segunda-feira, 28 de outubro de 2024

TUDO DITO E TUDO AINDA POR DIZER NO CRISTIANISMO

Na convicção popular geral, há duas certezas inconscientes: a primeira é que o que sabemos do mundo nada tem que mudar, e achamos que já sabemos tudo; segundo, sobre a fé é a segunda convicção solidificada pelo que pensamos saber tudo, e nada mais há para conversar. O máximo é pensarmos que algumas novidades que a gente escuta fora do nosso entendimento desde meninos e meninas é tido como brincadeira ou coisa de quem não tem mais que fazer ou que dizer. E nos respaldamos nos WatsApps que nos escoram na mesma mesmice do que aprendemos nos primeiros bancos da escoa e da catequese. O resto consideramos como perda de tempo. Por outro lado, quer uma coisa quer a outra nos petrificam e viramos fósseis de nós mesmos. Quando nos satisfazemos só nos slogans da Terra criada em 6 dias e no primeiro “casal” da humanidade e nos identificamos com o nosso signo baseado nos astros ficamos como se fôssemos pessoas que viveram há 1.500 anos. Mesmo que sejamos donos de um celular da última geração, porque isso não muda a nossa cabeça só muda a nossa relação com a velocidade das inutilidades. E a nossa formação continua desinformação que nos desinforma. E semelhantemente quando paramos na questão da fé daquilo mesmo que quando fizemos a 1ª comunhão estamos também com a cabeça de um cristão de há 1.500 anos. E com a agravante que os Vídeos e Youtubs que surgem nas redes sociais têm como finalidade: de nos acorrentar no mesmo nível arcaico e obsoleto porque para eles interessa não avançarmos mas frear na mesma mesmice de criança de há 1.500 anos. Exemplos temos de sobra: um Malafaia, um Edir Macedo, um Nikolas, e uns Freis que só têm um objetivo: frear o conhecimento do cristão. É que “crescer” custa. Há uma atitude nos humanos que nos paralisa e impede de crescer: É nos agarrarmos à nossa segurança, à nossa zona de conforto. E nos incomoda sair ou duvidar dessa situação. Erick Fromm fala do medo do novo. Todo o diferente do que aprendemos é uma ameaça à nossa segurança. Devido a isso também temos medo de conversar com o diferente, aquele que pensa diferente da gente. “Todo diferente é uma ameaça. Os que estão fixos nos significados antigos resistem a qualquer releitura impedindo que as futuras gerações entendam a mensagem. Esse medo reside numa insegurança fundamental individual e coletiva” (E.Fromm, O medo à liberdade, 1960, in Libanio, “Olhar para o futuro” 2003,p.37). Na página anterior falámos no início embrionário da fé da humanidade e comparamos com o desenvolvimento lento e progressivo do embrião intrauterino. Esse inicio embrionário também é chamado de Teísmo. É concepção teística de Deus, atribuindo tudo a Deus, como quando o embrião depende de tudo da genitora-mãe. “Antropologicamente, a origem da concepção teística depende do processo evolutivo. Quando surge o ser humano, automaticamente, ele sente tremenda necessidade de se segurar nalguma coisa fora dele. Segundo Freud, experimenta-se então um “trauma de consciência”, faz-se uma experiência de crescimento histórico. É o “despertar religioso”. Todas as religiões tiveram esse componente como “termostato” para sair daquela dor de parto. Buscando então um deus protetor, conquistando-lhe a confiança e afastando-lhe a ira. O processo dessa religião embrionária que os técnicos chamam de teísmo foi criado pela consciência humana atemorizada diante de todos os medos em busca de proteção. É uma construção humana. Não é idêntico a Deus. Mas estratagema criado pelo homem para atravessar a aurora da descoberta da sua consciência” (Libanio, o.c.p.89-90). Esta concepção de teísmo marcou toda a tradição cristã. Influenciou os autores do Novo Testamento, em sequência dos mesmos autores do A.T. como mais primitivos ainda. Vejamos o que diz o teólogo Libanio: “A concepção teista de Deus interpretou, já desde o N.T. a Jesus Cristo teisticamente. No desenrolar do N.T. os textos, à medida que vão sendo escritos se tornam mais teístas. Há um núcleo sobre Jesus Cristo anterior ao teísmo, mas aos poucos foi sendo interpretado nesse horizonte, para terminar no Evangelho de João com a preexistência, passando pela concepção virginal de Maria. Todas essas formulações teísticas são, portanto, incompreensíveis para as pessoas de hoje. O crescimento do Jesus “maravilhoso” que tanto entrou no mundo de modo miraculoso – encarnação, concepção, e nascimento virginal – como fez milagres, é o preço teístico da leitura de Jesus. Cabe despojá-lo dessa veste, apresentando nova compreensão dele, como um ser humano que faz conhecido, visível e imperativo, o Fundamento de Todo Ser (Deus). Em Jesus encontramos alguém que pintou o retrato de uma nova humanidade e convida as pessoas a caminharem nessa direção. A tradição dogmática da Igreja fixou a concepção teística. Não foi uma concepção errada, mas para um tempo, e hoje não serve.” (o.c.p.90-91). A linguagem da fé tornou-se frequentemente fixada numa cultura e num universo simbólico determinado. Quem se afasta deles esbarra com sua incompreensibilidade. A própria linguagem teológica anterior desgasta-se. Por isso a linguagem teológica necessita de permanente atualização. E a atualização tem que acompanhar a atualização psicológica, antropológica e cosmológica da humanidade. “Quando eu era criança entendia como criança” (1 Cor.11,13) já falava o Paulo. Este crescimento acompanha todo o desenrolar da história. A humanidade tem momentos de muita lucidez, e como o despertar de um sono profundo. E quando desperta tem um sonho. E, como disse Raul Seixas: “sonho que se sonha só é um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade”. E vira caudal de um rio que rompe as comportas das maiores represas do mundo. Um momento desses foi o ano de 1789 com o evento da Revolução francesa. Aqui, na revolução francesa, houve uma experiência profunda e coletiva do valor da razão humana e das liberdades humanas e dos Direitos Humanos. E aí se gerou uma revolução, começando por uma revolução física, para que tivesse lugar a revolução integral, porque os “poderes” antigos resistem sempre às forças novas. E, como é inútil botar remendo novo em pano velho, o pano velho tinha que se rasgar. Mas foi o preço para que o pano novo viesse, e veio para ficar. O historiador R.Remond falou de absurda oposição entre direitos de Deus e direitos humanos, como se opostos fossem. Nessa data escreveu também G.Faus que “Gregório XVI não entendia nada do mundo moderno, o qual ele recusava em bloco”. A encíclica “Mirari” nos revela enorme ignorância: repudiando a “liberdade de consciência”, chamando- de “pura loucura” e erro pestilento”, e chamando de “monstro” a liberdade de imprensa” (G.Faus em Libânio,o.c.p.77). Não admira que as consequências chegassem em 1240 com Inocêncio IV que decretou a tortura e a pena de morte na Igreja. Por isso o historiador Remond constata que na Europa o catolicismo se tornou para os intelectuais como perigoso para a liberdade do espirito e do indivíduo, e como ameaça para o exercício da razão crítica. E daí que se desenvolveu uma cultura de desprezo em ralação ao catolicismo no séc.XIX. “A linguagem teológica e muitas práticas pastorais ainda atualmente em curso no mundo cristão estão impregnadas do imaginário social religioso pré-moderno” (Libanio, o.c.p.82).

