sábado, 22 de abril de 2023

FÉ E DÚVIDA, FÉ HERDADA E FÉ REFLETIDA.


 O teólogo Karl Rahner fala da fé refletida e da fé irrefletida ou herdada. Define a fé refletida a fé onde entra a ciência bíblica, as ciências humanas, como a cosmologia, a antropologia, a filosofia e a sociologia. E define a fé irrefletida como a fé baseada em heranças, em mitologias, e dados sem fundamento, e tradições míticas. (Curso fundamental da fé,p.340ss).

Para dizer a verdade, a fé começou sendo herdada entre as primeiras heranças da humanidade. A Deus ninguém o viu mas todo mundo o sente como o ar que respiramos. Desde que os humanos se sentiram senhores de se segurar em pé, e de sua fala e de seu pensamento, deram-se conta que tinham a maior riqueza dentro de si, o seu pensamento e a sua consciência: Porque é que eu acendo fogo e antes não havua fogo? Porque é que eu estou no mundo? Aí começaram a fazer uma filosofia e uma teologia. Desde eles mesmos começaram a pensar em Deus. Era uma teologia “ascendente”. Sem bases científicas, só na observação.

Observaram que é verdade o princípio de S.Tomás que “só se chega a Deus pelos sentidos”. E daí o mesmo partiu para as Cinco vias das provas escolásticas da existência de Deus: o motor imóvel, a causalidade, a contingência, os graus de perfeição e o governo do mundo. E assim o homem primitivo começou filosofando, embora se diga que Séneca e Platão foram os pais da filosofia. E dessa filosofia da razão inicial partiram para uma teologia inicial do movimento e das causas e efeitos fisicos para chegar até Deus. Desde os primórdios constatamos o outro princípio de S.Tomás, que “a fé começa pela razão, porque ela une todos nós” (S.Tomás,, Suma contra os gentios). E o terceiro princípio do mesmo Tomás sobre a colaboração entre a fé e a razão: “a colaboração entre a fé e a razão é recíproca”. Os nossos ancestrais iam partindo da observação das coisas para dar respostas às suas perguntas. E daí veio o 4º princípio de S.Tomás: “A verdade não está apenas no intelecto, mas principalmente nas coisas”. Deste ensinamento dos homens primitivos iam nascer as lições para os seus descendentes; estava-se formando uma riqueza cultural e uma herança de fé, de pensamento e da razão. E assim vem o 5º princípio de S.Tomás: “A razão humana conserva um vestígio de semelhança com Deus”. Junto com este aparece o 6º princípio da fé em S.Tomás: “O verdadeiro é conversível com o ente; ora o ente está fora da inteligência; logo o verdadeiro está fora da inteligência, ou seja, nas próprias coisas”. Tem mais um 7º princípio da caminhada da fé em S.Tomás, respeitar os caminhos: “A fé tem os seus caminhos e a razão tem os seus caminhos”. Esta conclusão tomista serve para afirmar o não controle entre fé e razão (Cf. Marques, José da Cruz Lopes: As verdades da razão e as verdades da fé em T. de Aquino,  De Filosofia vol.9,n.18,2018).

Até agora tratamos do progresso do conhecimento pela razão e de quebra os inícios da fé dos nossos primitivos ancestrais. E observemos que a razão é uma procura e a fé é outra procura. E ambas trabalham juntas e entrelaçadas como duas pernas juntas. E porque o ser humano é uno na sua essência. A razão e a fé não o separam mas o unem. Crianças e dementes não têm a razão e também não têm a fé. A razão tem dúvidas, por isso pergunta; a fé tem dúvidas e por isso pergunta. Também afirma S.Tomás que a fé não existe sem a dúvida. “Não existe uma fé que não seja acompanhada pela disposição da dúvida” (Summa Teologiae, qst.I,tr.it- Umberto Galimberti, “Rastros do Sagrado”, p.333) A fé trata dos porquês, “porque é que é? a ciência trata de “como é que é?” Assim:

- A fé trata do porquê existe o universo? A ciência trata de como é feito o universo?  - A fé trata do porquê existe o ser humano? A ciência trata de como fazer o ser humano mais perfeito?  - A fé trata o porquê existe a morte e o que vem depois da morte? A ciência trata de como humanizar  a morte e viver mais? É por isso que a fé nunca termina, pois tem sempre mais porquês. E a ciência também, porque existe sempre outro como? Como fazer? Como agir? Na verdade, raciocinar é mais difícil do que crer” (Umberto Galimberti, “Rastros do Sagrado, p.331)

Neste linha de ideias já começamos a pensar no que falámos no início: sobre a fé refletida e a fé não refletida. Crer só de ouvir e não questionar é como ser um disco para gravar. Ou, no dizer de Paulo Freire, um ensino bancário, que seria como colocar dinheiro no banco para ficar parado. Questionar a fé não é duvidar de Deus mas procurar Deus que sempre fica além de nossas respostas. “Quando um jovem questiona a fé está encontrando razões para crer” (Alistar McGrath).

Dissemos atrás que a razão humana conserva um vestígio de semelhança com Deus. E foi aí que os primeiros ancestrais começaram a imaginar essa semelhança. Como? Nas imagens que fizeram e pelas quais consideravam essa semelhança. E da imagem do ser humano imaginaram a imagem de deus: O ser humano não existe sozinho, então deus também não é sozinho; o ser humano tem família? Deus também tem família. Todos os povos pensavam e representavam, e os judeus também. O ser humano se irrita? Deus também. O ser humano tem filhos? Deus também. O ser humano tem esposa? Deus também. Os judeus também tinham isso: a “rainha dos céus” ou “Astharte” como esposa do deus Javé. (Cf. John Bright, História de Israel, p.375 ss). O ser humano perdoa? Deus também. O ser humano é guerreiro? Deus também é guerreiro. O ser humano tem sua “casa”? Deus também.

