segunda-feira, 24 de junho de 2024

UM SIGNIFICADO DIFERENTE DE “MARGEM”.


 

Quando lemos “margem” vem logo à mente “marginalizados”. Mas hoje não vamos tratar desse termo que visa o tema social, mas outro tema a que chamaremos moral, mas que inclui sim alguém que é marginalizado. Nestes dias em Brasília estourou um tema que virou ou viralizou uma polêmica, e surtou em manifestações nas ruas de cidades de todo o Brasil. Trata-se de aumentar as penalidades para meninas e não só, por pratica do aborto motivado pelo estupro, após 22 semanas. E o tema “marginalizas” vem do seguinte: Se filhas, sobrinhas, netas, irmãs e não só, de qualquer deputado que sustenta a ideia desse projeto sofresse um estupro, é matematicamente certo que não haveria marcação de tempo, semanas, meses, para fazerem aborto e não faltaria grana para viajar para os Estados Unidos, Argentina ou Europa para esse aborto. No entanto, esses mesmos pretendem aumentar tempos de prisão para quem fizesse esse procedimento em território nacional, para pessoas sem a tal grana para viajar para o estrangeiro. Biblicamente isso tem um nome: fariseismo. Podem vir até postagens no WhatsApp de religiosos, padres ou bispos, mas que não ultrapassam os limites dos fariseus que apresentaram a mulher adúltera a Jesus para ser apedrejada. (Jo.cap. oito). Também queria ver se as filhas, netas, sobrinhas e irmãs e não só, desses fariseus fossem apanhadas em adultério se eles pediriam para serem apedrejadas. E se as filhas, netas, sobrinhas e irmãs e não só, desses sacerdotes, religiosos e bispos também iriam para a cadeia. Infelizmente, tudo isso não passa da tática do voto para a reeleição do presidente da Câmara, sr. Artur Lira. E dinheiro procura dinheiro, na medida em que esse presidente é amarrado pelo voto daqueles a quem abriu as comportas da grana do Brasil, chamadas Centrão.

P.Casimiro João    smbn

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segunda-feira, 17 de junho de 2024

A HUMANIDADE ESTÁ DENTRO DO MATRIMÔNIO.