Conclusão. Reportando-nos ao nosso título: No cristianismo tudo dito e tudo ainda por dizer, constatamos duas coisas: a primeira é que o dado fundante da revelação precisa sempre se tirar a poeira que se amontoa pelo tempo, com o detergente da crítica das gerações que releem, limpam e interpretam para as novas linguagens, culturas e gerações; a segunda é que a revelação ela é dinâmica e juntar-se a ela vêm as “revelações” cosmológicas, antropológicas e de experiências que surgem com novos horizontes, como a experiência dos Direitos Humanos que vieram na carruagem do Iluminismo do séc.XIX. Portanto a humanidade cresceu desde o “despertar religioso”, embrionário, até chegar a uma consciência atualizada do nosso século. “O cristianismo, se é uma religião do livro, não o é, porém, de modo fundamental. Em Jesus Cristo tudo está dito e tudo ainda está por dizer” (Valadier, apud Libanio, o.c.p.32).

P.Casimiro João      smbn

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segunda-feira, 21 de outubro de 2024

VIVER EM DEUS SEM DEUS COMO SE DEUS NÃO EXISTISSE.

 

Esta afirmação é de Dietrich Bonhoeffer, teólogo luterano, morto no campo de concentração nazista da Alemanha. Foi parafraseada pelo sacerdote, teólogo e filósofo jesuíta Roger Lenaers nas suas publicações, e leva-nos ao simbolismo do desenvolvimento da criança para o adulto, e à evolução da humanidade  desde os primeiros humanoides até hoje. Vamos ao primeiro item, que são as fases do desenvolvimento da criança. A primeira fase: desde o embrião até o feto, esse ser faz uma só coisa com a genitora mãe. O elo de ligação é abrangente mas concretizado num ícone  vital que é o cordão umbilical. O cordão umbilical é o elemento físico e biológico da alimentação, mas todo o ser intrauterino se alimenta psicoefetivamente e emocionalmente  do total do ser materno. Sem a mãe não poderia ir em frente na vida. O “eu” ainda não funciona e não tem consciência de si. Tudo é dependência da mãe genitora. É a primeira fase do ser humano. Passamos para a segunda: o corte do cordão umbilical onde a criança ganha 5%por cento de sua independência física e emocional, e onde se vê o primeiro grau de independência, a qual não é 100% por cento mas 5% por cento. Passamos para os três anos de idade, onde a criança está exigindo e cobrando andar sozinha e afasta o braço da mãe genitora quando quer controlá-la. É a segunda fase do corte do cordão afetivo e emocional. É nesta fase que os cientistas dizem que a formação da cabeça da criança é de três quartos. E vem a terceira fase dos 13 aos 16 anos quando acontece o exercício da autossuficiência e da independência. Daí a pouquinho o(a) adolescente ou jovem diz tchau papai, tchau mamãe, agora vou viver a minha vida, fiquem com Deus. É a quarta fase e definitiva. Chegou quando o homem e a mulher assumem família, profissão, e compromissos sociais, econômicos e políticos. Antes tinham muito em conta os pais, agora vivem dos pais, i.é das heranças dos pais que carregam na sua pessoa e na sua ideossincracia mas sem os pais e como se os pais não existissem. E neste triângulo biológico o referido teólogo D.Bonhoeffer se firma para elaborar o nosso triângulo fiducial de cristãos: “viver em Deus sem Deus como se Deus não existisse”. Esta reflexão tem sua extensão nas explicações das várias formas de fé dos cristãos, como nas as várias formas de fé dos primitivos humanoides, e comecemos por eles, coisa de fenomenologia das religiões. Senão vejamos. As religiões começaram sendo como o elemento embrionário do feto e do embrião, em que tudo é a genitora e nada faz sem a mãe genitora. Os primeiros humanoides e os primeiros bíblicos colocaram isso na Bíblia. Era Deus que fazia tudo e sem Deus não faziam nada: era Deus que ganhava as guerras, e era Deus que perdia as guerras; era Deus que castigava, era Deus que fazia a chuva e o trovão e o relâmpago, que separava as águas dos mares, que fazia as doenças e as tirava... Esta era e a fé de embrião e de feto intrauterino. Isto está no início de todas as religiões e da religião bíblica. Ficou no A.T. desde a primeira página até à última, e com isso estavam lidando e passando para as nossas gerações uma fé de embrião e de feto. Daqui só podemos passar para uma segunda fase do corte do cordão umbilical emocional na fase após a Idade Média quando a humanidade começou a pensar com a sua própria cabeça dizendo “tchau” aos reis e aos Papas. Foi a idade da independência da razão, chamada de Iluminismo e do Renascimento, no século XVIII. Foi quando a humanidade ficou adulta e pensando com sua própria cabeça. A duras provas a Igreja aceitou, porque seguia a atitude dos pais quando veem os filhos crescerem e tornarem-se independentes e adultos, deixando a sua “saia” e o controle dos pais para trás. Mas finalmente depois do choro, a Igreja aceitou isto na sua doutrina. E finalmente a terceira fase, esta expressa pelo teólogo citado quando elaborou toda a situação e resumiu na frase lapidar do nosso título: “viver em Deus sem Deus como se Deus não existisse”. Reparemos bem o sentido das conjunções: “em”, “sem” e “como se”.  Finalmente, a modo de

Conclusão: o que vimos de desenvolvimento do embrião e do feto, continuando com a evolução da humanidade, não se aplicará também à fé do cristão, minha, e sua? Aquela fé que acha que “Deus tem que fazer tudo”, e se lamentado “Será que a mão de Deus não é a mesma? (Sl.77,9); que “sem ele você não faz nada”, que tem que fazer milagres a nosso pedido”: isso não é igual ao embrião e ao feto, e mais adiante à criança “mimada” para a qual o pai e a mãe tem que “fazer tudo” para ela, sempre dizendo: “Deus, faz para mim”? Onde está o crescimento do cristão adulto que vive “em Deus, sem Deus, como se Deus não existisse”? O exemplo é, como explicado no embrião e no feto que dependem 100% da mãe genitora, depois na independência crescente da e do adolescente, e finalmente na total independência do adulto, que vive "em" os pais, "sem" os pais, "como se" os pais não existissem.

P.Casimiro João      smbn

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segunda-feira, 14 de outubro de 2024

CHARLATANISMO RELIGIOSO E FILSOSÓFICO EM QUE SE DESENVOLVEU O NASCIMENTO DO CRISTIANISMO.

 

