domingo, 9 de agosto de 2020

As intenções teológicas do evangelho de João

 Data do evangelho de João: por volta de 125 d.C. Local: Na Síria.

Introdução. No início do séc.II começou uma comunidade na Síria, depois das comunidades de Paulo (Corinto) e de Pedro (Antioquia). Foi a comunidade joanina. Era pelo ano 110 d.C. Nessa data já nenhum dos apóstolos era vivo, inclusive o apóstolo João já tinha morrido também.

Esta comunidade foi formada, segundo os eruditos, por cristãos que tinham passado por outras comunidades já mais antigas. E assim começaram rivalizando com essas comunidades. Até porque viviam num ambiente da filosofia gnóstica, muito espalhada nessa área da Síria.


Nesse ambiente é que surgiu a comunidade joanina para recordar a memória do apóstolo João. E foi aí justamente que começaram a ser escritos os primeiros pergaminhos do evangelho de João.


1. Histórico do evangelho de João: o “presbítero João” e o “Discípulo Amado”. 

O evangelho de João foi recebido com muitas suspeitas pelas primeiras comunidades por conta da sua filosofia e teologia gnósticas. Ele circulou primeiro nos círculos gnósticos, e quem o espalhou e comentou primeiro foi Heracleon, mestre gnóstico, para as suas escolas.

Na igreja, os primeiros que falaram nesse evangelho foram São Justino, 150 d.C. e Santo Ireneu, 180 d.C. mas com muitas suspeitas. Quando mesmo ele foi admitido nos livros canónicos foi só em 350 d.C. séc.IV e foi porque nessa época pensaram que o “presbítero João”(1Jo.1,1)” e o “discípulo amado”(Jo.19,26) seriam a mesma pessoa, o  apóstolo João.

Porém, mais à frente e nas últimas investigações certificaram-se  que esse “presbítero João” era um líder das comunidades joaninas, até porque  o apóstolo João já tinha morrido quando o evangelho de João e as epístolas foram escritas.

 “O Que vimos e ouvimos nós vos anunciamos” de 1 Jo.1-4 não é indicativo de que foi escrita por João, mas é uma reivindicação de toda a comunidade como um todo. São Justino em150 d.C. e S.Ireneu em 180 usaram as mesma expressões em suas Cartas.

Aliás no livro de Números do A.Testamento se diz: ”Nós éramos escravos de Faraó” (Num.26,4), e a explicação: Em cada geração um homem deve considerar-se como se ele mesmo tivesse saído do Egito”.

E a outra confusão quanto ao “discípulo amado” averiguou-se que este nome foi dado à sua comunidade, que rivalizava com as outras comunidades


2- Dificuldades de incluir o evangelho de João no livros canônicos

Esta dificuldade era  pelo conteúdo da filosofia gnóstica em que ele se baseava e que ficou ainda muito clara mesmo com a correção para a 2ª edição que chegou até nós, porque a 1ª edição tinha sido rejeitada pelas comunidades da época.

Este evangelho foi primeiramente admitido e aceito nos círculos gnósticos, o que levava muita suspeição pelas comunidades cristãs. E na verdade o 1º comentário ao evangelho de João foi feito pelo mestre gnóstico Heracleon, em 165 d.C., que o introduziu nas escolas gnósticas como atrás já ficou dito.


3- As influências gnósticas no evangelho de João.

3.1- Nos círculos cristãos da comunidade joanina a disputa inicial era sobre se o Messias era um ser humano, de carne e osso, porque se ele era um ser divino não poderia ter matéria; porque a matéria era má e não tinha sido criada por Deus, segundo a filosofia gnóstica.

Porque Deus era intocável e não podia se  misturar com a matéria. Quem criou a matéria teria sido um ser intermédio, o demiurgo que tinha se desprendido da divindade e tornou-se o “senhor deste mundo” ou o “príncipe deste mundo,” como fala o próprio evangelho de João, num dos sinais da  filosofia gnóstica que ainda ficaram no evangelho que leva o seu nome, “Já não falarei mais convosco porque vem o príncipe deste mundo; mas ele não tem nada em mim” (Jo.14,3).