O matrimônio era muito interessante para os judeus. Para eles: era um conceito econômico. Hoje: inclui conceitos antropológicos e filosóficos e sociológicos. Para os judeus podia-se trocar de mulher. para aumentar a riqueza do marido. Era o sistema patriarcal, que favorecia o macho. (Cf. Werren Carter, o evangelho de Mateus, p.276-280). O casamento não é só do domínio da fé, mas da sociologia, antropologia e filosofia. Para os judeus era só do domínio da fé porque eles botavam Deus em tudo, até para matar, e com a mente do domínio do homem sobre a mulher como a equipe sacerdotal que redigiu a segunda redação do Gênesis botou lá também. Se uma família era mais rica e tinha uma moça para casar, um homem encontrava um defeito qualquer na esposa para deixá-la e pegar a mulher rica que tinha lhe agradado. E cumpria a lei do libelo de Moisés.  (o.c.p.278). E também podia comprar uma autorização do rabino para ficar com duas mulheres. Aí entra Moisés, os rabinos, o sistema patriarcal, as propriedades rurais e o dinheiro, de mistura com a Bíblia. Depois entrou também a Igreja, no séc. XII d.C.  Hoje, numa visão míope e limitada, ainda pensamos que o casamento é do domínio da Igreja. Mas atentemos no matrimônio na Índia, no Japão, e em toda a Ásia e em todas as Áfricas. E veremos que o casamento é em primeiro lugar um negócio humano. É que antes de sermos cristãos, somos gente. O casamento é para humanizar as pessoas, e não desumanizar. Em primeiro lugar é um negócio da humanidade, não da Igreja. A Igreja não pode desumanizar o matrimônio. Igual a fé. A fé é para humanizar, não para desumanizar. O critério será este: o matrimônio humaniza, ou desumaniza? Que o matrimônio é em primeiro lugar um negócio da humanidade até a gente dá conta quando a Igreja não tinha nada a ver com os casamentos antes do séc.XII. Quem autorizava ou separava eram os pais, e na sociedade civil eram as “autoridades”, eram os “políticos” e também o parlamento ou Senado. Somente no século XII, de um pedido de um pai de família é que começou algum sacerdote a estar presente na cerimônia. E daí em diante ficou entrando no número dos Sete sacramentos os quais estavam sendo elencados nessa época. Assim sendo, a Igreja deve cuidar de humanizar os casais, não desumanizar. Foi o que pretendeu Jesus, segundo vem no evangelho. O evangelho de Mateus é claro quando declara para os escribas e fariseus “não matarás, não cometerás adultério” (Mt.5,21-27). Daí avança para os julgamentos, xingamentos e ambições sobre a mulher alheia. E porque os fariseus se gloriavam de dar ofertas vultosas nos cofres do templo e ser cumpridores “só para serem vistos”, eles não se importavam com os desejos e ambições sobre riquezas, vinganças, e ambições sobre outras mulheres, mas só de conseguir o libelo de divórcio da lei de Moisés para se desquitarem pensando que ficavam quites na lei de Moisés. E aqui, como no roubo e no matar, e no adulterar não cogitavam sobre as ambições do coração mas só da prática de matar, roubar e adulterar sem o libelo, mas com o libelo achavam que não adulteravam. Esta era a questão. Por isso as recomendações de Jesus: “Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus não entrareis no reino dos céus” (Mt.5,20). E notemos que eles, “escribas e fariseus” eram os “melhores ‘católicos” da época. Saindo da margam da Bíblia: Como se organizavam as sociedades do mundo, uma vez que os judeus eram uma porcentagem de 0,2% (zero dois por cento) da população do mundo. Os outros tinham seus matrimônios, seus casamentos, suas famílias e seus filhos. E daí como é o mundo de hoje? Católicos somos na porcentagem de 17,76 por cento (17,76%), e entre nós nos organizamos só desde o séc.XII. E antes? E esse mundão de Deus? Como era? Como pode uma partezinha do mundo pretender plasmar os outros à sua imagem? Vá lá, se fosse como nos tempos atrás, quando a Igreja pensava que todos tinham que ser católicos para se salvar, mas agora se deu conta que não, que ninguém é obrigado a ser católico para se salvar. E se não são obrigados a ser católicos também não são obrigados a obedecer as leis da Igreja, nem de católicos, e nem de protestantes. O mundo segue, e a Igreja ficará para trás olhando para suas leis e ambições bem pouco admiradas, como as leis do nascimento, controle de nascimentos, e métodos de anticoncepção. Os da Igreja só estão se casando no sacramento na porcentagem de 5 por cento (5%) no mundo e no Brasil, e dos que se casam só 17 por cento (17%) ficando fiéis ao sacramento.

Conclusão. Casamento e família é em primeiro lugar um negócio da humanidade, não em primeiro lugar da Igreja. Tanto que a Igreja só tomou parte nos matrimônios a partir do séc. XII, do nada, por um convite de um casal. Por isso o primeiro cuidado da Igreja deve ser colaborar para humanizar, e não desumanizar os casais. Mostramos uma estatística de hoje. Não diremos, igualzinho aos matrimônios judeus “por qualquer falha de beleza, qualquer prato não saboroso da esposa” pedia a separação?(Mt.19,7). Dissemos que as palavras “Se vossa justiça não for maior que dos escribas e fariseus não entrareis no reino dos céus” eram dirigidas aos “melhores ‘católicos” da época (entenda os melhores e mais “santos” judeus). E hoje quem são os “melhores católicos e protestantes” “mais santos”?

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 10 de junho de 2024

ONIPOTÊNCIA E CRUELDADE.


 