Era um período muito agitado por um fervilhar de filosofias e de filósofos ambulantes aquele período imperial do séc.II depois de Cristo. Para não omitir o conteúdo e para não parar o fôlego da leitura vejamos na íntegra esse ambiente surpreendente escrito por um especialista: “Muitos filósofos deixaram as escolas e foram às praças e mercados e às ruas da cidade. Eles se diziam “filósofos” mas era difícil saber se um homem que que oferecia sua sabedoria na rua era um deus, um mágico, apóstolo de uma nova religião, ou um sábio do futuro. O exército de missionários e filósofos  ambulantes transformou-se numa legião. Competindo uns com os outros, eles anunciavam sua arte para atrair discípulos, superavam-se uns aos outros em demonstração de poder, e não eram de forma nenhuma avessos a tirar dinheiro das pessoas. Essas competições ocorriam, aliás, no seio do mesmo movimento religioso. Inclusive o próprio Paulo, para qualquer lugar que ele se dirigisse, ele sempre se defrontava com outros pregadores cristãos que procuravam superá-lo com suas apresentações. Filósofos pagãos, cristãos e judeus dessa natureza não se dirigiam às camadas educadas, mas às pessoas comuns, isto é, a quem quer que encontrassem na rua. Além do discurso público em que o orador dava tudo de si, demonstrações de poder sobrenatural eram um instrumento importante de propaganda. Milagres eram realizados não somente por missionários cristãos mas também por pregadores judeus, filósofos neoplatônicos e por muitos outros professores, médicos e magos. Toda a escala de feitos miraculosos de poder era em geral usada, de truques de magia a predições do futuro, desde horóscopos até á cura de doenças, até à ressurreição de pessoas mortas. Nos círculos a que esses filósofos de mercado se dirigiam, o poder da palavra e a magnitude dos milagres exerciam efeitos mais decisivos do que a profundidade da mensagem racional, moral e religiosa. Poderes astrais tomavam o lugar dos velhos deuses; novas divindades atraíam mais do que doutrinas filosóficas; forças demoníacas explicavam melhor o mundo do que o conhecimento científico. Regras morais simples de comportamento orientavam mais do que conteúdos psicológicos. A solução de problemas pessoais urgentes mediante artimanhas mágicas era aceita com mais disposição do que as exigências de reforma social. Era difícil traçar uma linha clara entre o impostor  e o missionário sério. O que mais facilmente atraía as pessoas eram fenômenos ocultos, visões e êxtases, exorcismos e conjurações, milagres e magia. Os papiros de magia relatam as práticas mais diversificadas para controlar o “poder” e para receber predições e revelações: manipulações de água e luz, conjurações de pessoas mortas, de espíritos de deuses, e a manipulação habilidosa dos meios de comunicação. Práticas ocultistas podiam até invadir escolas filosóficas. Relatos informam que Jâmbulo levitava durante a oração, e que Proclo ficava envolvido no meio de raios de luz enquanto apresentava seus discursos. Uma filosofia usava rodas mágicas para falar com os deuses; e conhecia direitos mágicos para fazer chover” (Helmut Koester, Introdução ao N.T. vol.I §6 p.360-361). Não dá para segurar certamente o fôlego para tentar adentrar no ambiente daquele séc.II onde se desenvolvia o primitivo cristianismo com todas as consequências que daí derivam, querendo ou sem querer, deste tsunami de filosofias, conjurações, magias e milagres que entraram no cristianismo. Por isso afirma o mesmo autor: ”Para apresentar sua mensagem o cristianismo precisava entrar neste debate seguindo as leis da oferta e da procura do mercado” (o.c.p.361).  Ou, como diz o ditado brasileiro, “dançar conforme a música”. No meio de toda essa competição por verdades e novidades, e novas religiões entrava também o cristianismo. Não seria daí que o autor de Apocalipse colocou Deus num carro de fogo, com rodas de fogo,  e cercado por  um mar de fogo, no Apocalipse?(Apoc.4,1-7). Damo-nos conta dos métodos descritos: ressurreição de  mortos, curas mágicas, feitos miraculosos de poder, competindo uns com os outros. Forças demoníacas e solução de problemas pessoais urgentes. Eram as ofertas ora de uns ora de outros. E o que mais facilmente atraía as pessoas eram fenômenos ocultos, visões e êxtases, exorcismos e conjurações e milagres e magia. De tudo isso um pouco ou bastante os pregadores cristãos também teriam usado, porque teriam que usar dos mesmos métodos para serem ouvidos, e oferecer o produto “segundo a lei do mercado”.

Conclusão. Veja bem como esses métodos continuaram: a Igreja católica viu nisso um recurso sobremaneira importante na escrita das biografias dos Santos onde se fazem milagres sem conto colocando essas figuras não mais como humanas como seres divinos. Assim como nos escritos do Novo Testamento. E nas Igrejas protestantes, que continuam assumindo o mesmo ambiente nas pessoas dos Malafaias, dos Edir Macedos e Cia que continuam com as mesmas habilidades mágicas. E pense em pastores que vão de encomenda convidados para grande palanques com “falsas profecias”, “revelações”, com “conjurações de pessoas mortas, de espíritos e de deuses, e manipulações habilidosas dos meios de comunicação, justo como na época descrita. Só falta subir nos ares, ou levitar, como o Jâmbulo, e se colocar no meio rodas de fogo mágicas para falar com Deus.

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 7 de outubro de 2024

ATACAR PESSOAS DA MESMA FÉ, ENTENDA O QUE É.

 

