segunda-feira, 23 de outubro de 2023

O que é “Revelação”, conceito moderno de Revelação bíblica.


 

No Blog anterior falei que Deus não é propriedade de nenhuma religião. Na teologia tradicional Revelação era a forma pela qual Deus se dá a conhecer e acreditava-se que Deus só tinha se revelado ao povo de Israel. Concomitantemente vinha o conceito mágico de inspiração e inerrância segundo o qual todas as palavras da Bíblia seriam ditadas por Deus. Este conceito mágico hoje não é mais aceito, mormente desde o Concílio Vaticano II,  conforme a Declaração da  Pontifícia Comissão Bíblica de 1993, 40-41 e Documento Lumen Gentium, 16 do Vaticano II. No Blog anterior trouxe à nossa reflexão as diferentes experiências dos vários povos e civilizações e o novo conceito de “revelação”, que consiste na experiência elaborada de homens e mulheres que desenvolveram experiências mais vivas de Deus.(cf. E.Schillebbekx, “Jesus, História de um Vivente, p.20-26; e H.Kung, “Teologia a caminho”, p.135). 

Depois da reflexão sobre as diferentes experiências dos povos, comecemos pelo exemplo paradigmático, o povo de Israel. O povo de Israel passou por duas experiências diferentes e sucessivas de Deus: do deus da agricultura, “Elohin” que era o mesmo dos Sumérios passou para o deus da guerra, Sabaoth, com a experiência do faraó e da monarquia do rei Davi e aí foram desenvolvendo, absorvendo e formulando a “revelação de Deus” como deus guerreiro: “Formei-te guerreiro para saberes que fora de mim não tem outro” (Is. 45,6). A essa revelação chamamos “o deus do Antigo Testamento”. Com a vinda de Jesus Cristo ao mundo, a humanidade ficou marcada com uma nova “revelação” a que eu chamaria a “terceira revelação bíblica”. Esta é fundamentada na experiência que os Apóstolos tiveram de Jesus Cristo. Jesus Cristo sendo judeu não partilhou da experiência do povo judeu do Antigo Testamento como “deus dos exércitos”, ou “guerreiro”. Desligando-se dessa experiência, corrigiu sempre os seus discípulos que não podiam ser “filhos do trovão” quando eles pediram para mandar “fogo do céu” e queimar os seus adversários (Jo.5,7). Chamando-os até de “satanás” quando teimavam em que ele devia ser o Messias imperador e guerreiro igual o rei Davi (Mt.16,18). Assim Jesus confirmava essa sua desligação da antiga experiência de “revelação” de um deus guerreiro e “imperador”. O último corte conhecido foi o seu silêncio na hora da “Ascenção” quando lhe perguntaram se era agora o início do seu reino imperial? (At.1,1). Daí em diante começou para os apóstolos uma nova etapa, o nascimento de um mundo novo, e de uma nova religião: a nova “revelação”. A duras provas os apóstolos se acostumaram a dizer “Tchau” ao deus do Antigo Testamento, ao mesmo tempo que começaram a sintonizar com a experiência de Jesus Cristo e com a nova “revelação”: “não, o Pai de Jesus não é o deus guerreiro e vingador do Antigo Testamento mas o Pai que acolhe fracos, pequenos, doentes, cegos, aleijados, coxos, paralíticos, mulheres, leprosos, crianças, pecadores, prostitutas, e rejeitados. Eles mesmos sentiram na pele essa fraqueza e rejeição, apanharem de todo o jeito, foram perseguidos, e viram companheiros degolados e mortos à espada. E finalmente sofreram o vexame de ser expulsos das Sinagogas dos seus próprios concidadãos. A esta experiência foi dado o nome de Novo Testamento, e “nova revelação”, como lhe chama inclusivamente o livro do Apocalipse: “Revelação de Jesus Cristo, que lhe foi confiada por Deus para manifestar aos seus servos o que deve acontecer em breve” (Apoc.1,1).

E agora me permitam transcrever H.Kung: “Não há revelação fora da experiência humana, nem cristianismo sem a experiência concreta de Jesus Cristo que dá à vida humana sentido, significado e direção. Jesus Cristo é para a fé cristã revelação definitiva de Deus porque seus primeiros discípulos assim o experimentaram. De certo, não é a fé dos discípulos que constitui Jesus como revelação, salvação e graça de Deus; mas sem essa experiência de fé eles não poderiam considerá-lo como revelação de Deus, salvação e graça. A revelação se realiza num longo processo de acontecimentos, experiências e interpretações, e não numa intervenção sobrenatural um tanto mágica. Usando uma imagem: a revelação vem “de cima”, de Deus, mas sempre é experimentada, interpretada, testemunhada e enfim teologizada “de baixo”, ou seja pelo homem e a partir dele.” (o.c.p.135). Comparemos minha reflexão acima com esta afirmação de H.Kung quando diz que a “revelação vem de cima”. E como custou aos Apóstolos essa nova e “terceira revelação” vinda “de cima”, de Jesus Cristo, tanto que eles não foram capazes de recebê-la nos três anos da vida de Jesus mas só depois da partida de Jesus. E continuando: “mas sempre é experimentada, interpretada e testemunhada e por fim teologizada” (H.Kung,o.c.p. 135). Aqui falamos de “experiência” e “teologização” da “revelação”. Aqui entram modelos culturais da época em que se processa essa teologização. E aqui afirmamos que as duas primeiras “revelações” bíblicas dependeram da história de Israel, a primeira de um “deus agricultor”, a quem deram o nome de “Elohin”, a segunda como “deus guerreiro” ou deus dos exércitos. E a terceira “revelação” dependeu da experiência com Jesus Cristo.