Os povos primitivos viviam da caça e da pesca, e paulatinamente foram aprendendo a tirar da terra o sustento  para acrescentar a essa atividade primeira. Nascia assim a agricultura. Quando os grandes agricultores e proprietários de terras resolveram se agregar para defender os seus interesses e aumentar suas posses, decidiram formar as cidades, onde construíram seus comércios e armazéns. Não só, mas cuidaram de aumentar seus servidores a troco de subornos e donativos baratos. E quando emprestavam dinheiro ou terras para outros trabalhadores, arrebatavam as poucas propriedades deles como pagamento. Nas cidades formaram-se centros de controle e policiamento para defender esta classe de pessoas abastadas, e centros de mando e de poder. Em outras palavras, a onipotência era o valor focal das cidades desde a sua fundação. Estudiosos modernos sugerem que a crueldade é um processo de mutilar. A mutilação não é só física mas mais ainda moral: enganar o cidadão com a ignorância, tirar-lhe o direito de falar, de reclamar e de se expressar. É a violência institucionalizada. E nas antigas cidades, como Roma, faziam-se festas para celebrar esta mutilação, no Coliseu, com lutas ferozes de fortes contra fracos, ou feras devorando os vencidos. Chama-se a isto que a onipotência anda junto com a crueldade. O rei era grande quando mostrava que podia tudo e não encontrava opositores iguais a ele. “Os romanos, como os mediterrâneos em geral, incluindo Israel, eram inclinados à violência e crueldade, consequentemente desejando se empenhar no conflito físico ao mínimo sinal de provocação” (Bruce J.Molina, o evangelho social de Jesus, p.45). E essa era a qualidade que também  atribuíam a Deus exigindo sacrifícios e crueldade extrema contra os inimigos. Esta era uma sociedade violenta, com frequência violência pública e explosiva. O mundo mediterrâneo era um mundo violento e a tradição israelita sacralizava tal violência, o que se reflete nos sacrifícios que pensavam que Deus exigia, às vezes dos seus próprios filhos, tanto como de animais. “Eles ofereceram seus próprios filhos e filhas como sacrifício a deuses pagãos. Mataram aquelas crianças inocentes, os seus próprios filhos e filhas, como sacrifício aos ídolos de Canaã. E o País se tornou impuro por causa desse sangue” (Sal 106,37-39). Este comportamento violento aplicava-se também pela família aos seus membros, pela multidão aos concidadãos ou estrangeiros, pelas autoridades aos opositores. Um resumo do que fica dito se concretiza no mito da torre de Babel (Gn.cap.11), que sintetizava o conceito  de onipotência e crueldade. Na verdade, a etiologia da torre de Babel era a luta contra a construção das cidades. As primitivas tribos viviam do pastoreio e conviviam numa confederação de tribos onde ninguém era maior do que ninguém e olhavam a fundação da cidade como ameaça, por causa da acumulação de riquezas e da crueldade subsequente. Quanto a cidade é mais poderosa ela se mostra mais cruel, quanto mais onipotência mais crueldade. Essa constatação foi transferida para Deus. Na antiguidade o rei era o filho dos deuses que tudo podiam e sabiam. Daí que o rei era o princípio do poder e da sabedoria como os deuses. Na entronização do filho do rei se faziam grandes festas onde ele era entronizado e aclamado como o filho de Deus. Logo logo ele era o deus, com poder de morte e de vida sobre os mortais. A obediência cega e sem limites ao rei ficou coisa sagrada. Assim nasceram as teocracias que foram os primeiros sistemas de governo no mundo, “o governo sagrado de Deus” que tudo pode e tudo manda, e onde a onipotência anda junta com a crueldade: Logo, a teocracia e ditadura eram a mesma coisa. Com a agravante que a ditadura era em nome de Deus. Essa onipotência e essa ditadura da crueldade automaticamente passaram para o rei, que se arrogava, como deus, poder de vida e de morte sobre os cidadãos. Quanto mais cruel, mais poderoso se achava o rei, o que levou um filósofo a dizer: “A crueldade é um dos prazeres mais antigos da humanidade” (Fredrich Nietzsche).

Conclusão. Hoje em dia constatamos  a sobrevivência desse sistema antigo e obsoleto nas ideologias modernas das diversas ditaduras. Ideologia das extremas direitas que revivem um passado mofado, fora da época de validade que mata as cabeças, envenenando-as como quem engole  um remédio passado de prazo que causa morte. Veneno que entra em cabeças tanto de religiosos como de políticos que exercendo influência e sendo eles manipulados pelo deus do dinheiro Mamón envenenam e manipulam por sua vez consciências e cabeças até à exaustão.

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 3 de junho de 2024

TEOLOGIA BÍBLICA, O PAI NOSSO E O PERDÃO BÍBLICO.