Atacar pessoas da mesma fé, só por discordar da sua explicação e que consideram opostos à verdade conforme eles a veem, e que divergem da verdade “deles”, não é cristão e nem humano. Chegam até a chamar os outros de “anticristos”. (1 Jo,2,18; e 2,22). Estamos falando das elites de ontem, de hoje e da há muito tempo. No início do cristianismo chamavam-lhes de “anticristos”; hoje chamam-lhes de “hereges”. Porém, hereges de ontem hoje podem não ser mais, como no caso de Pelágio que discordava de Agostinho sobre a teoria do pecado original, no séc.IV. E também quanto aos Iluministas do séc.XVIII quando o Iluminismo foi condenado e hoje está em voga. Dentro disto estão também os pedidos de “perdão” dos Papas João Paulo II e Papa Francisco, (em 2000, 12 de março; 2001,02 de abril) e 2006 e 2015 respectivamente. Mas como pode isso acontecer, se até, por outro lado, o próprio evangelho viu-se em apuros para explicar o que é o “Reino de Deus” e a “pessoa de Jesus”? Vejamos: “Com que se parece o Reino de Deus? Com que hei de compará-lo?” (Lc.13,18). E também: “A que podemos comparar o Reino de Deus? O Reino dos céus é como”. “Como” não explica, só dá uma comparação. “A que podemos comparar?” Não denota uma certeza mas uma procura. E o que nos surpreende: na resposta de Pedro à pergunta de Jesus “quem sou eu” há duas atitudes opostas e contraditórias: Primeiro, que Pedro foi “inspirado” pelo Pai do Céu”; (Mt.16,18).  segundo: que foi “inspirado por Satanás, afasta-te de mim satanás” (Mt.16,23). Na história do cristianismo, tudo o que temos são textos. E todos os textos são produção de elites. Teólogos fazem teologias, às vezes eles são considerados Santos, e como tal logo ganham créditos para o reconhecimento e o aval das elites da Igreja. Logo à frente alguém faz outra teologia, que devido ao tempo, pôe a outra teologia fora de época ou fora da validade de prazo. E tem acontecido. Para trazer só o exemplo de duas teologias que eram os pilares do A.T., o sábado e a circuncisão que dependiam de duas teologias. E quem pelejava para manter a teologia antiga? As elites. Mas, como o evangelho diz, quando se foi costurar remendo novo em roupa velha, estourou a roupa velha. E com Jesus acabou a sacralidade sagrada do Sábado, e a nova teologia de Paulo acabou com a sacralidade da Circuncisão. No N.T. vimos na página anterior que a teologia de Agostinho impulsionou na Igreja o azáfama do batismo como a coisa mais urgente e importante da Igreja. Há pouco tempo teologias abriram novos caminhos para libertar as consciências e decidirem que o mais importante não é o sacramento mas a palavra de Deus que dá suporte ao sacramento, incluindo a comunidade. E a mesma coisa quanto à Eucaristia, como diz o documento do Papa Francisco “Alegria do Amor”, N. 185. Para confirmar isto vou colocar uma reflexão meio difícil: Há alguma diferença entre o “ensinamento” de Jesus e a “teologia” da Igreja? A.Bultmann diz que a teologia começa como reflexão da fé em Jesus, e não no seu ensinamento e autoconhecimento de Jesus: “O cristianismo está enraizado na fé de que Deus agiu por intermédio de Jesus, não de que Jesus reivindicou status divino” (Cf. em Robin Scroggs, O Jesus do povo, Paulus, 2012, p.13). Explicando: no início uma preocupação dominava: era de colocar Jesus acima de todas as realidades terrestres, à semelhança de como faziam os “filósofos e pregadores de mercado” que traziam suas filosofias e religiões como a coisa mais inovadora, colocando deuses no meio do fogo, usando todas as magias de curas, de ressurreições de pessoas, e os adoradores em rodas mágicas de fogo para falar com os deuses. Assim eram imitados pelos escritores cristãos, que por isso mesmo abstraíam de um Jesus  humano que viveu em Nazaré. Até porque, como afirmam os historiadores, naquela época dos escritos sobre Jesus ninguém tinha conhecido Jesus pessoalmente, para a maior parte Jesus era uma pessoa lendária de que só ouviam falar, e de quem a grande maioria nem tinha ouvido falar. Em resumo: descrevendo um Jesus glorioso nos céus sem ter passado pela terra, esquecendo o Jesus histórico da terra. Este foi o trabalho das elites, como referi, e a teologia das elites. Porém, agora existe um movimento contrário. De há 200 anos atrás assistimos à tarefa de recuperar esse Jesus histórico que eles já tinham esquecido. Vejamos o ambiente de hoje: “Entretanto, uma segunda questão diz respeito à possibilidade de conhecer o Jesus histórico, o bastante para que possamos recuperar seu ensinamento e autoconhecimento. A busca do Jesus histórico remonta ao Iluminismo, há mais de um século, com Albert Schweitzer. Com o Iluminismo o cristianismo “aprendeu” a desenrolar  os verdadeiros fatos de Jesus das lendas e mitos teológicos dos evangelhos” (R. Scroggs, o.c.p.13). Na verdade “lendas e mitos dos evangelhos’ refletem a fé dos que crêem em Jesus, mas não descrevem necessariamente os ‘fatos’ de Jesus” (o.c.p.14). Assim fica mais clara esta conexão da apresentação de um Jesus “só divino” adequada para competir com o ambiente das filosofias e magias dos pregadores de ruas e dos mercados da época.

conclusão

Hoje em dia os estudiosos que se voltaram para o Iluminismo encontram dificuldades para ser entendidos pelas camadas populares. Isto porque as camadas populares internalizaram num tão longo espaço de tempo de há dois mil anos a esta parte as antigas maneiras iguais às apresentadas por esses pregadores de mercado de que falei. Assim, irá levar outros dois mil anos para  interpretar outras reflexões.

P.Casimiro João    smbn

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segunda-feira, 30 de setembro de 2024

O PECADO ORIGINAL ANTES E DEPOIS DE SANTO AGOSTINHO.

 

