segunda-feira, 31 de março de 2025

ARETOLOGIA O QUE É

Aretologia era uma literatura greco-romana sobre pessoas em que se tornava visível uma força divina, chamada areté, força, virtude e valor fora do comum entre os humanos, de tal maneira que eles eram classificados como “os divinos”. Isso deu origem a um tipo de literatura baseada no cacife desses personagens, assim tipo axé  dos afrodescendentes brasileiros da Bahia, onde o axé é força, virtude  espiritual. Este gênero de escrita foi um gênero que campeou em círculos cristãos da Igreja primitiva e se apoderou também da vida de Jesus, e mais tarde continuou a comandar a escrita dos “Atos dos mártires” e “Vidas dos Santos” como chegaram até nós hoje. Essa doutrina influenciou fortemente os judeus da diáspora que depois se tornaram cristãos, como afirmam os historiadores. Personalidades como Alexandre Magno e o imperador Augusto eram considerados como “homens milagrosos e apelidados como “filhos de Deus”, os “divinos”. No conceito popular eram seres celestes “revestidos de figura terrestre que apareceram em nosso mundo, alguns vivendo tão virtuosamente, muitas vezes renunciando a todo prazer, à carne e à sexualidade, e com tanta força ou areté, que eram exorcistas e curavam doentes, às vezes ressuscitavam mortos. O divino tornava-se visível em seu miraculoso aparecimento terreno. Nasciam também miraculosamente do próprio Deus, muitas vezes virginalmente, isto é, eram divinos. Depois da morte eram “arrebatados”, tirados “dentre os humanos” e “assumidos” junto aos seres divinos e não raramente apareciam depois a seus íntimos e “admiradores”. Os estudiosos dizem  que “judeus de língua grega, educados com tais ideias, ao ouvirem falar sobre Jesus e ao se tornarem cristãos, sentiam-se plenamente motivados para interpretarem Jesus neste formato padrão helenista dessa aretologia. (Cf. E.Schillebeeckx, Jesus a história de um Vivente, p.425). No evangelho de Marcos e de João foram usadas referências que tiveram como fonte essa aretologia. Uma referência muito clara é a terminação do evangelho de João onde diz: “Jesus realizou ante os olhos de seus discípulos muitos outros  sinais que não estão escritos neste livro. Estes foram escritos para que creiam que Jesus é o Cristo, o filho de Deus, e, crendo, tenham a vida em seu nome” (Jo.21,25). Justamente era assim que terminava o final das vidas de todos os miraculosos homens de Deus: “Poderíamos falar de muitas outras coisas e nunca terminaríamos. Mas para concluir podemos dizer: “ele é tudo”. Como poderíamos encontrar forças para elogiá-lo?” (Sr.43,27). E: “O restante das ações dele, de seus combates, das proezas que realizou, de seus títulos de glória, não foi escrito pois seria assunto demais” (1.Mc.9,22). Aretologias e biografias de heróis se escreviam com finalidade propagandista. Lucas usa frequente este recurso a fim de tornar seu evangelho mais “acessível” para os gregos. Em lugares mais destacados, como o seu evangelho da infância de Jesus, é apresentado como uma aretologia.  E não só: Os Atos dos Apóstolos continuam a mesma narrativa sobre os “grandes feitos” dos apóstolos, como em At.2,22. (o.c.p.427). No Novo Testamento, a primeira propaganda missionária pertence à aretologia, aumentando as listas de milagres bem como os formatos de vocações e chamados para uma missão.

Conclusão. Numa de suas Cartas Paulo fala sobre missionários que têm no bolso “cartas de recomendação”. Na realidade eram cartas onde alguma comunidade atestava neles obras miraculosas, “aretológicas”, imitando os grandes milagres de Jesus. Em resposta, Paulo declara que prega Jesus mas “sem esses poderes, para não diminuir o valor da cruz de Cristo”. Por isso se refere aos valores onde se baseava: “nos sofrimentos e nas perseguições por amor a Cristo” (2Cor.4,7-12). Isto prova como essa aretologia influenciava comunidades e cristãos. Tomara que hoje, passados tantos anos, ainda não continue influenciando não só pregadores evangélicos, mas também católicos.

P.Casimiro João      smbn

www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br

 

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