Esta foi a primeira religião e fé dos nossos ancestrais. E como não viam Deus, fizeram-no à imagem e semelhança do ser humano, homem e mulher. A Bíblia diz que “Deus fez o homem à sua imagem e semelhança”, mas na prática eles é que fizeram Deus à imagem e semelhança do homem, igual os outros povos. Saibamos que os Judeus só “fecharam ”com um só Deus” no sec.III antes de Cristo depois do exílio da Babilônia quando já não tinham mais os reis, que ficaram todos presos ou mortos no Exílio, e então ficaram com Javé como único deus e rei porque antes adoravam os mesmos deuses que os reis adoravam. (J.Brigth o.c.p.510 ss),

Chegamos ao ponto da Bíblia falar e escrever sobre Deus após outros primeiros livros e poemas de outros povos sobre Deus, como o Enuma Elish e o Gilgamesh. A Bíblia e esses outros escritos botaram por escrito o que já vinha no pensamento e nas narrativas orais. H.Kung afirma o seguinte “os teólogos, que profissionalmente estão empenhados na verdade da fé, não possuem de antemão esta verdade, nem dela dispõem de forma definitiva” (O princípio de todas as coisas, Vozes, 2007,p.62). E de quebra a Igreja também não possui de antemão esta verdade nem dela dispõe de forma definitiva. A Igreja, como o ser humano, e como o teólogo, vive perguntando. Tem os Concílios, tem os Sínodos e tem os teólogos para os porquês. E não adianta dizer que está tudo na Bíblia. Já a Pontifícia Comissão Bíblica falou nisso afirmando: “O fundamentalismo insiste de uma maneira indevida sobre textos bíblicos com grande estreiteza de visão pois ele considera conforme à realidade uma cosmologia já ultrapassada, só porque encontra-se expressa na Bíblia” (Pont.Com. Bibl.1994) Na verdade, na Bíblia ficaram escritas as respostas antigas e os “porquês” antigos. Agora a ciência dá respostas totalmente diferentes daquelas iniciais, a que chamamos de mitos e lendas. Imagine que nós agora íamos responder como é feita a bomba atômica? Sabemos o porquê, mas não sabemos como? Além disso, há coisas que na época da Bíblia não existiam e ninguém imaginava, como a engenharia genética. A Bíblia não fala e nem podia falar. Por exemplo os processos da fertilização in vitro, quando um casal resolve com esse processo. Na verdade, teologias mudaram de perspectiva e de configuração, como a salvação universal que foi debatida no conc. vaticano II. Antes já tinha-se debatido sobre a salvação ou não das crianças sem batismo. E sobre a necessidade irrenunciável do batismo para a salvação? Porquê? Porque certas sentenças bíblicas como aquela “sem batismo não há salvação” e “fora da Igreja não há salvação”, “quem não crer será condenado” ganharam outra interpretação teológica, uma vez que as interpretações antigas dependiam do histórico judaico, que era a herança do exclusivismo dos Judeus pensando que sé eles é que eram salvos, e quem fosse circundado. Ou seja: como os judeus pensavam que eram a única religião do mundo, também os primeiros cristãos pensavam que eram a única religião do mundo. Foi portanto um fim de prazo das prateleiras dessas sentenças bíblicas.

Conclusão. Do dito podemos concluir aduzindo alguns perigos para a fé. 1. A “repetição conforta porque se apoia numa suposta imutabilidade da verdade. E na medida em que uma verdade afirmada no momento é a verdade que alguém já está acostumado a ouvir aí cria-se uma falsa certeza de ser-se e sentir-se senhor e dono da verdade”(Rubens Alves, Religião e repressão, Loyola,138). 2. Segundo perigo, a “verdade que prevalece não é necessariamente a verdade, mas aquela que as instituições dominantes impõem”(Michel Faucault, Metafísica do poder, Ed.Graal, 2007, p.12).

Contra estes perigos a “crítica dos ateus pode ajudar-nos a romper os esquemas em que tantas vezes encadeamos e deformamos a ideia de Deus” (Queiroga, André Torres, Creio em Deus pai, 2005, p.21).

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sábado, 15 de abril de 2023

O “Meu Senhor e meu Deus”, de Tomé, e as intenções políticas nos evangelhos.


 Falemos sobre Tomé e sua famosa declaração de fé em “meu Senhor e meu Deus” (Jo.20,28). Santo Inácio na Carta aos cristãos de Esmirna, no séc. II, explicava que “Pedro e os seus companheiros apalparam Jesus e viram que não era um fantasma. E imediatamente eles o tocaram e creram. E que Pedro tocou as marcas nas mãos, que Tomé tocou a ferida, e que André olhou para as pegadas de Jesus” (Epist. Apostolorum, 11-12). Raymund Brown diz sobre o episódio de Tomé que alguém podia dirigir-se a Jesus com a mesma linguagem que Israel se dirigia a Javé, "Meu Senhor e meu Deus" como rezavam  nos Salmos 32, 24 e 95.  E que “se cumpria assim a vontade do Pai: ‘Que todos honrem o Filho como honram o Pai’. (“O Evangelho de João vol 2, p.1514). E acrescenta que “todas estas afirmações eram incluídas na liturgia que estava sendo desenvolvida na época. Devido a isso nos diz ainda o autor citado: “O apóstolo Tomé foi escolhido para representar a incredulidade de todos os apóstolos nas suas dúvidas e demoras em crer: “Ó gente sem inteligência, como sois lentos em crer em tudo que anunciaram os profetas”(Lc.24,25). E isto baseado em afirmações anteriores de Tomé, como quando da simbologia da ressurreição de Lázaro, em que os apóstolos se opuseram à ida de Jesus para o tumulo de Lázaro, e Tomé rematando daquele jeito: ‘vamos também nós e morramos com ele” (Jo.11,16).(Cf. R.Brown, o.c.p.1531).

Em segundo lugar saltamos agora para o episódio de Madalena quando avisou Simão Pedro e outro discípulo, ”aquele que Jesus amava” que o tumulo estava vazio. “Corriam juntos mas o outro discípulo correu mais depressa e chegou primeiro ao túmulo, mas não entrou. Chegou então Simão Pedro e entrou; entrou também o outro discípulo que tinha chegado primeiro, viu e acreditou.” (Jo.20,4-9). Porque é que era preciso que Pedro entrasse primeiro? Significa que Pedro devia ser o primeiro por ser o chefe dos Doze: dar vez à autoridade de Pedro. E por outro lado o “discípulo amado correu primeiro” era para dizer que ele tinha mais amor e mais fé. Isto significa a polêmica tradicional que havia entre a comunidade joanina e petrina. Aliás, como já vimos noutro blog, o “discípulo amado” é uma construção dos escritos de João para significar o contraste entre as comunidades de Pedro e de João. Se as comunidades de Pedro eram da autoridade, as João da fé e do amor. Daí o símbolo criado do “discípulo amado” que não era o apóstolo mas um símbolo. (Cf. Richard Baukcham, “As testemunhas oculares”, p.350 ss).

