P.Casimiro João smbn
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Fala-se muito em
cosmologia e afinal o que é cosmologia? Vamos tentar explicar, e as implicações
que tem com a fé e a teologia. Cosmologia é a maneira de nós mortais olharmos o
cosmo, ou seja o universo, e criar narrativas sobre ele e ciência. Falo em
narrativas porque desde que se conhece a história escrita dos humanos houve
tentativas de falar sobre o cosmo, e do relacionamento entre o cosmo, e Deus e
os seres humanos. O que é o cosmo? Onde está Deus? E os seres humanos no meio
disso tudo? Lá entre os gregos já houve tentativas de medir a distância da
terra à lua, e de medir o diâmetro da terra. Os humanos começaram pensando que
as estrelas estariam presas na abóbada do céu. E que haveria as águas
superiores e as águas inferiores. E Deus, nesta primitiva cosmologia, qual o
lugar que ocupava? Só podia ter o seu trono lá no alto em algum lugar, fora
desse mundo. Quer fosse ele que tivesse criado ou não, ocupava o lugar de
“comandante” do mundo que funcionava como uma máquina. Quando essa máquina do
mundo tivesse alguma avaria Deus viria socorrer, assim como num estalar os
dedos, ou tipo de varinha mágica. Era o que se chamava na filosofia antiga
“Deus ex maquina”, o deus da máquina. Um dia, esse Deus teria mandado o seu
filho cá para baixo neste planeta. E então acreditava-se que as revelações
caíam do céu, dessa deidade exterior que tentava foçar as suas verdades por
meio de algumas pessoas ou por meio de um determinado grupo. Esta visão vinha
do início da criação quando Deus “lá de fora” decidiu “comunicar-se diretamente
com alguém, no caso com os hebreus. Assim, os hebreus entenderam-se que eram o
povo escolhido de Deus em sentido exclusivista. Essa maneira de se identificar
foi mais tarde assumida pela Igreja. E assim como os hebreus tinham isso na sua
Bíblia, a Igreja transferiu num trabalho de “copia e cola” para o Catecismo da
Igreja Católica, (CIC, &54-73) que se baseia todo na cosmologia do Antigo
Testamento, coisa de “copía e cola” da cosmologia antiga e primitiva do Gênesis
do Antigo Testamento. Aliás, o histórico do Catecismo da Igreja Católica é
assim: 1)- Antes do ano de 900 havia um Ensino
das crianças, nas Escolas dos Conventos, na Alemanha; 2)-Em 1.100 Honório
de Antuã, aluno de S.to Anselmo fez um Elucidário (“para esclarecer”);
3)-Em 1.400 Jean Gerson da universidade de Paris fez um Resumo da Doutrina
Cristã. 4)- Em 1.509 em Colónia, na Alemanha apareceu um “Catecismo”
anônimo. 5)-Em 1.526 Andreas de Nuremberg fez o seu Catecismo e em 1.529 Lutero
fez dois: “Catecismo Maior e Catecismo Menor; 6)- Por ocasião da Dieta de
Augsburgo, na Alemanha, em 1.536 os Católicos compuseram também um Catecismo,
do teólogo George Witzel. 7)- Aí houve disputas como esta: A quem pertencia o nome
de CATECISMO? 8)- Em 1.566 apareceu o Catecismo Romano, para os párocos
depois do concílio de Trento; 8)- Em 1.908 apareceu o Catecismo de São Pio X
baseado no trabalho de S.Roberto Belarmino; 9)- Em 1.992, 20 anos depois do
concílio Vaticano II saiu o atual Catecismo da Igreja Católica baseado
no anterior de Trento, com os votos de duas comissões: a comissão de 10
Cardeais e a Comissão editorial de 7 Bispos diocesanos. Infelizmente, não levou
em conta o documento da Pontifícia Comissão Bíblica que saiu em 1994 que diz: “O
fundamentalismo tem igualmente tendência a uma grande estreiteza de visão pois
considera conforme à realidade uma antiga cosmologia já ultrapassada, só porque
se encontra na Bíblia.” (Pont.Com.Bíblica
São Paulo, Loyola, 1944, pag.40-41). Ora, os judeus e todos os povos da
antiguidade nos seus escritos consideravam-se “escolhidos” de Deus para falar
em nome de Deus, desde o rei Hamurabi quando fez o primeiro Código do mundo,
onde começa: “Estas são as palavras e ordenações de Deus, onde ninguém pode
tocar nem trocar uma letra. E dessa maneira a Igreja assim passou a
considerar-se igual a eles, até se comparar que acima da Igreja só Deus, como
