segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A ALMA E AS ESTRELAS.


“Eu me tornei uma estrela da manhã entre os deuses”, dizia um epitáfio antigo. Sêneca dizia que a alma humana imortal veio de fora deste mundo, das estrelas, e fará seu caminho de volta para lá. Sendo assim ela ia reunir-se com os deuses. Para Platão, a alma humana é imortal, e, como imortal, é divina, porque divinos são os “imortais” que são os deuses. A morte se define em termos de separação entre alma e corpo, e alguns filósofos da corrente de Platão diziam que a alma, na sua separação, carregava o corpo com ela. Quando o imperador Otaviano foi assassinado, uma testemunha afirmava ter visto a alma do imperador subindo aos céus, e que ele não tinha sido assassinado porque sua divindade não podia ser extinguida. Como era explicada a origem da alma humana? “No princípio o Criador fez um número igual de almas igual ao número de estrelas, e tendo-as colocado ali como numa carruagem mostrou-lhes as leis do destino. As almas assim devem ser implantadas nos corpos humanos. A sua principal tarefa é governar os sentimentos e desejos do corpo. Depois do seu tempo de vida retornarão e habitarão junto à sua estrela gêmea, e lá terão a bem-aventurança e agradável existência”. ( em Aristófones: O Timeu de Platão, apud N.T.Wright, “A ressurreição do Senhor”, pag.107). Por isso, ninguém em sã consciência, uma vez libertados do corpo que é o cárcere da alma, iria querê-lo ou algo parecido de volta. Porque assim chamavam vida essa libertação, e morte à vida encarcerada no corpo. Não se deve portanto temer a morte, ela é o dia em que nascemos na eternidade e todos vão para a ilha das bem-aventuranças. Epicteto, nessa época, dizia que o nosso objetivo na vida é que se deve aprender a ser feliz, ou, ao menos, não infeliz. Na verdade, a alma libertada do corpo ia de volta para as estrelas e para os deuses. Ali os mortos irão ganhar uma vida bastante completa com Osíris, e como Osíris nos deleites da eternidade. E como muitos pensavam que, na separação do corpo a alma carregava também o corpo, para eles a cremação era inaceitável e uma coisa hedionda. A morte era uma saída à luz do dia. Falamos que a habitação da alma seria na estrela gêmea da qual tinha saído. Durante muito tempo houve um grande debate filosófico acerca de qual material exatamente era o das estrelas e da alma, mas havia o sentido geral de que não seria de coisas muito diferentes. Eram, por assim dizer, feitas umas para as outras. Por exemplo, muitos acreditavam que a alma era um tipo particularmente especial de matéria feito de uma substância ígnea, exatamente o que estava presente nas estrelas. Ficamos com a impressão de que estamos em termos de cristianismo. Mas esta era a teoria de Platão, no séc.V a.C. desenvolvida por seus discípulos como Sêneca, Aristóteles e Epicteto, entre os gregos; e por Cícero, Virgilio e Cipião entre os latinos. Platão fez uma reviravolta da teoria do Homero, sec.VIII a.C. que foi o pioneiro desta  filosofia, junto com seus discípulos Ésquilo e Sófocles. Por isso alguns autores têm Homero como o iniciador do A.T. do helenismo antigo, e Platão como o N.T. do mesmo mundo antigo helenístico. A mudança de Homero para Platão deu-se com o seguinte objetivo: Proporcionar aos jovens aprender a verdadeira concepção filosófica para amar a Pátria e a sociedade sobre a morte não ser algo lamentável, mas algo bem vindo, a vida aquirida na ilha das bem-aventuranças. É o meio pelo qual a alma imortal se liberta da prisão domiciliar do corpo em que viveu na terra. “Se o mundo antigo não judaico tinha uma Bíblia, seu antigo testamento era Homero, e Platão o novo testamento do mesmo mundo helenístico antigo”. (N.T.Wright, o.c.p.71). Dizemos isto porque no Antigo Testamento da Bíblia judaica também não se falava na ressurreição, justamente como Homero que viveu na mesma época de Moisés. Só começou a surgir a teoria da ressurreição num tipo de conceito platónico pelo ano 167 antes da vinda de Cristo e por circunstâncias históricas, na época dos Macabeus.

Conclusão. A busca da felicidade é uma constante da sabedoria humana. E antes que chegasse a teologia e as teologias surgiu a filosofia e as diversas filosofias. Assim, paralelamente a Moisés existiu um Homero, e paralelamente às preocupações de Daniel, o maior expoente da nova doutrina da ressurreição apareceu um Platão também quase contemporâneos, e  temos ainda influências no conceito de ressurreição hoje em dia tanto de Daniel como de Platão.

P.Casimiro João        smbn

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segunda-feira, 27 de julho de 2026

REINO, ALEGORIA, PARÁBOLA E MÉTODO ALEGÓRICO.


 


Conceito de Reino dos céus: O fim do Antigo Testamento e a vinda de Deus para governar em pessoa. Aí incluía o castigo para os que tinham maltratado o povo de Israel. Digamos, uma ideia nacionalista. Uma prova está na cena da mãe dos filhos de Zebedeu que se aproximou de Jesus para o seguinte: “Permite que estes meus dois filhos sentem-se um à tua direita e o outro à esquerda no teu Reino” (Mt.20,21). Porém, pouco a pouco, a pregação e a piedade cristã foram transformando esse conceito para um conceito personalista do “bom” e do “mau” individual. Este conceito ficou marcado em narrativas plásticas como a “rede que é lançada ao mar”, com a sequência da escolha dos peixes “bons e maus”, de que iremos falar (Lc.5,5). Começava sendo usado o método dos gregos chamado método alegórico. A literatura cristã teve dificuldade para se expressar a esse respeito. Nos primeiros tempos não havia a palavra “céu” nem “inferno”, e digamos purgatório. Estes conceitos já eram originários da religião babilônica, donde passaram para o Judaísmo. Santo Irineu nas suas catequeses dizia que o paraíso seria lugar para onde iriam os justos depois de passar pelo lugar chamado céu das esferas celestes. Este era o lugar intermediário ou o primeiro degrau do paraíso. Outro nome era a Jerusalém restaurada. Orígenes tinha o paraíso como uma escola para os mortos honrados, preparando-os para ascender através das esferas celestes até o céu da abóbada celeste. A propósito, há uma expressão no evangelho de Mateus quando fala da rede e dos peixes, “O pai de família tira do seu tesouro coisas novas e velhas” Mt.13,53. No método alegórico quererá dizer que “coisas novas” serão a nova explicação ou o Novo Testamento; As “coisas velhas”, as do Antigo Testamento. Ou seja, o bom catequista  saberá manusear o Antigo para sacar lições novas. Voltando aos “bons e aos maus”, para os judeus antes do cativeiro só havia o Sheoll, que era o “lugar dos mortos.” enquanto que eles esperavam através da escatologia dos últimos acontecimentos a vitória final de Deus para estabelecer a Jerusalém restaurada. E como essa época parecia não vir mais, depois do exílio começaram a pensar num lugar de prêmio para os torturados pelas nações pagãs, e um lugar de sofrimento e castigo para os torturadores. Falámos atrás no método alegórico. O método alegórico entre gregos consistia em interpretar mitos e rituais do passado para estabelecer relações entre as crenças antigas e a nova sociedade que vai se formando. “A motivação para esta espécie de interpretação era uma genuína reverência pelas tradições religiosas antigas e explicá-las para descobrir significados espirituais ocultos em escritos clássicos de autores famosos. Com esses esforços, o método alegórico passou por um processo de elaboração transformando-se no método hermenêutico padrão da antiguidade que teólogos helenísticos judeus e cristãos adotaram de bom grado mais tarde para interpretar textos bíblicos” (H.Koester Introdução ao Novo Testamento, vol I, §4 1d, p.157). Este método funcionou para essa época helenística, para explicar por exemplo a Odisseia de Homero. Não só, mas também foi adotado pelos Padres da Igreja, e intérpretes bíblicos de toda a Idade Média como único método hermenêutico para interpretar a Bíblia. E digamos que ainda é o “método popular” vigente usado pela espiritualidade de todos os pregadores e comentadores da Bíblia como o mais cómodo, entregue à imaginação e explicação individual sem nenhum fundamento histórico-crítico, ou teológico, ou antropológico. No séc.II a.C. houve uma volta da filosofia às teorias de Sócrates, Platão e Aristóteles. Dois nomes tiveram influência nesse retorno, Panécio e Posidônio. Este último preferiu usar o método alegórico para explicar antigas teorias e adaptá-las às suas novas exigências, deixando para trás epicuristas e estoicos que não o aceitavam. Mas teve sucesso. E das teorias gnósticas e da cosmologia do platonismo deixou-nos o resultado da sua intuição: “O Sol é o puro fogo. O sol é a  fonte do espirito humano, que da Lua recebe a alma, e da terra o corpo” (o.c.§4, p.158). Isto é recorrente da antropologia cósmica do gnosticismo adaptada e pensada por Posidônio. “Aqui a jornada celestial da alma é a seguinte: quando o ser humano morre, o corpo se desintegra, enquanto a alma permanece por algum tempo na região sublunar, até definhar também para libertar o espírito em experiências místicas” (o.c.§4-2ª, p158). Estas reflexões recorrentes do platonismo, antes não bem vistas pelos estoicos acabaram vingando e serviram de base para a cosmologia e a ética estoica que se difundiu no império romano. Falamos do método alegórico e da ética estoica. O método alegórico na prática cristã tenta ir ao Antigo Testamento e sacar lições espiritualizantes para o Novo Testamento e para a vida cristã. A ética estoica propagada por Posidônio tinha três pilares. Primeiro, a finalidade não é o “prazer” mas a racionalidade, i.é, o logos ou razão pessoal que é a verdadeira natureza de cada um; Segundo, o reconhecimento de que o ser humano é “por natureza” uma criatura social, não entendido só na sua cidade mas no universo como um todo; Terceiro, a natureza, i.é, o logos de todos os seres humanos é o mesmo. Por isso distinções sociais, étnicas e raciais não têm sentido porque não são dadas "por natureza”.