 

Há um pedido na oração do Pai Nosso que a maior parte de nós insiste e demora aí talvez achando que seja a parte mais importante. É aquele versículo: “Perdoa as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”, destacando aquele “assim como”. Mas será mais importante esse versículo, ou as palavras iniciais: “Pai nosso”? Não estaremos nós fazendo de Deus um comerciante que paga com a mesma medida e moeda? Aquele “assim como” parece induzir a isso. Ou faremos de Deus um parceiro, um igual a nós? “Pago se você me pagar”,  perdoo se você perdoar”? Não seria assim fazer de Deus à nossa imagem e semelhança? Enquanto que devemos ser a “imagem e semelhança” de Deus fazemos  Deus à nossa imagem e semelhança. Quer dizer, Deus perdoa sempre e nós devemos nos esforçar também por perdoar; não quer dizer que Deus só perdoa se nós perdoarmos. Não começamos assim, Pai Nosso?  E depois trocamos tratando Deus como um carrasco. O fato de nos fixarmos naquele versículo perdoa como nós perdoamos já levou pessoas à depressão, e outros a dizer: você não pode rezar o Pai Nosso se você não perdoar. Problema gerador de medo, afastamento de Deus, incrementação da culpa, e internalização só de uma coisa: Deus é “inimigo”, porque não me perdoa e nem olha para a minha pessoa. Semelhante situação é igual àquela onde se diz: “com a mesma medida com que vocês medem os outros serão medidos”(Lc.7,2). Sempre o Deus carrasco, comerciante, e igual a nós nos contratos, contratos comerciais. Indo agora para outros ditos, encontramos aquela sentença: Sede santos, sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (Lc.6,36). A pergunta é esta: quem é que pode ser santo como o Pai do céu? Misericordioso como o Pai do céu? Porém, tem uma saída: Isso é o ideal do cristão. O cristão nunca pode se aposentar. O cristão nunca pode pendurar as chuteiras. Temos que olhar para os 100 por cento, mas com a certeza que nunca chegaremos lá. A terra boa onde a semente foi plantada, uma produz 30, outra 60 e outra 80 por cento, quem produz 100 por cento? (Mt.cap.13). Falando ainda sobre as “ofensas”, a melhor tradução seria “dividas” o que nos introduz nas “dívidas” bíblicas relatadas no Levítico sobre o ano do jubileu pelo qual as terras arrancadas ao pobre como paga de suas dívidas lhe deviam ser restituídas ao fim de sete anos. “O uso desta linguagem na oração relembra o tema profético de que o culto é fazer justiça, i.é, perdoar a divida e assegurar que o pobre tenha acesso aos recursos de que ficou privado por sete anos” (W.Carter, Comentário do evangelho de Mateus, p.224). Vale dizer que o pobre teria sido privado dos frutos de suas terras por sete anos, e o rico proprietário se aproveitou usando as terras dele por sete anos para recuperar a dívida. Assim, enquanto que o credor lucrou por 7 anos, o pobre perdeu por 7 anos. É um pedido social, familiar, no seu sentido básico, bíblico-histórico. Porque se tivesse em primeira mão o sentido espiritual e “moralista” estaria fora do alcance bíblico, porque que para os judeus tudo se resumia nesta terra, a felicidade aqui e agora, na terra  “conquistada”.

Conclusão. De tudo que falamos acrescentamos que a “salvação” para o judeu não se orientava para a vida do além, mas tudo se realizava aqui na terra. “Se observares estas minhas palavras e as puseres em prática em prática serás feliz porque entrarás na terra que eu prometi das aos vossos pais”.(Dt.11,20-21). A “terra prometida” era aqui mesmo. Por isso o “perdoar” ou não “perdoar” não tinha muito a ver, ou nada, “com aquele perdoar que foi imaginado depois, mas com aquelas “dívidas” que faziam a pobreza ou a riqueza aqui na terra. É este o perdão bíblico que está aí em questão e que afinal das contas não foi tão mal interpretado para um sentido moralista e espiritualista, mas bastante oportuno, até porque o nosso ambiente é outro e não mais o ambiente ruralista do perdão das dívidas do campo. Foi feliz transposição e adaptação, mas sem esquecer o que significava para aquela época em que foi escrito e para os leitores para quem foi escrito. Temos portanto dois níveis de destinatários, os do tempo da escrita, e o nosso agora.

P.Casimiro João      smbn

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segunda-feira, 27 de maio de 2024

TEOLOGIA BÍBLICA, O ORGULHO DE SER RELIGIOSO.