falou o Papa Inocêncio III no séc. XII, que “eu julgo todos e todas as coisas,
e eu não sou julgado por ninguém”. Isto é, acima de mim só Deus. Estamos no
ambiente da cosmologia antiga, do deus que “lá de cima” fala para algumas
pessoas, mas não como um princípio
criador presente em toda a criação, e em toda a humanidade não “fora do mundo”
mas fazendo parceria com ele. Assim, Deus como espírito não tem braços, mas
precisa dos nossos braços; Deus, como espirito, não fala, ele precisa da nossa
fala; Deus como espírito não compõe música, por nós Deus compõe música e
escreve poesia e faz amor” (M.Morwood, “O católico de amanhã, pag.101). Esta
nova cosmologia considera Deus dentro da carruagem da máquina, e a criação é
matéria-mente, isto é, toda a criação participa da mente de Deus como fazendo
parte do DNA de Deus, como muito bem o expressa o físico Shirley Macklaine:
“Todos nós somos parte do divino, não havendo separação entre Deus e nós;” e na
fala do poeta C.de Brito: “Em cada homem existe
um Deus escondido”. E o mesmo Morwood: “Meus pais e meus irmãos e minhas
irmãs dizem que me amam e me alimentam, não deverei ver neles a presença de
Deus em forma humana”? A nova cosmologia trouxe por tabela a Física quântica
segundo a qual a própria mente cósmica partilha a mente divina. Este princípio
desafia as reivindicações exclusivistas de qualquer religião determinada que
queira enfatizar que “Somos a religião verdadeira, os únicos que temos a
revelação divina, como tendo Deus do nosso lado: vocês não. Se quiserem ser
salvos, vocês têm que que aceitar nossa cultura, nossos padrões de pensamento,
nossos dogmas e nossos ritos, do contrário não há esperança para vocês”
(Morwood, o.c.p.53). Ou seja, não se pode trancar Deus em nenhum movimento
religioso. Deus fala tanto com indianos e indígenas e africanos tanto como com
judeus, e tanto nas culturas de uns como nas culturas de outros. Mas o foco
principal da cosmologia antiga se reporta ao fato da lenda da criação em seis
dias, que apesar da aceitação das conclusões da ciência atual ainda é o
imaginário tanto do Catecismo da Igreja católica como das nossas mentes e das
nossas liturgias. Eis o que nos diz o autor citado: “Grande parte da teologia
cristã dependia de uma visão de mundo que afirmava terem os seres humanos vindo
ao paraíso e que as coisas deram errado. O que acontece agora quando somos
confrontados com provas esmagadoras de que desenvolvimento, morte, desastre e
revolução eram partes essenciais da existência deste planeta milhões e milhões
de anos antes que os seres humanos entrassem em cena? “(Morwood, o.c.p33). Quer
dizer que pode acontecer que teologias e doutrinas dependem de mitos e lendas
que ainda andam nos ares. Continuam as perguntas: “O que acontece, por exemplo,
com a doutrina profundamente arraigada da Criação e da Queda? E se não houve
uma “queda” nada parecida com o que foi descrito no livro do Gênesis? Como
então falamos expressivamente sobre a realidade do pecado, nossa ligação com o
divino, a vida de Jesus e a realidade de ser salvador para nós?...A nova
cosmologia e sua visão do mundo não são ameaça ao cristianismo”. (o.c.p.36). Outro
dia eu fiz a pergunta: No concílio do ano 325 convocado pelo imperador
Constantino, ele mesmo decidiu por um lado entre duas opiniões que eram o
centro da discussão onde não faltaram motivações políticas; e se tivesse
decidido por outro lado? Fica a pergunta. Hoje, em outro tempo, outra cultura,
outra visão do mundo damo-nos conta de que os seres que nós chamamos inanimados
partilham o dna de Deus. Já parou para pensar no mistério das plantas e das flores: onde cada flor vai buscar a sua cor, e o seu perfume? Da mesma terra uma tira a cor vermelha, outras a cor amarela, outras a cor branca, outras a cor azul? E aquele pefume das rosas? E o sabor de cada fruta? Se isso é assim no reino das plantas, imagine como os seres humanos conscientes e pensantes,
partilhamos o DNA divino. Carl Sagan disse que somos faíscas de estrelas; mais
além podemos dizer que somos faíscas de Deus.