Conclusão. Apontamos para o nosso título em que definimos o significado de “Reino dos céus”. Alegoria muitas vezes é uma parábola, como a cena da “rede lançada ao mar” com que no evangelho foi comparado o “Reino dos céus”. E falámos no método alegórico que não olha ao lado histórico, teológico ou crítico, mas só ao aspecto espiritualista e moralizante.

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 20 de julho de 2026

COMO A DITADURA MILITAR DEU FIM NO FUNDADOR DE BRASÍLIA, O DR. JUSCELNO KUBITSCHK DE OLIVEIRA.


 


A ditadura militar via Juscelino Kubitschek de Oliveira, o fundador de Brasília como uma grande ameaça política devido à sua enorme popularidade como fundador da nova capital do Brasil, Brasília e ao grande sucesso econômico de seu governo, como presidente do Brasil. Por isso fizeram de tudo para impedir um segundo mandato em 1965, um ano depois da instauração da ditadura militar. Os militares temiam que ele vencesse as eleições presidenciais nesse segundo mandato em 1965, pois eles quiseram estabelecer uma eleição de fachada um ano após a tomada do poder para paliarem a ditadura, e com a finalidade de eles se perpetuarem no poder. Então eles só tinham uma saída: era exilar Kubistchek, e assim o fizeram. Mas não ficou por aí, pensaram assassiná-lo num falso acidente, ou acidente preparado. Quando ele retornou do exílio  fizeram um atentado contra ele no dia 02 de agosto de 1976, forjando um acidente de carro onde assassinaram o fundador de Brasília botando no laudo o falso acidente. Quando foi criada a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos políticos em 2026 é que se concluiu que a morte de JK se tinha perpetrada nesse falso acidente com o qual quiseram iludir a Nação.

Os principais motivos de oposição foram:

  • Popularidade: JK foi o grande favorito para vencer as eleições de 1965, quando a ditadura já governava há um ano. Os militares golpistas não queriam correr o risco de perder a ditadura.
  • A ditadura queria se manter no poder por muito tempo. Por ter um grande apoio popular, a presença política de Juscelino ameaçava os seus planos.
  • Acusações infundadas: O regime militar usou a Lei de Segurança Nacional para cassar os direitos políticos de JK por 10 anos, e exilá-lo para o estrangeiro.
  • Frente Ampla: JK uniu-se a adversários históricos, como Carlos Lacerda e João Goulart, para criar a Frente Ampla. Esse movimento civil exigia o fim da ditadura e o retorno das eleições diretas, o que  os generais não queriam.
  • Só mesmo com a COMISSÃO ESPECIAL SOBRE MORTOS E DESAPARECIDOS DA DITADURA é que foi possível  descobrir a Fake News da DITADURA para esconder o assassinato do fundador de BRASÍLIA: era o mesmo que pretendiam fazer no atentado do 8/1 de  2.022 para botar de novo essa ditadura podre e assassina pela segunda vez no Brasil. Os podres vivem só de coisas podres como os carniças. SAIBA AGORA AS COISAS CERTAS.

P.Casimiro João         smbn

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segunda-feira, 13 de julho de 2026

EVANGELISMO SUL AMERICANO, ANÁLISE EM PRATOS LIMPOS


 

Na época da Guerra Fria, o Estado norte-americano viu a Teologia da Libertação e a Igreja Católica como problema geopolítico, isto é, como problema para o império norte americano de base protestante querendo dar uma cor mais parecida com o protestantismo deles lá. O caminho mais curto seria exportar para a América do Sul a sua vertente neopentecostal. E começaram uma campanha enviando pastores muito bem pagos com seus $dólares para fundarem templos e mais templos em cada canto e esquina. E em maior escala incentivando-os a se infiltrarem na política, de tal maneira que não custou a infestarem o Congresso com deputados e senadores frutos dos $dólares americanos, que logo avançaram para formar a bancada da Bíblia, no pior ultraje que jamais se deu de misturar religião e política.  Relatórios oficiais dos EUA apontavam a Igreja Católica latino-americana como força de mudança social, especialmente após o concilio do Vaticano II. Então o governo americano conseguiu levar o Vaticano para o lado dele através de muitas visitas de deputados e elementos da CIA que foram recebidos no Vaticano. Daí em diante, documentos da Igreja católica defenderam combater a Teologia da Libertação obedecendo assim à política dos Estados Unidos, como conta H.Kung no livro “A Igreja católica tem salvação? E houve aproximação entre política externa dos EUA e o Vaticano. Pesquisadores como David Stoll tratam a expansão evangélica na América Latina como fenômeno religioso combinado, ocorrido num ambiente em que Washington via a nova onda do catolicismo como ameaça, e setores conservadores dos EUA incentivavam alternativas religiosas para combatê-lo, no que conseguiram o apoio do Vaticano na época em que inclusive o Card. Ratzinger deu sinais que não queria aceitar o concílio cem por cento, mas pelo contrário, com muitas reservas. Era o pano de fundo que os Estados Unidos queriam. No Brasil, o crescimento neopentecostal também tem causas internas: urbanização acelerada, televisão, rádio, empreendedorismo religioso, falsas promessas de cura, rigorismo moral, rede de apoio à teologia da prosperidade. Autores como Ricardo Mariano descrevem o neopentecostalismo com forte presença midiática, política e empresarial tendo como pano de fundo a prosperidade ao jeito dos sonhos do Antigo Testamento mediante o imperialismo, o poder e a riqueza. O exemplo maior desta ideologia está na réplica do “Templo de Salomão” construído em São Paulo para trazer de volta o que já tinha a validade de prazo terminada. Afinal, ao que Jesus tinha dito que “não iria ficar pedra sobre pedra” do velho Templo que tinha se tornado “um antro de ladrões”, o seu Edir Macedo foi na mão contrária de querer voltar à réplica do mesmo Templo, ressuscitando de novo outro antro de novos ladrões que à custa de tanta enganação do povo e de tantos dizimeiros projetaram a mais baita safadagem de lavagem de dinheiro até formar o “Dizibanco” que agora enfrenta igual processo da Policia Federal igualzinho o EXBanco Master de Vorcaro. Vale dizer que Edir Macedo e seu Daniel Vorcaro são dois irmãos gêmeos.  E o que vemos hoje é que o neopentecostalismo brasileiro acabou se tornando uma das principais bases  políticas da extrema direita no Brasil. Lideranças religiosas transformaram púlpitos e redes de igrejas em estruturas de mobilização eleitoral. Em contrapartida, todos eles sustentam o pânico moral em torno de gênero e sexualidade, continuando a defender tudo quanto é de ideias arcaicas, e obsoletas tanto em matéria de ciências humanas e filosóficas como de religião. Em um comentário a este estado de coisas trago aqui a opinião e afirmação de um especialista do social, filosófico e religioso: “O povo descobrindo só agora que o neopentecostalismo foi uma estratégia da CIA para combater e enfraquecer a Igreja Católica e americanizar a sociedade brasileira” (Tauat Resende @eutauat).

P.Casimiro João      smbn

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segunda-feira, 6 de julho de 2026

A PECAMINOSIDADE SEMPRE CONSIDERADA PARA OS FIÉIS, NUNCA PARA A “HIERARQUIA”.


