segunda-feira, 25 de setembro de 2023

UM HOMEM COM A MÃO DIREITA SECA APARECE NA SINAGOGA


 

Nos evangelhos é frequente encontrar a expressão “homen com a mão direita seca”. E ainda mais: “Em dia de sábado”. “Um homem se encontrava na Sinagoga com a mão direita seca”(Lc.6,6-11). Na Literatura brasileira, o escritor Graciliano Ramos, em “Vidas Secas” usa a mesma metáfora para falar do sofrimento do povo do sertão nordestino, usando como título de um dos seus melhores romances a expressão ‘VIDAS SECAS”. Aí as pessoas secavam de fome, sede, e maus tratos por causa da política e da exploração dos coronéis da terra. Na Sinagoga secavam por causa da religião. Com a diferença, em Graciliano Ramos as vidas estavam mesmo secas e mirradas enquanto que aqui no evangelho a mão ressequida é uma metáfora para significar o sofrimento e a humilhação de toda a pessoa. A mão não estava seca, quem estava seca era toda a pessoa. Na verdade o evangelho não é geográfico e nem histórico mas é teológico. Estes recursos literários já nos foram indicados pela encíclica do Papa Pio XII em 1943. E porque era a “mão direita”? Porque entre os Judeus o hebraico é escrito da direita para a esquerda. O lado direito tinha precedência sobre o esquerdo. A mão direita representa o atributo de bondade; a esquerda representa a severidade. Quando aí se diz que o homem tinha a “mão direita seca” é a maneira de denunciar que a Sinagoga tirava a vida às pessoas, mirrando-as e secando a fonte da vida que são as mãos para trabalhar. Quando você está com medo o sinal vem logo nas mãos. As mãos ficam sem ação e trêmulas. O tremor começa nas mãos.

Vem outra cena descrevendo também na Sinagoga “uma mulher encurvada porque o demônio a amarrou por 18 anos” (Lc.13,16). E porquê na Sinagoga? Em ambos os casos a causa é atribuída à religião da Sinagoga, que em vez de produzir vida produzia a morte dos seus frequentadores. E tem o detalhe dos 18 anos. Porquê? Porque na numerologia hebraica o número 18 significa o tempo que a pessoa tem para desenvolver as suas possibilidades. Tirando-lhe este tempo, a pessoa fica “encurvada”, isto é, diminuída e sem vida para viver. ´Tiraram lhe o tempo dos anos que a pessoa pode fazer uma boa gestão da sua vida e prosperar. Dizendo que satanás tinha aprisionado essa senhora por 18 anos significava que tinha-lhe tirado todas as chances de se realizar e de prosperar, tinham destruído essa mulher. Por outro lado, ali o satanás significava o espírito hipócrita da Sinagoga, pois era a sinagoga que atrapalhava e destruía as pessoas impedindo-as na sua felicidade. Por meio de uma obediência de escravidão às ordens e tradições humanas, e não de Deus. (Mc.7,1-13) “Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir as tradições humanas”... O que encurva e ressequia as pessoas eram cargas pesadas que obrigavam a encurvar-se diante dos homens. Uma situação fisiológica criada com o abuso do trabalho físico é utilizada nesta parábola do evangelho de Lucas para significar a humilhação do povo que não tinha condições de se tratar. Inclusive a Sinagoga não colaborava para aliviar os fardos, mas os aumentava. Do seguinte jeito: O sábado era o único dia livre para cuidarem da saúde, e ir procurar um médico ou algum curandeiro. Mas o que a Sinagoga dizia? “Não, no sábado não é pra ninguém se tratar porque não podem caminhar mais de um quilômetro, mil passos; se caminharem mais incorrem em pecado”. Conclusão do fato: Quem chegava no sábado doente não podia procurar saúde porque era proibido. Ficavam mais doentes, e se vinham encurvados, ficavam mais encurvados; Quem vinha com as mãos ressequidas ou doentes, ficavam mais ressequidos. Se vinham deprimidos, ficavam mais deprimidos. Dessa maneira o sábado tornava-se meio de tortura e doença, enquanto que tinha sido criado como dia de libertação e de melhora das pessoas e famílias. Por conta de um fanatismo redondo, a Sinagoga caiu no absurdo de dar menos valor às pessoas do que a um animal. Diante dessa situação vem a pregação atribuída a Jesus: “Hipócritas! Cada um de vós não solta do curral o boi ou o jumento para dar-lhe de beber mesmo que seja em dia de sábado? Esta filha de Abraão, que satanás amarrou durante 18 anos não deveria ser libertada dessa prisão em dia de sábado?(Lc.13,16). Leia bem, em  vez de satanás, vamos ler “vocês”, que amarram assim as pessoas? E lhe tiraram os 18 anos da chance de ser feliz e de realizar a sua vida? O evangelho não é geográfico e nem histórico, ele usa essas metáforas de linguagem, assim como o Graciliano Ramos usando a mesma metáfora de “vidas secas”. O Graciliano Ramos escreveu para denunciar a péssima situação social do século passado (1950), e este evangelho nesta narrativa que afinal é uma parábola quis denunciar a péssima situação religiosa da Sinagoga, e quem, sabe, também das nossas igrejas. Aqui pode haver duas tendências: uma puxa para o individualismo religioso alienante; outra puxa para a crítica e análise social da sociedade e da religião da Sinagoga. E esta é que estava presente no texto deste evangelho. Não tem nada a ver com espiritualismo individualista alienado e alienante.