Antes de Santo Agostinho não havia a teoria do pecado original, e as crianças que morriam sem o batismo iam para o céu. Santo Agostinho botou elas para fora do céu. E agora? Agora a Igreja bota de novo as crianças que morrem sem batismo no céu. Uai? Podia dizer o mineiro: então para que serve o batismo? Em primeiro lugar, o batismo não é para a outra vida, é para esta. É para aceitar Jesus e seguir as ordenanças da Igreja onde se é batizado. Se na Igreja católica, é para seguir as ordenanças da Igreja católica; se é nas Igrejas evangélicas, é para seguir as ordenanças das Igrejas evangélicas. Em segundo lugar, para fazer o bem seguindo a Igreja que estava começando, e seus compromissos. Ora, fazer o bem não se faz na outra vida, é nesta. A Igreja é só para esta vida. Por isso o chinês e o japonês e o asiático e outros que seguem sua consciência de fazer o bem e não prejudicam ninguém também o céu é deles. “Virão muitos do Ocidente e do Oriente se assentar na mesa com Abraão, Isaac e Jacó no Reino dos céus”(Mt.8,4); “Ide às encruzilhadas dos caminhos e chamai para a festa todos quantos encontrardes” (Mt.21,1-4). Nessa base também isso falou o Concilio Vaticano II: “A divina providência não nega os auxílios necessários à salvação daqueles que sem culpa não chegam ao conhecimento explícito de Deus e se esforçam por levar uma vida reta. Tudo o que de bom e verdadeiro neles há é considerado pela Igreja como preparação para receberem o Evangelho, para que possuam a vida eterna.” Lumen Gentium, n.16). Dá para voltarmos ao início do nosso tema para vermos o histórico da nossa questão que é muito importante. Santo Agostinho viveu no século IV da nossa era, e converteu-se e foi batizado aos 40 anos de idade. Antes ele seguia uma filosofia dos maniqueus chamada maniqueísmo. Essa filosofia dizia que tudo era matéria, não tinha espírito. O impulso sexual produzia a miséria das pessoas porque era coisa da matéria. Por isso o destino da pessoa dependia da fuga do mundo e da matéria. Passado tempo o mesmo Agostinho deixou essa filosofia e entrou noutra chamada plotinismo inventada por Plotino. Nessa filosofia  aprendeu que DEUS É ESPÍRITO. E aí filosofou: Se Deus é espírito, então o ser humano dever ter uma parte que é espírito, e outra que é matéria, corpo. E mais: Se Deus é espírito então o mal não pode estar no espírito mas na matéria e no corpo. E como a geração é transmitida pela matéria então Adão tinha feito o primeiro pecado da geração pela primeira relação sexual. E chamou a esse pecado o “pecado da origem” que depois se chamou pecado original. Esse pecado entrava pelo sémen e espermatozoides que são matéria, e a matéria sendo má passava para o corpo da criança. E isso mesmo reconhecendo que o afeto “libidinoso” que acompanha a procriação seja inevitável. Na mesma época de Santo Agostinho, viveu Pelágio que via no pecado uma espécie de exemplo a não ser seguido; Para Pelágio, o homem nasceria bom e inocente. Porém a Igreja seguiu a teoria de Agostinho durante toda a Idade Média. Claro que a teologia de Agostinho seguia aquela antiga cosmologia e antropologia da criação do mundo nos seis dias do Gênesis, e do mito de Adão e Eva. Por isso eles interpretavam à letra aquela história de Adão e Eva. Porém hoje sabemos que aquilo é um exemplo contado como mito de antigamente. Em segundo lugar, as explicações de Santo Agostinho também viraram uma lenda inaceitável, e um erro antropológico inaceitável pois nenhuma matéria é má e nem a relação sexual, como ela aprendeu dos maniqueus. Semelhante à teologia de Agostinho tem uma teoria bizarra do pastor William M.Branham, dos Estados Unidos da América que dizia ter tido uma “revelação” de que o “pecado original” veio de uma relação de Eva com a serpente, veja só.