Esta polêmica criada pelo segundo ou terceiro século, aliás tem continuado na Igreja, e deu origem aos problemas com as Igrejas Orientais ortodoxas no séc.VIII e no séc. XVI com Lutero. E não só, dentro da Igreja católica continua nos problemas entre autoridade versus estudo da fé; magistério pontifício versus magistério teológico; autoridade dos Papas versus autoridade dos estudiosos. Um exemplo recente está em que no Conc.Vaticano II ficaram problemas muito sérios para ser resolvidos sobre a Família e tudo que se reportava aos novos métodos de reprodução. Porém, o Papa Paulo VI não teve paciência de esperar, e em 1968 publicou a encíclica “Humanae Vitae”, condenando laqueaduras e métodos anticoncepcionais. Afinal não se tem dado atenção aos seus conteúdos, e dizem os estudiosos que foi a encíclica menos obedecida no séc. XX. “Foi o caso em que na história da Igreja no séc.20 a grande maioria do povo e do clero recusava obediência ao Papa em uma questão realmente importante” (H.Kung, A Igreja tem salvação?” p.178).

Passemos agora para outros itens mais resumidos para poupar espaço: Nicodemos e José de Arimetéia; O véu do Templo; o episódio da orelha cortada; O jovem nú; e a declaração do centurião romano junto da cruz. Estudiosos dizem que Nicodemos e José de Arimatéia são figuras simbólicas dos cristãos judeus ocultos dos primeiros tempos tentando se converter às comunidades mas com medo dos judeus para aparecer publicamente. (Richard Baukcham, o.c.p.245). O véu do Templo que “rasgou de alto a baixo” significa o velho Testamento que dava lugar ao novo, assim como pedras e rochas se abriram e “mortos” ressuscitaram são elementos da escatologia de sinais imaginados que iriam aparecer no final dos tempos.(Mt.27,51). O episódio da “orelha cortada” só é atribuído pelo evangelho de João ao Pedro para recordarmos um sinal ainda das polêmicas mencionadas atrás, visto que nos outros três evangelhos sinóticos nenhum deles fala em Pedro, mas “alguém dos circunstantes”, confira Mc. 14,47; Mt. 26,47; Lc.22,47). Esse “alguém dos circunstantes” poderia muito bem ser um inimigo do sumo sacerdote com raiva de algum servo dele. O jovem que “correu nu” e largou o lençol (Mc.15,51) está sendo interpretado como uma figura dos discípulos, pois “todos o abandonaram e fugiram” na hora da prisão. “Então todos os discípulos o abandonaram e fugiram” (Mt.16,56). (Cf. Chad Myers, “O evangelho de Mateus”p.438). Finalmente a declaração do centurião “verdadeiramente este homem era justo”(Lc.23,47) ou “era filho de Deus”(Mc. 15,39) seria outra afirmação para adular os romanos e atribuir mais culpa aos judeus por não reconhecer Jesus. “Pilatos e Roma são praticamente absolvidos” na análise de Eugene Boring “Introdução ao Novo Testamento, vol. 2 p.1088.

Conclusão. Intenções politicas nos primeiros escritos dos evangelhos? Sem dúvida. Vamos ao significado de “polis”, “politica”, a arte de viver, e conviver na cidade. E como cultivando essa arte de conviver e sobreviver não poderia faltar, ela não faltou nos evangelhos. Faz-me lembrar que o cientista Galileu Galilei (1564-1642), no quebra braço com a Igreja ele disse ao Papa que  sua teoria era “falsa” só para se livrar da morte pela fogueira após oito anos de prisão, enquanto que o seu colega Giordano Bruno (1548-1600) foi condenado à fogueira, porque não usou a “política” da cidade, de Galileu Galilei.

P.Casimiro João     smbn

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sábado, 8 de abril de 2023

A Páscoa e o sopro do Universo.


 

Diz a lenda, aliás o poema, a Odisseia de Homero que o navegador Ulisses, para não se deixar seduzir pelo canto das sereias se fez amarrar a um mastro do navio depois de tapar os ouvidos dos seus homens.  Porém, Orfeu superou esse canto com uma música mais bela, e por isso as sereias, despojadas do seu poder, se lançaram no mar e se transformaram em recifes. Santo Agostinho disse um dia que “dois trompetes soam de modo diferente mas um mesmo Espirito sopra dentro deles”. O mesmo ar, a mesma música ressoou dentro dos trompetes dos ouvidos e do coração de Ulisses e de Orfeu, mas a reação foi diferente. Ulisses esboçou uma reação que foi se amarrar para não se deixar apaixonar, já Orfeu esboçou a reação de superar o canto das sereias, cantou melhor e as derrotou. 

 

Aqui temos exemplo de resiliência e de superação em relação aos sons que ressoam nos nossos ouvidos e às imagens que grudam nos nossos olhos. Certamente que Orfeu poderia ter-nos deixado este poema encantador: ’’A música é a graça do universo, o presente que as esferas do universo oferecem aos homens. Eu não vejo que a harmonia das esferas se deva unicamente à coordenação que existe entre elas como pensava Aristóteles, mas creio que decorra sobretudo do som que dimana do seu movimento. Trata-se do movimento que harmoniza a nossa alma com os pontos invisíveis do universo e com muitos mundos distantes. E aqui chegamos a precisar melhor o conceito de “harmonia”, que não está tanto na combinação dos sons mas na correspondência entre a emissão da sonoridade cósmica e a percepção da alma humana. Certamente que este lugar não é descritível, como não é descritível a música, que quando está escrita não soa, e quando soa não é visível. Entre o sinal preto da nota e o papel branco sobre o qual ela está impressa existe aquela distância que eu chamo de infinito. O universo se foi construindo com ritmos e harmonia e as esferas em seus giros produzem música” (cf.htt:// Pitágoras a e música das esferas).