 

A autoridade é sempre considerada como como sem culpa, e os fiéis considerados sempre como culpados. Em  outra nossa publicação dissemos que Cristo não quis para si o título de “rei”. E hoje em dia os reis acabaram praticamente no mundo Os povos não quiseram mais os reis. Porém, tempos atrás, acabou o império romano, e a Igreja definitivamente ocupou o lugar dele. Aí nasceu a Igreja feita pirâmide: Papa, bispos, padres, leigos. E na sociedade civil: Clero, nobreza e povo, como era classificada em toda a Idade Média. A missão do Espirito Santo era só de fazer os fiéis acatarem e aceitarem na obediência o que decidiam e programavam os que estavam no topo da pirâmide.

Historicamente a “infalibilidade” do Papa não vem desde o nascimento da Igreja, mas vem a colegialidade, como se vê no primeiro concílio de Jerusalém onde as decisões saíram da colegialidade (At. 15). Hoje em dia isso tende a ser revisto cada vez mais, para deixar essa forma de uma Igreja abusiva usando essa plataforma como bengala de poder. Vimos ainda que os povos pagãos simpatizavam com  o nome de “rei” dado a Jesus. E de rei passava logo a imperador, ganhando o conceito de “império supremo de Cristo” sobre o mundo inteiro. Já se vê que respaldo daria essa ideologia a uma pessoa que se considerasse na terra o “representante” desse império, o Papa. Nada mais nada menos de que dar continuidade aos velhos sonhos de Israel de dominar o mundo com seu messianismo com a vinda do “reino” do filho de Davi e do sonho do velho Daniel (Dan cap.7), manifestado naquele pedido dos apóstolos:  “Senhor, é agora que vais restaurar o “reino” de Israel”? (At. 1,6).

Na época de Pio X e com a herança de toda a Idade Média fortaleceu-se a ideia da configuração da Igreja de Jesus como esse reinado vindo e nascido diretamente de Jesus sem que nada pudesse ser mudado e mexido nunca mais. Era a “infalibilidade” papal que estava em jogo. Porém, no concílio Vaticano II já começou sendo admitido  que a tão proclamada infalibilidade só pode ser assim conceituada  dentro de um consenso colegial. Neste setor temos que reconhecer que após século e meio de resistência às aquisições das liberdades oficiais do cidadão e do cristão vieram os textos do mesmo Vaticano II sobre a liberdade de consciência, liberdade religiosa, e direitos humanos que a muito custo foram sendo aceitos pela Igreja oficial. Na verdade até esta data, para a hierarquia eclesiástica o homem novo moderno que evoluía nestes conceitos de liberdade e emancipação e compreensão era tachado de “o homem velho” pecador e desobediente. Tudo que tinha o gosto de “moderno” era suspeito para a Igreja e considerado “tabu”. O conc. Vaticano II corrigiu a imagem anterior da Igreja para uma Igreja mais aberta. O Papa São João XXIII anunciou uma Igreja mais aberta mesmo e uma reforma mais ampla do Direito Canônico como frutos do Concílio que ele anunciou.  E dizem os entendidos que a edição que foi feita do Direito canônico não correspondeu às intenções fundamentais do mesmo Vaticano II, invertendo  o valor dos conceitos institucionais e dando mais valor à instituição do que à nova definição de Igreja como “povo de Deus” onde se realça a igualdade e liberdade dos fiéis leigos e os fiéis com outros títulos no mesmo serviço da Igreja. Vale dizer, na Igreja não tem títulos que separam, mas serviços que igualam na nova Igreja do Vaticano.

 

Nesta linha de compreensão fica corrigida a noção de pirâmide tradicional segundo a qual o pecado estava sempre do lado dos fiéis, e nunca do lado da hierarquia: a hierarquia como tendo sempre razão e humilhando sempre os fiéis, que sempre só “desobedeciam” e sempre eram pecadores. Vale dizer, o conflito era resolvido em favor da posição mais forte, e chamava-se a isto o pecado de base. Como consequência psicológica surgiam sobretudo sentimentos de decepção, de resistência e até de aversão. E afastamento de muito fiéis da Igreja. Só muitos séculos mais tarde é que veio um ou outro Papa pedir um perdão que já todo mundo não atendia e podia até ser considerado fora de época.

 

Na verdade, tantas vezes a hierarquia praticou uma política eclesiástica e não evangélica e teológica quando não queria nenhum diálogo com os que lhe eram incômodos, e no entanto formam parte da mesma Igreja que ela diz que é mistério de que todos participam. No entanto, estava ofendendo companheiros e não adversários. Pois na Igreja não há nenhuma relação de senhor e servo.

Resumindo: a pecaminosidade foi sempre considerada para os fiéis, nunca para a hierarquia; A autoridade considerada sempre como sem culpa. E os fiéis considerados sempre  como culpados.

P.Casimiro João         smbn

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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Uma nova análise de DNA do Santo Sudário


Uma nova análise de DNA do Santo Sudário

 Uma nova análise de DNA do Santo Sudário reforça a hipótese de que o tecido veio da Índia antes de passar pelo Oriente Médio.

A pesquisa preliminar detectou vestígios genéticos de populações indianas e do Oriente Médio. A revista BioRxiv publicou o estudo, que detalha também traços de plantas, animais e microrganismos.

Os cientistas identificaram a linhagem genética H33, comum entre drusos e outras populações árabes. Eles também acharam microrganismos que sobrevivem em ambientes com muito sal, como o Mar Morto.

O tecido apresenta contaminação por diversas espécies de animais e plantas. A análise apontou restos de coral vermelho, cenoura, milho, banana, além de gado, porcos, cães e gatos.  Os autores atribuem essa diversidade biológica aos séculos de circulação da relíquia pelo mundo. Eles acreditam que a contaminação ambiental ocorreu principalmente após as viagens de Marco Polo e Cristóvão Colombo. 

Origem e testes anteriores: A relíquia fica na Catedral de Turim, na Itália, e traz a imagem de um homem crucificado.

O Sudário é um pano de linho de 4,4 metros, e muitos acreditam que a peça cobriu o corpo de Jesus Cristo.

Testes de carbono-14 apontam a fabricação do tecido entre os anos 1260 e 1390. O resultado faz com que vários historiadores considerem a peça uma falsificação criada na Idade Média.

A ligação com a Índia já apareceu em um estudo de 2015. Na época, o pesquisador Gianni Barcaccia mostrou que o DNA de quem tocou o Sudário correspondia em 38,7% à Índia.

Explicações de especialistas:

A paleógrafa Ada Grossi avalia que a presença de DNA indiano tem uma explicação histórica. Ela afirma que tecidos indianos valiosos compunham as vestes do sumo sacerdote no Templo de Jerusalém.

Os pesquisadores apontam que os romanos importavam linho da região do Vale do Indo. Há também uma relação linguística, já que a palavra grega para linho fino, "sindôn", tem ligação com Sindh, região asiática. 

O grupo conclui que os resultados revelam a origem das pessoas que interagiram com a peça. "Nossos resultados fornecem informações valiosas sobre as origens geográficas das pessoas que interagiram com o Sudário", afirmam os autores.

Fonte: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/04/05/nova-analise-de-dna-indica-que-santo-sudario-veio-da-india.ghtm?cmpid=copiaecola

P. Casimiro João

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segunda-feira, 22 de junho de 2026

A HISTORICIDADE QESTIONADA NA BÍBLIA.