Conclusão. De novo vem a mesma pergunta: Antes de Santo Agostinho não havia o pecado original: as crianças que morriam sem o batismo iam para o céu. E agora? Agora a Igreja bota elas de novo para o céu. E ainda outra questão: Antes de Santo Agostinho não existia o pecado original. Teologias criam realidades, ou algumas continuam lendas? Aqui cabe a história do caboco que dizia: “onde não há demônio os protestantes tem que botar pra dar trabalho aos pastores, e onde não há pecado a Igreja bota pra dar trabalho aos padres”.

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 23 de setembro de 2024

ACADEMIA E DEMONOLOGIA, SAIBA O QUE É

 

Academia deriva do herói grego Academo, a quem Platão dedicou sua Escola, em 351 a.C. A demonologia foi a primeira ciência da Academia. Xenócrates foi o sucessor de Platão e desenvolveu mais a demonologia. O fundamento da demonologia de Platão era que havia uma alma do mundo boa, e uma alma do mundo má. Estas duas almas do mundo eram seres intermediários, ou “daimones”, que eram capazes de comunicar-se com os seres humanos em nome dos deuses. Depois de Platão, Xenócrates, chamou as duas almas do mundo de dois deuses ou dois Anjos responsáveis pelas ações boas ou más dos homens. Dois deuses intermediários entre Deus e os homens. Em terceiro lugar veio Posidônio, chamado estoico que fez a seguinte cosmologia: Há um mundo celestial acima da Lua, imperecível e imutável, e um mundo sublunar, transitório e sujeito a mudança. E daí fez também a sua antropologia: O espírito humano tem origem no Sol; a alma tem origem no mundo sublunar, a Lua; e o corpo que pertence à Terra é seguro pela alma. Na morte o espírito volta para o Sol donde ele veio; a alma volta para a região lunar donde ela veio e larga o corpo que volta para a Terra. (Cf. H.Koester, Introdução ao N.T. §4 p.149). A filosofia estoica se aproveitou deste neoplatonismo e para o seguinte: A alma e o espirito têm sua origem no mundo de Deus. Enquanto permanece no corpo a alma está presa nos laços do corpo terreno dos quais deve livrar-se. O mundo visível é a causa do mal e do vício: o corpo é a veste má da alma. A cosmologia do neoplatonismo se resume portanto no seguinte trio: Sol, Lua e Terra. Abaixo do mundo divino existe a matéria; a matéria é o último reduto das trevas e o corpo pertence às trevas porque é matéria. Os pensadores cristãos se apaixonaram de tal maneira por esta filosofia que “nem sempre é fácil saber se tal Padre da Igreja é um pensador cristão ou um neoplatônico que trabalhava com imagens e símbolos cristãos”, como diz Eduardo Hoonaert. E diz ainda mais sobre santo Agostinho: “Agostinho depois de tentar diversas filosofias de vida entrou nesta filosofia neoplatônica. Em Milão, com um grupo de amigos não batizados como ele, que também não era batizado, alugou uma casa para estudar esta filosofia. Nesse ambiente o estudo os levou ao seguinte: “A sabedoria neoplatônica adéqua muito bem com a sabedoria bíblica.”. E afirma: “Se eu persistisse no sentimento salutar que dos livros platônicos tenho haurido, julgaria que, se alguém aprendesse só com esses livros, poderia alcançar o mesmo afeto espiritual como nos livros bíblicos. Notei que tudo de verdadeiro que li nos livros neoplatônicos se encontra nos livros bíblicos”. (Confissões, 7,26). Com os amigos não batizados, ele se batizou também em Milão, e viveu como bispo junto com eles quando retornou à sua cidade Hipona. E Eduardo Hoonaert pergunta: “Agostinho não será um idealista neoplatônico que trabalhava com imagens e símbolos cristãos? Pois ele teria enquadrado a tradição de Jesus na literatura grega”.( https://ihu.unisinos.br/643695-a-complexidadade-do...). “Os Gnósticos e os escritores cristãos, como a Epístola aos Hebreus, copiaram o neoplatonismo do período romano”. (H.Koester, o.c.p. 150).