Conclusão. Remeto aqui para o pensamento da Encíclica de Pio XII “Divino Aflante Spiritu” de 1943, sobre a interpretação da Escritura: “A regra suprema para uma interpretação correta dos textos bíblicos consiste em encontrar e definir o que o autor quis dizer, e estar atento aos gêneros de discurso ou de escrita que ele utilizou”. (Divino Aflante Spiritu, 1943).

P.Casimiro João    smbn

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segunda-feira, 18 de setembro de 2023

O juramento de Hipócrates e as serpentes da Bíblia.


 

Nas Farmácias de todo mundo se olha o sinal de uma árvore com uma serpente enrolada. Não há dúvida: ali é uma Farmácia. Esse ícone vem de longa data, de escritos antigos antes da Bíblia, do poema épico “Os argonautas do deserto” do Apolônio de Rodes. Conta esse mito que os argonautas eram picados por cobras venenosas. O rei, Lico, invocou o deus Apolo, deus da saúde. Apolo respondeu que iria mandar o filho dele Esculápio enrolado numa planta feito uma serpente. “Preste muita atenção, disse Apolo, e não tenham medo, e distingam-no bem das outras serpentes. O rei Lico juntou o seu povo, e prestaram culto a Esculápio, filho de Apolo, e as serpentes sumiram, e os doentes ficaram curados. Hipócrates, discípulo de Esculápio continuou com o ofício de médico dos argonautas com o mandato de Esculápio. Este conto que circulava na época dos Judeus foi copiado no Livro dos Números, da Bíblia (Nm.21.4-9) quando esse Livro foi escrito, para destacar os perigos do deserto, e para encorajar os judeus depois da travessia do mar vermelho. O estudioso Phelipe Wajdenbaum fala claro nessa cópia, tão paralela com a narração do Livro dos Números (Wajdenbaum, Argonautas do Deserto, p.197). Esse mito na verdade originou o ícone das Farmácias de todo mundo, e originou também o Juramento dos Médicos, chamado de Juramento de Hipócrates.

Ah, mas você pode reclamar: no evangelho vem escrito: “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado para que todos que nele crerem tenham a vida eterna”(Jo.3,14). Sim, mas também o evangelho fala na Arca de Noé, na Torre de Babel e na Criação do Éden, e na jumenta de Balaão, no entanto, a Igreja já falou que os primeiros Onze Capítulos da Bíblia que trazem estas histórias também são derivados dos mitos antigos do poema de Gilgamesh. Não só, o mesmo autor citado fala ainda que mais contos dos Argonautas foram também transportados e adaptados para a Bíblia como: Abrão e Sara; A água que brotou do rochedo; Elias e o carro de fogo; Eliseu e o seu machado “que dividiu o rio Jordão em duas partes”(o.c.p.186-322).

Conclusão. À guisa de conclusão repare bem nas afirmações da narrativa bíblica sobre as serpentes: ”Javé mandou contra o povo serpentes venenosas que os picaram, e muita gente morreu”(Nm.21,8). Pensemos se era possível Deus mandar serpentes para “matar o povo”? Linguagem que não adéqua com Deus. Deus não manda serpentes, e não mata. Nós divinizamos muito a Bíblia, aliás tudo no mundo é divino, mas a Bíblia não é mais que as outras coisas. Precisamos colocar a Bíblia dentro do contexto universal dos Livros da humanidade.

P.Casimiro João    smbn

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segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Ir na boca de um peixe e tirar uma moeda.


 

“Lança o anzol e abre a boca do primeiro peixe que tu pescares, ali tu encontrarás uma moeda; pega então essa moeda e vai pagar o imposto”(Mt.17,27).