 

É o infinito que a música preenche e a alma sente. Foi esse infinito que preencheu a alma de Orfeu e superou o finito da distância das Sereias.

 

Falamos agora da ressurreição e da superação da morte. Alguns se amarram nas tábuas do caixão e pensam que nunca mais delas sairão. Outros cantam o hino da claridade da Páscoa, e seus voos sobem tão lindo e tão alto como Jesus. “Não me segure, que ainda tenho que subir para o Pai” (Jo,20,17).

 

Mais curta que a distância entre o cadáver e o sepulcro é a distância entre a fé e o amor da Madalena e de todas as Madalenas. FELIZ PÁSCOA.

P.Casimiro João    smbn

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sábado, 1 de abril de 2023

Domingo de Ramos e o início dos evangelhos.


 

Os primeiros escritos dos evangelhos eram a narração da paixão. Estes escritos, que certamente têm algo a ver com a fonte “Quelle” fizeram pela primeira vez a catequese coligida que fez a raiz e o broto do evangelho de Marcos, ou ‘São Marcos’. Daí a cópia passou a fazer parte da outra comunidade onde se desenvolveram as catequeses do evangelho chamado de Mateus e de Lucas. Mas sempre as origens da vida de Jesus onde o carro chefe era a paixão, morte e ressurreição.

Hoje em dia no domingo de Ramos é apresentado ao povo cristão o evangelho, ou a Paixão segundo Mateus, cap.27, 11-54.   Impressiona-nos a seguinte temática, como um refrão repetido, ou a tecla fundamental da música: Quando Pilatos perguntou ao povo se era pra soltar Jesus ou Barrabás, qual dos dois quereis que eu solte? A multidão gritou: Barrabás. “Que farei com Jesus, que chamam de Cristo?” –“Que seja crucificado”; “Mas que mal fez ele?” –“Eles porém gritaram com mais força: seja crucificado”. Pilatos lavou as mãos e disse: “então esse problema é vosso”.

São três as vezes em que Pilatos se mostrou como inocente da morte de Jesus. E as culpas todas atribuídas aos Judeus. Além daquele detalhe hilárico da mulher de Pilatos pedindo que “não se envolvesse com esse justo”. Porquê isto? Todos os estudiosos recentes dão o seguinte motivo sobre a maneira de inocentar Pilatos sobre a morte de Jesus: Os evangelistas não queriam impressionar os romanos, mas adulá-los. Tiveram todo cuidado para não atribuir as culpas a Pilatos, mas aos Judeus e às autoridades dos judeus. Justamente, porque em causa estavam as primeiras comunidades que estavam se formando entre os romanos no meio dos quais viviam como povo colonizado e não independente. E por outro lado a admiração é maior por quanto os historiadores sabem que Pilatos era um terrivel assassino e governador tirano e cruel com histórico de muitos massacres em cima da população judaica como quando mandou massacrar centenas de sacerdotes no templo quando protestaram contra a imagem de Cesar Augusto que tinha colocado no Templo. A estratégia era portanto adular e agradar os romanos. E como estes originários escritos da paixão foram o broto original que deram sequência ao resto dos evangelhos, aí se criou o quadro e o formato para outras narrativas seguintes da vida de Jesus. Vimos aqui em outros blogs o exemplo das curas do servo do centurião romano apresentado com tanta fé, que Jesus “não tinha encontrado tanta fé em Israel” (Mt.8,10). Não só, mas logo aquela afirmação ainda na hora da morte de Jesus quando também outro centurião teria exclamado: “verdadeiramente ele era filho de Deus” (Mt.27,54). Estratégias grandes para apelar à conversão dos cidadãos romanos para não perseguirem  os cristãos e para entrarem para as comunidades que estavam começando. Sempre inocentando os romanos e suas autoridades e culpando os judeus e suas autoridades.

Não podemos deixar de lado aspectos derivantes da história do Antigo Testamento que foram colocados nas cenas da Paixão. Vou-me reportar apenas aos elementos da escatologia judaica tradicional, em que “houve uma grande escuridão sobre toda a terra”; “A terra tremeu e as pedras se partiram; os túmulos se abriram, e os corpos dos santos falecidos ressuscitaram, saindo dos túmulos depois da ressurreição de Jesus e apareceram na Cidade Santa e foram vistos por muitas pessoas” (Mt.27,51-34). Estas afirmações são da escatologia antiga judaica sobre o que os antigos imaginavam que ia acontecer no fim dos tempos (Cf. Joel, 2, 10.31 e Is.26,19 e 13,10). Isto não foi verdade, são só imaginações antigas. E até porque o Novo Testamento tinha esta proposta que o fim dos tempos antigos tinha chegado, e começavam os novos tempos, o tempo da restauração e redenção com a morte de Cristo, o que notamos noutro sinal, que “a cortina do Templo se rasgou de alto abaixo em duas partes”(Mt.27,51).

Conclusão. Chamamos aqui as palavras de Pio XII quando escreveu: “A regra suprema para uma interpretação correta dos textos bíblicos consiste em encontrar e definir o que o autor quis dizer e estar atento aos gêneros do discurso ou de escrita que ele utiliza” (Encíclica Div. Aflante Spiritu,1943). Boa Semana Santa.

P.Casimiro João   smbn                

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segunda-feira, 27 de março de 2023

“Imprima-se, leia-se, mas não se cumpra”


 

Este era um princípio dos monarcas da Idade Média a respeito de documentos dos Papas. “Imprima-se, Leia-se, mas não se cumpra” quando não lhes convinha.