P.Casimiro João smbn
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“Viver em Deus sem Deus, como se Deus não existisse” (Arthur Robinson). Assim: o filho que se emancipa. Assim a sua liberdade. Os pais ficaram para trás. Age por sua conta e risco. Não está mais esperando ser manipulado. Vive de experiências, e de ver como é. Objetivo dele? Querer avançar. E fazer diferente. Deu certo? Às vezes. Deu errado? Às vezes. A natureza tem em si as energias do conserto. Esta afirmação leva a outra que diz o mesmo, mas parecendo contraditória, no entanto completa a outra: Deus não é Deus sem nós e nós não somos nós sem Deus. Há uma pergunta no subconsciente de todos nós que parece barrar a ideia de que Deus não seria nosso parceiro: Como Deus permite o mal? A resposta depende de como eu entendo Deus. Se manipulador fora do universo, ou se é íntimo a nós e nosso parceiro. Não será que exigimos um Deus que nas aflições, basta um estalar de dedos para resolver nossos problemas? Mas, se nossa imagem de Deus concentra-se na presença e na parceria de Deus que em todas as coisas criou um ambiente livre e é parceiro da nossa liberdade, então as coisas mudam de aspecto. “O universo ordenado contém dentro dele muita coisa que é desordenada e incompleta. A criatividade múltipla torna inevitável um pouco de desordem e conflito. Leva em conta a possibilidade de grande desordem e mal. No modelo ecológico o mal origina-se do acaso e da liberdade que ele permite, não da providência. A razão pela qual a providência não elimina o acaso é porque um mundo sem acaso é um mundo sem liberdade. Toda entidade natural, todo átomo precisa ter um aspecto de autodeterminação ou espontaneidade e a interseção até de dois, sem falar em miríades de atos de autodeterminação é precisamente acaso. De fato, Deus controlar completamente o mundo seria o mesmo que aniquilá-lo. Uma pergunta dessa faria de Deus como onipotente ditador do universo, responsável por tudo que acontecesse e que, se quisesse, poderia mudar o curso dos acontecimentos num estalar de dedos ou de varinha mágica.” (Charles Birch, apud Michael Morwood “O católico de amanhã”, Paulus, 2013, pg 45). Nossa linguagem religiosa torna-se perigosa quando pensamos num Deus que realmente manipula tudo. É perigoso falar abusivamente usando a “vontade de Deus”. Se por exemplo, o marido morre de repente de um ataque cardíaco, que imagem de Deus é transmitida à mulher, ao lhe dizer que isso deve ser o que Deus queria? Ou, que imagem de Deus é transmitida aos filhos desse casal na missa de sétimo dia se o padre fizer uma declaração no sentido de que “Deus levou” este homem de nós? Em vez disso não seria melhor outro discurso como: a vida tem validade de prazo no ser humano e em toda criação; em contrapartida, ao mesmo tempo traz um princípio de continuidade; deste modo, no princípio de continuidade estão os filhos e os familiares onde a vida se reconstrói e se recupera, assim como aquele que doa órgãos continua na vida do outro. O cosmo e a humanidade são duas realidades conectadas. Os estudiosos dizem que imperfeições vieram junto com a vida desde os 15 bilhões de anos no Big-bang. Mas a mesma criação que trouxe imperfeição trouxe também um princípio de recuperação ou o jeito de tudo recuperar. Isto já a filosofia e a religião hindú intuíu quando definiu três princípios divinos na criação: o princípio criador, o destruidor e o reparador ou técnico do conserto de tudo. Dentro desta sinfonia da vida os seres humanos somos os únicos conscientes desta realidade cósmica: destrutiva e reconstrutiva. Porque, no meio do cosmo sem consciência, a vida humana ficou como cabeça pensante e consciente. E ao princípio criador onipresente em toda