Quando nascia a filosofia com Platão e Sócrates, e Xenócrates nascia também a cosmologia e a antropologia como duas irmãs gêmeas. A cosmologia se resolvia entre os seres superiores, o Sol, a Lua e a Terra. E de quebra, a antropologia tratava dos seres acima do Sol, o espírito; e dos seres acima da Lua, a alma; e dos seres na Terra, os corpos mortais. Sol, Lua e Terra; Espírito, Alma e corpo constituíam a cosmologia e antropologia da época.  Por sua vez a filosofia neoplatônica tratava também dos seres intermediários entre os deuses e os homens, que intervinham na vida dos humanos.

Conclusão. Foi esta cosmologia e esta antropologia que entraram na Bíblia e perpassam verticalmente todas as páginas da Bíblia. Não só, mas da Bíblia foi internalizada em toda a cultura ocidental e ainda está nas nossas cabeças. Na página anterior eu dizia que nossas cabeças são três quartos de judeu e um quarto de cristão. Quando digo judeu, digo também de grego, persa, zoroatrista e neoplatônico. Como diz E.Honnaert: “Para muitos cristãos, o modo em que o cristianismo é vivido hoje parece decorrer unicamente do evangelho de Jesus. Eles não costumam perceber, no cristianismo, influências vindas de fora. Nunca ouviram falar que o zoroastrismo ou o neoplatonismo possam ter algo a ver com o modo em que eles praticam a religião cristã". (Eduardo Hoornaert, historiador, professor e membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Como não serviriam para alguns místicos máximas como estas de Posidônio: “O Sol é puro fogo, fonte do espírito humano, o qual da Lua recebe a alma, e da terra o corpo”. E ainda: “O Sol, o puro fogo, é origem de toda a razão e de todos os espíritos, e em última instância, de todos os poderes”.

P.Casimiro João    smbn

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segunda-feira, 16 de setembro de 2024

TRÊS QUARTOS DE JUDEU E UM QUARTO DE CRISTÃO.

 