Hoje em dia não se expressa essa atitude assim tão aberta mas se pratica, quem sabe, também pela sociedade religiosa. Refiro-me a documentos exarados pela autoridade oficial da Igreja sobre assuntos delicados que afetam a consciência moral das pessoas. Por dois motivos: o descompasso da Igreja com o consenso geral da sociedade e mormente com o descompasso do avanço da ciência sobre o valor da consciência humana e com os novos avanços da antropologia, psicologia e democracia, que trazem uma nova cosmovisão. Nesta cosmovisão não se trata daquele mundo, o “cosmo” físico mas daquele cosmo integrado que inclui o ser humano como a “consciência” universal de toda a criação. Evidente que na visão tradicional se separava esse mundo material do mundo da pessoa, do indivíduo, na ideologia do dualismo maniqueu que dividia a matéria como má e o espírito como bom. Daí vinha toda uma filosofia dualista e moral dualista. Vem até no evangelho uma amostra disso, separando Deus e a criatura onde se diz “só Deus é bom” (Mc.10,17), como se tudo o mais não fosse bom. Na moral já vimos noutro Blog que só o espirito era bom e a matéria era má, com todas as consequências de psicopatologias e esquizofrenias que isso aporta para tantos indivíduos que se veem numa guerra perdida com o seu próprio corpo “coisa má” grudado numa alma de que não pode se separar, chamada também “cárcere da alma” como se dizia. Desta ideologia de separação resultam vários desvios, sendo o principal o de “coisifcar o corpo humano”, como diz o documento “Alegria do Amor”n.151, como sendo a coisa má que se carrega. Implantou-se no cérebro humano que só o espírito é sagrado e que Deus é inimigo do corpo. Porém hoje em dia no diálogo com a nova cosmologia se sabe que tudo no mundo é sagrado, e dentro do mundo a pessoa humana é a peça fundamental. Como já dizia Santo Irineu, “a glória de Deus é o homem vivo”. Quando se constrói o ser humano constrói-se já a parceria com Deus. Deus fala em todos que falam pelo bem do ser humano. Yuval Harari, sábio israelense disse que “não precisamos invocar o nome de Deus para viver uma vida de moralidade; o ser humano pode nos prover de todos os valores dos quais precisamos” (Yuval Harari (cf. Donizete Toneti, Sexualidadee e Pastoral, Paulus,p.90). Ou seja, quando se expressa o bem e o valor do ser humano se expressa-se o nome de Deus.

A sociedade hoje entende a vida como movimento feito de avanços. Estamos na passagem de uma sociedade estática para uma sociedade dinâmica e em continua evolução. Experimentamos um contínuo processo de transformações rápidas e profundas em que é urgente assumir a consciência de que a diversidade faz parte da essência humana. E se torna um desafio para quem apostava na ideologia da conservação onde tudo era apologia da ideia estática e narcisista de ter medo de tudo o que é novo. Neste aspecto o histórico da Igreja não é muito positivo no acompanhamento e na recepção dos progressos das ciências humanas. Devido a isso se pregava uma ética sexual estática, restritiva a um modelo na contramão dos contextos históricos; faz-se urgente então reavaliar os critérios éticos repensando o significado do corpo e da matéria, por exemplo na sexualidade e seus valores num contexto de diversidade da sociedade hodierna. Como consequência postula-se hoje a progressão moral evolutiva deixando de lado uma moral ética e sexual de Aristóteles. Aristóteles, observando o sexo dos animais descreveu a “lei natural” como aquele comportamento onde a fêmea apenas é o espaço onde é depositado um “pequeno homem”, um “adulto em miniatura”, pois era no esperma do macho que ele estaria contido. Esta física e cosmologia antiga ainda vigora até hoje nalgumas cabeças antigas, deduzindo daí que o prazer humano do sexo serve só para a reprodução. A cosmovisão de hoje leva a mente a “sair do quarto” para se abrir ao contexto do amor abrangente que significa diálogo, e relacionamento afetivo. Porém, para a maioria dos cristãos falar em sexo e prazer ainda vigora o único imaginário do “quarto” como reprodução. Significa que é preciso ser cristão num tempo de mudança, onde ambos os aspectos, físico e afetivo estão intimamente ligados.

Hoje a sexualidade não pode ser reduzida ao aspecto genital e à procriação mas deve ser assumida consciente e livremente pelo sujeito. A Congregação para a Educação católica assim se expressou: “A sexualidade é um componente fundamental da personalidade, um modo de ser, de se manifestar, de se comunicar com os outros, de sentir, de expressar e de viver o amor humano como parte integrante do desenvolvimento da personalidade e do seu processo educativo” (Orientações, 1983, n.4) Cf: André Luis Boccato, Sexualidade e Pastoral, p.41).

Vemos que há uma intuição universal sobre o bem e o mal moral. Na verdade, a “análise histórica dos Mandamentos revela que há um grande paralelismo entre eles e as leis de outros povos do Oriente Médio” (Barboglio, em Decálogo, cf. Almeida, André Luis, o.c.p.64). E a Pontifícia Comissão Bíblica afirma: “O Deus da Bíblia não revela antes de tudo um decálogo, mas a si mesmo” (o.c.p.62).

Há um atraso histórico em certos canais televisivos que têm merecido críticas ultimamente. Entramos agora no aspecto da progressão moral. Entendemos que certas respostas dadas como receitas matemáticas em canais televisivos tratam deste tema como se a pessoa fosse um ser de mármore informe sujeito a uma e outra e outra martelada com as quais pudesse ser cortada, serrada e polida  para ser um cristão. Essas situações levam pouco em conta que as coisas humanas não se apresentam como branco e preto (Papa Francisco, Alegria do amor, 37) mas mais como naquela outra historia em que um aluno respondia à questão, quando foi perguntado que no mundo o mal é preto e o bem é branco, e ele respondeu, professora, então somos todos zebra. O tipo de respostas morais que se propalam nesses canais são de tipo “é, não é,” “pode, não pode”, e isso seria como se os ouvintes fossem marionetes feitas de fábrica, sem possibilidades de reflexão, de consciência, de discernimento e crescimento. É um forno de pão estornicado. Tudo baseado numa moral estática, petrificada e congelada nos freezers dos canais televisivos forjados há quase 100 anos. São “mestres com a cabeça feita antes do Concílio e não conseguiram mudá-la. E esquecem que há aquele Espírito que, como diz o Vat.II dirige o curso dos tempos e renova a face as terra com admirável providência” e ajuda a interpretá-la com discernimento (Gaudium et Spes, 26; Cf. Almeida o.c.83). E também não atendem à gradualidade do crescimento da pessoa, dando respostas de uma moral fria e burocrática” (Alegria do evangelho,32) dando receitas prontas e infalíveis como alquimia para elementos químicos. Por isso, cuidado com as receitas das mídia mediáticas e mágicas tipo rcc e cia.

