segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

OS 40 ANOS DE MOISÉS NO DESERTO E OS 40 DIAS DE JESUS


 

Não é sobre número 40, mas sobre uma vida inteira. Quando a Bíblia fala que Moisés passou  40 anos no deserto, (Dt.8,2) é para dizer que devemos passar a vida inteira procurando a nossa salvação, que eles verbalizavam na "terra prometida". E quando fala que Jesus passou 40 dias  no deserto, (Mt.4,1-11) é para dizer que Jesus passou toda a sua vida debaixo das provocações e perseguições dos seus inimigos, quais outros demônios. Com os 40 anos de Moisés se diz que o tempo médio de duração de uma vida era de 40 anos: todas as pessoas morriam nessa faixa etária, entre os 30 e 40 anos. Quando se fala dos 40 dias de Jesus no deserto é uma referência para cumprir o “plano” de Deus e os seus compromissos com a humanidade em toda a sua vida. Simples assim e metafórico assim. E as nossas vidas, a sua e a minha, não estão também dentro dos 40 anos de Moisés e dos 40 dias de Jesus? Certamente  que sim.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

JESUS E OS ESTRANGEIROS SIMBOLIZADOS PELA MULHER SÍRIO-FENÍCIA

Um dia uma mulher pagã sírio-fenícia foi até Jesus que se encontrava no seu território estrangeiro e lhe pediu que expulsasse um espírito impuro de sua filha, “Ela suplicou a Jesus que expulsasse de sua filha o demônio. Jesus lhe disse: deixa primeiro que os filhos fiquem saciados, porque não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-los aos cachorrinhos. A mulher respondeu: é verdade, mas também os cachorrinhos debaixo da mesa, comem as migalhas que as crianças deixam cair. Então Jesus disse: “Por causa do acabas de dizer, podes voltar para casa; o demônio já saiu de tua filha” (Mc.7,25-30). Este CrCode não é sobre fé, mas sobre a purificação dos territórios estrangeiros que são purificados por meio da expulsão dos demônios. Isto porque na doutrina dos Judeus os territórios estrangeiros eram habitados por demôniios ou espíritos impuros. Não é sobre “milagre”, mas sobre purificação de territórios pagãos, simbolizados por aquela mãe pagã e estrangeira e sua filha que não pertenciam ao povo judeu e portanto não eram “filhos” mas “cachorrinhos”. O resumo e a lição teológica e catequética é portanto esta: o demônio que habitava em todos os pagãos e nessa filha e nessa mãe já tinha saído. Observemos a cena: “Primeiro os filhos devem  ficar saciados, porque não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo  aos cachorrinhos”.  Os filhos eram os judeus; os cachorrinhos eram ela e a sua filha. Assim era eram tratados, como cachorros ou gente habita por demônios e espíritos impuros. Por sua vez, a resposta de Jesus nos surpreende: “Por causa do que acabas de dizer podes voltar para casa, o demônio já saiu de tua filha”. Não é sobre fé mas sobre que a mulher entrou por suas próprias palavras no povo dos filhos. Como quem diz: se os filhos comem o pão, nós também queremos embora seja o que sobra ou que cai mas é o pão dos filhos que eu e minha filha queremos comer, “por causa do que acabas de dizer você e sua filha já não são gente possuída por demônios”. Também não é sobre milagre, mas como nós estamos cheios da síndrome de milagres, tudo achamos como “milagre”. Porém os ouvintes daquela época não entendiam como milagre mas como lição de purificação daqueles territórios pagãos: aquela filha e aquela mãe, pelas suas palavras já se tinham tornado “filhas” do povo dos filhos de Deus. Este QrCode é paralelo ao homem de Gerasa, o geraseno, também de território pagão possuído por uma legião de demônios (Mc.5,1-20). Era também um território pagão e estrangeiro. Pela ação de Jesus, simbolizada na saída dos demônios do corpo daquele homem e entrando em porcos que se jogaram no mar, tanto aquele homem estrangeiro como o seu território estrangeiro ficaram purificados. São dois QrCodes paralelos e com a mesma lição teológica e catequética. Notemos que a linguagem era usada para o entendimento e a cultura daquela época. Porque a Bíblia não fala a nossa linguagem de hoje, mas da época  em que foram escritos os evangelhos. O nosso trabalho agora é saber ver as distâncias e as diferenças de cultura e de linguagem. Por isso já dizia uma professora que a "Bíblia tem que ser lida com uma lupa". Quisemos clarear este CrCode de Jesus e os estrangeiros explanando esse episódio da mulher sírio fenícia. Sempre recordando na nossa lupa e no nosso QrCode o que diz a teologia bíblica no seguinte jargão: Os evangelhos não são geográficos nem históricos mas teológicos.