 

“Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa, e a porção escolhida dentre todos os povos”. (Ex.19,5-6). Estas afirmações são claramente redação da equipe sacerdotal que fez a terceira edição do Êxodo. Na verdade, o Êxodo foi escrito no exílio da Babilônia pelos sacerdotes para servir de catecismo e animar o povo no meio das angústias do exílio. Foi a catequese do sofrimento, na reedição de histórias passadas, pelos sacerdotes. E foi escrito debaixo das coordenadas de colocar as coisas como se tivessem acontecido com Moisés: “Moisés subiu ao monte ao encontro com Deus. ”(v.3). É a transposição da historicidade do tempo presente para o tempo assado, de Moisés. O tempo presente era o século VI a.C. O tempo de Moisés o século XIII a.C.  Até porque, se fosse naquele remoto tempo de Moisés o que eles iriam entender por “reino de sacerdotes”? Claro que é uma teologia já muito rodada fabricada na monarquia pelos sacerdotes do templo. Outro ponto fulcral é que aí vem a ideologia perigosa que já estava minando o povo judeu: “e sereis para mim a porção escolhida dentre todos os povos” (v.5). Não imaginamos as consequências nefastas que se originaram e se espalharam pelo mundo desta suposta “porção escolhida dentre todos os povos.”  É o chamado orgulho religioso que é transmitido neste catecismo ao povo, como eu escrevi a longos traços já no livro “A Bíblia, o livro dos Qr Codes”, p.105. E foi desta ideologia judaica que surgiram no mundo todas as formas de segregacionismo, negacionismo, e colonizacionismo do outro, baseadas no racismo, na religião, no gênero e no nacionalismo. Porque desse orgulho religioso judeu nasceu o orgulho nacionalista gêmeo do orgulho religioso. Até porque na antiguidade e nos judeus não havia separação entre nação e religião; entre poder civil e religioso. O que era uma coisa era outra. Em todas as páginas da Biblia aparece transversalmente a designação do “nosso deus” e dos “deuses estrangeiros”, i. é,  que não eram nacionais, e por isso eram considerados demônios (Cf. Dt.32,16). Afinal, as outras nações, na hora desta escrita, eram importantes e se impunham pelo poder e pela riqueza, enquanto que os judeus estavam destruídos e escravizados. Não lhes restava outra alternativa senão a religião. Donde então fabricaram essa ideologia de que eles tinham a melhor religião, o melhor deus, e a melhor “eleição” como sendo o povo “escolhido” e “eleito”, e os outros não? Os outros eram todos “não escolhidos” portanto abandonados, sem Deus e sem salvação? Até porque os deuses dos outros eram “demônios”, embora fossem povos ricos e poderosos? O que causa estranheza nisso tudo é que eles também admitiam deuses dos outros povos nos seus templos e cultos, pois todas as rainhas e concubinas estrangeiras dos reis judeus traziam os seus deuses com elas. “O rei Acab seguia os ídolos dos amorreus” (1R.21,26). Mas esse é outro capítulo à parte, o capítulo das mentiras políticas, que na fachada são uma coisa e na prática são outra. Como dizíamos, o judeu se refugiava na religião quando a política não lhe era favorável, ainda que à custa de toda mentira, falsidade e hipocrisia. A conclusão dava certo: “estamos escravos, somos perseguidos, mas somos “os escolhidos”. Vale dizer: agora não temos dinheiro nem poder mas temos deus do nosso lado. Quando tivermos dinheiro e poder seremos iguais aos outros; Seremos ricos e poderosos, e deixaremos deus de lado, deixaremos deus em paz, e ainda iremos aceitar os deuses deles... Mais à frente, anos depois, o texto de que estamos falando teve mais outra edição e recebeu o nome de Deuteronômio, i.é, segunda lei, chamada a edição javeista, onde vamos encontrar as seguintes afirmações: “O Senhor te escolheu dentre todos os povos da terra para seres o seu povo preferido; o Senhor se afeiçoou a vós e vos escolheu” (Dt.7,7). Vemos que este texto aumentou a predileção, transformando-a já em “afeição”. E o lado oposto da moeda vem a seguir:  Aos outros Deus “castiga diretamente e odeia, fazendo morrer e não espera, mas dá-lhes imediatamente o castigo merecido”, (v.10). Tanto numa versão como na outra se evidencia uma escolha e uma repulsa. A escolha para eles e a repulsa para os outros. Isto foi tão exclusivista, que quando da vinda de Jesus, encontrou a sociedade judaica dividida entre “puros e impuros”, fariseus “santos e salvos” e os “sem salvação”; tanto em relação aos próprios judeus como sobretudo em vista dos estrangeiros com quem não se podia nem ter contato, até ser necessário “sacudir a poeira dos pés quando voltavam dos territórios estrangeiros para entrar na terra “santa” dos judeus.”(Mt.10,14). Esta situação chegou até à nossa religião de hoje quando alguns elementos pertencentes a certos grupos se julgam os “escolhidos e santos” e os outros não. “Eu faço, eu pertenço”. E não só, chegou à nossa política, que, empunhando a Bíblia como uma espada, se julgam os sucessores dos “escolhidos” do Antigo Testamento. Para eles todos os outros perdem o status de cidadãos justos como faziam os fariseus. De tal maneira que surgiu no Congresso brasileiro o bizarro nome de “bancada da Bíblia”. Nem se dando conta da ignorância que manifestam de que estamos num Estado laico. E que poderia haver também a bancada afro-brasileira ou a bancada do Candomblê ou a bancada dos Pais de santo. E não só, a essa bancada se juntou outra, a bancada do boi, e a bancada da bala. Da mesma maneira que os judeus sequestraram Deus como estando só do lado deles, e sequestraram a riqueza da nação, as terras, as leis e os impostos, da mesma maneira essa bancada da Biblia sequestrou Deus, as terras, as leis e os impostos. Para o restante da população que possa sobrar a fome, a doença, os castigos como vem naquele pedido que os discípulos de Jesus invocaram que viesse fogo do céu sobre uma parte da população. (Lc.9,51). São os boanerges modernos, como Jesus apelidou aqueles discípulos que queriam a vingança do céu. Falei outra vez que nós somos em três quartos ainda em muito do nosso tempo como judeus, e só uma quarta parte de espírito de cristão. Mas nessas bancadas a tal quarta parte do espírito de cristão virou mais farisaica do que os fariseus. 

P.Casimiro João                smbn

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

QUANDO DEUS FOI COISIFICADO COMO LEGITIMAÇÃO DA ORDEM ESTABELECIDA E COMO INIMIGO DE TODA MUDANÇA, LIBERTAÇÃO E EMANCIPAÇÃO


 Se direitos valem só para uma parte da humanidade essa parte legitimaria a injustiça e sancionaria a discriminação. Todos são iguais perante a Lei” diz o art. 5 da Constituição do Brasil, e o primeiro da DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS. Onde é que um pobre pode ter acesso à Universidade? A um bom hospital? A concorrer a um cargo público? Não é igual perante a Lei? Quem trabalha tem direito a salário. Porém um agricultor e um profissional mecânico e um deputado qual deles trabalha mais?  E porquê salário tão desigual? Há dez anos atrás, em 35 países analisados, o Brasil ocupava o último lugar do salário de professor, sendo que a China ocupava o primeiro lugar onde se paga melhor os professores. Daí que aquele direito igual perante a lei virou assim “todos os ricos são iguais perante a lei. E: “todos os “políticos são iguais” perante a lei. E tem muitos que não trabalham nada. E ainda assim: “Todos os pobres são iguais perante a lei. Iguais para sofrer, para não ter direito de ter direitos. Agora tem direitos que valem para uma parte da humanidade, sim: o direito do comprar as leis, o direito de explorar o outro e não ter cadeia, o direito de ter muitos salários, o direito de ter os filhos numa baita de Escola e Universidade. E assim uma parte da humanidade legitimaria a injustiça e a desigualdade. Só essa parte tem dinheiro para comprar e vender. Comprar advogados, soltura, habeas-corpus, comprar pobre por dinheiro para calar a boca diante do poder e comprar o voto do pobre para subir na eleição.  E a desigualdade está legitimada perante a lei, porque o pobre não tem dinheiro e o dinheiro dá poder. E o direito de não ter poder também fica legitimado como fica legitimado o direito de ganhar pouco dinheiro porque não estuda. E o direito de defesa também fica legitimado porque não tem dinheiro. E o direito de prisão especial também fica legitimado porque o estudo superior dá direito a cela especial. E o direito de recorrer da sentença também está legitimado porque o pobre não tem dinheiro para recorrer e acabam os recursos. E as segundas e terceiras e quartas instâncias também ficam legitimadas para quem tem uma baita fortuna. E o direito de recorrer em liberdade para quem tem uma baita fila de advogados. E o direito de cumprir uma parte da pena para quem pagou uma baita multa. E essa parte da humanidade sanciona a discriminação. Discriminação de ter os filhos numas baitas Escolas e Universidades. Discriminação de conseguir uns baitas empregos e cargos públicos. Discriminação de driblar juízes, cartórios e documentos para facilitar documentos e compras de amazônicas terras e propriedades. Discriminação de viver em palácios brilhosos ao lado de famílias de trabalhadores que trabalham o dia todo para salários que não pagam o aluguel do barraco. Discriminação de planos de saúde para tudo, ao lado de quem morre nas filas do abandono. Neste ano se comemoram trinta anos da Constituição do Brasil e setenta anos da DECLARAÇÃO  UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS. Porém agindo assim fica claro que: se direitos valem só para uma parte da humanidade, essa parte legitimaria a injustiça e sancionaria a discriminação. Daí que no poder das ditaduras Deus foi coisificado como legitimação da ordem estabelecida e como inimigo de toda mudança, libertação e emancipação.