Nestas páginas focamos que a gradualidade do crescimento implica etapas de crescimento, e para essas etapas não adéquam receitas prontas e mágicas. O outro é o “outro” que merece respeito, veneração. O outro é o outro e não uma coisa. Discernir é tarefa pessoal. Não é pancada que vem na violência de uma imposição alienante. Discernir é buscar o ideal sem esquecer que ele deve se encarnar etapa por etapa no concreto existêncial de cada pessoa. É colocar os pés no chão da realidade qual ela se apresenta hoje e não nas nuvens de épocas de séculos atrás.

Discernir é ajudar as pessoas numa tríplice dimensão: pessoal: a sexualidade a serviço da personalidade; social: a serviço da construção de uma nova humanidade; e transcendental,  a sexualidade a serviço do cosmo como um todo onde o ser humano reflete a luz das estrelas. Discernir deve ainda levar em conta estes três graus: 1ª grau, tomar consciência do ideal e do real; 2º grau, da unidade entre as dimensões objetiva e subjetiva da moralidade; e o 3º grau, levar em conta o significado da importância da consciência da lei da gradualidade e da condução da  sua consciência. No dizer de Antônio Moser, “a sexualidade é uma moradia com muitas janelas abertas para o mundo” (O enigma da esfinge,115).  (Cf.nosso Blog a respeito dos 3 andares do cérebro: www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br de 26/2/23). Tendo em conta que “à Igreja cabe formar consciências, não substiuí-las” (Alegria do amor, 32), e que “deve-se considerar o potencial erótico e instintivo da libido como um aliado, e não um inimigo”(Thiago Calçado, o.c.p.162). Se não se respeitar este processo haverá frustração permanente. “Se não houver formação permanente haverá frustração permanente” O resultado será “a vivência de uma sexualidade neurótica, desintegrada, perfeccionista, presunçosa, narcisista, intolerante, cruel e desumana”(Wisniewski Eliseu, Sexualidade e Pastoral, p.120). Cuidado então com gente que tem a cabeça antes do concílio e não conseguiu mudá-la. O Papa Francisco ainda diz que certas palestras causam desinformação e ‘infodemia’  e apela para “certos formadores se formarem melhor em competência, sensibilidade e autêntico profissionalismo”(o.c.p.349). E dá recomendações ainda como “evitar mesquinharia moral” (Alegria do Amor, 304). O papa Francisco ainda diz que “A palavra de Deus não pode ser conservada em neftalina como se fosse um velho manto mofado que é preciso proteger da traça” (Alocução no XXV aniversário do CIC,11/9/17; o.c.p.306). “Jesus não falou diretamente da sexualidade nem se apresentou como um inimigo do corpo pregando privações e sacrifícios; não encontramos uma palavra sequer vinda de sua boca a respeito de relações pré-matrimoniais, homossexualidade, masturbação; nos evangelhos deparamo-nos com um silêncio surpreendente diante da sexualidade e/ou problemática sexual” (Morano o.c.p.113). Não é a sexualidade que pode entorpecer o caminho para Deus mas antes de tudo a injustiça, o dinheiro, o legalismo, a hipocrisia farisaica, inclusive, em determinados casos, as próprias práticas religiosas”(Morano, Cf. Wisniewski, Eliseu, o.c.p.115)

Sobre as mídia de afirmações arcaicas e petrificadas de certo ”magistério paralelo” diz ainda o Papa Francisco: “Por pensar que tudo seja preto ou branco às vezes fecham o caminho da graça e do crescimento, e desencorajam percursos de santificação que dão glória a Deus” (Alegria do evangelho, 305). E isso também impede que julguemos com dureza aqueles e aquelas que vivem em condições de fragilidade ou apenas diferentes da nossa” (Sdardeloto, Moisés, Sexualidade e Pastoral, p.345).

Conclusão. Para alguns analistas existe uma desconexão entre as normas do magistério e as perspectivas dos fiéis, considerando que as normas da Igreja estão desligadas da realidade. Como exemplo, “90% dos casais católicos utilizam os meios contraceptivos proibidos pela encíclica “humanae vitae”. Jovens casais moram junto antes do matrimônio, embora também Roma tenha-se pronunciado contrária” (o.c.p 118), citando Roger Lenaers, Thomas Halic e Libanio. Daí parece voltarmos à época da Idade Média onde se criou o slogan com que começámos esta matéria, “Imprima-se, leia-se mas não se cumpra”.

P.Casimiro João   smbn

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segunda-feira, 20 de março de 2023

O princípio do prazer na Psicologia de Freud e Adler e na Logoterapia de Victor Frankl


 

Partimos do princípio que o ser humano tem uma orientação primeira e natural para criar e para realizar valores. O indivíduo quer realizar valores.  Eu penso muitas vezes nas vantagens que temos hoje em dia em máquinas, objetos e utensílios que são do uso do nosso dia a dia: o carro, o celular, o avião, o relógio, o computador, a geladeira. Eu uso, nós usamos, mas nem sabemos o cara que fez isso: agora é só eu comprar, e pronto. Quem inventou a roda, a primeira bicicleta, o seu relógio, seu tipo de celular?

 

Isso é a orientação primária e natural para criar valores. A pessoa e pessoas que fizeram esses trabalhos não fizeram em primeiro lugar para o prazer, mas para criar. Ficaram felizes, mas nos tornaram mais felizes a nós. Porém, quanto mais se faz do prazer um alvo pessoal, mais se erra a meta. Vale dizer, quando se busca o prazer pelo prazer já se frustra a sua obtenção. Mas quando se objetivam motivos superiores vem junto o prazer pessoal como a cereja do bolo. Na verdade, quem age objetivamente apenas pelo prazer cai num precipício chamado de auto anulação em que nada constrói, e destrói o seu próprio prazer. Fazendo da felicidade o objetivo de motivação, ela passa a ser também o objetivo de atenção. No entanto, ao proceder  assim perde-se de vista o motivo, a razão para ser feliz; e consequentemente a felicidade, que por sua vez acaba por desaparecer. O prazer pelo prazer seria “thanatos”, i.é, vazio, quimera, ilusão; porém como componente de um objetivo é vida e felicidade. Em condições normais, o prazer nunca é a finalidade última da atividade humana, mas, sim, um efeito colateral da consecução de uma meta. (Victor Frankl)

 

 

Exemplo: o casamento, sendo a realização maior do ser humano, homem e mulher, é o objetivo maior que inclui vários leques, como empresa, trabalho, fortuna, status social, e exercício do prazer erótico. É um kit de várias realizações, mas juntas fazem o feixe da felicidade. No entanto, se se casa somente pelo prazer erótico, ou status, ou para conseguir fortuna, anula-se o objetivo do casamento e vai cair numa auto anulação. A pessoa olhou a uma parte do feixe, e o feixe acaba caindo redondo.