Tanto as experiências de Israel como dos outros povos foram interpretadas e teologizadas segundo modelos culturais da sua época. Vejamos a este respeito mais: “Não só as experiências provenientes da história de Israel, mas também as experiências com Jesus Cristo foram apresentadas desde o início com interpretações diferentes pelos autores bíblicos. São articulações figurativas e conceituais seguindo modelos de um mundo de experiências totalmente diferentes do nosso, que já não falam diretamente para nós, e que precisam hoje de novas interpretações e nova linguagem. O Novo Testamento assumiu com muita liberdade elementos da antiga cultura. Isso também dá a nós a liberdade de apresentar novamente a nossa experiência com expressões próprias de nossa cultura moderna. O Cristianismo não se baseia em mitos, lendas ou fábulas, e tampouco é uma “doutrina” ou a religião do “livro” (H.Kung, o.c.p.136-137).

A teologia cada vez mais usa o método histórico-crítico que tem presidido e fundamentado a ciência moderna. E como afirma ainda o autor citado: “o mesmo concílio vaticano II aprova fundamentalmente o método histórico-crítico. De fato: se hoje uma exegese a-histórica já está totalmente superada, também o está uma teologia dogmática a-histórica. E se a Bíblia precisa ser interpretada de forma histórico-crítica, ainda com muito maior razão também o dogma pós-bíblico. Uma teologia que em vez de questionar os “dados” permanentes continuasse aberta ou veladamente autoritária não poderá responder às exigências científicas do futuro” (o.c.p.139).

Finalmente, o que fica aqui dito sobre a “revelação” e a “experiência” do povo de Israel vale também para os outros povos como afirma São Paulo: “Acaso Deus é só dos judeus? Não é também Deus dos pagãos? Sim, é também Deus dos pagãos. Pois Deus é um só” (Rom.3,29). “Essa experiência com experiências não aconteceu de maneira abstrata em um indivíduo isolado mas sempre no contexto concreto de uma cultura determinada e de uma tradição de experiência religiosa seja cristã, seja budista ou outra. (o.c.p.144). Atenda-se ainda ao seguinte, como atrás ficou afirmado: não basta “recorrer sempre a uma mensagem supostamente a-temporal e eterna, mas é preciso uma nova “tradução” para o nosso mundo. Já indicamos: cada nova situação é um elemento constitutivo intrínseco na compreensão da revelação de Deus. (id.id.).

Conclusão. Quisemos muito resumidamente condensar e definir o conceito de “Revelação” como a teologia o propõe hoje. A teologia atual se baseia no método histórico-crítico da exegese. Na teologia escolástica e neo-escolástica a exegese era uma ciência auxiliar de Teologia dogmática, porém hoje se propugna como sendo ciência teológica Fundamental, segundo J.Blanc e H.Kung. Aqui neste novo paradigma também é posta em questão a Tradição como segunda fonte da teologia dogmática, para a qual a Escritura funcionava como uma “pedreira exegética”, para extrair dela frases soltas e muitas vezes fora do contexto que serviam para aprovar o que se pretendia. Seria um armazém da “pedra filosofal” que servia para tudo. Daí nasciam procedimentos harmonizadores donde concluíam o que convinha. Essa tradição portanto não resistiu ao bisturi da exegese histórico-crítica. Além disso faziam muita confusão entre Eclesiologia e Teologia com interpretações equivocadas, como a exegese moderna descobriu, nos seguintes exemplos: o “poder das chaves”(Mt.16,19);  “Todo o poder me foi dado nos céus e sobre a terra”(Mt.28,18) que levou ao imperialismo mais absolutista da Igreja; e “Quem crer e for batizado será salvo, quem não crer será condenado”(Mc.16,16) entre outros. “A teologia só o será se se fundamentar na exegese histórico-critica” (Josef Blanc, cit. por H.Kung o.c.p.135).