P.Casimiro João      smbn

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segunda-feira, 8 de junho de 2026

DEUS NÃO ESTÁ NEM AÍ


 

Quando eu sou pobre, olho o rico com olhos de pobre. Quando eu sou rico, olho o rico com olhos de rico, e quando sou político olho o político com olhos de político. Ou seja, há um certo corporativismo, chamado de nível de percepção. Eu me ponho no nível do igual a mim, quando a pobreza nos iguala; e no lugar do rico quando a riqueza nos iguala também. A tendência do pobre vai na direção de culpar o rico; e o rico vai na tendência de desculpar o rico. Esta sentença vem bastante oculta num episodio da Bíblia, que pode até nos surpreender pela política que envolve o caso. Certa ocasião um seguidor de Jesus, Pedro, quis reivindicar os seus direitos e as suas credenciais de seguir Jesus, e perguntou de mansinho: “Eis que deixei tudo para te seguir, o que receberei de volta?” (Mt.19,27).  Ao que Jesus respondeu: “Todo aquele que por minha causa deixou casa, ou irmãos ou irmãs, ou pai ou mãe, ou filhos ou terras, receberá neste mundo 100 vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos, terras” (Mc.10,30). Este papo vem em seguimento de outro quando “alguém saiu correndo” e foi perguntar a Jesus: “O que farei para alcançar a vida eterna”? E ao mesmo tempo apresentou as suas credenciais: “Porque eu cumpro todos os mandamentos”.  E a resposta de Jesus vem assim: “Porém, falta-te uma coisa: vai vender o que tens e dê aos pobres”. Ele retirou-se muito triste “porque possuía muitos bens”. Olhando ele se retirar, comentou Jesus: “Quão dificilmente entrarão no Reino dos céus os que têm muitas riquezas; é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus” (Mc.10,21-25). Este discurso corresponde àquele que falei antes: a avaliação do pobre a respeito do rico: Dois níveis desiguais. E isto, queiramos ou não, corresponde também a uma etapa da história da primitiva Igreja, que se achava na pobreza real, concreta, histórica, ideológica e evangélica. É a primeira face da moeda: “Quão dificilmente entrarão no Reino dos céus os que têm muitas riquezas” Porém, vem a segunda face da moeda, com as mesmas palavras do evangelho em segunda cena. “Aos homens isto é impossível, mas não a Deus; pois a Deus tudo é possível” (Mc.10,27).  Isto porque Pedro e os outros tinham ficado de queixo caído e tinham replicado: “Quem pode então salvar-se”? E vem a hermenêutica interpretativa de Ched Myers que explica como segue: “Este texto foi notoriamente manipulado por aqueles cujo interesse reside em atenuar e abrandar sua crítica contra os ricos. O trocadilho de Marcos sobre o camelo e a agulha principalmente tem recebido um ingênuo tratamento nas mãos de exegetas burgueses preocupados em tranquilizar as consciências” (C.Miers. O evangelho de Marcos, p. 332, citando José Miranda). Ou seja, trata-se provavelmente de outra época, e de outro comentarista posterior que, considerando já o avanço da igreja no tempo e nas estruturas de riqueza que já a envolviam, terá aumentado a segunda resposta, para tranquilizar as consciências: “para Deus tudo é possível”. E agora já não olhava o rico com os olhos do pobre, para condenar, mas com os olhos de rico  para “não condenar”. Porquê? Porque condenando o rico condenava-se a si mesmo. Chamamos a isto adaptação aos interesses pessoais, nivelamento de rico com rico e, resumindo, ficava tudo politicamente correto. E não só, mas se escorando no nome de Deus dizendo que “para Deus tudo é possível”. Mas vamos colocar Deus no seu lugar, ou, como diz Bonhoeffer, “ser honestos com Deus”: Será que para Deus é possível um camelo passar pelo fundo de uma agulha? Será possível parar uma pessoa no ar quando está caindo de um prédio de dez andares? Nenhuma oração fez isso e nunca nenhum santo o fez. Mas sempre os bombeiros é que vão colocar colchões de espuma.  Por isso, é melhor tirar da boca de rico e de político aquele “para Deus tudo é possível” e trocar por aquela outra coisa “Ah, não, para nós Deus não está nem aí!” É mais geográfica, mais localizada, mais histórica, menos hipócrita, e mais “politicamente correta”.

P.Casimiro João

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segunda-feira, 1 de junho de 2026

OS PRIMEIROS GIGANTES QUISERAM SUBIR AO CÉU EMPILHANDO MONTANHAS


 

Os primeiros gigantes quiseram subir ao céu empilhando montanhas até às estrelas. Hoje os humanos mandam módulos e telescópios e já chegaram às estrelas...Após a exploração da Lua e de Marte os modernos módulos já andam entre as galáxias a bilhões de quilômetros da órbita da Terra. O mais potente telescópio James Webb foi lançado no mês de Dezembro 2021 para explorar o início da formação do universo com o fenômeno do big-bang. Estas tentativas da subida ao céu vêm na sequência das narrativas da Torre de Babel, na Bíblia judaica (Gn.11) que por si já é cópia do épico sumério Enmerkar e Gilgameshe. Vejamos como é descrito: “Tornando as alturas do céu não mais seguras do que a terra, os gigantes tentaram tomar o reino celestial empilhando montanhas até as estrelas distantes.”(Ovídio, Metam.I,150).  E Heródoto: “Ao tempo que cavavam o fosso faziam tijolos da terra que veio da escavação e, ao modelarem tijolos suficientes, os colocavam nos fornos; depois, tendo betume quente como argamassa, e cada trinta fileiras de tijolos com enchimento de esteiras de juncos entrelaçados entre elas, eles construíram primeiro as bordas do fosso e, segundo, a  própria muralha da mesma maneira...”(Heródoto,I,179); Ph.Wajdenbaum, Argonautas do deserto, p.140-141). Esta é uma narrativa paralela à do Gênesis, cap.11.

SOBRE HÓSPEDES DIVINOS: hóspedes divinos, e a mesma promessa feita a Abraão, também se encontra um paralelo nos livros antigos a respeito do filho da promessa, Isaac, em Gênesis, 19,1-3; 12-19. - Trata-se do episódio de Abraão quando recebeu três “divinos personagens. Ele lhes ofereceu comida e lhe prometeram que “daqui a um ano tua esposa Sara terá um filho”(Gn.19,1). Vejamos agora o mesmo episódio contado pelos  gregos: “A mesa estava agora reluzente com comida, reluzente com vinho. A ânfora era de barro vermelho, com copos de madeira de faia. A palavra de Júpiter foi: se tens um desejo, faça-o, tudo será teu. O velho disse calmamente: eu tive uma querida esposa que conheci na flor da minha juventude. Onde está agora, perguntais? Uma urna a contém. Eu jurei a ela, invocando os deuses, tu serás a única mulher que tomarei. Falei e mantive o juramento. Eu peço outra coisa, eu desejo ser pai e não marido. Os (três) deuses concordaram. Todos tomaram a sua posição ao lado do couro do boi – eu estou com vergonha de descrever o resto. Então eles cobriram o couro encharcado com terra. Dez meses se passaram e um menino nasceu”. (Ovídio, Os Fastos V,495-545; o.c.p.146). Comparando com Gênesis vemos o mesmo episódio por palavras semelhantes, da promessa do filho Isaac. (Gn.18,10). Na sequência vem o episódio de Ló, e também aí encontramos outro paralelo nos gregos. Como todo mundo sabe o episódio da Bíblia vamos conferir com o dos gregos:

DOIS SERES MISTERIOSOS vieram para visitar a cidade de Ló sob o disfarce de seres humanos. Nas culturas antigas deuses visitavam a terra disfarçados de seres humanos para os testarem. Como no gênesis, a cidade será destruída, mas o casal que os recebeu será poupado e autorizado a fugir com eles. Em Gênesis a cidade é destruída com fogo, aqui é com uma inundação. Em Gênesis a mulher do Ló virou estátua de sal. Aqui foi feita uma árvore sob o mesmo castigo de ter olhado para trás. (Gn.19,1-3;12-19).

O arcebispo Desmond Tutu disse uma afirmação que pode parecer ousada, mas muito verídica: “Deus não é cristão”. E poderíamos após ele aumentar e dizer: Deus não é judeu. Cada vez mais autores e especialistas nos comunicam que existem muitas fontes comuns compartilhadas por gregos e judeus. Gregos para fazerem os seus contos épicos; e judeus para fazerem a sua Bíblia. Usando a mesma técnica de copia e cola e adaptando à finalidade de cada um. E, pelo meio, aumentando e sacralizando dados e fatos também para seus objetivos. Não custa então entender que nós somos uma mistura de sumérios, gregos e judeus e helenistas e cristãos primitivos. Deste pacote são usuários europeus, africanos, e americanos e brasileiros. Mas na expressão de Desmond Tutu Deus tanto está com os cristãos, como com os muçulmanos, como com os hindus ou os chineses e com os judeus. Mas Deus não é cristão nem judeu. Na conclusão deste capítulo eu volto a dar uma olhada no título do cabeçalho para recordar o conjunto de como a Bíblia se enquadra no meio das literaturas da sua época: OS PRIMEIROS GIGANTES QUISERAM  SUBIR AO CÉU EMPILHANDO MONTANHAS

P.Casimiro João             smbn

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domingo, 24 de maio de 2026

O PRIMEIRO GÊNESIS DO MUNDO, O MACHADO QUE DIVIDIU O MUNDO EM CÉU E TERRA.


