“Vai ao mar, lança o anzol e ao primeiro peixe que pegares, abre a boca e encontrarás a moeda do dízimo"(Mt.24,26). Muitas narrativas nos evangelhos funcionam como um QrCode. Um qrcode na sua aparência é só um quadrado, mas é um ícone carregado de sentidos. O que este qrcode nos mostra? Esta é uma dupla catequese. A primeira se refere à fábula de um peixe que uma vez entregou uma moeda de ouro saída da sua boca ao imperador Vespasiano, porque o imperador era considerado o dono “das terras, dos mares e dos ares”. E todos os pescadores tinham que pagar imposto por cada peixe que pescavam. A lição aí é que o imperador não era o dono dos mares e dos peixes, mas Jesus. A segunda lição: Esse tema da antiga fábula era comumente contada na forma de pérola preciosa na boca do peixe; é claro que aí se toma um tema de fábula para dizer que tudo estava à disposição de Jesus porque o Pai cuidava dele. Nenhum dos leitores daquela época interpretava esse texto em sentido literal.(Schillebeeckz, Jesus, a história de um Vivente, p.183). Entendiam-no, antes como parábola ou QrCode para esclarecer a catequese. Vamos dar uma olhada nalgumas expressões como “a tua fé te salvou”; “grande é a tu a fé”, e: “tudo é possível a quem crê”: Cada uma delas não é afirmação teológica, mas uma admiração pela fé das pessoas e para admirar o poder de Jesus. Dito de outra maneira: “São afirmações ou ditos que pertencem ao gênero das narrativas de cura”. Fé aqui se compara com confiança. “Quem confia consegue” “Dá os seus pulos, como diz o provérbio brasileiro, ou “se vira nos trinta”. E o evangelho: “quem pede recebe”, “quem procura encontra”(Mt.7,8). Havia um consenso geral que Jesus vinha para restaurar a nação de Israel, “as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt.10,7); Ora quem tivesse essa preocupação adequava com a missão de Jesus, ou seja estava em consonância com a sua missão e com o seu trabalho. Esta “tua fé te salvou” e “grande é a tua fé” cabiam dentro da missão de Jesus, até mesmo ditas pelos não judeus. Vem daí a exclamação de Jesus: “ Não encontrei tamanha fé em Israel” (Mt.8,10). Por outro lado, “contar milagres era costume na Antiguidade” (Schillebeeckz, o.c.p.176). Também trovão e relâmpago eram naquele tempo “milagres” da natureza criada por Deus, enquanto para nós, com base científica julgamos de outra maneira” (id). Para eles, o “milagre” não era problema, mas ao serem confrontados com os milagres de Jesus se tornou um desafio concreto. Seria obra de quem? Dos demônios? Seria obra Deus? Esse era o problema. Porque os filhos deles também faziam milagres de curar e de expulsar demônios no entendimento semítico deles. (Lc.11,19). Devemos saber que nos evangelhos nunca é usada a palavra do grego profano “thauma”, “milagre”, mas “thaumadein”, admirar ou se maravilhar (o.c.p.176). E isto assombrava tanto os seguidores de Jesus como os opositores. E aí se colocava o ponto central dos milagres nos evangelhos. Se para os opositores Jesus agia com o poder dos demônios, para os seguidores agia com o poder de Deus. Quando isto acontecia ninguém pensava em leis da natureza, nem Jesus nem seus ouvintes. É por isso que alguns veem em Marcos a figura de Jesus como um “curandeiro milagroso de aldeia e como ‘mago’ segundo o conceito da época (o.c.p. 178). Neste sentido estes curandeiros e magos de exorcismos existiam também entre os contemporâneos de Jesus. “Se eu expulso os demônios pelo poder de belzebu, os vossos filhos expulsam pelo poder de quem?” (Lc.11,19). Devemos fazer o desconto do tempo, lembrando que toda a doença andava ligada com a presença de um demônio, tudo segundo as lendas da época. Por outro lado, devemos entender que nos evangelhos o “elemento histórico e o elemento querigmático ou catequético compõem muitas vezes um tecido difícil de destrinchar. Nesse sentido é difícil afirmar se todos os milagres dos evangelhos aconteceram de fato, ou se são catequeses sobre o Jesus pós pascal" (Cf.o.c.p.181). Um dos “milagres” paradigmáticos neste sentido é a “moeda” do dízimo encontrada na boca do peixe, como já relatamos acima. Há outra afirmação impactante que diz assim: “Quem tiver fé como um grão de mostarda dirá a esta montanha: retira-te daqui e atira-te no meio do mar”(Mc.11,23). Os estudiosos dizem que era uma referência ao templo de Jerusalém construído sobre a montanha de Sião e que merecia ser jogado no mar, como aconteceu com a manada de demônios que saíram do possesso geraseno feitos porcos e se jogaram no mar. Na verdade há aí a conotação entre o possesso e o templo que estava “possuído” por ladrões e se tornou “covil de ladrões” (Mt.21,13). (Cf. Ched Myers, Evangelho de Marcos, pag.366). Seria um outro qrcode para dizer que quem adequasse com a fé libertadora de Jesus entraria no mesmo ritmo da sua atividade e aceitaria a afirmação de Jesus sobre o fim de validade do templo, que, como a religião praticada pelos judeus estava deteriorada e tinha que acabar; Não valia "botar remendo novo em pano velho"(Mt.9,16).
P.Casimiro João smbn
www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br

Nenhum comentário:
Postar um comentário