P.Casimiro João   smbn

www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br

 

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

DEUS NÃO É PROPRIEDADE DE NENHUMA RELIGIÃO


 

Deus é eterna pergunta; as respostas nunca chegam a responder. A teologia atual diz que a resposta é sempre o fruto de uma experiência desse Deus irrespondível. (Cf: E.Schillebeekx, “Jesus, a história de um Vivente”, p.20-22; H.Kung “Teologia a caminho, p.135). Sempre houve homens e mulheres com experiências mais vivas de Deus. Alguns escreveram livros, outros só deixaram discípulos. Entre os judeus, que eram agricultores, eles tiveram uma experiência de um deus agricultor que criou o homem num jardim. Mais à frente tiveram a experiência de um deus guerreiro com a experiência do faraó no Egito e com a experiência da monarquia de Davi. O primeiro deus era El, o deus da montanha e da agricultura. O segundo foi Javé, o deus da guerra e dos exércitos (Sabaoth). O vizinhos e antepassados deles, os sumérios começaram também com o mesmo deus “El” da agricultura e da fecundidade. Os gregos tiveram o deus do fogo que acabou sendo roubado por um deus revoltado, o famoso Prometheu que trouxe o fogo para a terra. Pandora a mulher do ladrão do fogo espalhou os males na terra porque recebeu uma caixa com todos os males, e quando foi abrir a caixa espalhou os males no mundo, quase assim como fez a Eva na Biblia dos judeus. Os gregos cultivavam a sabedoria, que era representada pelo fogo. Mais à frente, concentraram a sabedoria no Logos, deus da sabedoria, principio sem princípio e existente antes de todas as coisas. Sabedoria que tudo criou.

Os chineses tiveram a experiência da harmonia do universo. O deus Panku era o dono de um machado que dividiu o mundo entre céu e Terra. Panku era a consciência do Universo. Para os chineses a sabedoria conta mais do que a santidade. Por isso cultivavam a harmonia entre o mundo e o espirito. O mestre Confúcio foi o primeiro a publicar a grande máxima dos chineses: “Não faças a ninguém o que não queres que te façam”. Ele divulgou o principio do Tao ou Taoismo que representa o equilibrio das forças positivas e negativas do universo.

Os índios da América do Sul tinham o deus Tupã, deus das matas e das florestas e dos frutos. As matas mais fechadas se abriam por elas mesmas para lhe dar passagem. A um aceno seu se acalmavam os ventos mais desencadeados. Quando o mar estava furioso, um simples gesto de sua mão lhe impunha obediência. Nessa experiências das matas e dos mares e dos frutos, o símbolo maior é o Cocar, confeccionado de penas de aves e plantas só existentes na Amazônia.

Já para os Japoneses, cercados de água e cujo país é um aglomerado de ilhas e mar, é o deus Kami, o deus dos kamikazes, que é o deus dos pescadores. Das águas e dos mares. É ele que dá aos homens o equilíbrio entre os homens e a natureza. Ele também é o deus da agricultura e do arroz. Os japoneses mostram o seu talento para o trabalho porque produz riqueza por meio do deus Kami tendo um martelo na mão. A cada martelada faz surgir moedas de ouro, e a martelada representa o trabalho.

Nesta breve exposição vimos como a experiência que os homens tinham de Deus é resultado das suas experiências com o meio ambiente, de onde partem para o ser superior. Uns se baseiam na agricultura, outros nos rios e matas, outros na floresta, e outros na sabedoria. Um dia Jesus perguntou aos discípulos o que pensavam de sua pessoa, quem ele era? Pedro de imediato deu uma resposta: o Messias, o filho de Deus. E pela sequência fica bem claro qual era o conceito de Messias que ele tinha na cabeça, e que estava na cabeça de todo mundo: um rei guerreiro enviado por Deus para restaurar o Israel e sujeitar todas as nações ao seu domínio. Portanto, Pedro tinha na cabeça a experiência de Israel, o deus guerreiro da época gloriosa da monarquia de Davi. E de quebra, o Messias enviado por Deus devia ser o mesmo terrível monarca e invencível guerreiro e imperador.

Que isto estava na cabeça dos discípulos fica claro no episódio dos filhos de Zebedeu, que junto com a mãe se dirigiram a Jesus para que, no seu reino colocasse eles dois, “um à direita e outro à esquerda". (Mc.10,35-45). A resposta de Jesus foi decepcionante para eles. Exatamente como a resposta ao Pedro a quem disse que estava fazendo o papel dos “demônios”, i.é, desviando-o de seu propósito, quando Pedro lhe falou que ele não era Messias para sofrer: “Afasta te de mim, você está sendo para mim como um satanás”(Mt.16,20). Não foi suficiente a lição, porque nos Atos dos Apóstolos, no relato da Ascensão, todos eles gritaram em coro: “É agora que vais restaurar o Reino de Israel”? (At.1,6).