Por isso, as primeiras comunidades joaninas andavam muito misturadas com este gnosticismo, e para elas  Jesus seria só um ser divino. Aliás, no conhecimento que eles tinham de outras religiões, deuses se transvestiam de humanos e vinham passar algum tempo na terra e voltavam para  onde tinham saído.


3.2- A filosofia do “LOGOS”.  Havia outro ramo da mesma filosofia que se baseava no Logos. O Logos era a mesma “Sabedoria” dos Judeus, ou Sofia em grego, que tinha a missão de ser a inteligência do demiurgo. Tanto para os judeus como para os gregos este Logos era companheiro de Deus na criação, e era como deus também pré-existente. No princípio era a Sabedoria que com Deus tinha criado todas as coisas (Prov. 8, 26-27).

Este Logos ou Sabedoria foi traduzido na Biblia como o Verbo,  ou Palavra. No princípio era o Verbo, que no grego era o Logos” (Jo.1,1). O Verbo foi aplicado a Jesus, e só mesmo neste evangelho de João. Logos era um termo-chave tanto no mundo antigo judaico quanto na religião greco-romana. Era o princípio racional que preenchia o universo. Logos é a raiz da palavra Lógica.


3.3- Havia outra corrente que ficou muito ligada ainda às religiões tradicionais, como hoje os que se ligam ao candomblé. Eram os seguidores da deusa Ísis. Nos hinos se cantava assim: “ Eu sou a água viva”; “eu sou a luz da humanidade”; “eu sou o pão da fartura”. Quando esses cristãos se converteram quiseram transferir esses hinos e aplicá-los a Jesus Cristo. Daí todos aqueles “Eu sou” foram escritos nos pergaminhos do evangelho de João. (Boring II, 1223).

Aliás, os cristãos convertidos dos judeus também aplicavam a Jesus os ditos da Torá que era a luz para o Antigo Testamento e a luz da humanidade. Na festa dos Tabernáculos os sacerdotes portavam grandes tochas numa grande procissão da Luz que era a Torá. Por isso, adequava com a mesma coleção dos “cristãos de Ísis”. Assim, a nova luz é Jesus.


4- Os segundos pergaminhos do evangelho de João e a segunda edição.

Estes foram os primeiros pergaminhos do evangelho de João. Porém, os eruditos sustentam que nós recebemos uma 2ªedição do evangelho de João com a insistência na pessoa de Jesus de carne e osso para corrigir as primeiras tendências que olhavam só o lado divino de Cristo


E de uma maneira para nós bastante velada e confusa, nesta 2ªedição vem expressa essa correção em Jo.6.  Não é por acaso que no evangelho de João não vem a instituição da eucaristia mas é substituída por esse  capítulo conhecido como o milagre da multiplicação ou a parábola teológica da multiplicação dos pães, onde o corpo e sangue de Jesus representam a pessoa inteira de Cristo que é objeto da fé das comunidades.

 

5- Para terminar, voltamos àquela observação que foi a dificuldade de aceitar o evangelho de João como canônico, mesmo depois da 2ª edição. Na verdade ficaram ainda muitos rastos da filosofia gnóstica, como aquela citação do demiurgo, ou “o príncipe deste mundo” (Jo.14,3),  ou também “senhor deste mundo” (Jo.12,18). Essa aceitação no cânon só aconteceu no séc. IV. Faltou pouco para que ficasse no rol dos livros apócrifos.


No entanto, como Deus (e a Igreja) escreve direito por linhas tortas a aceitação deveu-se a essa confusão que causou o “engano do nome “o presbítero” e do “discípulo amado” que não sendo o apóstolo João, eles pensaram como sendo o João apóstolo.

P.Casimiro smbn

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segunda-feira, 3 de agosto de 2020

As intenções teológicas de Marcos. O endemoninhado geraseno (Mc.5,1-14)

Passaram à outra margem do lado, ao território dos gerasenos. E assim que saíram da barca, um homem possesso do espirito imundo saiu do cemitério onde tinha o seu refúgio e veio ao seu encontro...Jesus lhe dizia ””Espirito imundo, sai deste homem!” 