a criação damos um nome: Deus. “Pense na maravilha da existência humana: Damos literalmente a Deus voz e braços; damos ao amor aparência e forma, nós o personificamos. É literalmente verdade que Deus como espírito não fala. Você precisa de um corpo para fazer sons. Deus como espírito não compõe música. Deus como espírito não me abraça nem me carrega para a escola. Mas o Deus que vem à expressão humana em Elton Jhon compõe música que toca para sempre as vidas humanas. O Deus personificado nos poetas como Cora Coralina ou Florbela Spanca faz poesia que toca para sempre o coração e a mente dos seres humanos. Meus pais e meus irmãos e minhas irmãs dizem que me amam e me alimentam. Não deverei acreditar que neles a presença de Deus recebe forma humana?” (M.Morwood, o.c.p.44). Por outro lado, segundo a Física Quântica, não podemos mais separar o mundo material em Matéria inanimada e Mente. Mas ele é “Matéria-Mente”. “A ciência moderna nos diz que não devemos continuar a separar o mundo material em Matéria inanimada e Mente como duas realidades diferentes. No entendimento atual a mente não se limita a ser uma função consciente ligada ao cérebro. A mente está presente em todas as coisas e torna-se consciente nos seres humanos, como dizíamos atrás. Eis um modelo científico de pensamento que nos permite ver a presença de Deus impregnando tudo que tem existência e os seres humanos de maneira especial. E essa presença criadora chame-se de Mente ou chame-se de Energia da Vida ou de qualquer outro nome, leva em conta o acaso e a liberdade e a espontaneidade e o totalmente inesperado.” (o.c.p42). A física quântica não nos diz que ISTO é o que Deus é, como a “sarça ardente”. Pelo contrário, aqui Deus é entendido como presença encarnada em vez de como um “manipulador exterior (id, id). Posto isto, não há mais margem para manter uma visão mecanicista do mundo: um governante de fora da máquina ou da matéria, não raro impressa na imaginação popular, que ordenaria e disporia como quisesse, aumentando a emoção bajuta do dito popular que “tudo está na mão de Deus”; um Deus que pudesse planejar tudo passo a passo, e tudo resolveria num estalar de dedos. “O deísmo entendia Deus como o agente externo ao mundo, que intervém só para iniciar a criação e preencher as lacunas. É esse o Deus que ainda é atual demais em muitos lugares contemporâneos da Igreja: uma superpessoa exterior que pudesse intervir na vida de determinados indivíduos em tempos de desespero para resolver problemas. Seria como o supervisor da máquina quando ela adoece” (M.Fague, apud M.Morwood, o.c.o.p41-42). Avançando para margens mais largas, vamos “enfrentar o desafio em primeiro lugar com a verdade básica da encarnação. O cristianismo tradicional nos ensina que em Jesus Deus se tornou humano. E se tomássemos esse entendimento cristão básico do envolvimento de Deus com a humanidade e o fizéssemos retroceder ao começo da criação? E se, ainda transcendendo e sendo maior que a soma total da criação, Deus se “encarnasse” em toda a criação, de modo que toda ela fosse infundida com a energia que é Deus e por ela fosse sustentada e guiada? No mesmo instante teríamos de abandonar a tendência limitadora e permitir que o nome “Deus” significasse, por um lado, uma realidade ilimitada infinitamente vasta, totalmente além de nossa imaginação. Não poderíamos restringir essa realidade a um “ele” que está no céu. Shirley Macklaire afirma que "todos nós somos parte do divino, não havendo separação entre Deus e nós". E o poeta C.de Brito reforça essa intjuição ao afirmar que em cada homem existe um Deus escondido, uma forma perfeita perdida numa aldeia de demônios." Tudo aponta para a mesma direção ao todo, ao conjunto à