Já houve tempo em que havia da parte de algumas figuras humanas a convicção de que tinham a resposta certa sobre Deus. “À maneira do Coran”, o livro do Islão que os islamitas pensam que é a resposta certa de Deus que teria mandado um Anjo, o anjo Gabriel para escrevê-lo, e portanto nada se pode mudar dele; por isso eles são o ponto do fundamentalismo mais terrível do mundo ainda hoje. Simultaneamente e paralelamente antes do Concílio Vaticano II nas Igrejas cristãs e católica reinava essa mesma ideia, o que hoje já não é mais sustentável. A não ser em algumas minorias que ainda têm a cabeça de há 1500 anos atrás, ou então a cabeça dos fundamentalistas islâmicos. Enquanto que a teologia chegou ao consenso de que a resposta de Deus é o fruto elaborado de homens e mulheres que desenvolveram experiências mais vivas de Deus. (Schillebeebkx e H.Kung, oo.cc.p. 20-22 e pag.153 respectivamente). E nisto se baseia o novo conceito de "revelação" universal, com o corolário de salvação universal, que não se limita ao povo de Israel mas se estende também aos outros povos e suas “bíblias”,  como delineado pelo Vaticano II, (L.G. n.16) e Pontifícia comissão Biblica, 1993, pp.40-41).

Conclusão. Deus é eterna pergunta; as respostas nunca chegam a responder. Deus é maior do que todas as palavras. Deus não pode ser domesticado por nenhuma religião e não é propriedade de nenhuma religião.

P.Casimiro João    smbn

www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br

 

 

 

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

BLOG DA APARECIDA, PADROEIRA DO BRASIL


 

O livro do Apocalipse traz de novo a serpente, igual como o livro de Gênesis, como a causadora da perseguição. E a mulher perseguida. A serpente como sendo o mal representado; e a mulher perseguida representando as primeiras comunidades do cristianismo que eram perseguidas. (Ap.12 1-16).

Em João, cap.2 é apresentado o evangelho com o ritual do Antigo Testamento nas lavagens representadas nas panelas de água. O evangelho mostra que essa água e essas panelas já não servirão mais para salvar ninguém. Agora é a Igreja que traz a salvação: Aí traz Jesus, Maria e os Apóstolos, representando a Igreja. Capítulo grande num resumo simples.

P.Casimiro João    smbn

www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br

    

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

A Igreja, mãe ou madrasta? Uma cena em 5 atos.


 

O Reino dos céus, no imaginário dos judeus não é o céu. Nem para Jesus e nem para os apóstolos, mas era o Reino que com Jesus estava pra começar. “Não é agora que vais restaurar o Reino de Israel” (At.1,6). Era o que estava também na cabeça de Pedro e dos Doze apóstolos: “Quem é o maior no Reino dos céus” (Mt.18,1); “para sentarmos no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda” (Mt.20,21). Vamos apresentar uma cena em 5 Atos: 1º Ato. Jesus terá segurado uma criança e terá dito: “quem receber em meu nome uma criança como esta é a mim que recebe”(Mt18,5) E: “Se não vos tornardes como crianças não entrareis no Reino dos céus”(18,4). Comparemos com outra afirmação de Jesus: “Tudo o que fizerdes a um destes pequeninos foi a mim que o fazeis” (Mt.25,40). Vale dizer estas afirmações são paralelas. Receber uma criança equivale a receber o “menor”. Então compreendemos que “criança” significa o “menor”, o “sem valor”. Fazer-se como criança é se colocar no lugar do menor para fazer parte do Reino dos céus. Isto então é o contrário do que pretendiam os Doze discípulos quando queriam um Reino de grandeza e onde há ministros, chefões, coronéis, e donos de terras onde eles seriam os primeiros. Significa tornar-se pequeno, fazer-se igual aos outros, companheiro e amigo. Porque o orgulho se julga o maior. E o dinheiro é o que faz o orgulho.

2º Ato: “Não desprezeis nenhum destes pequeninos porque eu vos digo que os seus Anjos veem sem cessar a face do meu Pai que está nos céus”(Mt.18,10). Pergunto, e os outros Anjos não veem sem cessar a face de Deus? O que significa? Vejamos: No Talmude (o Catecismo dos Judeus) se dizia que cegos, coxos, mulheres, mudos, doidos e crianças não podiam entrar na Sinagoga porque os Anjos deles tinham vergonha deles e tapavam a cara para não olhar nem para Deus nem para eles. Daí se revertia a situação e se afirma que sim, os Anjos deles não tapam a cara e não têm vergonha deles. É deles o lugar na Sinagoga, no Templo e nos Reino dos céus.

3º Ato: Aplicando aos nossos dias: quem está sendo excluído das igrejas, da Oração, do convívio religioso e social, e do novo Povo de Deus? Não são os pobres, os negros, certas mulheres, os afro-brasileiros, e o povo LBGTQ+?