...Ora uma grande manada de porcos andava pastando ali junto do monte; E os espíritos suplicavam-lhe: manda-nos para os porcos para entrarmos neles. Então os espirito imundos, tendo saído, entraram nos porcos; e a manada, de uns dois mil, precipitaram-se no mar e afogaram-se” (Mc. 5, 1-14).


Cada evangelho desenvolve uma teologia própria. Vejamos a de Marcos. Esta cena tem a ver com a questão da purificação das mãos antes de comer, e da partilha das refeições de judeus com não judeus. Foi uma luta interna da Igreja que não ficou resolvida depois da morte de Jesus e nem depois da reunião de Jerusalém.


Os cristãos na época de Marcos estavam ensaiando as primeiras viagens missionárias fora dos limites da Judeia. As cenas colocadas aqui são uma parábola teológica sobre o que é puro e não é; tudo é puro, e o evangelho de Marcos quer colocar isso bem claro: que com as ações de Jesus não tem mais animal, nem gente, nem territórios impuros para os pés dos judeus.


Com esta cena forte da “cura do geraseno” o evangelista tem a seguinte lição: como Jesus tinha purificado as terras dos pagãos e não apenas a pessoa individual do “endemoninhado”, então ele declara puros todos os alimentos e todos os territórios. “O que a pessoa come não lhe entra no coração mas vai ao ventre, e daí volta pra natureza, e assim ele declarava puros todos os alimentos” (Mc7,19).


E vem a outra parte paralela do geraseno: “ a manada dos porcos, de uns dois mil, precipitou-se no mar, afogando-se” (Mc.5,13). O território ficou purificado, ao mesmo tempo que a pessoa individual ficou purificada, porque o mar simbolizava o lugar dos monstros, lugar imundo e impuro que é para onde os porcos foram, porque o porco também era imundo. 

Na visão dos estudiosos bíblicos reside aqui a intenção teológica de Marcos em reação a esses dois casos e à sua catequese: a purificação das pessoas e a purificação dos territórios.


Em seguida há uma viagem de Jesus para Jerusalém onde Jesus topa com o cego de Betsaida, e ele o chama de “Filho de Davi”. O mesmo fazem as multidões que nessa mesma viagem aclamam Jesus como “Filho de Davi” após a purificação do templo e a entrada de Jesus em Jerusalém. 

Aqui há algumas intenções de Marcos. A primeira é para dizer que o templo já não existia, já tinha sido destruído no ano de 70 quando as linhas deste evangelho foram escritas, e a segunda é para esclarecer sobre a missão de Jesus.

Sobre o templo: ele já não existia. E agora? Agora é como na Epidemia de 2020: Os judeus que já não dispunham do templo não tinham outro jeito senão ir para as Sinagogas que eram casas mais aconchegadas. 

E os cristãos das comunidades para se considerarem como o espaço da morada de Deus, o novo templo, feito não de pedra e tijolos, mas de pedras vivas que são os cristãos, como disse depois a Carta de Pedro: “Vós também, como pedras vivas, sois edificados como templo espiritual” (1 Pd. 2,5).


E uma terceira intenção ainda: Após estas cenas tem esta ainda: Jesus pergunta sobre Cristo (que quer dizer Messias) e o Filho de Davi, e declarou aos presentes que adequar o Cristo(ou Messias) com o Filho de Davi é um engando profundo: “Continuava a ensinar e propôs esta questão: como dizem os escribas que Cristo (ou Messias) é filho de Davi? Pois se o mesmo Davi falou: disse o Senhor a meu senhor, senta-te à minha direita até que eu ponha os teus inimigos sob os teus pés? Ora se o próprio Davi o chamou senhor, como então é ele seu filho?” (Mc. 12,36)


Qual a intenção teológica de Marcos? A questão era responder às perguntas e dúvidas das comunidades se a libertação de Deus viria através da violência militar dos líderes davídicos ou não. Se eles pensavam isso podiam tirar o cavalo da chuva, porque Jesus não era esse Messias (ou Cristo) que segundo Davi iria  usar da violência.