Aqui é colocado um tremendo desafio com duas faces, verso e reverso. O primeiro era a consideração de que o imperador de Roma era o senhor das terras, peixes e mares, e tudo que se encontrasse nas águas e nos mares lhe pertencia. Mas aqui há um desafio: Jesus vinha mostrar que o senhor dos mares não era o imperador, mas Jesus. Este poder era representado na moeda que o peixe trazia na boca. Então essa é uma parábola, um ensino. Sobre os peixes e o imperador se dizia até que quando o imperador ia passear nas praias dos mares os peixes iam lamber lhe as mãos, e também que certo pescador conseguiu apanhar um enorme peixe e o apresentou a ele, porque o peixe tinha mostrado que queria ser pego para ver o imperador.

O imposto que antes era para o Templo de Jerusalém agora ía para os templos de Roma e humilhava muito os judeus. Ele lembrava-lhes a vitória de Roma sobre eles desde a revolta que resultou na total destruição de Jerusalém e do Templo no ano 70 d.C. Com isto o imposto agora definia os Judeus como uma raça derrotada e castigada na sua nacionalidade que tinha sido aniquilada. No entanto, nesta parábola e catequese que se seguiu à destruição do Templo, se enfoca o tema escatológico que acompanha sempre o povo judeu, que de derrota em derrota sempre o povo judeu tentavam levantar a cabeça  pensando e anunciando as vitórias futuras onde o Deus Javé  iria mostrar o seu poder pelos seus enviados, e agora pelo seu servo Jesus Cristo, destinado a ser o senhor das terras, dos peixes e dos mares e não mais o imperador.

Esta parábola tem um fundo muito característico sócio-político. Os imperadores romanos eram os donos e senhores dos mares, terras e águas de todas as nações conquistadas, e portanto da Palestina. Todo peixe pescado era patrimônio do imperador e tinha um imposto próprio além do imposto do ofício do pescador. Esta é a primeira consideração. A segunda consideração é a seguinte. Nesta parte trata-se do imposto para o Templo, por isso é dito, “vosso Mestre não paga o imposto do Templo?” (Mt.17,24). Antes de 70 d.C. os judeus pagavam o imposto para sustentar o templo de Jerusalém. Com a queda de Jerusalém e do templo no ano 70 Roma estabeleceu uma tesouraria imperial para arrecadar e desviar o imposto para o templo do Júpiter no Capitólio de Roma. Portanto aquilo que devia servir para o culto de Javé foi para o culto dos deuses pagãos dos romanos. Daí a pergunta e as dúvidas se Jesus devia pagar imposto ou não.

Conclusão. Vimos em outras páginas que os evangelistas falam muitas vezes que Jesus “só falava em parábolas”. E vimos também que os próprios evangelistas também eles mesmos contavam parábolas. E não só, botavam o nome de Jesus e lhe atribuiam as parábolas. Este é um exemplo por demais claro desta estratégia de que estamos falando. Esta é uma cena numa situação em que  já não há Templo porque já não havia cidade nem Templo. Era esta época exata em que estavam sendo confeccionados os evangelhos e suas catequeses e postos por escrito.

P.Casimiro João   smbn

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segunda-feira, 4 de setembro de 2023

REFLEXÕES SOBRE O FUTURO


 

Depois da morte de Jesus os autores cristãos expressaram os fundamentos da espiritualidade cristã, e esses fundamentos permanecem constantes, enquanto a cultura, a visão de mundo e nossas imagens de Deus já mudaram 190 graus. Por exemplo, a cozinha, o lugar de trabalho, o jardim, o Centro comunitário, o quarto de dormir, bem como a igreja paroquial e o tabernáculo, estão repletos da presença de Deus.

Os seres humanos estão agora atingindo a maioridade. Na verdade, como crianças até agora que imaginavam que na casa delas não tinha mais ninguém, só elas mesmo, e os pais para cuidar delas, agora nós estamos escutando rumores, sons, e vozes de outros “seres humanos” na outra “rua” de outras galáxias, e outros planetas. Que mudança, que surpresa: até agora pensando que éramos os únicos, o centro de tudo e de toda a criação. E mais? E se formas de vida em outros planetas existirem? O Filho de Deus teria que “descer” para redimi-las como “baixou” aqui na terra? Olha o desafio que a ciência vai trazer à nossa fé tão limitada e à nossa atual visão de mundo e de salvação. Como a Igreja tem se acostumado a pretender ”controlar” a ciência, e botar sempre sua opinião que tantas vezes são belos pitacos, será que vai querer também pretender “controlar” vida e independência de existências estelares? Ainda quero viver pra ver.

E aí tem lugar para falar sobre o que se entende por revelação. Será que a revelação não foi a expressão captada da expressão divina em determinados lugares, em determinadas culturas, com determinados padrões de pensamento e visões de mundo? A ideia de uma divindade estabelecida no céu que falasse só a determinado grupo de pessoas está passando de época. Esse desafio tem dado a possibilidade de melhor diálogo com outras religiões. Essa limitação de “exclusividade” de possuir e de ouvir Deus” está evoluindo. Imaginemos como, e o que estará para acontecer nos próximos vinte, cinquenta e 100 anos. Isso de “nós termos Deus do nosso lado, nós termos a verdade e vocês não têm, não irá acontecer mais. Percebemos que não podemos contar mais com a ideia de Deus só em nossas limitadas visões e mundo.