4º Ato: “Os seus Anjos nos céus veem sem cessar a face do meu Pai que está nos céus” (Mt.18,11) Há um fundo histórico, sócio-cultural e religioso nesta afirmação, como vimos no  Talmude dos Judeus. Nesta parte do evangelho todos esses tipos de pessoas, doidos, cegos, surdos, mulheres, mudos, ficavam todos excluídos da sciedade e incluídos na classe mais baixa que são as crianças. Então, em oposição a esse repúdio e desprezo, aqui o evangelho garante que sim, que essas pessoas sem status e sem estatuto social não só vão poder entrar na Sinagoga e no templo, mas que os Anjos não se envergonham deles e nem fecham os olhos, e assim veem constantemente a face do Pai que está nos céus. E por isso mesmo são os preferidos de Deus numa ironia que os Anjos “não fecham os olhos” para não enxergar Deus nem tais pessoas.

5º Ato: O homem das 100 ovelhas: “Que vos parece, continuou Jesus, se um homem tem 100 ovelhas e uma delas se perde, não deixará as 99 nas montanhas para procurar aquela que se perdeu? Se ele a encontrar ficará mais feliz com ela do que com as 99 que não se perderam”(v.13). A pergunta: quem é a ovelha que se “perdeu”? Justamente esses tipos de pessoas que eram excluídas da Sinagoga. Aí quem se perdeu significa “que vocês jogaram fora, marginalizaram e excluíram do reino de Deus e do Templo. A afirmação é a mesma: por isso são os preferidos de Deus, mais do que os “frequentadores do Templo, e da Sinagoga, com vaidades e preconceitos”. Aqueles que se “perderam” são aqueles que vocês jogaram fora. Infelizmente, com o andar do tempo desviou-se o sentido destas parábolas para um espiritualismo vazio muito individualista, tomando a “criança” no seu sentido biológico, e o “pecador” como a “ovelha perdida”, enquanto que não tem nada a ver com isso: o pecador é quem excluiu e afastou a ovelha. É evidente que, historicamente, à Igreja interessava este sentido “individualista” do espiritualismo “individual” em vez de olhar a realidade da exclusão e de tantas participações por conta de tantos preconceitos. São estas as “ovelhas perdidas”, i.é, expulsas, que é preciso ir atrás e dialogar sobre os motivos do afastamento e da marginalização, e do desprezo e do abandono. Antigamente a Sinagoga era madrasta.     Em vez de acolher excluía. A Igreja de Cristo tem tido épocas de madrasta em vez de mãe. Eu acho que agora está na hora de ser mãe e não mais madrasta como antigamente, que era madrasta. Denunciando esta situação de madrasta, veja a declaração de SONIA GOMES, nos trabalhos que estão decorrendo no Sínodo: “É preciso ter o coração fraterno para o encontro com as mulheres que choram pelo caminho da crucificação diária, pois encontramos muitas mulheres que não tem acesso à Eucaristia, ao Batismo e catequese para os seus filhos, por conta de estruturas ainda duras, moralistas, que não conseguem sentir compaixão”, advertiu. Sônia é presidente do CNL, Conselho Nacional de Leigos do Brasil.

Conclusão. Fizemos pietismo apequenado do termo “criança” e da “ovelha perdida”. Sem avaliar o real sentido e a real lição histórica e teológica que está nestas palavras.

P.Casimiro João    smbn

www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br


segunda-feira, 2 de outubro de 2023

O Reino de Deus não tem essa de “torturar”.

 

Há afirmações confusas nos evangelhos e contraditórias entre si que fazemos bem analisar. Uma que nos deixa de queixo caído é aquela que nos diz que o reino de Deus é como aquele rei ou aquele patrão que mandou torturar o servo que lhe devia uma enorme fortuna.  “Como não tinha com que pagar, mandou aquele devedor aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida”.(Mt.18,34). E encerra assim: “É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco se cada um não perdoar de coração ao seu irmão” (v.35). O Pai do céu manda torturar? No entanto, versículos atrás o mesmo evangelista afirma que se deve perdoar setenta vezes sete vezes. (Mt.18,21). Porém, aquele rei não perdoou nem uma vez. O enquadramento destas afirmações está naquela cena que só vem no evangelho de Mateus, quando Pedro teria perguntado a Jesus, “quantas vezes devo perdoar o meu irmão quando ele pecar contra mim, até sete vezes?” Ao que Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes mas setenta vezes sete” (Mt.18,21-22). As sete vezes indicam as sete voltas do sacerdote aspergindo sete vezes com o sangue o altar da propiciação no dia do perdão (Lev.16,13). Mas mais do que isso, terá que ser sempre.  E a cópia ou o modelo terá que ser sempre o que o Pai do céu faz, “que faz a chuva cair sobre justos e injustos” (Mt.5,45). Porém, como vimos, o exemplo do rei torturador não adéqua com a conduta do Pai do Céu e portanto do Reino dos Céus. Autores como Warren Carter (O evangelho de Mateus, p.465-466) dão voltas e voltas sobre estas inconsequências deste trecho e nas entrelinhas dizem que o trecho é uma inserção feita por um redator e tendo sido agregada ao original. Na verdade “este mundo é marcado por demanda e violência física. O cenário é político, um mundo que a comunidade de Mateus provavelmente nunca teria experimentado diretamente mas ‘teve notícias sobre’ e definitivamente sentiu o impacto de suas políticas. Este é o mundo de “todo rei”, a corte de um rei com sua classe de elite de autoridades e criados, clientes ou servos do soberano benfeitor que leva a cabo suas políticas militares, administrativas, financeiras e religiosas. Aqui a atenção é dirigida à esfera financeira, à provável arrecadação de impostos ou tributos que financiam o poder do rei. Este rei está fazendo o que “os outros reis da terra fazem”. Particularmente a atenção se focaliza sobre um dos criados cuja tarefa era de praticar a “teoria proprietária do estado”. Esta teoria via os recursos de um território como pilhagem legitima para o soberano. A tarefa do funcionário ou criado era de transferir riqueza dos produtores para a elite política.” (o.c.p.467). Quando no texto se diz: “Porque o Reino dos céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados”Mt.18,23, o célebre redator deve ter esquecido várias coisas, como aquela verdade que nunca o Reino dos céus ou de Deus não segue os tramites, as manobras e as ganâncias e as torturas dos reis da terra.