unidade profunda da vida. Por seu lado, Ettt.Hillesum: "Torna-se cada vez mais claro que Deus não pode nos ajudar, no sentido mágico que esperamos; somos nós que devemos ajudá-lo e, ao fazê-lo ajudamos a nós mesmos. Deus não nos poupa das cirfcunstâncias pois elas fazem parte da vida. Ele não assume a responsabilidade por elas: somos nós que seremos chamados à responsabilidade. A morada de Deus em nós precisa ser defendida até o fim. É uma fé adulta sem ilusões infantis, que entende Deus não como interventor externo mas como presença interior que precisa ser acolhida e protegida." Do mesmo jeito o teólogo Libanio: "Não se trata de imaginar Deus esperando nossos pedidos para agir milagrosamente, mas de compreender Deus presente e atuando em nós, promovendo as forças da vida existentes. Presença esta que depende da nossa abertura, acolhida e disposição" Na mesma sintonia, vejamos a intuição dos teólogos da teologia africana: "Se pelos ritos de passagem Jesus se tornou plenamente humano, pela ressurreição ele passa a integrar a comunidade dos antepassados. A morte não é o fim mas outra modalidade do processo cíclico da existência humana, cuja referência maior são os ancestrais" (Antônio Silva, apud Armando, josé, RTA). Aqui as novas reflexões da teologia adequam com a ciência quântica, corroboram a presença de Deus em toda parte como força, energia ou poder de vida. "Mas também devemos advertir que essa é linguagem inadequada e se esforça para estar em contato com a verdade de encarnação: Deus em tudo, com tudo e através de tudo. Simplesmente tentamos dar sentido à realidade que chamamos “Deus” em vez de afirmarmos que ISTO é o que o Deus é. Afirmamos que tudo está impregnado da presença de Deus. Chamamos a atenção dos seres humanos para o amor que está em nosso coração; chamamos a atenção para o DNA e para os átomos e moléculas em nossa estrutura corporal onde há espontaneidade e vida e movimento; onde há crescimento; onde há liberdade de movimentos e possibilidades ilimitadas, e há também doenças, e há saúde. Isso é encarnação no nível básico. Deus realmente está em, com e através de tudo. Não teremos de adaptar então nossa imagem de Deus se formos levar isso a sério? (M.Morwood o.c.p.40-41). Dado que o entendimento tradicional de Deus e de nosso relacionamento com Deus foi formado pelos padrões de pensamento e visão de mundo da cultura judaica e cristã primitiva, e sofreu dos limites de uma cosmologia antiquada, somos desafiados com a visão atual. Aceitamos o desafio? Hoje, este outro tempo, outra cultura, outra ciência e outra visão do mundo não nos darão mais esclarecimentos? Antes de concluirmos, notemos que a Matéria e a Mente podem colaborar para uma maior validade de prazo da nossa vida, retomando o nosso pensamento expressado na página anterior. Prazo de vida ou prazo de menos vida, como muito bem investigou Renate J.de Moraes nos seus dois grandes volumes “O Inconsciente sem fronteiras”, onde ela detectou que a mente do feto já tem o poder de fazê-lo aparecer com câncer ou sem ele (o.c.p.426). E onde ela afirma: “Existe energia elétrica no cérebro que irradia fora dele”(o.c.p.328)
Na verdade, dessas premissas descritas resulta o corolário
que dá o título a este capítulo e a este
volume, o primeiro volume de PÁGINAS DE TEOLOGIA BÍBLICA PARA HOJE: Deus não é
Deus sem nós e nós não somos nós sem Deus. Este volume com este novo título é o
primeiro de Dois novos volumes, em 2ª edição. Em 1ª edição editamos 10 volumes,
que, como disse agora ficam reunidos neste dois volumes, o 1º: “Deus não é Deus
sem nós e nós não somos nós sem Deus”. O 2º volume continuará com o mesmo nome
dos 10 livros da 1ª edição: “Páginas de Teologia Bíblica para Hoje”.