E ainda, como ficará a nossa percepção, no caso, quando ainda rezamos que somos “os degredados filhos de Eva”, segundo a bitola bem antiga, como é que eles poderão ser? Ou como seriam? Também “filhos de Eva”? Tenho a certeza que não, porque Eva não chegou até lá. No caso, para quem está longe da evolução da espécie humana, terá uma boa ocasião para aceitá-la. E eles, não sendo filhos de Eva, como serão as coisas sobre o pecado original? Será que os bispos da Santa Igreja irão ficar preocupados?

Ainda teremos que nos libertar de coisas como os dualismos: céu-terra; alma-corpo; espírito-carne; cabeça-coração; sagrado-profano; católico-protestante; cristão-pagão; divino-humano. Deus não está mais presente em um do que no outro. Se existirem seres como nós nos espaços estelares Deus estará tanto neles como em nós. E aí nós teríamos ocasião de uma nova reflexão e uma teologia sobre a salvação, e nos desligar bastante da limitação da nossa teologia relativa só ao nosso quintal desta pequena casa que é a terra, um pequeno grão de areia nos espaços infinitos. Temos que ir nos acostumando a pensar que formas de vida conscientes, pensantes certamente existem e podem se desenvolver em outro lugar. O nosso modelo de redenção limitou o pensamento cristão aqui, empacotando-o neste pequeno espaço. Agora nos damos conta de que não podemos conter a realidade de Deus em nossas limitadas visões do mundo, como num contentor. Temos que libertar nossa imagem de Deus da camisa de força em que foi formulada. Deus é Deus de mais de 400 bilhões de galáxias. Diz o autor M.Morwood que “o Papa não tem mais a presença de Deus do que o caminhoneiro ou a enfermeira”. Deus está tanto na cozinha como na catedral. “Em mim Deus fala, move-se, dança, compõe música ou escreve poesia, faz amor e cria vida, ri da imperfeição de tudo e chora por ela.” (O Cristão da amanhã, o.c.p.101). Na verdade, fomos criados na ideia de que a “divindade é uma realidade que existe somente “no céu”, e que a realidade que chamamos “Deus” existe em outro lugar. Enquanto que, como vimos na matéria anterior ela existe e pensa nas moléculas, nas articulações dos átomos e nos algoritmos, nos trabalhos dos laboratórios e nos trabalhos diários de nossas cozinhas e nas inteligências que distribuem nossas redes elétricas e de gás, e no trânsito emaranhado das ruas e avenidas das grandes cidades.

Conclusão. Ninguém nem nenhuma religião consegue capturar Deus nos seus contentores e controlar sua posse e sua presença, ou, quem sabe, levá-lo para onde “ainda não está”. Embora pareça o óbvio mas tem sido a tentação de muita gente e das várias religiões. Temos coisificado Deus, e tentamos sempre mais maneiras de coisificá-lo. Será que algum cientista ou religioso metido a cientista, ou cientista metido a religioso um dia pretenderá “levar Deus nas suas naves espaciais para lá, pensando que ele lá não está?

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 28 de agosto de 2023

O Deus ex máquina e o Deus na mente, na matéria e no espírito.


 

Tradicionalmente havia o dualismo antigo com raiz no maniqueísmo, da matéria má versus espírito bom. Porém, temos convivido com outro dualismo que é matéria de um lado versus mente do outro lado. Porém agora, na hora da física quântica, do robô e da Inteligência artificial (IA), somos convidados a ter e certeza de que a matéria tem mente, e a mente também está na matéria. Portanto, afirmamos duas verdades: Toda a matéria é boa, e: toda a matéria tem mente, ou seja, é inteligente.