P.Casimiro João       smbn

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O QRCODE DA MOEDA NA BOCA DO PEIXE.

“Vai ao mar, lança o anzol e ao primeiro peixe que pegares, abre a boca e encontrarás a moeda do dízimo"(Mt.24,26). Muitas narrativas nos evangelhos funcionam como um QrCode. Um qrcode na sua aparência é só um quadrado, mas é um ícone carregado de sentidos. O que este qrcode nos mostra? Esta é uma dupla catequese. A primeira se refere à fábula de um peixe que uma vez entregou uma moeda de ouro saída da sua boca ao imperador Vespasiano, porque o  imperador era considerado o dono “das terras, dos mares e dos ares”. E todos os pescadores tinham que pagar imposto por cada peixe que pescavam. A lição aí é que o imperador não era o dono dos mares e dos peixes, mas Jesus. A segunda lição: Esse tema da antiga fábula era comumente contada na forma de pérola preciosa na boca do peixe; é claro que aí se toma um tema de fábula para dizer que tudo estava à disposição de Jesus porque o Pai cuidava dele. Nenhum dos leitores daquela época interpretava esse texto em sentido literal.(Schillebeeckz, Jesus, a história de um Vivente, p.183). Entendiam-no, antes como parábola ou QrCode para esclarecer a catequese. Vamos dar uma olhada nalgumas expressões como “a tua fé te salvou”; “grande é a tu a fé”, e: “tudo é possível a quem crê”: Cada uma delas não é afirmação teológica, mas uma admiração pela fé das pessoas e para admirar o poder de Jesus. Dito de outra maneira: “São afirmações ou ditos que pertencem ao gênero das narrativas de cura”. Fé aqui se compara com confiança. “Quem confia consegue” “Dá os seus pulos, como diz o provérbio brasileiro, ou “se vira nos trinta”. E o evangelho: “quem pede recebe”, “quem procura encontra”(Mt.7,8). Havia um consenso geral que Jesus vinha para restaurar a nação de Israel, “as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt.10,7); Ora quem tivesse essa preocupação adequava com a missão de Jesus,  ou seja estava em consonância com a sua missão e com o seu trabalho. Esta “tua fé te salvou” e “grande é a tua fé” cabiam dentro da missão de Jesus, até mesmo ditas pelos não judeus. Vem daí a exclamação de Jesus: “ Não encontrei tamanha fé em Israel” (Mt.8,10). Por outro lado, “contar milagres era costume na Antiguidade” (Schillebeeckz, o.c.p.176). Também trovão e relâmpago eram naquele tempo “milagres” da natureza criada por Deus, enquanto para nós, com base científica julgamos de outra maneira” (id). Para eles, o “milagre” não era problema, mas ao serem confrontados com os milagres de Jesus se tornou um desafio concreto. Seria obra de quem? Dos demônios? Seria obra Deus? Esse era o problema. Porque os filhos deles também faziam milagres de curar e de expulsar demônios no entendimento semítico deles. (Lc.11,19). Devemos saber que nos evangelhos nunca é usada a palavra do grego profano “thauma”, “milagre”, mas “thaumadein”, admirar ou se maravilhar (o.c.p.176). E isto assombrava tanto os seguidores de Jesus como os opositores. E aí se colocava o ponto central dos milagres nos evangelhos. Se para os opositores Jesus agia com o poder dos demônios, para os seguidores agia com o poder de Deus. Quando isto acontecia ninguém pensava em leis da natureza, nem Jesus nem seus ouvintes. É por isso que alguns veem em Marcos a figura de Jesus como um “curandeiro milagroso de aldeia e como ‘mago’ segundo o conceito da época (o.c.p. 178). Neste sentido estes curandeiros e magos de exorcismos existiam também entre os contemporâneos de Jesus. “Se eu expulso os demônios pelo poder de belzebu, os vossos filhos expulsam pelo poder de quem?” (Lc.11,19). Devemos fazer o desconto do tempo, lembrando que toda a doença andava ligada com a presença de um demônio, tudo segundo as lendas da época. Por outro lado, devemos entender que nos evangelhos o “elemento histórico e o elemento querigmático ou catequético compõem muitas vezes um tecido difícil de destrinchar. Nesse sentido é difícil afirmar se todos os milagres dos evangelhos aconteceram de fato, ou se são catequeses sobre o Jesus pós pascal" (Cf.o.c.p.181).  Um dos “milagres” paradigmáticos neste sentido é a “moeda” do dízimo encontrada na boca do peixe, como já relatamos acima. Há outra afirmação impactante que diz assim: “Quem tiver fé como um grão de mostarda dirá a esta montanha: retira-te daqui e atira-te no meio do mar”(Mc.11,23). Os estudiosos dizem que era uma referência ao templo de Jerusalém construído sobre a montanha de Sião e que merecia ser jogado no mar, como aconteceu com a manada de demônios que saíram do possesso geraseno feitos porcos e se jogaram no mar. Na verdade há aí a conotação entre o possesso e o templo que estava “possuído por ladrões e se tornou “covil de ladrões (Mt.21,13). (Cf. Ched Myers, Evangelho de Marcos, pag.366). Seria um outro qrcode para dizer que quem adequasse com a fé libertadora de Jesus entraria no mesmo ritmo da sua atividade e aceitaria a afirmação de Jesus sobre o fim de validade do templo, que, como a religião praticada pelos judeus estava deteriorada e tinha que acabar; Não valia "botar remendo novo em pano velho"(Mt.9,16).

