árvore” (Mt.3,10). Esta era a plataforma em que Jesus trabalhava. Daí vinha o método de ação: “Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai leprosos, expulsai os demônios” (Mt.10,8). A cura de doentes andava sempre junta com a expulsão dos demônios porque eram eles que traziam as doenças para o corpo das pessoas. Essa imbricação era uma crença e uma lenda da época e mobilizava as energias de Jesus e dos discípulos. A lenda rezava que quando Deus criou os demônios não deu tempo para criar o corpo deles. Então eles ficaram com raiva dos seres humanos por isso entravam nos corpos das pessoas levando cada um uma doença com ele. Curai os doentes e expulsai  os demônios”,MT.10,8.  E a urgência era grande nessa força tarefa: “Não acabareis de percorrer as cidades de Israel antes que venha o Reino dos céus”, Mt.10,23.  Era exigido dos discípulos não ter, não usar, não comprar para não atrapalhar a sua ação. Porque no Reino de Deus não poderiam existir espíritos maus e nem doenças, era urgente. Nesse patamar se criou a mística do não ter, não usar, não comprar e nem casar nas primeiras comunidades cristãs. Dizia São Paulo; “O tempo está breve. O que importa é que os que têm mulher vivam como se não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram como se não se alegrassem; os que compram como se não comprassem; os que usam deste mundo como se não usassem; porque a figura deste mundo passa; aquele que casa a sua filha faz bem, aquele que não a casa faz ainda melhor”. (1 Cor.7,29-39). Esse era o patamar da época. Mas aplicando aos nossos dias podemos aduzir exemplos de “espíritos maus” modernos que tomam conta de pessoas onde não se concretiza o reino de Deus. Exemplo: Os que assassinam pobres e negros têm o espirito de assassino. Às vezes é um governador que incentiva policiais a esses assassínios garantindo sua ação e os protegendo. O “espirito” passa pelas palavras pelos atos e pela atitude. Às vezes basta mudar um governante que não dê esse aval, e diminuem os assassinatos. Outro exemplo: A exploração da Amazônia. Se já existe nas pessoas tanta ganância pelo ouro e pelas matérias primas como a madeira, imagine quando há o incentivo dos governantes ou de algum ministro como na época do “libera geral” na época da pandemia, em que um ministro do meio ambiente torcia para deixar a “boiada passar?” Envenenaram-se rios com o mercúrio, mataram-se indígenas com os venenos e em confrontos, e espalharam-se doenças, e negaram-se vacinas na época da pandemia. Hoje em dia esse “espirito” avançou para o uso dos agrotóxicos em que grandes empresas pulverizam suas fazendas usando a aviação sem critérios e sem controle. Envenenam-se rios, riachos, córregos, olhos de água, adoecem e morrem pessoas, envenenam-se ambientes de vida e seus animais. Enriquecem a firma, enriquecem os grandes milionários que moram nas Faria Limas ou no estrangeiro, e matam-se os nacionais. Não são já os “espíritos” frutos das lendas antigas mas são os “espíritos” da ganância moderna, a sede de dinheiro e o avanço do capital, trocado pelas vidas humanas.

Na época do primitivo cristianismo nasceu a mística do não ter, não usar, não comprar, por causa da vinda próxima do reino de Deus. Agora criou-se a ideologia do ter, do usar e do comprar por causa da vinda do $dólar e das $comodities. O reino de Deus tinha Jesus e os seus discípulos engajados na mística do não ter, não usar e não comprar. Hoje tem os “messias” das igrejas e “os apóstolos” das bancadas da Bíblia, da Bala e do Boi no Planalto de Brasília, todos engajados para não perder o tempo de aumentar seus cofres e seus capitais nos Offshores dos paraísos fiscais, aumentando seus gados e seus currais.

P.Casimiro João             smbn

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segunda-feira, 4 de maio de 2026

RELIGIÃO NÃO É SALVAÇÃO, É CAMINHO DE SALVAÇÃO.



Perguntaram a um ateu como pode haver homens bons sem Deus? Ele respondeu: E como, com Deus, pode haver homens tão maus? Na verdade, religiões não são salvação; são caminhos de salvação. Fala-se que o comunismo matou muita gente. E quanta gente mataram as religiões? E “a melhor religião” do mundo não matou o filho de Deus?  E quantos governos não têm matado milhões “em nome de Deus?  Sempre houve na igreja a tensão entre instituição e comunhão, ou carisma, na expressão de Leonardo Boff. Muitos constatam que as Igrejas se comportaram como sendo as únicas detentoras da verdade e da salvação. E muitas vezes lutaram umas contra as outras levadas por uma incorreta convicção de que só elas tinham a salvação em suas mãos. Quantas vezes as Igrejas lutaram entre si e originaram excomunhões e se trataram umas às outras como “hereges” e fizeram cismas. Hoje inventou-se o Ecumenismo para a aproximação, cujo melhor significado seria “correr atrás do perdido”.