 

A mesma coisa num cargo político onde há os caçadores de status. A pessoa muitas vezes não vai para o cargo para fazer bem à sociedade, mas para se promover, ganhar dinheiro, poder, vaidade, riqueza pessoal e status. Tais visões de funcionamento acabam por ser auto anulativas, uma vez que alguém que demonstra e exibe seu desejo de poder será, cedo ou tarde, repudiado por parecer um caçador de status.

 

 

Em psicologia e especialmente na logoterapia o foco do objetivo maior e abrangenre é definido como vontade de sentido, ou seja o esforço básico do homem na direção de encontrar e realizar sentidos e propósitos.

Podemos então distinguir três tipos de objetivos na mesma ação: a autorealização onde se busca o prazer imediato ou erótico, segundo Freud, ou o prazer imediato do dinheiro e status segundo Adler; e o terceiro é a autotranscendência que ultrapassa ou transcende o prazer imediato e egoísta, para beneficiar a humanidade. Podemos apresentar mais um exemplo: o médico que poderá objetivar sua missão como prazer individual de satisfazer suas práticas eróticas (Freud) ou de ganhar dinheiro e status (Adler); ou então de diminuir o sofrimento da humanidade (V.Frankl). Na logoterapia que é um ramo da psicologia os dois primeiros exemplos não constituem a busca última do ser humano. Eles contradizem o caráter mais abrangente da existência humana. Apenas o último objetivo da autotranscendência realizará a felicidade de melhorar a humanidade. No casamento, como dissemos, a pessoa que vai só com o objetivo de ir depressa à “boca do poço” terá como primeiro fim o prazer erótico, destinado ao fracasso. A pressa na “boca do poço” seria o que se chama autorealização. Quem vai com o objetivo de construir uma família equilibrada e feliz, esse ou essa ultrapassa o objetivo único e egoista do erotismo, para focar no bem geral da família com seu leque de planejamentos. Isso chama-se autotranscedência. O povo já fez esta reflexão com o ditado “não vá com muita pressa à boca do poço”. E V.Frankl conclui: “A autorealização não constitui a busca primeira do ser humano. Não deve ser portanto a sua intenção primária. Essa autorealização quando é procurada como um fim por si mesmo contradiz a essência do ser humano” (V.Frankl “A busca de sentido” p.53).

Partimos agora para outra reflexão ontogenética: o principio do prazer na criança, no adolescente e no adulto, segundo Freud, Adler e Ungers. Freud afirmava que o primeiro grau da busca de prazer individual e erótico está mais na criança pequena; Adler afirma que no adolescente começa a despertar o 2º grau da autorealização que por sua vez é de superar-se com a autotranscendência no adulto. Frankl diz que no sujeito maduro se completa este 3º grau da superação dos outros dois graus. (o.c.p.57). Isto corresponde à nossa postagem sobre o desenvolvimento ou evolução dos três andares do cérebro humano, conforme o Blog www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br de 26/2/23

 

Conclusão. Freud estuda a psicologia do prazer erótico; Adler estuda a psicologia do prazer de status, poder de dinheiro\; V.Frankl estuda a logoterapia, que analisa os outros dois. Hoje vemos tantas noticias de estupros, violências contra a mulher, grupos de extermínio, e outros caçadores de poder, dinheiro e status, estes mormente instalados na classe política. Isto dá-nos ocasião para conferir com as teorias citadas por Freud, 1º grau da procura de erotismo; segundo grau da procura de status, poder e dinheiro (Adler), e o 3ºgrau do desenvolvimento da autotranscendência (V.Frankl) daqueles e daquelas que lutam na sociedade pelo equilíbrio dos dois pesos. Se não existisse este terceiro grau a humanidade estaria dedicada ao fracasso, mas com ele a vitória da humanidade está garantida não sem muito esforço, prevenção e educação.

 

P.Casimiro João    smbn

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segunda-feira, 13 de março de 2023

A canonização dos Santos e as pressas em algumas canonizações, herdeiras dos imperadores romanos.


 

Existem na Igreja tabus conciliares, surgidos após o Concílio Vaticano II e que ainda subsistem. Questões relativas à família e novas disposições para a nomeação dos bispos, reforma da Cúria dos cardeais e sobre o papado. Eram tabus no Concílio. Quanto ao controle da natalidade e métodos contraceptivos houve três intervenções sucessivas de eminentes cardeais, porém o debate foi logo abortado pelo Papa (Paulo VI). Afinal o tema foi delegado a uma Comissão especial, que favorecia o debate, mas mesmo assim foi mais uma vez anulado pelo mesmo Paulo VI na encíclica “Humanae Vitae” de 1968, após o Concílio. No entanto, esta tentativa do Papa não teve êxito, desde o surgimento da pílula em 1960. E é sabido que milhões de mulheres em todo mundo se utilizavam já desse método anticoncepcional. Aliás, a pílula foi inventada por dois cientistas católicos John Rock e Pasquale DeFelice. A bem da verdade, a referida Encíclica que proibia o controle da natalidade e como tal o uso da pílula mostrou o primeiro caso na história do século 20 em que a grande maioria do povo e do clero recusou-se a obedecê-la. (Cf. H.Kung A Igreja tem salvação, pg.175 e 178).

É verificável que houve atividade e um propósito de frear o movimento conciliar assim como as reformas propostas pelo Concílio logo desde o Papa Paulo VI, sucessor de JoãoXXIII.  Esta atitude de não aceitação do Concílio ainda aumentou com a chegada do Papa João Paulo II, atitude que alguns teólogos chamam de “traição ao Concílio” (o.c.p.180), que consiste num distanciamento da Igreja de tudo que tinha sido decidido nos documentos conciliares, o que por sua vez fazia distanciar da Igreja numerosos católicos de todo mundo.