Antigamente, a humanidade tinha a visão mecanicista do mundo e de Deus. Na visão mecanicista Deus estava fora do mundo e da matéria, como que sentado no trono em cima das nuvens controlando o mundo com uma varinha mágica e ele de fora da máquina só intervindo nas avarias da máquina. E foi forjada essa definição de Deus como "Deus ex machina". Hoje temos a visão holística: Deus está no centro de tudo. Deus não é, como na visão anterior mecanicista, como um Superinspetor fora da máquina. Deus era considerado totalmente distinto da criação, muito acima dela, "sentado acima das nuvens". Porém, já reparou que não há “acima” nem “abaixo”? Considerávamos Deus acima das nuvens, e considerávamos os japoneses lá em baixo do nosso planeta de cabeça para baixo. Mas eles vivem com a cabeça para cima igual nós, eles e os que estão do outro lado da terra, todo mundo e ninguém está de cabeça para baixo ou de ponta cabeça. Porque não há “em baixo” nem “em cima”. Quando os cientistas inventaram de trocar o coração, de implantar o fígado, os rins, ou o pulmão, onde encontraram Deus? Está aí mesmo. Quando inventaram de congelar os óvulos para serem usados por outro sémen depois de 10 ou 20 anos, onde está Deus? Aí mesmo. Quando fazem o bebê de proveta, ou noutra barriga de aluguel, quando inventaram o DNA para, de um fio de cabelo, identificar a pessoa, onde está Deus? Aí mesmo. Quando chegam à Lua, quando viajam na estação orbital onde encontram Deus? Aí mesmo. Agora estão controlando o “asteróide apocalipse” que ameaça cair sobre a terra, e mandaram a sonda Osíris-rex para tirar pedaços dele, onde encontram Deus? Aí mesmo. Quando tem milhares de bombas nucleares (atômicas) armazenadas no fundo do mar ou debaixo da terra a quilômetros de profundidade, onde está Deus? Aí mesmo.

No novo entendimento a mente não se limita a ser uma função consciente ligada apenas a um cérebro. A mente está ou existe em toda a matéria, e a matéria inanimada não é tão inativa no cerne de si mesma como estamos acostumados a pensar. Vejamos: A mente está presente na matéria e nas plantas, e animais e essa mente torna-se consciente em nós onde encontra um córtex cerebral que proporciona o pensamento e a consciência, assim como num interruptor, mas a inteligência já vem com ela. É assim que falamos que o cavalo, o cachorro, o gato, os pássaros, os golfinhos, as abelhas e as formigas, os chipanzés, têm inteligência. Veja só que uma cientista comprovou que as mamães golfinhos também usam voz de bebê para conversar com os filhotes. (Iti Malia, Instituto de Ciências dos USA, PNAS). E não só, os algoritmos, as células, os ions, e elétrons, têm inteligência, agora vamos ficar assistindo de camarote aos jogos e às manobras da inteligência artificial (IA), como já estamos assistindo com os Robôs. Onde está Deus? Ele está aí. Isto nos diz que hoje não podemos continuar a separar o mundo material em matéria inanimada, como fazíamos antes, e mente, como duas realidades separadas, nem ligar a mente somente com o que tem o córtex da consciência. Os cientistas da Física Quântica levam-nos a ver a mente e a matéria como aspectos únicos de um mesmo fenômeno. É mente-matéria. E onde Deus está? Ele está aí. Por isso encontramos, em toda parte, variedade, espontaneidade, mudança, crescimento, desenvolvimento, novas possibilidades, adaptabilidade e até desordem, que é o resultado da liberdade e de encontros casuais. É devido a isso que a ciência é fabricada pelo homem, mas o homem também é fabricado pela ciência, como o bebê de proveta e a transformação do DNA. A eletricidade foi descoberta por um acaso, o Facebook foi descoberto por um acaso. Imagine o que seríamos sem a energia elétrica e sem o Facebook e o computador. A tudo isso chamamos Interação. Imagine o que seria o mundo sem as abelhas, sem os cães farejadores nos terremotos, sem os algoritmos combinadores e modificadores de dados, sem a força magnética da energia contínua e descontínua, sem a inteligência das células manipuladas e transformadas pelos laboratórios. O que seria dos pacientes de câncer sem o tratamento radioativo com o qual se mantém o equilíbrio dos tecidos humanos. Imagine o agronegócio onde a máquina sabe a que profundeza está a raiz da planta e a do capim e vai salvar a planta e atacar o capim automaticamente. Imagine as suas rosas e flores no seu jardim onde a mesma terra produz a cor vermelha de uma flor, e amarela da outra e a branca de outra. Um perfume para uma flor, outro para outra flor. Um sabor para uma fruta e outro sabor para outra fruta. Onde está Deus? Ele está aí. O que seria o mundo sem o cachorro tão fiel e carinhoso e aquele que acompanha cegos e cegas pela rua, e os cachorros farejadores nos acidentes e nos escombros? O que seria do mundo esportivo ou do trabalho sem a inteligência do esbelto cavalo? Sem a passarada que imita todo tipo de fala e cantares? Onde está Deus? Ele está aí. Devemos então não separar o mundo material em matéria inanimada e “mente”. É “mente-matéria”, é Física quântica, é fé integradora. Quando meus pais e meus irmãos e irmãs dizem que me amam e me alimentam, eu sei que neles está a realidade de Deus que neles recebeu forma humana. Os antigos queriam manifestar essa forma da presença de Deus dizendo que Deus estava no trovão, no relâmpago, numa pomba, num fogo. Eram metáforas e comparações. Porém, alguém te dá um prato de comida, um abraço, você sente que ali está a presença encarnada de Deus. Você não ouve Deus falar com seus ouvidos, te abraçar com seus braços. Você precisa de um corpo para fazer sons. Deus precisa o seu corpo para fazer isso. Deus pega o seu corpo para falar, para fazer poesia e escrever música e “para fazer amor” (M.Morwood). Já lá vai o tempo em que se afirmava o domínio humano sobre o restante da criação, e quando podíamos fazer com o mundo material o que quiséssemos. Hoje nos damos conta de que não somos “senhores” da natureza, mas somos unidos aos sistemas de vida da Terra e somos totalmente dependentes dela. Essa Natureza faz parte de nossa vida e é a nossa vida, e nós somos a vida dela. É uma interação do coração e de mente.