 

O povo de Israel tinha a ideia fixa de ser o carro-chefe do mundo, i.é, o mais importante do mundo. Tanto os textos oficiais focavam nisso que todo o povo internalizou esse imaginário. Até depois da morte de Jesus dois homens do povo expressaram esse imaginário quando foram questionados sobre suas pretensões. E afirmaram sem rodeios: “Nos esperávamos que fosse ele quem havia de restaurar Israel , e agora, além de tudo isto, é hoje o terceiro dia que estas coisas sucederam, mas a ele ninguém o viu”(Lc. 24,21-22). Israel tinha esse sonho fixo de ser uma ditadura imperial ao jeito da Assíria antiga, a Pérsia, ou a Babilônia. E suspirava por aquele momento em que chegasse a sua vez, ‘agora é a nossa vez’. Esse foi também o grito expresso pelos discípulos de Jesus na hora da Ascensão: “É agora que vais inaugurar o reino de Israel”? (At.1,6). Assim como hoje os USA, a Rússia e todas as ditaduras têm a ideia fixa de dominar os povos e o mundo, assim eles tinham. E faziam alianças e mais alianças. E no substrato dessas alianças o carro chefe era sempre a religião. A suposta “presença” de Deus que estaria sempre “do seu lado” contra os outros povos. A isso juntava-se o outro “imaginário” de ser o “povo escolhido”. Deus estaria com eles e com os outros não. Vem daí o termo pagão, um termo de desprezo. Pagão era tudo que não fosse judeu, na raça, na nação e na religião. Gente portanto não “olhada” por Deus e considerada gente longe de Deus e sem Deus, gente inferior e sem “salvação”, portanto desprezada por Deus e pela nação. A própria Igreja teve os seus momentos mais piores da sua história quando quis ser também a “maior”. Maior que os príncipes, do que os reis e do que as nações. E maior do que as outras Igrejas quando foi questionada por elas. No judaísmo, como no cristianismo criou-se a ideia e a ideologia da “religião superior”, e, se ela era a “religião superior”, as outras eram “inferiores”: as Igrejas orientais, as Igrejas evangélicas, as religiões africanas, as religiões indígenas, as chinesas e japonesas e das Ilhas, e afro-brasileiras. A gênese disso é uma herança nefasta da “falsa superioridade” dos judeus em relação aos outros. Donde se gera o desprezo e a discriminação para com os outros considerados “inferiores”. Neste tempo isso tem um nome: marginalização e discriminação. Desse imaginário de ser a “religião superior” veio também a “obrigatoriedade” da circuncisão, i.é, todo estrangeiro (ou “pagão”) teria que ser circuncidado para que se salvasse. Então teria, digamos assim, de tornar-se judeu. E, de quebra, passou para a Igreja dos primeiros tempos a obrigatoriedade de ser batizado. É notório o que se afirmava quando houve as primeiras tentativas da evangelização da China. Foi quando se falou que “todo chinês tem que deixar de ser chinês para ser cristão”. O que implicava costumes, roupas, oração e ritos litúrgicos e vestes litúrgicas. Veja que palavra bárbara essa! Só mais tarde se atentou na “enculturação”, não levando a cultura da Europa para a China, mas levando a Igreja para dentro da cultura chinesa. Assim como levando a Igreja para dentro das culturas africanas e japonesas. No tocante ao Brasil adotou-se o termo de religião e cultura afro-brasileira. Contra o “orgulho de ser religioso” temos toda a conduta de Jesus, bem expressa quando verberou esse orgulho dos fariseus: “Ai de vós escribas e fariseus, percorreis a terra e o mar para fazerdes um prosélito, e depois de o terdes feito, o fazeis duas vezes mais filho do inferno do que vós”.(Mt.20,15).

Ainda bem que a Igreja deu o braço a torcer nessa luta do orgulho da religião quando reconheceu que a Igreja não era maior que a ciência, depois mais tarde quando reconheceu o direito dos povos e das pessoas à “liberdade de religião” e “à liberdade de consciência”. Digamos que o orgulho religioso é um dos piores orgulhos e é fonte de outros grandes pecados, como de perseguição a outras religiões e considerá-las inferiores e marginais. E quando se conta com o poder político como aliado, além de perseguir, ainda se prende e se mata.

Conclusão. O orgulho do católico muitas vezes se baseia no que os “outros não têm” como aquele “culto”, aquela missa e a comunhão. Porém, a comunhão ou eucaristia é um meio, não é um fim. Ora as outras religiões têm outros meios de salvação. E quantas vezes uma religião até bem “pequenina”, digamos, tem muita gente boa e santa, que fazem muito bem, enquanto que na “comunhão” poderá ter gente que comunga todos os dias e não pratica benzinho nenhum. Seria como ter uma enxada e não utilizá-la; Ou como ter um celular e não usar. Lembremos que o mundo está quase com 10 bilhões de pessoas, e só um bilhão tem essa eucaristia e comunhão. Porém, a salvação de todos esses oito ou nove bilhões está garantida, mesmo sem a eucaristia e a comunhão.(Vat.II L.Gentium, 16).