Repassando a história, quantas vezes a Igreja não terá imitado este procedimento de tortura? E eu estou pensando na questão de “dívidas”. O cristão congregado numa comunidade chamada Igreja acabaria sendo tratado como funcionário de uma empresa, como o “funcionário” daquele rei da parábola. Por isso, no tempo da Inquisição, quando o cristão faltava com a anuência de fé ou com “desvio de conduta” teria que ser torturado,” e entregue aos torturadores para pagar a dívida da fé. Não teria sido este entendimento que estava na cabeça dos Papas quando promulgaram o decreto da Inquisição, que foi inventado no século XIII (1.233) pelo Papa Gregório IX? No decurso da história da Igreja e da teologia tem havido outras sentenças tomadas do Antigo Testamento que, como esta têm feito teologias que depois mudaram, como aquela “quem crer e for batizado será salvo; quem não crer será condenado”(Mc.16,16). Além de que esta parte do evangelho já não é o original de Marcos, sendo uma glosa posterior de um redator numa catequese do batismo comparando o batismo à circuncisão do Antigo Testamento sem a qual ninguém se salvaria. “Se não vos circuncidardes, segundo o rito de Moisés, não podeis ser salvos” (At.15,1). Chegou-se até ao exagero de Agostinho afirmar que as crianças sem batismo não se salvariam. Hoje em dia sabemos que tanto crianças como adultos sem batismo se salvarão sim no reino dos céus. ojeH Quantas vezes então as teologias se basearam em dados perecíveis e limitados a preconceitos e teorias de tempos antigos.  E assim vemos que a “inspiração” e a “revelação” progridem, como agora constatamos nessa mudança de paradigma. Aliás, como afirma a aporia atual, a “revelação” não terminou com o último apóstolo, até porque o Cânon só foi fixado no século IV, d.C. muito tempo depois do último apóstolo morrer. E em segundo lugar porque muitas teses foram agregadas ou glosadas nos escritos originais por diversos redatores em que a teologia também se apoiou.

A Igreja se exaltou sempre com o poder, desde a época em que tomou para si o poder dos imperadores romanos quando estes iam se acabando. E se baseando-se, como reforço, naquela palavras de Mateus: “Todo poder me foi dado nos céus e sobre a terra” (Mt.28,18). Porém, resta a dúvida se teriam sido ditas pessoalmente por Jesus. Aliás os estudiosos afirmam que são uma cópia do episódio das “chaves de Davi” que o evangelista foi buscar: “Eu porei as chaves da Casa de Davi sobre o seu ombro, e abrirá, e ninguém fechará, e ninguém abrirá” (Is.22,22). O que aconteceu: Depois da derrota e do exílio do Israel do Norte o povo do Sul (Judá) botaram toda a esperança em Ezequias para voltar à antiga glória de Davi, certos de que não iam ser derrotados e exilados como foram os do Norte (Samaria) que já tinham caído no cativeiro; e isto não aconteceu, porque dali a 30 anos este reino de Judá também caiu no cativeiro da Babilônia, e não se cumpriu aquele dito de Isaías que tinha confiado muito em Ezequias, que nunca seria derrotado, mas foi. No entanto essas palavras se casavam bem com poder, que levou a se empoleirar nos báculos e mitras e tiaras e anéis da Igreja.