Um átomo precisa sua autodeterminação para fazer o seu trabalho. Veja quando se juntam miríades de átomos, alguma coisa que pode acontecer é o que chamamos o acaso. Outra coisa é a manipulação dos átomos. Esse “acaso” fica controlado e guardado numa caixa, como fósforos. É o que se chama a “bomba” e espera o momento ou a ordem para explodir. Isto acontece também na natureza, os átomos se encontram em caixas naturais, e encontram uma fuga e acontece o vulcão, ou o tsunami, ou o terremoto. E onde está Deus? Ele está aí. Há maneiras para interagir e colocar aí a mente humana? Há. É a ciência da previsão dos vulcões, há maneiras de pressentir os tsunamis e de prevenir os terremotos. E maneiras dos prédios com colunas sanfonadas. As duas inteligências têm feito progressos, só que a mente humana muitas vezes fica preguiçosa, ou gasta mal os recursos e não faz o dever de casa, não faz as necessárias previsões científicas e recursos econômicos, e o respeito pelas pessoas.

Conclusão. O homem antigo era ainda criança. Para ele era Deus que fazia tudo sozinho como o controlador da máquina do mundo. Com o tempo o ser humano cresceu como adolescente e como adulto. Agora a visão dele é segurar a sua vida e a vida do mundo de que faz parte, com suas próprias mãos e inteligência. Como dizia o autor do Livro “Honestos com Deus” (Honest to God): “Viver em Deus sem Deus”(J.Thomas Robinson). Como o filho quando cresce: “viver dos pais sem os pais”. E onde está Deus? No que o homem pensa, no que planeja e no que ele faz.

P.Casimiro João  smbn

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segunda-feira, 21 de agosto de 2023

O divórcio da teologia com o tempo e os tempos civis e culturais.


 

Onde há divórcio é porque houve casamento. E às vezes o divórcio é doloroso e precisa coragem para que aconteça. E não é questão de conveniência, mas de sobrevivência.