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

QRCODE DA MONTANHA:JESUS SUBIU AO MONTE E SENTOU-SE.


 

A teologia bíblica atual afirma que “montanha” no evangelho não é lugar geográfico, mas teológico. (Huberto Rohden). Hoje, na linguagem da informática podemos dizer que é um QrCode. “Vendo aquelas multidões, Jesus subiu à montanha. Sentou-se e seus discípulos aproximaram-se dele. Então abriu a boca e lhes ensinava” (Mt.5,1-2) Puxando o nosso QrCode aparecem as narrativas de como Moisés subiu ao monte Sinai, e lá formou o povo de Deus com as Doze tribos. Ele formou a “constituição” do povo de Deus na promulgação dos Mandamentos do Sinai. A figura de Moisés aparece agora na pessoa de Jesus, como o novo Moisés que sobe também na montanha, e promulga a nova “constituição” do novo povo de Deus com as Bem-aventuranças. E, paralelamente com as Doze tribos, convocou os Doze apóstolos para formar a base do novo Povo de Deus. Lei, ou Torá do Antigo Testamento é agora substituída pela nova Lei de Jesus Cristo. O resumo desta nova lei que fica codificada nas Sete Bem-aventuranças Mt.5,3-11 é a partilha. O Deus da Lei de Moisés era o deus do medo, do pavor, dos relâmpagos e dos trovões, da montanha flamejante e dos limites marcados no chão para não se aproximar de Deus senão morriam. Dessa lei do medo se originaram os milhares de preceitos e tabus de impureza que encheram livros como o Levítico do Antigo Testamento. O Deus da lei de Jesus Cristo é o Deus da proximidade, companheiro, irmão, que pensa no próximo e no irmão e  na partilha entre todos. Por isso se fala nos que sabem partilhar: bem-aventurados os que têm coração de pobre que sabem partilhar; bem-aventurados os que choram pelo sofrimento dos outros; os mansos que sabem controlar as situações; os que lutam pela justiça; os que praticam a misericórdia; os puros de um coração sem hipocrisia ou fingimento; os homens de paz, e até os que sofrem para salvar alguém. Este é o mundo de Deus ou o Reino de Deus. Um mundo não partilhado é um mundo malvado. O mundo sem partilha é o mundo sem Deus. Esse mundo sem Deus  existia no Egito da escravidão do povo judeu. O novo mundo agora é posto em teste: Se não se praticar a nova aliança da partilha das bem-aventuranças corremos o risco de cair no mesmo mundo malvado de outras escravidões, como: onde existem pobres é porque não existe partilha; onde há aflitos é porque há quem causa aflições; onde se elogiam os mansos é porque há violência; onde há fome e sede de justiça é porque a injustiça corre solta; onde se recomenda a misericórdia é porque não há misericórdia; onde se louvam os de coração sem hipocrisia é porque a hipocrisia campeia em toda espécie de subornos, injustiças e propinas; onde se louvam os  que promovem a paz é porque a violência impera contra as leis; onde há perseguidos por causa da justiça é porque a justiça não é praticada. Porque o Reino de Deus é um projeto de humanização; um mundo sem humanização é um mundo sem Deus. Projeto de humanização é um projeto de vida e felicidade para todos, porque Deus não quer o sofrimento. Nosso QrCode com a palavra-chave “monte”, “montanha” nos ensina os significados metafóricos  escondidos na materialidade das palavras, como atrás da materialidade de um QrCode se esconde uma lição de catequese e de teologia. Assim, não vale a pena a pergunta: Onde era o monte? Ele existe? Existe o monte das Bem-Aventuranças? Existe o monte do Tabor? Se, como afirmam os teólogos, a questão é uma questão teológica, então não cabe a pergunta sobre geografia mas sobre teologia. E o QrCode que está oculto neste trecho do evangelho também não é sobre geografia, mas sobre teologia.

P.Casimiro João       smbn

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