 

A serpente já apareceu no primeiro mito do primeiro livro da humanidade chamado Gilgamesh, esse que poderíamos chamar o primeiro Gênesis do mundo. Gilgamesh queria ser imortal. Um dia teve um sonho e do céu caiu um machado que dividiu o mundo em céu e terra.  O machado transformou-se num deus, o deus Enkidu, que caminhava com Gilgamesh no jardim da terra. Apareceu-lhe também a deusa da beleza, Imaná e convidou Gilgamesh para o seu palácio. Porém, Gilgamesh não aceitou o convite para não perder a sua viagem. Nessa viagem o seu companheiro Enkidu morreu, mas ele resolveu descer à região dos mortos para encontrá-lo. Lá ele ouviu uma voz que dizia: “Eu procuro alguém que possua a imortalidade” Era a voz de Noé que tinha sido salvo do dilúvio. Gilgameshe perguntou a Noé o que era preciso para resgatar o seu companheiro Enkidu. “Uma planta mágica do fundo do mar”, respondeu Noé. Gilgameshe chegou lá e arrancou a planta, e com ela ressuscitou o amigo Enkidu. Mas quando ele descansava, uma serpente roubou-lhe a planta mágica da imortalidade. Os deuses, porém, vieram em seu socorro e deram-lhe um prêmio: ele não iria morrer jamais, ele seria imortal.

E como foi a “criação” do primeiro homem?   O deus da sabedoria, Enkidu sugeriu a criação da humanidade para assumir o trabalho pesado dos deuses. Para isso, um deus rebelde e menor foi escolhido para ser sacrificado. O homem foi feito de argila misturada com o sangue desse deus sacrificado  para assumir o trabalho pesado dos deuses. Para isso, um deus rebelde e menor foi sacrificado. O sangue desse deus foi misturado com barro (ou argila) para formar a carne e o sangue dos primeiros humanos, transmitindo a eles a essência divina.”   Esta narrativa é do livro Atrahasis, da mesma época do Gilgameshe. Esse livro está preservado em tabletes de argila que datam de meados do segundo milênio a.C. antes da nossa Bíblia.

Antes que fosse escrito o livro do Gênesis na Bíblia judaica já existia este gênesis do Gilgamesh, pois gênesis quer dizer “origem”.  Por isso que pode ser considerado o primeiro gênesis do mundo. É de notar tanta coisa igual: A serpente espertalhona, o dilúvio e Noé, e a planta mágica da imortalidade comparada com a árvore do “bem e do mal” da Bíblia judaica.

Daqui passamos para outra serpente, que vemos no livro de Números da Bíblia judaica, quando conta que os judeus se lamentavam no meio da caminhada: “não temos pão nem água e estamos enojados deste pão de miséria. Então Javé mandou contra o povo serpentes venenosas que os picaram, e muita gente de Israel morreu. Moisés suplicou a Javé pelo povo. E Javé lhe respondeu: ‘faça uma serpente de bronze e coloque sobre uma árvore; quem for mordido e olhar para ela será curado”. (Num.21,4-9). Existe um conto semelhante na literatura dos Gregos:“Os caminhantes do deserto chamados argonautas foram picados por serpentes e invocaram o deus Apolo, deus da saúde. Apolo respondeu: ‘Eu vou mandar o meu filho Esculápio escondido numa planta, prestem atenção para não se enganarem. Quando enxergaram Esculápio bem escondido numa planta ofereceram-lhe sacrifícios e ficaram curados. Esculápio deixou com eles o seu melhor discípulo, Hipócrates para cuidar do resto da viagem” ( Philippe Wajdenbaum, “Os Argonautas do deserto, p.120ss). De notar a comparação dos dois relatos: caminhada no deserto; picadas de serpentes; a oração aos deuses; o deus escondido numa planta em forma de serpente; a cura. Esta narrativa é da mesma época da Bíblia judaica também e compartilhada.

Vemos aí alguns dos segredos das “serpentes-deusas” e das serpentes que “falam”. A serpente entrou em todos os mitos da criação assim como nos mitos de cura. Não é em vão que nas culturas antigas a serpente era o símbolo da sabedoria e da astúcia e da enganação. “A serpente era o mais astuto de todos os animais” (Gn.3,1). Tirava a imortalidade ou dava a imortalidade. E a imortalidade era a maior procura da humanidade em todos tempos. Não acabam por aqui as narrativas antigas, vejamos a versão da famosa torre de Babel nos primeiros épicos: Tornando as alturas do céu não mais seguras do que a terra, os primeiros gigantes tentaram tomar o reino celestial empilhando montanhas até as estrelas distantes.”(Ovídio, Metam.I,150).  E Heródoto: “Ao tempo que cavavam o fosso faziam tijolos da terra que veio da escavação e, ao modelarem tijolos suficientes, os colocavam nos fornos; depois, tendo betume quente como argamassa, e cada trinta fileiras de tijolos com enchimento de esteiras de juncos entrelaçados entre elas, eles construíram primeiro as bordas do fosso e, segundo, a  própria muralha da mesma maneira...”(Heródoto,I,179); Ph.Wajdenbaum, Argonautas do deserto, p.140-141). Esta é uma narrativa paralela à do Gênesis, cap.11.

Sem dúvida que a Bíblia e os livros da época traziam narrativas, e estórias semelhantes que o povo contava e não só, mas também os escritores talentosos da época tentavam deixar por escrito. E cada livro de seu jeito contava dum jeito diferente mas compartilhado. A esse respeito eis o que nos diz a Pontifícia Comissão Bíblia da Igreja Católica: “Os textos da Bíblia são a expressão de tradições religiosas que existiam antes deles,  os quais foram retrabalhados e reinterpretados para responderem a situações novas desconhecidas anteriormente”. (Pont. Com. Bíblica, 1994).

P.Casimiro João            smbn

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segunda-feira, 18 de maio de 2026

A MÍSTICA DO NÃO TER, NÃO USAR, NÃO COMPRAR VERSUS A IDEOLOGIA DAS COMMODITIES.


 