A Igreja trazia com ela o casamento com o mundo antigo, mítico, mágico, dualista, maniqueísta, imaginativo. Esse mundo hoje já virou a página, e hoje é um mundo científico, unitário, e realista. Este mundo vinha se gestando por meio das novas filosofias e cosmovisões desde o séc. XVI e irrompeu no séc. XVIII com o Renascimento, e trouxe no seu bojo o Iluminismo, a filosofia da razão, a nova Psicologia, a Psicalálise, a Astrofísica e  a nova Cosmologia e Antropologia. Já falámos nesta matéria em outros temas, mas agora devemos aprofundar a questão, que nos leva ao diagnóstico da doença que causou o choque da Igreja com a modernidade nos séculos XVIII e XIX. Este choque de duas visões de mundo em andamento causou traumatismo no corpo da instituição eclesiástica. Já houve cuidados médicos e reanimação de membros, mas, quem sabe, ainda restam sequelas e canais do organismo onde o sangue novo ainda não chegou. Estou me referindo mormente à nova cosmologia e à teoria da evolução  e em especial à troca do Criacionismo ancestral pela teoria da evolução cósmica e das espécies. Quando falamos de criacionismo falamos dos mitos babilônicos, sumérios, persas e zoroastristas, e masdeístas da primitiva história. Aquele criacionismo segundo o qual se formou o aparecimento dos homens do sangue do deus Marduk que nas guerras entre os deuses foi derrotado, caiu na terra e do sangue dele foram formados os homens pelos deuses aqui de baixo, sangue amassado com o barro da terra. E nessa onda se inspiraram os primeiros autores de Bíblia para se aproveitarem dessa história trocando o sangue pela água amassada com o mesmo barro da terra. Esta é a teoria do Criacionismo clássico e bíblico, segundo o qual o resultado desse trabalho de oleiro deu origem a um casal que depois gerou a pouco e pouco a humanidade. E nesta geração, deixada só a cargo do “primeiro casal” geraram-se os problemas e mitos subsequentes como este: a relação sexual do primeiro macho com a primeira fêmea tornou-se a causa do sofrimento do mundo porque eram matéria. A relação vinha da matéria e não do espírito, e dai vinha o mal pro mundo. Porquê? Porque formou-se uma doutrina que a matéria não tinha sido criada pelo deus chefe mas pelo deus que caiu derrotado, e esta matéria má passava em todas as relações sexuais. Como não podia ser infeliz e pecadora a humanidade pensada deste jeito. Estas consequências do velho criacionismo passou para o Novo Testamento, para a primitiva Igreja, para a primitiva fé e a primitiva teologia. Durante os primeiros Mil anos, e em toda a Idade Média reinou esta teologia, que devia chegar até a Idade pre-moderna e Idade Moderna. Com a Idade Moderna chegou a teoria de Evolucionismo e da nova Cosmologia segundo as quais a Criação dos astros, do Cosmo, da Terra, dos seres vivos e dos seres humanos resultou da primeira explosão nuclear do Big-bang há 15 bilhões de anos atrás, e com intervalos de bilhões e milhões de anos surgiram, por novas explosões, os bilhões de galáxias, estrelas, planetas, o Sol, a Terra, as plantas, os dinossauros, todas as espécies de seres vivos vertebrados e invertebrados, e o ser humano. Tudo isto, todo este pacote, incluído no chamado Iluminismo que surgiu no Renascimento no séc.XIX. A Igreja, sendo pega de surpresa, sofreu um trauma. E num exame laboratorial um biólogo religioso, historiador, investigador e teólogo, fez o seguinte relatório e diagnóstico: “Não nos surpreende que a autoridade da Igreja resistisse tão fortemente a esse entendimento científico do desenvolvimento da vida. Grande parte da teologia cristã dependia de uma visão do mundo que afirmava terem os seres humanos vindo ao paraíso e que as coisas deram errado por causa dos seres humanos. O que acontece agora quando somos confrontados com provas esmagadoras de que desenvolvimento, morte, desastre e revolução eram partes essenciais da existência deste planeta milhões e milhões de anos antes que os seres humanos entrassem em cena? O que acontece quando alunos do Curso fundamental são educados para uma visão do mundo totalmente diferente  e aprendem, por exemplo, que os dinossauros foram extintos mais de sessenta e três milhões de anos antes que os seres humanos viessem a existir? O que acontece quando as imagens de Deus que estavam tão entranhadas em nós, que ainda tanto fazem parte de nossa maneira de pensar e prática religiosa são postas em dúvida por modos diferentes de ver e criação, o universo, a realidade?” (Michael Morwood “O católico de amanhã”, Paulus, pag.32-33).

Falamos que a teologia das Igrejas nasceu com a letra dos inícios cosmológicos milenares primitivos, tanto a pagã quanto a “bíblica” até aos nossos dias. E esse casamento ainda perdura. Será preciso um tempo enorme pelo menos tão grande como essa teologia tem perdurado até que dê lugar a outra, mais de outros 2.000 anos pra frente. A não ser que na Igreja e nas Igrejas haja um “tsunami” para que esse divórcio possa se concretizar. Estou falando do divórcio da teologia com essa cosmologia antiga para o casamento com a nova cosmologia. Porque na verdade esta ideia está ainda no Catecismo, na liturgia, no CIC, na compreensão e expressão dos sacramentos, orações litúrgicas e na piedade e religiosidade popular tradicional., nas pregações e modus vivendi. Faz parte do sangue das religiões. Sempre há um receio do Novo. Pelo contrário, a nova cosmologia e sua visão do mundo não são ameaça ao cristianismo, pelo contrário, irão alavancar o cristão para uma fé madura, responsável e adulta. Não sem motivo a pergunta de M.Morwood a respeito: “Não poderiam, e não deveriam o Catecismo e a liderança de Igreja em todos os níveis tentar nos libertar de imagens de Deus e de um entendimento de Jesus que são dependentes de uma visão antiquada de mundo? Não poderia e não deveria a liderança da Igreja adotar a realidade da cosmologia contemporânea e ajudar os fiéis a fazer o mesmo?” (o.c.p.35). Concordo com você, caro Morwood, mas aconselho a ter paciência, e paciência de 1.000 anos, e se não bastar, mais 2.000 e tantos outros anos mais, mas esse tempo vai chegar.