Se Jesus fosse esse Messias davídico, eles podiam esperar dele agir pela violência, e não era esse tal. Dai que Jesus preferiu sempre se apelidar como “Filho do Homem”, que não vinha pela violência mas pelo serviço e doação da vida.

P.Casimiro       smbn

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segunda-feira, 27 de julho de 2020

Quando começou a se chamar ”Igreja” e “Católica” a nossa Igreja?


A primeira vez que se falou “Igreja” foi em Antioquia, no séc.I. Mateus é o único evangelho que traz a palavra “igreja”. “Católica” no século II.

Nessa época, entre os anos 90 d.C. quando foi escrito o evangelho de Mateus, justamente na cidade de Antioquia, como estão de acordo os eruditos biblistas, havia  duas alas de cristianismo: uma ala mais chegada aos judeus, que relutava em aceitar Jesus como o Messias crucificado, e outra ala que tinha isso  como fundamental.

O apóstolo São Pedro era o líder da comunidade cristã de Antioquia desta segunda ala ou partido.  E gerou-se assim uma certa animosidade entre as duas alas de cristãos. (E.Boring, II 748).

Estavam sendo escritos os primeiros pergaminhos do evangelho de Mateus por meio da escola mateana que deu origem ao evangelho de Mateus.  Não é que São Mateus estivesse aí, mas os tempos seguintes é que atribuíram esse evangelho a Mateus. São Mateus estava na Etiópia nessa época Os escritos circulavam anônimos, sem autor e sem datas, e foram recebendo os títulos conforme as comunidades catalogassem.

Como começou então o título “igreja”? Como havia rivalidade entre essas duas comunidades de cristãos e até certa perseguição os redatores definiram a sua comunidade como sendo a igreja legítima que aceitava Jesus como o Messias crucificado. E nos pergaminhos do evangelho ficou: “Esta é a minha igreja, as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt.16,18) porque a outra ala “infernizava” a vida deles, assim como também os Judeus das Sinagogas.

São Pedro foi o primeiro bispo de Antioquia. A comunidade cristã de Antioquia configurava-se como a “igreja” messiânica e o povo escatológico de Deus e  considerava-se uma comunidade perfeccionista e perseguida.

Esta comunidade quis pôr em destaque a pessoa de Pedro, contrapondo-o à popularidade que Paulo gozava na região. “A igreja mateana foi petrina, ao invés de paulina. O evangelho de Mateus entendeu a figura de Pedro como sendo importante para a igreja como um todo e não apenas para a sua própria comunidade” (Boring).

E “católica”? Veio do costume do século II de chamar as “Cartas Católicas” a coleção das Sete Cartas” de Tiago, Pedro, João e Judas que vinham sem endereçamento, em contraste com a primeira coleção das “Sete Cartas” de São Paulo. Estas eram dirigidas às igrejas, ou igreja universal “católica” em grego. (Boring).

Então, a igreja recebeu o nome a primeira vez em Antioquia no evangelho de Mateus, confeccionado lá. O único evangelho que traz esse nome. E católica devido à segunda coleção de CartasCartas católicas” (para toda a igreja).

O primeiro que começou a usar o nome de "IGREJA CATÓLICA" foi Santo Inácio de Antioquia no ano de 120 depois de Cristo.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

O que quer dizer “Segundo as Escrituras”.


Logo de início irei dizer que na teologia dos evangelhos significa que tudo que aconteceu na vida Cristo estava escrito no plano de Deus “

E em muitos lugares esta expressão aparece em palavras como “é necessário” “o que deve acontecer” e “plano de Deus”. “É necessário que o Filho do Homem seja entregue nas mãos dos pecadores, seja morto e ao 3º dia ressuscite” (Lc.24,7) Como também Mt.16,21 e Jo.12,24). “Ele nos manifestou o misterioso plano de sua vontade” (Ef.1,9). 

