A narrativa da ressurreição em Paulo tem duas explicações. A primeira é nos dizer que todos os conteúdos nas Cartas estão repletos de referências ao Livro do Gênesis, cap. 01-03, onde os conceitos de ressurreição são embasados no conceito de uma nova criação depois que a primeira fracassou. A segunda é nos informar em que consistia o conceito de ressurreição na teologia judaica: ressurreição-restauração, ou seja ação “vindicativa” do deus de Israel sobre todos os malfeitos dos outros povos sobre o povo de Deus; era a restauração das novas glórias de Israel: “agora mostra-nos a tua glória castigando as nações” (Eclo. 36,3). Comecemos pela primeira explicação: “Pois assim como através de um homem veio a morte também através de um homem veio a ressurreição dos mortos; pois assim como em Adão todos morreram, da mesma maneira em Cristo todos reviverão” (1 Cor.15,21-22). Aqui Paulo tem a intenção de nos comunicar que Deus colocou Jesus Cristo no lugar de Adão, numa segunda criação, como o verdadeiro homem novo. A tese é que Adão falhou na sua missão e por ele a humanidade também falhou e morreu, mas em Cristo reviveu e voltou à vida, ou ressuscitou. Com efeito, esta passagem toda trata da nova criação como cumprimento e resgate da antiga. “As histórias da criação e queda narrada em Gn.1,26-28 e 3,17-19 fazem o lastro da narrativa. Além disso há ainda o salmo oito onde se diz: Destes-lhe poder sobre as obras de vossas mãos e lhe submetestes todo o universo” (Sl.8,7). O teólogo N.T.Wright afirma: “Não temos aqui um simples apelo à Escritura como se Paulo estivesse elaborando um argumento, mas com a sua reflexão ele abre seu caminho através de uma teologia da criação e da humanidade, e as alusões bíblicas indicam a narrativa da qual a ressurreição constitui o clímax, ajudando a história a chegar a seu objetivo pretendido” (N.T.Wright “A Ressurreição do filho de Deus”, p.471). Há uma pergunta intrigante na Carta aos Coríntios que diz: “Com qual corpo ressuscitarão os mortos?”, Ou: que tipo de corpo os mortos receberão quando forem ressuscitados? (1 Cor. 15,35). Aqui Paulo pensa na antropologia dos filósofos antigos que era assim: “A maioria dos filósofos pagãos da época, que acreditavam na existência das almas pensava que elas eram, como os corpos, compostas de matéria, ainda que em partículas sutis. Daí tinha que haver a ressurreição corpórea. Não tinham ainda os nossos conceitos que temos desde Descartes, de “físico” e “espiritual”; “material” e “imaterial” (o.c.p.444). Paulo combinou bem a filosofia antiga com a judaica surgida do livro do Gênesis, da primeira criação, da qual ele ia fazer surgir a segunda nova criação, quando fala do 1º Adão e do 2º Adão em 1 Cor.15,45-47. Sobre isto continua o autor citado: “Uma rápida olhada em Gênesis revela o quanto dos seus temas mais importantes bebeu no livro do Gênesis. O Deus criador fez o céu e a terra, e encheu ambos com as suas criaturas; Paulo as menciona e amplia seu discurso sobre elas para distinguir o 1º Adão do último Adão. Para Paulo o vértice da história é a recriação da humanidade através da ação do último Adão cuja imagem será “portada por todos aqueles que pertencem a ele” como se diz em Cor.15,49. Esta é uma teologia reflexiva e cuidadosa de um novo gênesis, isto é, de uma nova criação renovada. (cf. o.c.p479-480). Um pouco da história de Paulo: Paulo foi formado na escola dos fariseus; essa escola surgiu na época dos macabeus, em 160 a.C, quando começaram a formar a sua teologia da ressurreição. Mas que tipo de “ressurreição”? Para eles era uma ressurreição-restauração, ou seja o restauro da poderio da nação judaica depois de todos os fracassos. Seria a época da “vingança” divina sobre os inimigos do povo de Israel, a prestação de contas e o juízo ou julgamento de todas as nações. Este é o ponto fulcral que nos leva à segunda explicação que falamos no início: a