Conclusão. Concluindo, estes receios estarão patentes da lentidão que refiro, como esta: Não será o medo de que os novos conhecimentos possam abalar padrões de pensamento religioso enraizados em todos os níveis dos crentes? Seria uma grande pena que esse medo dominasse. Na verdade, afirma Diamond O. Murchu: “é da essência do futuro ser perigoso”. Mas novos conhecimentos precisam ser incorporados urgentemente a nossa visão religiosa do mundo, para não continuar na visão das estórias da Branca de neve e Alice no país das maravilhas.

P.Casimiro João    smbn

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segunda-feira, 14 de agosto de 2023

A pérola, o tesouro, e o Reino dos Céus.


 

Talvez algum rico tenha vivido só com sua riqueza sem nunca ter experimentado a alegria de viver a partilha com mais pessoas. Ou talvez ele, com menos coisas mas começando a conviver com os outros, experimentou a experiência dessa felicidade  da partilha: isso é o Reino dos Céus, ou o Reino de Deus.

Numa parte do evangelho é falado assim: “O Reino de Deus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra, e vendendo tudo, compra aquele campo” (Mt. 13,44). Pode até não se tratar de vender, mas de ficar com menos coisas, quem sabe, num acidente, num incêndio, numa enchente, ou numa Partilha voluntária. É que a pessoa, do nada, viu-se com uma multidão de gente mais igual a ele que perderem também metade ou mais daquilo que tinham. Mas ai veio aquela experiência de se sentir irmão com aqueles irmãos, com menos coisas mas mais com Deus e com muitos irmãos, sentindo-se uma nova família, e com Deus no meio. E ainda essa pessoa partilhando com os outros o que tinha. Qual é o tesouro? É esse de se sentir família e sentir Deus mais perto e se sentir mais irmão do ser humano. Essa é também a pérola de maior valor do que ficar se sentindo rico sozinho. Porque depois da citação do tesouro escondido, o mesmo trecho diz que o Reino dos Céus é como um achador de pérolas preciosas, e encontrando uma de grande valor vendeu tudo para comprá-la. Em ambos os casos podemos imaginar que esses que “venderam” para adquirir o “tesouro” e a “pérola” são os mesmos que aceitaram partilhar os bens que têm com quem não tem. O “Reino dos Céus“ é uma das chaves do evangelho. E é justamente a partilha, a solidariedade que são essas chaves do “Reino dos Céus”. Notemos que o evangelho de Mateus fala em "Reino dos Céus" e os outros em "Reino de Deus" porque o evangelho de Mateus era dirigido para Judeus, e eles não pronunciavam facilmente o nome de "Deus", então diziam "Reino dos Céus" em vez de "Reino de Deus" por respeito ao nome de Deus. Temos outra cena no evangelho paralela com estas, a cena do “jovem rico”. Um dia propôs-se seguir Jesus. Jesus porém deu-lhe uma condição: “Partilhe com os outros”. (Mt.19,16-30). Ele não aceitou a proposta, e como resultado o evangelho acabou dizendo:” Foi embora muito triste, porque possuía muitos bens”. Se aceitasse a partilha estaria no caminho do Reino de Deus; recusando ficou fora e ficou sozinho com sua riqueza e sua tristeza. É portanto uma cena paralela com estas do “tesouro” e da “pérola”.

Faleceu há pouco o senhor Charles Chuck Feener, o bilionário da empresa Duty Free Shoppers (DFS), bilionário que “distribuiu sua riqueza para não morrer rico”. Quando tinha 10 anos vendia cartões de Natal nas ruas de Nova York. Frequentou a Universidade nos programas de Cotas semelhantes às do Brasil. Quando se formou fez parte do exército, e no final fundou a empresa para vender fardas para o exército e tornou-se bilionário. Ele tinha um lema que era: “As pessoas devem alimentar a ideia de usar parte dos seus recursos para melhorar a vida de seus semelhantes”. E ele assim fez. Passou 40 anos fazendo o bem anonimamente percorrendo o mundo para conhecer onde e quem precisava mais da sua partilha, doando nessas viagens mais de oito bilhões de dólares, i.é, 45 bilhões de Reais. Até por isso ganhou o nome de “James Bond” do bem. Também pode se chamar o “samaritano moderno”. Quando morreu vivia com sua esposa num apartamento de dois quartos e possuíam um único carro popular para seu uso.

Conclusão. As características que definem o Reino de Deus são a partilha e o serviço aos outros.(Mc.10,45). Os estudiosos afirmam que o “reino de Deus” para os Judeus e para Jesus era o reino onde Deus mandaria aqui na terra com distribuição de justiça e abundância para todos, i.é, a escatologia e o fim das coisas que estava para chegar e sempre esperada. Resumido na palavra "shalom". Com o tempo, e porque nunca chegava, é que foi tomando a conotação da vida eterna, coisa que não estava nas cabeças daquele tempo.

P.Casimiro João  smbn

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