Conclusão. No séc.XVI Erasmo de Roterdã tinha escrito: “Não é que os hierarcas fazem tudo girar em primeiro lugar ao redor de sua própria honra, de seu poder e de sua glória, do direito canônico e da ostentação do luxo e da pompa das igrejas? Quanta burocracia e quantos funcionários! Em vez da comunhão se produz excomunhão, em vez do anúncio do evangelho, banimentos e interditos. E antes de tudo, tanto no baixo como no alto clero, o dinheiro, as receitas e os gastos são o centro da atenção.” E publicou um diálogo anônimo em que se referia ao Papa Júlio II que levou as “chaves falsas” para o Vaticano, i.é, as chaves do tesouro do Vaticano e então foi rejeitado por São Pedro nas portas do reino dos céus. Consta que toda a Europa tomou conhecimento desta piada para comentar a Igreja triunfalista em contraste com a Igreja do evangelho. (Cf. Hans Kung, “Teologia a caminho” p.41-42.). Isso estava bem em oposição à recomendação do último consistório em que o Papa Francisco nomeou 21 Cardeais: “Não sejam funcionários, sejam evangelizadores” (30.09.23).

P.Casimiro Jão   smbn      www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br

 

 


segunda-feira, 25 de setembro de 2023

UM HOMEM COM A MÃO DIREITA SECA APARECE NA SINAGOGA


 

Nos evangelhos é frequente encontrar a expressão “homen com a mão direita seca”. E ainda mais: “Em dia de sábado”. “Um homem se encontrava na Sinagoga com a mão direita seca”(Lc.6,6-11). Na Literatura brasileira, o escritor Graciliano Ramos, em “Vidas Secas” usa a mesma metáfora para falar do sofrimento do povo do sertão nordestino, usando como título de um dos seus melhores romances a expressão ‘VIDAS SECAS”. Aí as pessoas secavam de fome, sede, e maus tratos por causa da política e da exploração dos coronéis da terra. Na Sinagoga secavam por causa da religião. Com a diferença, em Graciliano Ramos as vidas estavam mesmo secas e mirradas enquanto que aqui no evangelho a mão ressequida é uma metáfora para significar o sofrimento e a humilhação de toda a pessoa. A mão não estava seca, quem estava seca era toda a pessoa. Na verdade o evangelho não é geográfico e nem histórico mas é teológico. Estes recursos literários já nos foram indicados pela encíclica do Papa Pio XII em 1943. E porque era a “mão direita”? Porque entre os Judeus o hebraico é escrito da direita para a esquerda. O lado direito tinha precedência sobre o esquerdo. A mão direita representa o atributo de bondade; a esquerda representa a severidade. Quando aí se diz que o homem tinha a “mão direita seca” é a maneira de denunciar que a Sinagoga tirava a vida às pessoas, mirrando-as e secando a fonte da vida que são as mãos para trabalhar. Quando você está com medo o sinal vem logo nas mãos. As mãos ficam sem ação e trêmulas. O tremor começa nas mãos.

Vem outra cena descrevendo também na Sinagoga “uma mulher encurvada porque o demônio a amarrou por 18 anos” (Lc.13,16). E porquê na Sinagoga? Em ambos os casos a causa é atribuída à religião da Sinagoga, que em vez de produzir vida produzia a morte dos seus frequentadores. E tem o detalhe dos 18 anos. Porquê? Porque na numerologia hebraica o número 18 significa o tempo que a pessoa tem para desenvolver as suas possibilidades. Tirando-lhe este tempo, a pessoa fica “encurvada”, isto é, diminuída e sem vida para viver. ´Tiraram lhe o tempo dos anos que a pessoa pode fazer uma boa gestão da sua vida e prosperar. Dizendo que satanás tinha aprisionado essa senhora por 18 anos significava que tinha-lhe tirado todas as chances de se realizar e de prosperar, tinham destruído essa mulher. Por outro lado, ali o satanás significava o espírito hipócrita da Sinagoga, pois era a sinagoga que atrapalhava e destruía as pessoas impedindo-as na sua felicidade. Por meio de uma obediência de escravidão às ordens e tradições humanas, e não de Deus. (Mc.7,1-13) “Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir as tradições humanas”... O que encurva e ressequia as pessoas eram cargas pesadas que obrigavam a encurvar-se diante dos homens. Uma situação fisiológica criada com o abuso do trabalho físico é utilizada nesta parábola do evangelho de Lucas para significar a humilhação do povo que não tinha condições de se tratar. Inclusive a Sinagoga não colaborava para aliviar os fardos, mas os aumentava. Do seguinte jeito: O sábado era o único dia livre para cuidarem da saúde, e ir procurar um médico ou algum curandeiro. Mas o que a Sinagoga dizia? “Não, no sábado não é pra ninguém se tratar porque não podem caminhar mais de um quilômetro, mil passos; se caminharem mais incorrem em pecado”. Conclusão do fato: Quem chegava no sábado doente não podia procurar saúde porque era proibido. Ficavam mais doentes, e se vinham encurvados, ficavam mais encurvados; Quem vinha com as mãos ressequidas ou doentes, ficavam mais ressequidos. Se vinham deprimidos, ficavam mais deprimidos. Dessa maneira o sábado tornava-se meio de tortura e doença, enquanto que tinha sido criado como dia de libertação e de melhora das pessoas e famílias. Por conta de um fanatismo redondo, a Sinagoga caiu no absurdo de dar menos valor às pessoas do que a um animal. Diante dessa situação vem a pregação atribuída a Jesus: “Hipócritas! Cada um de vós não solta do curral o boi ou o jumento para dar-lhe de beber mesmo que seja em dia de sábado? Esta filha de Abraão, que satanás amarrou durante 18 anos não deveria ser libertada dessa prisão em dia de sábado?(Lc.13,16). Leia bem, em  vez de satanás, vamos ler “vocês”, que amarram assim as pessoas? E lhe tiraram os 18 anos da chance de ser feliz e de realizar a sua vida? O evangelho não é geográfico e nem histórico, ele usa essas metáforas de linguagem, assim como o Graciliano Ramos usando a mesma metáfora de “vidas secas”. O Graciliano Ramos escreveu para denunciar a péssima situação social do século passado (1950), e este evangelho nesta narrativa que afinal é uma parábola quis denunciar a péssima situação religiosa da Sinagoga, e quem, sabe, também das nossas igrejas. Aqui pode haver duas tendências: uma puxa para o individualismo religioso alienante; outra puxa para a crítica e análise social da sociedade e da religião da Sinagoga. E esta é que estava presente no texto deste evangelho. Não tem nada a ver com espiritualismo individualista alienado e alienante.