P.Casimiro João     smbn

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domingo, 19 de maio de 2024

TEOLOGIA BÍBLICA, DISTINÇÃO ENTRE CRER (FÉ) E CRENÇA


 

Recapitulando o exposto nas quatro páginas anteriores deste Blog me proponho resumir agora em esquema a distinção entre Fé e crença.

I- Antigo Testamento.

1). O que era fé no Antigo Testamento: Crer em Javé como deus único. Todo o Antigo Testamento travou esta luta, de princípio ao fim, embora em toda a história, até ao século segundo a.C. os israelitas tivessem sempre outros deuses junto com Javé nos seus templos e altares.

2). Crenças no Antigo Testamento:  (Coisas com validade de prazo, ou acidentais). Enumeremos; a) Sábado ; b) circuncisão; c) purificações; d) separações de puros e impuros nas refeições e no templo.

II – No Novo Testamento.

1)     O que é Fé no Novo Testamento: Crer no Deus de Jesus Cristo.  

2)     Crenças no Novo Testamento: a) O que nós católicos temos de crenças b) O que outras Igrejas têm de crenças.

1). O que nós temos (Coisas históricas) 1º Necessidade de batismo para as crianças: não iam para o céu sem o batismo; passou o prazo de validade; 2º Necessidade do batismo para a salvação dos adultos; quem não era batizado não se salvava; também passou o prazo da validade: outras religiões tradicionais se salvam (Vat.II, Lumen Gentium.16). 3º Obrigação de religião católica: agora liberdade de consciência e de religião (Vat.II), doc. Sobre a dignidade humana, 1,2 ; 4º Papa com significação para toda a Igreja; agora mais ênfase: bispo de Roma.

2). Crenças de outras Igrejas: 1º Só elas se salvam; 2º Puritanismo de vestimentas ou não; 3º Necessidade de Maria ou não; 4º Necessidade de Santos ou não; 5º Necessidade do Papa ou não. Obs: As estatísticas mundiais catalogam como CRISTÃO católicos e protestantes no mesmo pacote. Todos somos cristãos porque temos Cristo como centro. O resto são acidentes. Antes de sermos católicos ou protestantes somos cristãos. Outro exemplo: As Igrejas Orientais não têm o Papa mas são Igrejas Ortodoxas; e têm Maria e os Santos. Protestantes não têm o Papa, nem Maria, nem os Santos, mas são cristãos.

Conclusão. Diante deste quadro resumido, pena que muita gente possa trocar as coisas e sem dúvida dando mais importância e ênfase às crenças do que à fé e o seu núcleo. Como falei na página anterior deste blog, crenças foram-se misturando com a fé, mas com o tempo vê-se que são como adereços ou como corais de praias que um dia ficam sem efeito ou sem mais prazo de validade, tipo Sábado ou circuncisão no A.T. e obrigação de ser católico ou protestante  no Novo Testamento. Tem que haver uma atenção constante para não confundir as coisas numa catequese adequada.

P.Casimiro João      smbn

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segunda-feira, 13 de maio de 2024

TEOLOGIA BÍBLICA, A BÍBLIA VERMELHA E AS OUTRAS.


 