Daí foi um passo para a epígrafe “segundo as Escrituras”. “Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras“(1Cor.15,3-4).

Um segundo motivo é a lembrança do passado de Israel, em Oseias quando disse: ”Passados dois dias ele nos revivificará e ao 3º dia nos erguerá e restaurará a fim de que possamos viver em sua presença” (Os.6,2), notando que estava se referindo à situação política da época querendo levantar a esperança. 

E ainda a expressão três dias querendo dizer em breve. Como dizem os estudiosos, quando se falava em ressurreição no Antigo Testamento estavam falando de um ressurgimento agora, neste mundo, aqui e agora.

Um terceiro elemento a considerar é que na Cristologia adâmica de Paulo, tudo o que aconteceu com Adão tinha que acontecer com Cristo considerado o segundo Adão, mas ao contrário: em Adão a morte, em Cristo a ressurreição. 

No livro “a vida de Adão e Eva,”escrito por Fíló  cuja leitura era corrente entre os judeus do 1º século trazia a promessa de um Adão fiel de ressurreição e acesso renovado à arvore da vida “e serás imortal para sempre”.
Vamos recuar então para pesquisar mais esse fio da historia. Os primeiros cristãos viam-se como vivendo nos últimos dias de realização, entre a ressurreição de Jesus, as primícias da ressurreição, e o triunfo de Deus, que ocorreria em breve em suas próprias vidas. 

Portanto aqueles que tinham vivido o tempo do Messias experimentariam também a volta de Jesus que aconteceria nas suas próprias vidas. E seriam testemunhas da glória de Deus.
Para os primeiros cristãos, a ressurreição não era um fenômeno particular ocorrido na única pessoa de Cristo mas um fenômeno universal da coletividade que eles iam experimentar ainda em vida. 

Por isso todos viviam na expectativa de ver o triunfo de Cristo descendo dos céus juntamente com os que já tinham morrido, que iriam ressuscitar primeiro, e eles, os vivos seriam as testemunhas e iriam presenciar juntamente com eles a volta de Jesus. 

Imagine a expectativa. “ Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou cremos também que Jesus levará com ele os que morreram. Depois nós os vivos seremos arrebatados com eles sobre as nuvens ao encontro do Senhor, nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor”(1.Tes.4,14-18).
No entanto Jesus não voltou. A história seguiu em frente. Já falei noutro tema que entre as várias atitudes surgidas na época, uma ganhou relevância, a atitude milenarista daqueles que empurraram a volta de Jesus para o fim da história, baseados no jargão do Antigo Testamento que “mil anos para Deus são como um dia, e um dia como mil anos” (Sal.90,4).
Porém, Lucas teceu a sua própria teologia. Segundo Lucas, o Cristo vem no meio da História em curso, e não no seu final. Seus argumentos: Deus tem um “plano” para a história universal. O senhorio de Deus se manifesta conduzindo a história de tal maneira que todos encontrem a salvação e experimentem já os efeitos da ressurreição nesta vida. 

E apresenta várias cenas onde algumas  pessoas já experimentam uma centelha da ressurreição em vida, como Lázaro, Talita, o filho da viúva de Naim. Depois da ressurreição da Talita (Lc.7,11) e do filho da viúva de Naim, Jesus anunciou aos dois discípulos de João Batista: Ide dizer a todos que aquilo que esperavam pro fim dos tempos já chegou: ”os mortos ressuscitam” (Lc.7,22).
E sempre com o mantra: “é necessário”, “o que deve acontecer”, era “o plano de Deus que se cumpriu”. Em outras palavras, isso estava escrito na mente de Deus, que derivou para aconteceu “segundo as Escrituras”.
P.Casimiro SMBN


domingo, 12 de julho de 2020

A Origem do Mal no Mundo e o Gnosticismo e o Cristianismo inicial

O mundo que se começou a encontrar com o cristianismo era muito divertido, mas muito questionador.