teologia judaica da ressurreição. E aqui se une a teologia de Paulo na teologia da “nova criação” do Gênesis com a teologia judaica da nova criação da nação judaica, que posteriormente ficou sendo chamada de “restauração” da Nação e finalmente de “ressurreição” juntando os dois termos “ressurreição-restauração”. Mais à frente ainda nos diz o mesmo autor falando sobre as narrativas evangélicas da ressurreição, resumindo tudo com a narrativa de Mateus 20,1-10 a respeito do qual afirma: “Ao longo de toda a tradição posterior, de Paulo a Tertuliano, desde os primeiros dias desta tradição, a ressurreição de Jesus foi vista como tendo ocorrido precisamente ‘de acordo’ às Escrituras. Desde muito cedo, os primeiros cristãos desenvolveram uma sofisticada rede de exegese bíblica a fim de demonstrar que a ressurreição de Jesus foi exatamente o que era de se esperar, e que ela proporcionou tanto o cumprimento das esperanças de Israel e profecias quanto o fundamento para a sua própria missão” (o.c.p.825-826). Temos aí o significado da expressão: “Segundo as Escrituras”. E continua: “A ressurreição assim no pensamento farisaico situa-se claramente dentro de uma teologia do reino de Deus; e todo judeu do 1º século sabia que uma teologia do reino de Deus inevitavelmente carregava um significado político: colocar as nações “debaixo de seus pés”.(Sal.47,3). Desta maneira, a “ressurreição” na cabeça de todo judeu era trocar a atual ‘ordem’ do império de César pelo império do Messias, como falou Paulo as Colossenses: “Despojando os principados e potestades, expondo-os ao ridículo no triunfo sobre eles” (Col.2,15). Na verdade Paulo aí imagina um desfile triunfal romano onde o general vitorioso exibe publicamente os inimigos conquistados mostrando sua autoridade e vitória. Assim como no salmo 8,6 onde, em termos também militares se fala da vitória do criador sobre o ‘governantes, autoridades e poderes tanto humanos quanto sobre humanos que ameaçavam a boa criação (o.c.p 473). Paulo tinha uma formação farisaica e partilhava a teologia radical nacionalista, como é observado quando trocou a sua luta contra os cristãos para depois defendê-los naquela mudança de direção que ele chamou a visão de Damasco. Como afirmado, tanto Paulo pulava da teologia judaica nacionalista, como pulava para a narrativa mítica da criação. Sua reflexão era então: Adão trouxe a morte, outro Adão trouxe a nova vida e uma nova criação. Fica claro que Paulo está no mapa judaico: dentro deste mapa judaico ele se situa justamente como a maioria dos judeus, no mesmo lugar que os fariseus e muitos autores de apocalipses.. Isto é, ele acreditava na futura ressurreição de todo o povo de Israel pela qual Deus vingaria todas as mortes do povo judeu, na mesma linha da visão do vale dos “ossos ressequidos” do cap.37 de Ezequiel.. Isso seria o maior sinal da vingança divina definitiva em duas vertentes: a primeira, dando a vida aos mortos do povo de Israel; a segunda, vencendo a morte em definitivo. Porquê? Porque se desse alguma chance de a morte continuar no mundo então o Messias não se manifestaria como o novo “Adão”, e como o “senhor do novo universo onde todos os inimigos seriam derrotados e levados em “cortejo de triunfo”, e onde o “último inimigo seria a morte”, para poder dizer “ó morte, onde está a tua vitória, ó morte, onde está o teu aguilhão e a tua força” (1Cor.15,55).
Conclusão. A ressurreição em Paulo girava então em volta de dois
polos. O primeiro polo, partindo do primeiro e do segundo “Adão” do livro do
Gênesis; o segundo polo partindo da teologia judaica da “vindicação” ou
vingança divina e definitiva em favor do
povo de Israel diante de todo mundo, uma vez que no Messias estava representado
todo o povo, que futuramente, depois dele, ia ser premiado com a mesma
ressurreição-vindicação definitiva.
P. Casimiro João
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