“Ninguém em lugar nenhum possui o manuscrito original de qualquer livro bíblico: tudo o que temos é cópia de cópias. Isso inclui até as cópias mais antigas” (Harvey Cox, o futuro da fé, Paulus, 2018, p.209). Não existe um livro único e indisputável que podemos com confiança chamar “a Bíblia”. Aquilo que temos não é a Bíblia, mas interpretações, e interpretações de interpretações. (id.p.217). Isto vem a propósito do assunto de que falei nas páginas anteriores sobre o fundamentalismo bíblico e a crença. Na época de 1920, nos Estados Unidos, apareceu uma nova tradução da “King James” chamada “Revised Standard Version” (Versão Padrão Revista) por especialistas da língua inglesa. Nessa edição os estudiosos que prepararam a nova tradução do versículo de Isaías, 7,14: “eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e será o seu nome Emanuel”, eles repararam que a palavra hebraica significava uma jovem, sem indicar se era virgem ou não. Então nessa edição da King James usaram essa palavra hebraica “jovem” em vez de “virgem”. Ora, assim que a “nova Bíblia” saiu a público, o escândalo irrompeu entre os fundamentalistas americanos, porque viam aí uma blasfêmia.  Com a agravante que ela vinha com uma capa vermelha e não com capa de couro artificial de cor preta como de costume. Como se estava em plena guerra fria entre os Estados Unidos e a Rússia após a segunda guerra mundial, isso foi o estopim para que os fundamentalistas atribuíssem essa Bíblia a um complô dos comunistas da Rússia contra a América do Norte. (Cf. H.Cox, o.c.p.206). No séc. XIX, esses americanos protestantes caprichavam  em se definir como “gente que segue a Bíblia”. Isso era considerado como um teste decisivo para ver se alguém era ou não “cristão de verdade”. Porém, ao mesmo tempo começavam a aparecer estudos e descobertas científicas sobre a Bíblia, e suas traduções. E a pergunta era: qual Bíblia eles seguiam? E a resposta começava pelo reconhecimento de que não existe a “Bíblia pura” mas só traduções. Existem diversas Bíblias diferentes: a judaica, chamada Tanakh; a protestante e a católica, cada uma com muitas traduções. Antes de Lutero a Biblia tinha 39 livros, depois passou para 32.  Outro exemplo, se eles fossem cristãos seguidores da Bíblia no séc.II d.C. a Bíblia era o Antigo Testamento e alguns evangelhos que estavam em disputa ou “sorteio” para ver os que seriam a Bíblia e mais outras Cartas que entraram depois. E no séc. XV os protestantes e católicos tinham os mesmo livros. Então se viu que a ideia de que “a Bíblia” sempre foi a mesma não é exata. E assim entre os fundamentalistas surgiu a pergunta: “Em qual tradução você acredita?  Há estantes e estantes de traduções. Já Origenes no séc.III enfrentou esta dificuldade e produziu uma edição do Antigo Testamento com seis colunas paralelas: do texto hebraico, outra aramaica, outra em grego, outra grego koiné, outra da septuaginta e a sexta coluna com grego moderno da época. Foi a conhecida “Háxapla”, ou Seis colunas. Mais à frente veio um episódio que impressionou as fileiras evangélicas no século XIX: foi a declaração pelo concílio vaticano I (1870)  da infalibilidade do Papa. Isto levou os evangélicos a ter a ambição também de alguma autoridade infalível, por sua vez do lado deles. Esta ambição fortalecia a visão fundamentalista da Bíblia como um “Papa de papel”. Porém, nem para o lado católico e nem para o lado evangélico é um fundamento sólido, porque, por um lado, a declaração do dogma foi arrancada na marra pela pressão  e pelas ameaças contra os cardeais que não votassem a favor, como rezam os anais, e pelo lado dos evangélicos não se encontra a “Bíblia”  em “estado puro” e “original” em nenhum lugar do mundo como dissemos. Resumindo, eis umas páginas muito ecumênicas e muito reveladoras do especialista, de formação batista H.Cox, em oito itens: 1, “Quanto aos fundamentalistas eu aconselho meus alunos a por de lado seus preconceitos e a mergulhar na Bíblia como faríamos com um romance envolvente ou como um filme; 2, Alguns estudiosos do Novo Testamento hoje creem que o autor do Evangelho de Lucas e dos Atos dos Apóstolos – uma única obra chamada “Lucas-Atos”_ teria usado como modelo a Eneida  de Virgílio, numa tentativa de compor um épico cristão; 3, Ler a Bíblia com esse tipo de salto imaginativo nos coloca na companhia de nossos antepassados espirituais, alguns deles patifes, outros santos, a maioria uma mistura dos dois. Mas todos dividimos algo em comum: nossa desajeitada tentativa de não apenas responder aos grandes mistérios, mas de responder a eles negativa ou positivamente com o mito e símbolos de nossa própria cultura particular; 4, Claro que boa parte da Bíblia consiste de poemas, lendas e histórias, e mesmo muitos fundamentalistas não interpretam literalmente os sete dias da criação. Mas por que, a Bíblia poderia reclamar sob qualquer aspecto nossa adesão espiritual e moral? 5, O que dizer de certas moralidades ali representadas, como a exigência de Deus de que os Israelitas matassem todos os cananeus, inclusive mulheres e crianças? Pior, o que dizer daqueles que reivindicam a autoridade da Bíblia para condenar gays, para plantar assentamentos na Cisjordânia, para assassinar um Rabin, ou um médico que faz abortos?  Como lemos textos de ambos os Testamentos que parecem justificar o assassinato e o caos? 6, Para tantos outros a Bíblia não passa de um ícone para botar a mão na hora de prestar um juramento. 7, Outros literalistas bíblicos, que não entendendo nada de poesia do Gênesis, tentam reduzi-lo a um tratado de geologia e de zoologia” (o.c.p.222-238). Não podemos deixar de nos reportar ainda às tentativas do primeiro e segundo século de perseguição a alguns cristãos que, para não ser perseguidos pelo imperador Constantino esconderam seus escritos para que não fossem destruídos ou queimados. Em contrapartida, os grupos que tinham o apoio do imperador acabaram sendo favorecidos e rotulavam os outros de hereges, enquanto que eles se outorgavam o titulo de “católico oficial”.(Cf.H.Cox, o.c.p.p232). Naquele tempo, como hoje, para muitos, o sentido e a definição da fé tornou-se ideologia imperial. Para estes só haverá fé quando se está de acordo com o governo, e com o “status quo”, e com o “império”.