Naquelas épocas as filosofias correntes se cruzavam com a religiosidade de tal maneira que se tornava difícil saber onde terminava a religiosidade e começava a filosofia. 

No cristianismo da Grécia havia de mistura uma filosofia dominante que era o gnosticismo que era muito devedora do platonismo e adaptava o platonismo à religião. Essa filosofia influenciou muito a escrita do evangelho de São João, e algumas Cartas de São Paulo.

Nesse sentido havia uma preocupação muito grande em responder às perguntas como: donde vem o mal no mundo, se o Ser máximo lá em cima está no controle de tudo? A esse Ser máximo, eles chamavam Pleroma, que tinha a completude de todos os bens.

Segundo a filosofia de Platão que lhes dava respaldo, esse Pleroma ou o Deus prefeito estava bem acima das preocupações dos mortais, estava lá no mundo das Ideias, e não tinha contato com a matéria. 

Porém, no próprio Ser divino havia uma parte inquisidora que desejava conhecer sua própria origem dentro da máquina divina: era a SOFIA em português SABEDORIA.

Nesse intervalo de tempo a Sabedoria conseguiu fazer uma viagem para a Terra e aí concebeu outro ser divino, um tipo de rei ou príncipe que não  obedeceu ao Ser Máximo o deus primário ou Pleroma. Este ser assim caído do céu é que resolveu criar a matéria, porque seu pai não tinha ainda criado a matéria porque a matéria era má.

Este ser que criou a matéria é que ficou sendo o deus deste mundo, como lhe chama São Paulo na 2ª Carta aos Corintios: “para os incrédulos cuja inteligência o deus deste mundo obcecou...” (2 Cor.4,4). Ou “o príncipe deste mundo” no evangelho de São João: “Já não vou falar mais convosco porque vem o príncipe deste mundo” (Jo.14,30). Este "príncipe deste mundo" também era chamado de demiurgo ou criador.

Entre os seres humanos criados por este ser divino demiurgo havia dois partidos: os que só se importavam com a matéria e o que ela podia lhes oferecer, e os que não se conformavam com este mundo e tinham sentimento profundo que não pertenciam a este mundo: “Vós não sois do mundo, como eu também não sou do mundo” (Jo.17,16, e Jo15,20).

Quando no processo de separação, quando a mãe Sofia se desprendia do deus primário PLEROMA, uma centelha da realidade divina chamada Espirito foi concedida a SOFIA e continua na mesma versão em cada um destes seres humanos. 

Assim, a humanidade não vem só com seus primários elementos matéria e alma, mas com seus primeiros elementos do Espírito divino do mundo do eterno dentro do Pleroma. É por isso que esses seres humanos não se sentem em casa, e anseiam por se libertar deste “corpo de morte” que é a matéria. “Quem me livrará deste corpo de morte”? (Rom.7, 23).

A Sabedoria dos gnósticos encontra uma versão paralela na Literatura hebraica em seu poema sobre a SABEDORIA (Provérbios, todo capitulo oito).

Podemos concluir agora enumerando os 05 princípios do Gnosticismo: 1. O mundo gnóstico não se sentia em casa neste mundo; 2. A composição dualista da realidade, em espirito e matéria; corpo e alma; 3. A  compreensão de salvação como libertação de sua prisão terrestre e carnal; 4. Desprezo deste mundo; 5. Seres espirituais que pertenciam ao mundo divino e podiam assumir forma humana e comunicar conhecimento secreto aos mortais.

Terminando, tivemos ocasião de ver como estas correntes e filosofias, querendo ou não, estavam no imaginário quotidiano dos cristãos da época e como sinais delas ficaram  nos escritos do Novo Testamento, e querendo ou não influenciam ainda hoje o nosso imaginário.
P.Casimiro SMBN www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br

segunda-feira, 6 de julho de 2020

O fim do mundo e as Seitas Milenaristas

No imaginário dos primeiros cristãos a primeira coisa que tinham sobre o Messias era que ele veio como o encarregado de trazer o castigo divino sobre o mundo, salvando os justos e vingando a morte de Jesus. “Este Jesus que vós crucificastes, e que Deus transformou em juiz dos vivos e dos mortos” (At, cap2)

Essa foi a primeira explanação colocada na boca de São Pedro logo após a Páscoa. Por outro lado, isso ressuscitava o imaginário apocalítico do Antigo Testamento iniciado com o livro de Daniel (cap. 12) e logo tomado pelos Macabeus.