P.Casimiro João
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Nas épocas antigas tudo era Deus que fazia, desde a chuva aos
terremotos. Assim como acontece com a criança, para quem o pai faz tudo, tudo
sabe, tudo pode. Eram os tempos em que a humanidade era criança como Paulo diz, “quando
eu era menino pensava como menino, raciocinava como menino” (1Cor.13,11). Quando
falamos de Deus falamos de nós mesmos. Nós não podemos mas “Deus pode” assim como
diz a criança: o pai pode. E o que nós colocamos em Deus quando falamos de “poder”?
Não é para vencer o inimigo? Não é para ganhar uma guerra impossível como falavam
os hebreus? Por isso nos diz o teólogo: “O cuidado de transferir para Deus o
conceito de onipotência se torna perigoso porque no decorrer da história a noção
de onipotência de Deus corria pelos mesmos caminhos da violência humana e
tirania e prepotência dos poderosos para escravizar seja inocentes seja inimigos, e fazendo isso
em nome de Deus “onipotente”, como nas colonizações e na Inquisição. Por isso, falar da onipotência de Deus corria
o caminho da prepotência dos reis. (Cf. Schillebeeckz, História humana,
revelação de Deus,p.117). E por isso, diz Selma Lagorlaf: “não podemos falar da
onipotência de Deus como no pensamento medieval onde se chegava a perguntas
como esta: “Deus pode fazer um circo quadrado”? Ou como nas lendas populares e
historinhas para crianças, onde na linguagem do mito e das fadas tudo é
possível. Para se livrar de muitos problemas como este houve muitos arrazoados
esquisitos na teologia americana, onde chegaram a dizer que Deus não tem nada a
ver com o sofrimento dos homens, como dizia Kushner. Ou então outra corrente que
inventou a “morte de Deus”: Deus teria que morrer para que o homem viva” Th.Altizer
repetindo um slogan de Nietzsche. Daí surgiram os fundamentos
sócio-históricos e o laço entre a
exploração e apropriação dos bens em nome de Deus. Transferiam para Deus o imperialismo
cultural, econômico e político que se transformou na ideologia das direitas. Em
outra dimensão vem a teologia de Bonhoffer: que Deus participa do sofrimento: é
Deus que padece no sofrimento do justo com os pobres e oprimidos. Porém, vem o
problema: Onde está o todo poderoso poder de Deus? “O Deus, que apenas tem dó
de você e padece conosco deixa a palavra definitiva e última ao mal e ao sofrimento.
Então não é Deus mas o mal que goza da onipotência. E o que
significa neste caso Deus para o homem?” (o.c.p119). Outro caminho: Deixar o poder
da “onipotência de Deus” para o fim dos tempos. Um absurdo porque os tempos não
têm fim. Mas então qual o sentido do “Creio em Deus- Pai todo poderoso criador
do céu e da terra” do nosso Credo? O segredo está no seguinte: A filosofia
maniqueia tinha o “Deus” que morava em cima das nuvens, e que não se importava
nem com o mundo da matéria nem com os homens, mas tinha também o famoso demiurgo que era um segundo deus menor que um dia se esquivou do céu e baixou anos de
luz para brincar criando a terra e o cosmo. Tanto é assim que nos evangelhos vêm
referências a ele, e o chamam de “o chefe deste mundo” e “o príncipe deste mundo.” (Jo.14,30 e 16,11).