Conclusão. Como conclusão anoto aqui uma observação de um estudioso da religião comparada, que afirma: “Filósofos e teólogos frequentemente ficam divididos entre duas convicções, de um lado eles acreditam que suas sociedades precisam da religião para manter a ordem, mas por outro lado eles mesmos não conseguem assentir àquelas proposições míticas. Sua solução desconfortável normalmente consiste em defender, ao menos em público, um conjunto de crenças para pessoas comuns mas guardando para si o direito de ter as suas dúvidas particulares. E chamam a isso de “mentiras nobres” (Bellah, o.c.p. 280).  O mesmo estudioso H.Cox tem as seguintes afirmações, rendendo-se às teologias da América Latina: “Viajei, ensinei e aprendi em muitos lugares do mundo, do Brasil à China; e da Índia ao Japão. Como professor em meu país natal vim a conhecer estudantes e visitantes de todos os continentes. No lugar de novas ideias ou teorias, a teologia da libertação representa toda uma clara maneira de fazer teologia. Ela começa repensando a mensagem cristã do ponto de vista dos pobres e dos marginalizados. Ela não nasceu nos auditórios de Tubinga na Alemanha, nem nas bibliotecas da Universidade Gregoriana em Roma. Não é uma teologia de “cima para baixo”, mas uma teologia que circula “de baixo para cima”, de milhares de grupos e movimentos de base. Tendo-se originado na América Latina na década de 1960 ela rapidamente se espalhou pelo Sul global, e na Coreia, no Sudoeste asiático, na África subsaariana e na Índia. O bispo Desmond Tutu da África do Sul, prêmio Nobel, assim como os teólogos “minjung” da Coreia, os teólogos da Índia e os líderes da Igreja clandestina chinesa reconhecem sua dívida para com ela. Inclusive variantes protestantes, judaicas, muçulmanas e budistas” (o.c.p.239-246). E finaliza: “A questão apresentada pelos pobres era antiga: a questão de como justificar um Deus de amor e justiça diante do sofrimento e da privação que eles sentiam e viam em torno de si. Eles encontram em Jesus não uma racionalização de por quê as coisas são como são, mas antes que as coisas podem e devem ser mudadas. A teologia da libertação é mais do que uma teologia latino-americana. Ela encarna um salto importantíssimo para fora de muitos séculos em que o cristianismo foi definido como um sistema de crenças imposto de cima para baixo. Ela simboliza e representa a recuperação do fulcro da mensagem do evangelho como tal, como vivido nos primeiros séculos do cristianismo. Ela é um sinal inequívoco da vinda do Espírito Santo”. (o.c.p.250-251). Revisando o nosso título Teologia bíblica, “a bíblia vermelha e as outras”, ainda nos faltaria dizer que nessa época da “Bíblia vermelha” estava nos seus começos a Telogia da libertação, e o fundamentalismo americano, de mãos dadas com o imperialismo americano também dirigiu os seus canhões contra a teologia da libertação. Como dissemos na página anterior, assim como o imperador Constantino financiou a Igreja no séc. IV assim agora o governo americano financiou o fundamentalismo protestante.

P.Casimiro João    smbn

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