O homem judeu batia no peito e dizia: “dou-te graças ó Deus porque não sou mulher”. Nos mandamentos constatamos o seguinte: “Não cobiçarás a casa, nem a mulher, nem o escravo, nem a escrava, nem o boi, nem o jumento do teu próximo, nem alguma coisa que pertença ao teu próximo” (Êx.20,17). Em que nível está posta a mulher? No mesmo nível das “coisas” que “pertencem“ ao próximo. Vejamos as “coisas” que pertencem ao próximo: a casa, o escravo, a escrava, o boi, o jumento e a mulher. Nesse contexto a mulher é uma “coisa” do próximo, igual o boi, e o jumento. Então o macho judeu podia bater no peito e “dar graças a Deus por não ser mulher”, isto é, uma coisa nem “qualquer coisa que pertença ao macho seu próximo.” No catecismo dos rabinos vinha assim: qualquer demente, doido, criança, escravo, escrava e mulher são excluídos da Sinagoga porque os seus Anjos escondem a cara com vergonha”. No casamento já referimos várias vezes como logo se podia despachar a mulher e trocar por outra, “Se um homem tomar uma mulher e se casar com ela e se ela não for mais agradável aos seus olhos” (Dt.24,1). Para manter ou aumentar a fortuna da família do macho havia uma moeda de troca. Essa troca tinha uma moeda: era a mulher. Quando o macho homem encontrava outra mais rica em herança de terras e campos logo ia atrás e despachava a que tinha porque tinha feito bom negócio. Os estudiosos dizem que a intenção de Jesus nas declarações do evangelho era lutar contra estas disposições machistas e patriarcais. Infelizmente este machismo passou para a Igreja. E sobre a lei do apedrejamento: Tinham a lei de apedrejamento para os dois adúlteros  porém o macho homem nunca era apedrejado, somente a mulher.(Lev.20,10). Também é do conhecimento geral que a mulher era só para uso carnal, isto é, para reproduzir. Produzir mais filhos era aumentar a mão de obra para o trabalho nos campos pois era a única riqueza. Ficava excluída a dimensão afetiva no casamento e todos os sentimentos de afeto no casal. Coisa também proibida pela moral da Igreja com muita severidade durante toda a Idade Média. Fora do sexo animal nada da carinho e mostras de afeto. Por isso diz a história que na confissão era uma tortura da parte dos padres para descobrir se havia estas coisas no casal, consideradas como pecados graves. E a vítima era sempre a mulher, sujeita a uma tal tortura psíquica que a mulher ficava sem saída: se já vinha doente ficava morta. Sim, morta na sua dignidade. E repare bem, quem procurava o padre eram as mulheres, e por isso imagine o que ía aí de tortura. Sem dúvida, lembrando este histórico, é que o Papa Francisco uma vez declarou “o confessionário não pode ser um lugar de tortura” (Catequeses,23 de abril 2013). Vamos deduzir o tanto de machismo que tem aí. O que diriam os machos homens? Sem dúvida assim: A mim não me pegam lá não. Sabemos do “anticlericalismo” que inundou a Europa nesses séculos e que perdura ainda hoje. Para quê que os machos homens “iriam sujeitar-se a esse “tribunal de tortura”? É claro, muitos permitiam que a mulher fosse lá para evitar males maiores, e porque “ela era coisa domesticada.” Domesticada pelos padres e domesticada pelos maridos em casa. Mas à parte isso quantos não iam deixar a mulher se sujeitar a essa tortura? E a consequência lógica chegou: o afastamento e enojamento da Igreja, “essa Igreja assim, não”. Nos dias de hoje trava-se a luta da emancipação da mulher e a luta contra todo tipo de violência, não só de assédio sexual e importunação sexual. É uma transformação da discriminação, a fase moderna do mesmo domínio machista. Ao mesmo tempo estes machos homens mais viciados pelo domínio machista são os que menos aceitam a luta das mulheres, para que elas não possam escapar das suas garras. E também não aceitam a diversidade de gênero pelo mesmo motivo. E se são cristãos, não têm mais nada de “cristão” senão dizer que “isso vem na Bíblia”. Entre os católicos e entre os evangélicos a mesma coisa. Eu disse somos três quartos de judeu e só uma quarta parte de cristão. Os três quartos de judeu vêm no DNA do cristão e na ideologia diabólica do rebaixamento da mulher. E é importante saber que nos três quartos que recebemos dos judeus vem de quebra ou de carona todas as heranças de todas as antigas religiões do entorno partilhadas pelos judeus e pela Biblia as quais eles tammbém passaram para o cristianismo, como o Zoroastrismo, o neoplatonismo e as diversas formas do Gnosticismo. Um exemplo flagrante é o capacete longo dos bispos na liturgia católica,que era o mesmo capacete usado pelos sacerdotes da religião Zoroastra em honra ao deus Mitra, e que por isso mesmo esse capacete hoje ainda é chamado de mitra. Por outro lado, entre católicos e evangélicos há uma diferença: se o católico se apoia menos no Antigo Testamento, o evangélico se apoia muito mais, e por isso eles ficam muito mais no Antigo Testamento e por isso eles ficam muito mais contra a mulher e os seus direitos. É só comparar a porcentagem de evangélicos “radicais” que infetam as bancadas de Brasília, e não deixam este país caminhar para a frente. Cruz credo. Vamos ler aquela diatribe de Paulo onde diz: “Meus irmãos, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem pederastas, nem ladrões, nem beberrões, nem insolentes, nem salteadores terão parte no Reino de Deus” (1 Cor.6,10). Se reparamos bem, aí faz a culpabilização do gênero, e nega a qualidade de ser mulher, e as qualidades legitimamente femininas da mulher. Vejamos: Quando vemos uma mulher com características de “homem”, como músculos, força muscular, jeito de homem, fala etc. achamos tudo normal. Até porque diz a ciência que características dos dois sexos estão presentes em ambos os gêneros. Porém o Paulo taxava de defeitos característicos de mulher nos homens: chamando-os de “efeminados”, e como tal “não entrariam no Reino de Deus”, isto é, nos grupos da nova família de Jesus e de Deus. Na linguagem de hoje corresponderia ao gênero não binário, ou não “cis” ou de gênero fluido ou intersexual ou pessoa pan. Aliás também não seria ele a admitir ou expulsar gente desse Reino de Deus, onde Jesus era inclusivo, e ele pretendendo ser exclusivo, o que não adéqua.

Conclusão"Para muitos cristãos, o modo em que o cristianismo é vivido hoje parece decorrer unicamente do evangelho de Jesus. Eles não costumam perceber, no cristianismo, influências vindas de fora. Nunca ouviram falar que o zoroastrismo ou o neoplatonismo possam ter algo a ver com o modo em que eles praticam a religião cristã", escreve Eduardo Hoornaert, historiador, ex-professor e membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). No séc.II do cristianismo o teólogo Marcião tinha a seguinte opinião: o Antigo Testamento não fazer parte da história do Novo Testamento, considerando-o como fruta passada com validade de prazo vencida. Não teria passado tanto a carga da Velha Aliança para não confundir tanto as cabeças do cristão.

P.Casimiro João     smbn

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