Quando a Igreja começou a ganhar mais coesão fizeram o chamado “credo apostólico”
para barrar essas ideologias afirmando que é o mesmo Deus que junta o poder dos
“dois”, e fez o céu e a terra e não tem outro, coisa que mesmo assim ainda entrou
no evangelho de João. Foi assim que entrou o “creio em Deus Pai-todo-poderoso”
para fugir da filosofia dos maniqueus. Falei noutra página que Deus não é Deus sem
nós, e nós não somos nós sem Deus. Na
verdade, na sua criação Deus juntou no ser humano a sua transcendência e a sua
imanência, de modo que ele não pode ser Deus sem nós, assim como nós não somos nós
sem Deus de tal maneira que ele age conosco e por nós, e a sua onipotência pode
depender de nós. Quem diria que os homens um dia atravessariam os espaços
cósmicos para achar as primeiras luzes do alvorecer do mundo há 15 bilhões de
anos, no início do Big-bang? A onipotência de Deus, segundo Santo Tomás de
Aquino é toda poderosa nas coisas possíveis, não nas impossíveis, como foi dito
que Deus não pode fazer um círculo quadrado nem mudar que dois e dois sejam
quatro e nem parar o caído do décimo andar, mas chamamos o bombeiro. Onde nós
chegamos ele chega conosco mas não chega sem nós. Como disse um teólogo: “Deus
está tanto na catedral como na cozinha. Em mim fala, move-se, dança, compõe
música, ou escreve poesia, faz amor e cria vida, ri da imperfeição de tudo e
chora por ela” (M. Morwood, “O católico de amanhã, Paulus, 2013, pag.101). Quer
dizer que o ser humano tem a liberdade partilhada com a liberdade de Deus. E Deus
precisa da nossa liberdade para agir, como vem repetido nos evangelhos: “A tua
fé te salvou” (Mt.9,22). A cópia está na criança e no pai. Respeita a liberdade
da criança, mas as duas liberdades colaboram. Vejamos mais uma vez Schilebeeckx:
“A onipotência divina torna-se desarmada e vulnerável em nosso mundo. Evidencia-se
como energia de amor que convida e outorga vida e liberta os homens, isto é,
aos que se abrem à sua colaboração. Ora, este aspecto quer dizer Deus não
procede contra a recusa humana.” (o.c.p 121). Ora, quando em linguagem tradicional
falamos em “pecado’, podemos falar também em falta de colaboração. Ou, como diz Paulo
Coelho, pecado vem de “pecus”, que é falhar o alvo. Um dia, quando Jesus
declarou que “dificilmente um rico entrará no reino dos céus” Mt.19,23, os
apóstolos perguntaram “então quem poderá salvar-se? Jesus terá respondido: “aos
homens isso é impossível mas não para Deus, para Deus tudo é possível” (Mt.19,23).
Com esta resposta fica tirado o peso da primeira afirmação e abre pano para dois
pesos e duas medidas, ou seja se é possivel para Deus também é possível para os
homens e vice-versa. Aí entra o método histórico-crítico na interpretação,
e colocaria Jesus em cheque, se a afirmação fosse mesmo dele, o que é duvidoso
pelo seguinte: a segunda afirmação teria sido feita por um segundo redator
quando a Igreja já estaria se acostumando com as riquezas, e tomando a
liberdade de invocar Deus para o seu lado, i.é, para o lado do seu churrasco: “Sim,
Deus vai permitir as nossas riquezas, ele não vai cobrar esse tanto não”. E
então seria: para os homens “é impossível” mas “para nós Deus permite e não
está nem aí. Isso seria o “possível de Deus”,
ou o “tudo é possível para Deus”, ou “tudo é possível para nós,
invocando em vão o nome de Deus e apropriando-se dele como donos de Deus;
poruqe os ricos da época e não só, sempre se julgam os donos de Deus. Conclusão.
Nós, pessoas humanas somos muito fáceis em querer domesticar Deus em nosso
favor, adaptando-o aos nossos interesses. Na verdade, somos duros para com os
outros e fáceis para nós mesmos. Para os homens isso é impossível. Isto é, para
os outros, mas para nós não. Isto é, quando é do nosso interesse já não é impossível,
e colocamos Deus do nosso lado.
P. Casimiro João
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