Comecemos por três lendas: Onde morou a Mãe de Jesus, a
mulher adúltera e o discípulo amado.
Tradicionalmente era crível que Maria Santíssima viveu em
Éfeso, na companhia de João evangelista. Essa versão se fundava nas palavras de
Jesus na cruz “E o discípulo a recebeu em sua casa” Jo;19,27. No entanto seria
válida esta crença se o episódio tivesse a garantia da historicidade.
Ultimamente, os estudos históricos e hermenêuticos interpretam estas palavras e
todo o episódio da presença da Maria e João junto à cruz mais como teologia e
simbologia do que história. Como assim?
Em primeiro lugar, temos que analisar o histórico: todos os 3 evangelhos
sinóticos afirmam que quando Jesus foi preso “todos os discípulos o abandonaram
e fugiram”Mc.15,40 e portanto não estavam junto à cruz, e também o João. Quanto
às mulheres, “algumas mulheres o acompanhavam, de longe”,Mc.15,41. Do que fica
dito, nenhum dos 3 evangelhos sinóticos fala de Maria junto à cruz e nem das
palavras de Jesus, somente João que também não estava presente junto à cruz.
Além do mais, o trecho não foi João quem escreveu, mas as comunidades joaninas,
assim como todo o evangelho.(R.Brown, a comunidade do discípulo amado, pari
passu). Isto nos leva a uma certeza, trata-se da teologia que se desenvolvia
nas comunidades joaninas, com duas vertentes: a primeira vertente é a polêmica
das comunidades joaninas que reivindicavam para si o cacife de serem as mais
perfeitas e “preferidas” pelo Senhor como sendo aquelas que tinham o “discípulo
amado” que, não sendo mesmo o São João, era um discípulo que teria acompanhado Jesus,
e ainda era o mais “ancião” nessa altura do campeonato, como afirmam os
historiadores(Cf. R.Brouwn, o.c.p. 107). Em segundo lugar, nessa mesma
empolgação colocaram na escrita do “seu” evangelho que esse discípulo amado
teria estado ao pé da cruz e recebido a Mãe de Jesus. Vejamos como arrumaram
uma baita de uma grande joia para suas comunidades, recebendo a “mãe de Jesus”
na pessoa de um “discípulo amado” que nunca foi o João evangelista, isso era um
baita de um privilégio. Pergunte ao Marcos, ao Mateus e ao Lucas, os evangelhos
que são mais históricos. Vejamos o que
afirma James Dunn: “Poucos estudiosos consideram João como uma fonte de
informação sobre a vida e o ministério de Jesus no mesmo nível que os
sinóticos.” (James Dunn, O cristianismo nos seus começos, p.229). E: “se as impressionantes autoafirmações de
“Eu sou” que vemos em João fossem lembradas como ditas por Jesus, como poderia
um evangelista ignorá-las tão completamente como fazem os sinóticos?”(id). Portanto,
é fácil criar uma piedosa lenda, e foi criada. Daí, logicamente, que Maria e
João teriam vivido em Éfeso, a continuação da lenda. “Menos histórica ainda é a
lenda de que João mudou-se para Éfeso com Maria, a mãe de Jesus. Toda a
tradição antiga é unânime em afirmar que Maria morreu em Jerusalém"
(H.Koester, Introdução ao N.T. vol.II,p.203). Resumindo esta teologia e
simbologia acompanhemos os estudiosos: “A maioria dos comentaristas encontra
uma implicação teológica ao interpretar a mãe de Jesus e o discípulo amado como
figuras representativas ou simbólicas de um grupo maior, no sentido de que
Maria representava a herança de Israel que agora estaria confiada às
comunidades do Discípulo amado como representação da Igreja” (R.Brown, vol.II
o.c.p.1377). Então, digamos, o “discípulo amado” simbolizava os cristãos” como
afirmava também Orígenes no séc.III (id.). Em terceiro lugar, a lenda da mulher
adúltera. “A narrativa sobre Jesus e a mulher surpreendida em adultério Jo.7,53
é uma interpolação posterior; ela não consta dos papiros mais antigos, nem dos
manuscritos do século IV. Em terceiro lugar a lenda do “discípulo amado”. Além
do que já falei, tem mais: O último capítulo de João, 21,15-23 pertence a um
debate posterior sobre atribuições competitivas de autoridades apostólicas. “A
Pedro concediam a organização eclesiástica, enquanto que com a reclamada
inventiva do “discípulo amado” reclamavam a suposta tradição especial desse
evangelho como sendo de uma testemunha ocular” (o.c.p. 203). Eu disse,
“perguntem ao Marcos, ao Mateus e ao Lucas” pois veja também que “São Policarpo
de Esmirna 150 d.C, desconhecia o evangelho
de João. E também outro teólogo, Papias, bispo de Hierápolis”. (id). Em quarto
lugar para aprofundar mais na radioscopia do IV evangelho, de João, avancemos o
seguinte passo, sobre magia, ponto delicado mas já confirmado por Inácio de
Antioquia no século II d.C. “O redator que acrescentou o cap.21, o final do
evangelho de João, também introduziu outros materiais no texto original de
João. Os mais notórios: “Os versículos que referem o comer físico da carne de
Jesus e o beber o seu sangue, Jo.6,51-59 são uma interpolação posterior da
eucaristia como comida e bebida mágica sobre Jesus como o pão descido do céu. O
que os discípulos deviam compreender é que o pão descido do céu são as palavras
de Jesus, que são espírito e vida, Jo.6,63. A compreensão mágica da eucaristia
se situa no início do século II, sendo atestada por Inácio de
Antioquia”(o.c.p.204). Para terminarmos esta olhada sobre o evangelho de João,
encerremos com uma análise de mestre, como segue: “Algumas partes do Evangelho
de João nunca foram concluídas em sua forma pretendida, mas continuaram como
esboços e coleções de materiais que, ao que parece, deveriam ser aprimorados no
futuro. Além disso, os muitos fragmentos de discursos e diálogos por exemplo em
João, 7 e 8 sugerem que o evangelho contém materiais que o autor não compôs em
discursos coerentes. Também Jo.17, a assim chamada oração sacerdotal de Jesus é
um discurso gnóstico interpolado que não foi submetido a uma elaboração crítica
posterior” (o.c.p.205).
Conclusão. Dissemos que uma coisa é a história, e outra coisa é a
teologia. E é comum se afirmar nos estudos bíblicos que não há nenhum
manuscrito original de nenhum evangelho. Acontecem interpolações e discursos
que não pertencem a Jesus, e afirmações duvidosas e mágicas. Também no evangelho
de João.
P.Casimiro João
smbn
www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br
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