Nas épocas antigas tudo era Deus que fazia, desde a chuva aos
terremotos. Assim como acontece com a criança, para quem o pai faz tudo, tudo
sabe, tudo pode. Eram os tempos em que a humanidade era criança como Paulo diz, “quando
eu era menino pensava como menino, raciocinava como menino” (1Cor.13,11). Quando
falamos de Deus falamos de nós mesmos. Nós não podemos mas “Deus pode” assim como
diz a criança: o pai pode. E o que nós colocamos em Deus quando falamos de “poder”?
Não é para vencer o inimigo? Não é para ganhar uma guerra impossível como falavam
os hebreus? Por isso nos diz o teólogo: “O cuidado de transferir para Deus o
conceito de onipotência se torna perigoso porque no decorrer da história a noção
de onipotência de Deus corria pelos mesmos caminhos da violência humana e
tirania e prepotência dos poderosos para escravizar seja inocentes seja inimigos, e fazendo isso
em nome de Deus “onipotente”, como nas colonizações e na Inquisição. Por isso, falar da onipotência de Deus corria
o caminho da prepotência dos reis. (Cf. Schillebeeckz, História humana,
revelação de Deus,p.117). E por isso, diz Selma Lagorlaf: “não podemos falar da
onipotência de Deus como no pensamento medieval onde se chegava a perguntas
como esta: “Deus pode fazer um circo quadrado”? Ou como nas lendas populares e
historinhas para crianças, onde na linguagem do mito e das fadas tudo é
possível. Para se livrar de muitos problemas como este houve muitos arrazoados
esquisitos na teologia americana, onde chegaram a dizer que Deus não tem nada a
ver com o sofrimento dos homens, como dizia Kushner. Ou então outra corrente que
inventou a “morte de Deus”: Deus teria que morrer para que o homem viva” Th.Altizer
repetindo um slogan de Nietzsche. Daí surgiram os fundamentos
sócio-históricos e o laço entre a
exploração e apropriação dos bens em nome de Deus. Transferiam para Deus o imperialismo
cultural, econômico e político que se transformou na ideologia das direitas. Em
outra dimensão vem a teologia de Bonhoffer: que Deus participa do sofrimento: é
Deus que padece no sofrimento do justo com os pobres e oprimidos. Porém, vem o
problema: Onde está o todo poderoso poder de Deus? “O Deus, que apenas tem dó
de você e padece conosco deixa a palavra definitiva e última ao mal e ao sofrimento.
Então não é Deus mas o mal que goza da onipotência. E o que
significa neste caso Deus para o homem?” (o.c.p119). Outro caminho: Deixar o poder
da “onipotência de Deus” para o fim dos tempos. Um absurdo porque os tempos não
têm fim. Mas então qual o sentido do “Creio em Deus- Pai todo poderoso criador
do céu e da terra” do nosso Credo? O segredo está no seguinte: A filosofia
maniqueia tinha o “Deus” que morava em cima das nuvens, e que não se importava
nem com o mundo da matéria nem com os homens, mas tinha também o famoso demiurgo que era um segundo deus menor que um dia se esquivou do céu e baixou anos de
luz para brincar criando a terra e o cosmo. Tanto é assim que nos evangelhos vêm
referências a ele, e o chamam de “o chefe deste mundo” e “o príncipe deste mundo.” (Jo.14,30 e 16,11).
Quando a Igreja começou a ganhar mais coesão fizeram o chamado “credo apostólico”
para barrar essas ideologias afirmando que é o mesmo Deus que junta o poder dos
“dois”, e fez o céu e a terra e não tem outro, coisa que mesmo assim ainda entrou
no evangelho de João. Foi assim que entrou o “creio em Deus Pai-todo-poderoso”
para fugir da filosofia dos maniqueus. Falei noutra página que Deus não é Deus sem
nós, e nós não somos nós sem Deus. Na
verdade, na sua criação Deus juntou no ser humano a sua transcendência e a sua
imanência, de modo que ele não pode ser Deus sem nós, assim como nós não somos nós
sem Deus de tal maneira que ele age conosco e por nós, e a sua onipotência pode
depender de nós. Quem diria que os homens um dia atravessariam os espaços
cósmicos para achar as primeiras luzes do alvorecer do mundo há 15 bilhões de
anos, no início do Big-bang? A onipotência de Deus, segundo Santo Tomás de
Aquino é toda poderosa nas coisas possíveis, não nas impossíveis, como foi dito
que Deus não pode fazer um círculo quadrado nem mudar que dois e dois sejam
quatro e nem parar o caído do décimo andar, mas chamamos o bombeiro. Onde nós
chegamos ele chega conosco mas não chega sem nós. Como disse um teólogo: “Deus
está tanto na catedral como na cozinha. Em mim fala, move-se, dança, compõe
música, ou escreve poesia, faz amor e cria vida, ri da imperfeição de tudo e
chora por ela” (M. Morwood, “O católico de amanhã, Paulus, 2013, pag.101). Quer
dizer que o ser humano tem a liberdade partilhada com a liberdade de Deus. E Deus
precisa da nossa liberdade para agir, como vem repetido nos evangelhos: “A tua
fé te salvou” (Mt.9,22). A cópia está na criança e no pai. Respeita a liberdade
da criança, mas as duas liberdades colaboram. Vejamos mais uma vez Schilebeeckx:
“A onipotência divina torna-se desarmada e vulnerável em nosso mundo. Evidencia-se
como energia de amor que convida e outorga vida e liberta os homens, isto é,
aos que se abrem à sua colaboração. Ora, este aspecto quer dizer Deus não
procede contra a recusa humana.” (o.c.p 121). Ora, quando em linguagem tradicional
falamos em “pecado’, podemos falar também em falta de colaboração. Ou, como diz Paulo
Coelho, pecado vem de “pecus”, que é falhar o alvo. Um dia, quando Jesus
declarou que “dificilmente um rico entrará no reino dos céus” Mt.19,23, os
apóstolos perguntaram “então quem poderá salvar-se? Jesus terá respondido: “aos
homens isso é impossível mas não para Deus, para Deus tudo é possível” (Mt.19,23).
Com esta resposta fica tirado o peso da primeira afirmação e abre pano para dois
pesos e duas medidas, ou seja se é possivel para Deus também é possível para os
homens e vice-versa. Aí entra o método histórico-crítico na interpretação,
e colocaria Jesus em cheque, se a afirmação fosse mesmo dele, o que é duvidoso
pelo seguinte: a segunda afirmação teria sido feita por um segundo redator
quando a Igreja já estaria se acostumando com as riquezas, e tomando a
liberdade de invocar Deus para o seu lado, i.é, para o lado do seu churrasco: “Sim,
Deus vai permitir as nossas riquezas, ele não vai cobrar esse tanto não”. E
então seria: para os homens “é impossível” mas “para nós Deus permite e não
está nem aí. Isso seria o “possível de Deus”,
ou o “tudo é possível para Deus”, ou “tudo é possível para nós,
invocando em vão o nome de Deus e apropriando-se dele como donos de Deus;
poruqe os ricos da época e não só, sempre se julgam os donos de Deus. Conclusão.
Nós, pessoas humanas somos muito fáceis em querer domesticar Deus em nosso
favor, adaptando-o aos nossos interesses. Na verdade, somos duros para com os
outros e fáceis para nós mesmos. Para os homens isso é impossível. Isto é, para
os outros, mas para nós não. Isto é, quando é do nosso interesse já não é impossível,
e colocamos Deus do nosso lado.
P. Casimiro João
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