“Não leveis ouro, nem prata, nem dinheiro nos vossos cintos. Em vosso caminho anunciai que o Reino dos céus está próximo” (Mc.10,9; Mt.10,7).  Porquê “não levar ouro,  nem prata, nem dinheiro nos cintos”? A resposta vem logo em seguida: Porque “o reino dos céus está próximo”. Era urgente avançar no palco do mundo, onde Jesus mobilizava a sua força tarefa para preparar Israel para a vinda próxima de Deus. O tempo estava reduzido. Porque “não acabareis de percorrer as cidades de Israel antes que venha o Reino dos céus”. (Mt.10,23). Por isso era necessário não ter, não usar e nem comprar para não atrapalhar. Ter o quê? Usar para quê? E para quê comprar? Tudo pela proximidade do Reino dos céus. E o que era o Reino dos céus? Era a vinda próxima de Deus. Deus estaria chegando “em pessoa” para a vingança (Is.61,3). O tempo da colheita chegava, e o “machado já está posto na raiz da árvore” (Mt.3,10). Esta era a plataforma em que Jesus trabalhava. Daí vinha o método de ação: “Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai leprosos, expulsai os demônios” (Mt.10,8). A cura de doentes andava sempre junta com a expulsão dos demônios porque eram eles que traziam as doenças para o corpo das pessoas. Essa imbricação era uma crença e uma lenda da época e mobilizava as energias de Jesus e dos discípulos. A lenda rezava que quando Deus criou os demônios não deu tempo para criar o corpo deles. Então eles ficaram com raiva dos seres humanos por isso entravam nos corpos das pessoas levando cada um uma doença com ele. Curai os doentes e expulsai  os demônios”,MT.10,8.  E a urgência era grande nessa força tarefa: “Não acabareis de percorrer as cidades de Israel antes que venha o Reino dos céus”, Mt.10,23.  Era exigido dos discípulos não ter, não usar, não comprar para não atrapalhar a sua ação. Porque no Reino de Deus não poderiam existir espíritos maus e nem doenças, era urgente. Nesse patamar se criou a mística do não ter, não usar, não comprar e nem casar nas primeiras comunidades cristãs. Dizia São Paulo; “O tempo está breve. O que importa é que os que têm mulher vivam como se não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram como se não se alegrassem; os que compram como se não comprassem; os que usam deste mundo como se não usassem; porque a figura deste mundo passa; aquele que casa a sua filha faz bem, aquele que não a casa faz ainda melhor”. (1 Cor.7,29-39). Esse era o patamar da época. Mas aplicando aos nossos dias podemos aduzir exemplos de “espíritos maus” modernos que tomam conta de pessoas onde não se concretiza o reino de Deus. Exemplo: Os que assassinam pobres e negros têm o espirito de assassino. Às vezes é um governador que incentiva policiais a esses assassínios garantindo sua ação e os protegendo. O “espirito” passa pelas palavras pelos atos e pela atitude. Às vezes basta mudar um governante que não dê esse aval, e diminuem os assassinatos. Outro exemplo: A exploração da Amazônia. Se já existe nas pessoas tanta ganância pelo ouro e pelas matérias primas como a madeira, imagine quando há o incentivo dos governantes ou de algum ministro como na época do “libera geral” na época da pandemia, em que um ministro do meio ambiente torcia para deixar a “boiada passar?” Envenenaram-se rios com o mercúrio, mataram-se indígenas com os venenos e em confrontos, e espalharam-se doenças, e negaram-se vacinas na época da pandemia. Hoje em dia esse “espirito” avançou para o uso dos agrotóxicos em que grandes empresas pulverizam suas fazendas usando a aviação sem critérios e sem controle. Envenenam-se rios, riachos, córregos, olhos de água, adoecem e morrem pessoas, envenenam-se ambientes de vida e seus animais. Enriquecem a firma, enriquecem os grandes milionários que moram nas Faria Limas ou no estrangeiro, e matam-se os nacionais. Não são já os “espíritos” frutos das lendas antigas mas são os “espíritos” da ganância moderna, a sede de dinheiro e o avanço do capital, trocado pelas vidas humanas.

Na época do primitivo cristianismo nasceu a mística do não ter, não usar, não comprar, por causa da vinda próxima do reino de Deus. Agora criou-se a ideologia do ter, do usar e do comprar por causa da vinda do $dólar e das $comodities. O reino de Deus tinha Jesus e os seus discípulos engajados na mística do não ter, não usar e não comprar. Hoje tem os “messias” das igrejas e “os apóstolos” das bancadas da Bíblia, da Bala e do Boi no Planalto de Brasília, todos engajados para não perder o tempo de aumentar seus cofres e seus capitais nos Offshores dos paraísos fiscais, aumentando seus gados e seus currais.

P.Casimiro João             smbn

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segunda-feira, 4 de maio de 2026

RELIGIÃO NÃO É SALVAÇÃO, É CAMINHO DE SALVAÇÃO.



Perguntaram a um ateu como pode haver homens bons sem Deus? Ele respondeu: E como, com Deus, pode haver homens tão maus? Na verdade, religiões não são salvação; são caminhos de salvação. Fala-se que o comunismo matou muita gente. E quanta gente mataram as religiões? E “a melhor religião” do mundo não matou o filho de Deus?  E quantos governos não têm matado milhões “em nome de Deus?  Sempre houve na igreja a tensão entre instituição e comunhão, ou carisma, na expressão de Leonardo Boff. Muitos constatam que as Igrejas se comportaram como sendo as únicas detentoras da verdade e da salvação. E muitas vezes lutaram umas contra as outras levadas por uma incorreta convicção de que só elas tinham a salvação em suas mãos. Quantas vezes as Igrejas lutaram entre si e originaram excomunhões e se trataram umas às outras como “hereges” e fizeram cismas. Hoje inventou-se o Ecumenismo para a aproximação, cujo melhor significado seria “correr atrás do perdido”.

“A Igreja tem de distinguir-se de uma administração burocrática centralizadora da dimensão institucional. Quantas vezes nesse âmbito ocorre política eclesial míope e pouco inteligente, critérios não evangélicos, arbítrio e agravo à pessoa? Sem essa visão de vida eclesial que sempre se deve retomar de maneira nova, a Igreja deixa de ser um movimento originário de salvação, convertendo-se em instituição de poder que oprime, humilha e faz sofrer pessoas”. (E.Schillebeeckx, “História humana revelação divina”, pag.206). É justamente neste sentido que se direcionam muitas advertências do Papa Francisco no documento “A Alegria do Evangelho. O escritório e o gabinete da administração paroquial está sujeito, como as instituições jurídicas e civis a cair nesta tendência burocratizante. Além desta, há ainda a tendência do julgamento das pessoas. Porém, é necessário olhar que o critério evangélico deve prevalecer. E a isso nos convida e evangelho quando proíbe essa facilidade do “julgamento”, com a parábola da trave no próprio olho e do cisco do olho do irmão. (Mt.7,3-5). Assim como aquela outra advertência que “o julgamento de Deus começa pela casa de Deus” (1Pd.4,17). Falando nisso, ocorre a tentação de se firmar num certo conceito e preconceito de que estamos protegidos com colete à prova de bala para manter uma autoridade indiscutível apoiada na sentença “as portas do inferno não vencerão” de Mt.16,18; e “Eu estarei convosco todos os   dias até à consumação dos séculos” de Mt.28,20. Devemos, no entanto, ter em conta que o significado destas sentenças é que elas “não significam garantia automática de salvação e verdade, mas que sempre haverá homens e mulheres dispostos a se reunir ao movimento eclesial por causa do evangelho, levando avante o facho da fé cristã e querendo edificar a igreja” (o.c.p.207).

Falamos que a religião não é salvação, mas caminho de salvação. Quem pensava  o contrário disso eram eram os fariseus no seu orgulho de se considerarem os únicos detentores da salvação e os “únicos donos de Deus”. E por seu lado a Igreja herdou essa mentalidade ou ideologia, considerando-se também, por sua vez o único caminho e a única detentora da salvação e a “única dona de Deus”. Os fariseus tinham nos seus ensinamentos que a Lei ou Torá tinha sido dada antes da fundação do mundo. E há lugares sobre a Lei em afirmações do evangelho, como: “O mandamento é lâmpada, e a Lei da Torah é luz, e as repreensões da correção são o caminho da vida". (Prov.6,23). O que não custa admitir que terá sido um link copiado para a edição do evangelho de João: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, Jo.14,6 na afirmação de R.Brown, Comentário ao evangelho de João vol.II, pag.1003.  Aliás afirmações como essa são atribuídas também à deusa grega Osíris. Porém, a história da humanidade apresenta muitos caminhos de salvação, além do cristianismo católico e protestante, como o Islamismo, o hinduísmo, o taoismo, o animismo, os caminhos africanos e indígenas. O concílio vaticano II declara que “os homens esperam das diversas religiões respostas aos seus enigmas não resolvidos da existência humana que hoje como sempre movem os corações dos homens” (Nostra aetate, N.1. Também o concilio vaticano II questionou o concilio de Florença que negava a salvação a todos os não católicos. Desde os primórdios do cristianismo os cristãos se fizeram a pergunta se os “de fora da Igreja” também se salvam? “Então Pedro tomou a palavra e disse: Em verdade reconheço que Deus não faz distinção de pessoas, mas em toda a nação lhe é agradável aquele que o temer e fizer o que é justo” (At.10,34-35). No entanto, no decorrer dos tempos houve mais quem fechasse as portas da salvação do que quem abrisse. O citado concílio de Florença divulgou o jargão “Fora da Igreja não há salvação”; porém, por sua vez o concílio Vaticano II  divulgou o jargão “Fora da Igreja há muita salvação." Antes do concílio e durante  o concílio vários teólogos reconheceram que outras religiões são também caminhos de salvação, atribuindo valor salvífico a essas religiões. São eles, entre outros, Danielou, Henri de Lubac, Karl Rahner, e o próprio Ratzinger, e essa resolução veio a ser admitida no documento do Concílio Lumen Gentium, N.16 e Nostra aetate N.1. e Ad Gentes, N.11. Repetindo aqui o nosso jargão “o amor vale mais do que a fé”, podemos concluir como iniciamos: “a Igreja sem conversão constante deixa de ser um movimento originário de salvação, convertendo-se em instituição de poder que oprime, humilha e faz sofrer pessoas”. Inclusive inventando demônios e poderes diabólicos para sobreviver. Na verdade, o teólogo Leonardo Boff tem uma observação oportuna dizendo que nos séculos IV e V os convertidos que entravam na Igreja, porque era lei, carregavam para dentro da sua fé sua cosmovisão mágica cheia de anjos e demônios, ritos e tradições”. (L.Boff “Igreja Carisma e Poder” pag.144). Uma vez alguém perguntou a Jesus: Mestre, são muitos os que se salvam? (Lc.13,29). Ele desviou a conversa e respondeu: “Virão muitos do Nascente e do Poente, do Norte e do Sul sentar-se à mesa com Abraão, Isaac e Jacó”. As últimas reflexões da Igreja e do Ecumenismo tiveram a bênção de sintonizar com a teologia do pluralismo religioso. Desde a Revolução Francesa convivemos com três verdades fundamentais constantes do novo ser humano: Igualdade, Fraternidade, Liberdade que são os fundamentos da bíblia laica da Humanidade:  Os Direitos fundamentais do ser humano. Voltemos à pergunta: Como pode haver homens bons sem Deus?  E como, com Deus pode haver homens tão maus?