E porque é tabu dizer a verdade na Igreja? Um dos tabus do reinado de João Paulo II foi um caso impactante como o seguinte: No México havia a Instituição dos “Legionários de Cristo” comandada pelo Padre Marçal Maciel. Esta congregação era super rica e milionária, tanto que fazia correr muito dinheiro para o Vaticano. Tanto como eles só outra semelhante, a “Opus Dei” também uma das preferidas do mesmo Papa João Paulo II. O padre Maciel era quem mais se opunha às orientações do Vaticano II. Isso não seria porque ele convivia publicamente com duas mulheres de quem teve quatro filhos, a mexicana Bianca Gutierres e Norma Banhos, e mais uma filha no Reino Unido e outra na Suiça, além de abusos de menores? Ele se proclamava agente da CIA e alto executivo do petróleo; possuindo 5 identidades diferentes. Apesar disso era acobertado pelo Papa João Paulo II, pois eram muito amigos, de tal maneira que o P.Maciel foi o companheiro fiel e o organizador das Quatro viagens que João Paulo II fez ao México. Quando Maciel morreu, sua fortuna rodava pelos 30 milhões de dólares.

Quando João Paulo II faleceu, em 2005, foi visto um Cartaz de grupos dos “LEGIONÁRIOS DE CRISTO”, infiltrados na multidão na praça do Vaticano que muita gente chamava de “Milionários de Cristo”, os mesmos que o Papa poucos dias antes tinha abençoado e elogiado das janelas do Vaticano. Os cartazes pediam “SANTO SÚBITO”, isto é, a canonização de João Paulo II. E quando o Cardeal Ratzinger o sucedeu como Papa, teve logo o interesse em pôr em prática o slogan do Cartaz. Na verdade, esta pressa tinha como objetivo não dar chance a maiores dificuldades e objeções contra a canonização de João Paulo II reduzindo os intervalos canônicos para a canonização. Como disse depois o escritor alemão Michael Walsh: “Os Papas herdaram a tradição dos antigos imperadores romanos, que tratavam de endeusar os seus predecessores”.  E era essa a preocupação de Ratzinger. Por isso nem foram respeitados os prazos legais tanto para a beatificação como para a canonização. Inclusive, os médicos duvidam se até a freira francesa que supostamente foi curada do mal de Parkinson se até mesmo ela esteve doente. (o.c.p.186-187).

Falando de tabus, falemos também sobre as canonizações de Santos. As canonizações começaram em 1.200 com Inocêncio III que chamou para si todos os procedimentos, e dos quais ele viu que poderiam retornar em fabulosos lucros para o Papado. Até lá eram os bispos que levavam seus amigos à honra do título de Santos. Honra que era mais ligada ao poder e à influência do que “dedo de Deus”, por isso que só concedida a nobres romanos e europeus influentes. De hoje em dia esses processos dão muito dinheiro ao Vaticano. Dizia a freira que levou Santo Antônio de Santana Galvão aos altares: “Gastarei o que for preciso, mas levarei o Frei Galvão aos altares”. A este propósito, só para falar nos últimos Santos, detenhamo-nos no último Papa que fez mais “Santos” do que os outros Papas em 400 anos, João Paulo II: 1.380 beatificações e 538 canonizações. Algumas destas canonizações foram duvidosas, como os mortos na guerra civil da Espanha. Outra, a do Padre Pio, no qual as “chagas” ou “estigmas” foram consideradas “manipuladas”. Também a canonização do Pio IX tão reacionário aos tempos modernos, e com documentos que ficaram padrão de uma Igreja inimiga da ciência e da inteligência. Por seu lado, já como dito atrás, Bento XVI, na canonização de João Paulo II extrapolou todas as regras e espaços de tempo. Além de que protegeu o famoso Padre Marcial Maciel, “casado” com duas mulheres, e com a agravante de ser o organizador das suas Quatro viagens ao México. Eles guiavam-se por aquela pauta falada pelo historiador alemão Michael Walsh, como dito atrás: “Os Papas herdaram dos antigos imperadores romanos a tradição de eudeusar os seus predecessores”.

Falando de canonizações não será tabu falar sobre os gastos. As beatificações saem na média de 35 mil Euros; As canonizações por 55 mil Euros, cada processo. Imagine se entre os Países do 3º Mundo será possível nem pensar nessa aventura? Além disso há os lucros adicionais: Medalhas, imagens, Livros, Turismo, e Doações. Mas tudo isto será tabu com a mistura da proclamação da santidade dos Servos de Deus, que ficariam de queixo caído se eles soubessem disso.

Falando de Pio IX: “Declarou guerra à modernidade, e com a incentivação dos Livros do “Index” proibidos mundialmente manteve as inteligências mundiais no obscurantismo de rebanho imbecilizado e analfabeto” (Cf.H.Kung o.c.p.454). Eis alguns nomes de fama mundial que colocou no Index dos livros proibidos: Copérnico e Galileu, os pais da ciência moderna; Descartes, Pascal, Bayle e Malebranche, e Espinoza, s pais da filosofia moderna; Os filósofos Kant, Locke e Hume; Literatos como Diderot, D’Alembert com as suas Enciclopédias e o Dicionário Larousse; Hugo Grotius, teórico do Direito Internacional; Vitor Hugo, Lamartine e Balzac e Simone de Beauvoir, para falar nos principais. Imagine-se o cegueirismo ditatorial da Igreja católica dessa época causando um apagão cientifico da fé e das ciências (Cf. o.c.p. 139).

Sem falar épocas anteriores, em que Inocêncio III fez o seu casamento dentro do Vaticano. Vivendo em monumental luxo na busca desenfreada do prazer e em monumental devassidão eram colocadas nessa época as bases para o celibato do clero. Sucedeu-lhe Sisto IV que colocou todos os seus sobrinhos com cargos no Vaticano, ele que tinha a ideia fixa do dogma da Imaculada Conceição de Maria. Alexandre VI com as amantes, e Inocêncio VII levou seus filhos também para o Vaticano (o.c.p. 125).

Conclusão. Um dado importante é que entre os candidatos à canonização, os leigos não têm vez. Nas pesquisas dos historiadores encontraram um Leigo por ano em média, no meio de centenas por ano de todos os outros, só religiosos ou religiosas.

P.Casimiro João        smbn

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