Conclusão. Remeto aqui para o pensamento da Encíclica de Pio XII “Divino Aflante Spiritu” de 1943, sobre a interpretação da Escritura: “A regra suprema para uma interpretação correta dos textos bíblicos consiste em encontrar e definir o que o autor quis dizer, e estar atento aos gêneros de discurso ou de escrita que ele utilizou”. (Divino Aflante Spiritu, 1943).

P.Casimiro João    smbn

www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

O juramento de Hipócrates e as serpentes da Bíblia.


 

Nas Farmácias de todo mundo se olha o sinal de uma árvore com uma serpente enrolada. Não há dúvida: ali é uma Farmácia. Esse ícone vem de longa data, de escritos antigos antes da Bíblia, do poema épico “Os argonautas do deserto” do Apolônio de Rodes. Conta esse mito que os argonautas eram picados por cobras venenosas. O rei, Lico, invocou o deus Apolo, deus da saúde. Apolo respondeu que iria mandar o filho dele Esculápio enrolado numa planta feito uma serpente. “Preste muita atenção, disse Apolo, e não tenham medo, e distingam-no bem das outras serpentes. O rei Lico juntou o seu povo, e prestaram culto a Esculápio, filho de Apolo, e as serpentes sumiram, e os doentes ficaram curados. Hipócrates, discípulo de Esculápio continuou com o ofício de médico dos argonautas com o mandato de Esculápio. Este conto que circulava na época dos Judeus foi copiado no Livro dos Números, da Bíblia (Nm.21.4-9) quando esse Livro foi escrito, para destacar os perigos do deserto, e para encorajar os judeus depois da travessia do mar vermelho. O estudioso Phelipe Wajdenbaum fala claro nessa cópia, tão paralela com a narração do Livro dos Números (Wajdenbaum, Argonautas do Deserto, p.197). Esse mito na verdade originou o ícone das Farmácias de todo mundo, e originou também o Juramento dos Médicos, chamado de Juramento de Hipócrates.

Ah, mas você pode reclamar: no evangelho vem escrito: “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado para que todos que nele crerem tenham a vida eterna”(Jo.3,14). Sim, mas também o evangelho fala na Arca de Noé, na Torre de Babel e na Criação do Éden, e na jumenta de Balaão, no entanto, a Igreja já falou que os primeiros Onze Capítulos da Bíblia que trazem estas histórias também são derivados dos mitos antigos do poema de Gilgamesh. Não só, o mesmo autor citado fala ainda que mais contos dos Argonautas foram também transportados e adaptados para a Bíblia como: Abrão e Sara; A água que brotou do rochedo; Elias e o carro de fogo; Eliseu e o seu machado “que dividiu o rio Jordão em duas partes”(o.c.p.186-322).

Conclusão. À guisa de conclusão repare bem nas afirmações da narrativa bíblica sobre as serpentes: ”Javé mandou contra o povo serpentes venenosas que os picaram, e muita gente morreu”(Nm.21,8). Pensemos se era possível Deus mandar serpentes para “matar o povo”? Linguagem que não adéqua com Deus. Deus não manda serpentes, e não mata. Nós divinizamos muito a Bíblia, aliás tudo no mundo é divino, mas a Bíblia não é mais que as outras coisas. Precisamos colocar a Bíblia dentro do contexto universal dos Livros da humanidade.

P.Casimiro João    smbn

www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br