Os Macabeus insistem na vingança divina e fazer ressuscitar o sangue derramado. O Apocalipse de Daniel insiste em que o povo de Deus feito servo sofrido há de aparecer glorioso vindo do céu para a vitória sobre os seus torturadores.

Este servo sempre foi o povo da Aliança, e depois o Messias, que assumiu essas dores do povo de Deus e que finalmente se manifestaria na sua descida  com glória nas nuvens do céu para vingar os inimigos.

Quando os primeiros cristãos começaram arriscando as primeiras conversas sobre a Bíblia, o ponto aglutinador era a ideia de um Messias prometido. 

Claro que além da ideia clássica da vingança de Deus anunciada e esperada ainda tinham o outro substrato de um filho prometido a Davi que seria o Messias com a finalidade de restaurar o povo derrotado em suas humilhações e cativeiros, para vingar todos os povos que o tinham oprimido, e inaugurar o reino eterno de Deus. 

Assim, ao imaginário deste Messias glorioso juntou-se o imaginário do Servo Sofredor transformado agora em juiz das nações: Eram como dois rios que se juntavam num só mar.

Este era o  imaginário que enchia as cabeças e as conversas de todos os primeiros cristãos convertidos dos judeus, e dos primeiros missionários. E como iriam transmitir isso para os pagãos que não sintonizavam e não tinham sido iniciados numa história “sagrada” como eles?

Então eles esclareciam assim: este acontecimento escatológico dos últimos dias já aconteceu na pessoa de Jesus de Nazaré que em breve voltará em glória como Filho do Homem a fim de restabelecer o reino eterno de Deus.

Pode parecer estranho, mas não era tanto, porque os ouvintes já tinham muitas histórias em que os deuses deles também morriam e ressurgiam, e celebravam essas mortes e ressurreições nos seus cultos. 

Além disso tinham sacrifícios em que na comunhão com o deus, o deus era comido na refeição sagrada, e eles assim participavam na vida desse mesmo deus.

No tocante ao retorno final, a primeira geração morreu sem ver o retorno de Cristo, e como e porquê continuava tudo do mesmo jeito? Então começaram a dividir-se: 

Uns grupos opinavam, vamos aguardando, que a data vai chegar. O segundo grupo perdia a esperança e dizia, vamos tirar o cavalo da chuva porque isso não vai acontecer nunca. Um terceiro grupo arriscava que a mesma volta de Jesus era por meio do Espirito Santo que Jesus tinha prometido. 

E o quarto grupo preferiu empurrar tudo para o fim dos tempos, se apoiando nos salmos que diziam “ Mil anos diante de Deus são como um dia, e um dia como mil anos”(Sl. 90,4).

Foi da ideia deste quarto grupo que depois surgiram as seitas milenaristas: em cada 1.000 anos esperavam a volta de Jesus.
P.Casimiro SMBN
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domingo, 5 de julho de 2020

Nossas condolências pelo falecimento do Dr. José Almeida





Nossas condolências pelo inesperado falecimento do Dr. José da Costa Almeida. 
Chapadinha inteira é conhecedora e devedora de tanta dedicação de  um médico competente e amigo que ele era. 
E da mesma maneira quando exerceu o cargo de Prefeito de Chapadinha nos anos de 1983-1988.
Por sua amizade e colaboração com a Igreja católica e as outras igrejas sempre mereceu nosso respeito.
O BLOG da Paróquia deixa aqui os sentimentos de pesar, saudade e amizade à esposa D.Edilene, familiares mormente D.Elmarene, D.Zenite e a todo pessoa da SAÚDE de Chapadinha. 
A PAZ DO SENHOR.