P.Casimiro João         smbn

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segunda-feira, 27 de abril de 2026

PRA SE SALVAR ERA PRECISO SER JUDEU.


 

Antigamente, pra se salvar era preciso ser judeu. Depois, pra se salvar era preciso ser cristão. Hoje em dia, pra se salvar é preciso ser humano. Por estas     três etapas vem passando o entendimento humano da salvação. Noutra página eu coloquei a seguinte questão: Quando a Lua e o planeta Marte forem habitados, como será? Qual será a religião deles? O que dirá a Bíblia para eles? O que será para eles o “mar vermelho”? O que eles dirão da Palestina? Moisés e os profetas? O que eles imaginarão? O que será para eles o Jesus que nasceu nesta terra? Será que tem que nascer lá também para eles?  Estas questões vão surgir e não são brincadeira. Os Judeus pensavam que só o judeu se salvava. O cristão pensava que só o cristão se salvava. E os habitantes do Marte, o que dirão? Eles vão pensar isso daqui a 100 anos? Vamos agora botar os pés no chão. Outro dia topei no evangelho de João com esta afirmação: “Aquele que acredita no Filho possui a vida eterna; aquele que rejeita o Filho não terá a vida pois a ira de Deus permanece sobre ele” (Jo.3,36).  Tratava-se de um discurso sobre o batismo, completando com outras palavras: “Aquele que vem do alto, está acima de todos; aquele que é da terra pertence à terra” (Jo.3,31). Fala então dos filhos de Deus e dos filhos da terra: quem é filho do alto é filho de Deus; quem não é, é filho da natureza. Quem era batizado era filho de Deus e nasceu do alto; quem não era batizado, não era filho de Deus, e era daqui debaixo. Era isto o que diziam os cristãos. E nesse sentido substituíam os judeus que tinham a circuncisão como garante da salvação. “Se vocês não se circuncidarem segundo o rito de Moisés não poderão ser salvos” (At.15,1).  E agora o garante era o batismo. “Quem não for batizado não será salvo?” (Mc.16,16). Ainda avançando: Os cristãos sabiam que a Lei dos Judeus era para ser abraçada e seguida por todo o mundo; ela era a “luz” para todo o mundo. Em consequência para os cristãos a lei cristã tinha que ser para todo o mundo, porque eles eram os herdeiros do Antigo Testamento. Porém, num novo entendimento da humanidade e da Igreja, há a declaração que quem não conhece Cristo e a sua lei também se salva, como dizem os documentos do Vaticano II (AG,n.1; LG.n 16; Nostra Aetate, n 2). Indo agora ao evangelho de Marcos encontramos as palavras  Quem crer e for batizado será salvo; quem não crer será condenado” (Mc.16,16). Temos a observar o seguinte: esta passagem de Marcos não é original, assim como a passagem do evangelho de João que estávamos analisando. (Cf. R.Brown, Comentário ao Evangelho de João, pag.348-373). Pertence às catequeses dos primeiros cristãos sobre o batismo. Os estudiosos descobriram que o evangelho de João não tinha sido aprovado para a lista ou cânon dos livros do Novo Testamento porque não falava nos sacramentos. Então, lá mais à frente, na data do século III e IV foram acrescentadas essas palestras sobre a preparação dos batismos, e assim já ganhou a aprovação, para não correr o risco de ficar como um evangelho apócrifo. Por seu lado, o final do evangelho de   Marcos, como dissemos, também não é original. Os pregadores judeus inseriram essas palavras no final do evangelho dele. O evangelho de Marcos é um belo exemplo da prática que se fazia naquela época, e como ainda hoje se faz na esfera civil, isto é, de como se aumentam dados e se maquilham narrativas para ficar mais aceitáveis. Como exemplo disso temos a “narrativa da guerra do Vietnam que os Estados Unidos perderam, que para entrar na história dos Estados Unidos foi submetida a uma boa maquilhagem antes de aparecer nos textos oficiais de história dos Cursos Médios e Superiores dos Estados Unidos.” (Ched Myers, O Evangelho de Marcos, pag. 476). Do mesmo modo, no final do evangelho de Marcos aconteceram coisas semelhantes. Conforme Myers, o final do evangelho de Marcos teve aumentos apócrifos. Essa afirmação, de “quem crer e for batizado será salvo e quem não crer será condenado” é considerada como “uma reedição imperial”. (o.c.p.476). As razões são avaliadas da forma seguinte: “Esta ideologia não só contradiz a insistência de Marcos em outros lugares segundo o qual “os que não são contra nós estão conosco” Mc.9,40, mas também se apoiam na expressão histórica da divisão da humanidade em “cristandade” e gentilismo. É importante lembrar que o uso que fazia a Igreja imperial do “julgamento” transformou a cruz em espada, e isto foi a mais profunda traição histórica do Evangelho.” (o.c.p. 477). Sobre o restante do final do evangelho de Marcos, “os sinais ‘milagrosos’ apresentamos ainda a seguinte reflexão do mesmo autor para “maquilhar” a apresentação e aceitação do evangelho: “Não podemos deixar de criticar os inúmeros esforços da “mágica cristã” deste texto, chegados até os dias de hoje e veiculados pela imposição das mãos e a cura pela fé. Isso significaria que ser cristão significava demonstrar poder visível.  Isso serviu particularmente para a América do Norte, onde o “povo escolhido” que eles se consideravam, em vez de significar serviço vestia o look de império e domínio” (o.c.p.477). Devemos não esquecer que os discípulos de Jesus eram judeus, e que as primeiras comunidades eram formadas na maior parte por judeus convertidos. Apesar de todas as proibições de Jesus de comparar o “seu reino” com os “reinos e impérios mundanos, eles não deixaram essa ideia de uma vez por todas ou da noite para o dia. E em quantas vezes em  lições e pregações e orações não teriam esses deslizes ou por esquecimento ou propositalmente para manifestar que o reino de Jesus era ainda mais “poderoso,” “milagroso” e “mágico” do que os outros, conforme a ideia que eles traziam nas suas cabeças? É só a gente, nós mesmos, olhar para a nossa introspecção para constatarmos que em nós também é ainda assim também. Haja vias-sacras, haja pregações, haja retiros, haja filmes, haja livros, mas não largamos, no fundo essas mesmas nossas projeções e convicções. Podemos até criticar outros, mas nós temos isso. Os judeus  tinham isso no cerne do seu DNA, o qual passou também para nós, pensando que eles eram o povo escolhido; e que sua Lei tinha que se espalhar para todos os povos; e o primeiro sinal era a circuncisão, que era a primeira imposição: Vós não podeis ser salvos se não vos circundardes” (At.15,1), que passou para os cristãos na afirmação: “se não formos batizados não seremos salvos” de Mc.16,16. É este imaginário que eu estou dizendo que também passou para nós e ainda subsiste. Para reforçar, vale outra observação: Os primeiros cristãos viveram misturados por mais de 100 anos com seus conterrâneos judeus e frequentavam a mesma sinagoga com eles. Escutavam  as mesmas leituras, as mesmas pregações e rezavam os mesmos salmos. Como não poderiam então ter na sua cabeça o que continuavam ouvindo na sinagoga? Agora só para nós: Nós também podemos escutar que aconteceu um concílio; que antes era  daquela maneira mas agora tem que ser doutra, mas a gente continua falando e pensando e defendendo o que o que era como antes e não o que é para ser agora. Por isso voltamos ao nosso título: Para salvar-se era preciso tornar-se judeu. Depois: para salvar-se era preciso ser cristão; e para ser católico é preciso ser como antes do Concílio. Enquanto que o concílio hoje diz que para salvar-se é preciso ser humano. E para muitos ainda continua: para ser cristão tem que ser como antes do concílio; e para ser católico tem que ser como há 500 anos.

P.Casimiro João       mbn

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