“A Igreja tem de distinguir-se de uma administração burocrática centralizadora da dimensão institucional. Quantas vezes nesse âmbito ocorre política eclesial míope e pouco inteligente, critérios não evangélicos, arbítrio e agravo à pessoa? Sem essa visão de vida eclesial que sempre se deve retomar de maneira nova, a Igreja deixa de ser um movimento originário de salvação, convertendo-se em instituição de poder que oprime, humilha e faz sofrer pessoas”. (E.Schillebeeckx, “História humana revelação divina”, pag.206). É justamente neste sentido que se direcionam muitas advertências do Papa Francisco no documento “A Alegria do Evangelho. O escritório e o gabinete da administração paroquial está sujeito, como as instituições jurídicas e civis a cair nesta tendência burocratizante. Além desta, há ainda a tendência do julgamento das pessoas. Porém, é necessário olhar que o critério evangélico deve prevalecer. E a isso nos convida e evangelho quando proíbe essa facilidade do “julgamento”, com a parábola da trave no próprio olho e do cisco do olho do irmão. (Mt.7,3-5). Assim como aquela outra advertência que “o julgamento de Deus começa pela casa de Deus” (1Pd.4,17). Falando nisso, ocorre a tentação de se firmar num certo conceito e preconceito de que estamos protegidos com colete à prova de bala para manter uma autoridade indiscutível apoiada na sentença “as portas do inferno não vencerão” de Mt.16,18; e “Eu estarei convosco todos os   dias até à consumação dos séculos” de Mt.28,20. Devemos, no entanto, ter em conta que o significado destas sentenças é que elas “não significam garantia automática de salvação e verdade, mas que sempre haverá homens e mulheres dispostos a se reunir ao movimento eclesial por causa do evangelho, levando avante o facho da fé cristã e querendo edificar a igreja” (o.c.p.207).

Falamos que a religião não é salvação, mas caminho de salvação. Quem pensava  o contrário disso eram eram os fariseus no seu orgulho de se considerarem os únicos detentores da salvação e os “únicos donos de Deus”. E por seu lado a Igreja herdou essa mentalidade ou ideologia, considerando-se também, por sua vez o único caminho e a única detentora da salvação e a “única dona de Deus”. Os fariseus tinham nos seus ensinamentos que a Lei ou Torá tinha sido dada antes da fundação do mundo. E há lugares sobre a Lei em afirmações do evangelho, como: “O mandamento é lâmpada, e a Lei da Torah é luz, e as repreensões da correção são o caminho da vida". (Prov.6,23). O que não custa admitir que terá sido um link copiado para a edição do evangelho de João: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, Jo.14,6 na afirmação de R.Brown, Comentário ao evangelho de João vol.II, pag.1003.  Aliás afirmações como essa são atribuídas também à deusa grega Osíris. Porém, a história da humanidade apresenta muitos caminhos de salvação, além do cristianismo católico e protestante, como o Islamismo, o hinduísmo, o taoismo, o animismo, os caminhos africanos e indígenas. O concílio vaticano II declara que “os homens esperam das diversas religiões respostas aos seus enigmas não resolvidos da existência humana que hoje como sempre movem os corações dos homens” (Nostra aetate, N.1. Também o concilio vaticano II questionou o concilio de Florença que negava a salvação a todos os não católicos. Desde os primórdios do cristianismo os cristãos se fizeram a pergunta se os “de fora da Igreja” também se salvam? “Então Pedro tomou a palavra e disse: Em verdade reconheço que Deus não faz distinção de pessoas, mas em toda a nação lhe é agradável aquele que o temer e fizer o que é justo” (At.10,34-35). No entanto, no decorrer dos tempos houve mais quem fechasse as portas da salvação do que quem abrisse. O citado concílio de Florença divulgou o jargão “Fora da Igreja não há salvação”; porém, por sua vez o concílio Vaticano II  divulgou o jargão “Fora da Igreja há muita salvação." Antes do concílio e durante  o concílio vários teólogos reconheceram que outras religiões são também caminhos de salvação, atribuindo valor salvífico a essas religiões. São eles, entre outros, Danielou, Henri de Lubac, Karl Rahner, e o próprio Ratzinger, e essa resolução veio a ser admitida no documento do Concílio Lumen Gentium, N.16 e Nostra aetate N.1. e Ad Gentes, N.11. Repetindo aqui o nosso jargão “o amor vale mais do que a fé”, podemos concluir como iniciamos: “a Igreja sem conversão constante deixa de ser um movimento originário de salvação, convertendo-se em instituição de poder que oprime, humilha e faz sofrer pessoas”. Inclusive inventando demônios e poderes diabólicos para sobreviver. Na verdade, o teólogo Leonardo Boff tem uma observação oportuna dizendo que nos séculos IV e V os convertidos que entravam na Igreja, porque era lei, carregavam para dentro da sua fé sua cosmovisão mágica cheia de anjos e demônios, ritos e tradições”. (L.Boff “Igreja Carisma e Poder” pag.144). Uma vez alguém perguntou a Jesus: Mestre, são muitos os que se salvam? (Lc.13,29). Ele desviou a conversa e respondeu: “Virão muitos do Nascente e do Poente, do Norte e do Sul sentar-se à mesa com Abraão, Isaac e Jacó”. As últimas reflexões da Igreja e do Ecumenismo tiveram a bênção de sintonizar com a teologia do pluralismo religioso. Desde a Revolução Francesa convivemos com três verdades fundamentais constantes do novo ser humano: Igualdade, Fraternidade, Liberdade que são os fundamentos da bíblia laica da Humanidade:  Os Direitos fundamentais do ser humano. Voltemos à pergunta: Como pode haver homens bons sem Deus?  E como, com Deus pode haver homens tão maus?

P.Casimiro João         smbn

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