Partimos do princípio de que felicidade era viver muitos anos e ter muitos filhos. Assim diz o Deuteronômio: “Observa durante toda a vida as leis e mandamentos a fim de se prolongarem os teus dias; e te multipliques sempre mais na terra onde corre leite e mel”(Dt.6,2-3). Assim como quando dizem que Adão viveu 930 anos; Noé 950; Lameque 777; Enoque 365: Matusalém 969, significando que tinham atingido a felicidade das bênçãos divinas representada por uma multidão de anos e por uma multidão de filhos e filhas: “E geraram muitos filhos e filhas”(Gn.5,27). O Novo Testamento também copiou a mesma mentalidade nos seus escritos. Na verdade, nós temos três quartos do Antigo Testamento e um quarto do Novo Testamento na nossa leitura, na nossa cabeça, nos nossos membros e na nossa cultura e nas nossas missas. Os povos que lemos a Bíblia somos 2 bilhões, enquanto que os que não têm a Bíblia são 6 bilhões. Esses não têm os 3 quartos do A.T. e nem o “um quarto” do Novo. A cultura de ter muitos filhos e de se “multiplicarem” respingou também para o matrimônio, tanto na escrita dos evangelistas quando escreveram “Jesus disse”, como na doutrina da Igreja posterior. Os nossos avós também pensavam assim, quantos mais filhos melhor. E isso tinha um motivo, é que eram uma sociedade rural, e nas sociedades rurais era necessário ter mitos filhos para trabalhar na terra, porque era a única fonte de renda. As consequências eram que o matrimônio era só para a procriação e ter muitos filhos. E ajunte-se a isso a doutrina de Agostinho que a relação sexual era o princípio causador do pecado original, e por isso apenas permitida para a reprodução. (Cf. blog www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br 07/11/21). Outra consequência era a aversão e o preconceito contra a pílula e os anticoncepcionais. E também os preconceitos homofóbicos contra toda a espécie de LGBTs. Significa dizer: essas uniões que não têm reprodução seriam condenadas. Isto é continuar a pensar com a cabeça do Antigo Testamento e das sociedades rurais: “Cumpra os mandamentos para te multiplicares”. A bitola que eles seguiam era de duas linhas: cumprir os mandamentos e ter muitos filhos. Por outro lado, os estudiosos dizem que na cultura bíblica judaica não lhes interessava a felicidade futura. Era a felicidade presente: a casa cheia de filhos, era a riqueza da casa. De resto eles não diziam “é pecado”. Não. Eles diziam”os filhos são uma bênção”. Por isso o salmo 127 afirma: “A tua esposa será uma videira bem fecunda no coração da tua casa; os teus filhos serão rebentos de oliveira ao redor de tua mesa; assim será abençoado todo homem que teme o Senhor”(Sl.127). A cultura dos judeus era essa. A cultura da Idade Média era também essa. E porque queriam muitos filhos? Para trabalhar a terra. A cultura moderna é poucos filhos. Porquê? Porque estamos numa sociedade técnica e industrial, onde a prioridade não é mais a terra mas o estudo e a técnica. E a técnica irá trabalhar a terra. Isso é cultura, não fé. A cultura muda conforme as condições sócio-econômicas da vida humana. Por isso Deus tanto estava com os Judeus de muitos filhos, como com os nossos avós de muitos filhos, como com os chineses de um só filho, como com os casais de hoje com seus dois filhos, ou um, ou nenhum filho. E consequentemente, os governos têm a missão de organizar o estatuto das famílias e dos filhos, dependendo das estatísticas, estudo, educação, e meios de trabalho e de transporte ou doenças. Assim como têm a missão de organizar o estatuto social dos casamentos hetero ou homo, estatuto social e condições e direitos para os filhos. São questões da alçada dos governos e não da Igreja. Quando vemos eclesiásticos de vários credos querendo condenar certos fatos, eles não estão pisando o terreno que vivemos hoje, mas o terreno de há 3.000 anos atrás. Têm os pés no hoje, mas a cabeça no que já não existe mais. Conclusão. Quando lemos as exortações no Novo Testamento como aquela “os efeminados não entrarão no reino de Deus”(1 Cor.6,9) devemos lembrar que o autor estava pisando chão do Antigo Testamento. E com isso as conclusões ficam com você que tem uma cabeça para saber por onde deve caminhar. Nesta época em que em que robôs americanos, chineses e russos estão explorando o planeta Marte, e Sondas como a Voyager-1 e Voyager-2 andam explorando os espaços siderais, a 16 e a 22 bilhões de quilômetros da Terra, e em que o módulo Philae pousou no planeta Plutão e no cometa 67P. É a cabeça que conhece o caminho e não os pés. P.Casimiro João www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br
domingo, 12 de dezembro de 2021
A cultura e o mito de que o sexo era só para reprodução, no Antigo Testamento, e está ainda numa grande porcentagem das mentes de hoje.
Partimos do princípio de que felicidade era viver muitos anos e ter muitos filhos. Assim diz o Deuteronômio: “Observa durante toda a vida as leis e mandamentos a fim de se prolongarem os teus dias; e te multipliques sempre mais na terra onde corre leite e mel”(Dt.6,2-3). Assim como quando dizem que Adão viveu 930 anos; Noé 950; Lameque 777; Enoque 365: Matusalém 969, significando que tinham atingido a felicidade das bênçãos divinas representada por uma multidão de anos e por uma multidão de filhos e filhas: “E geraram muitos filhos e filhas”(Gn.5,27). O Novo Testamento também copiou a mesma mentalidade nos seus escritos. Na verdade, nós temos três quartos do Antigo Testamento e um quarto do Novo Testamento na nossa leitura, na nossa cabeça, nos nossos membros e na nossa cultura e nas nossas missas. Os povos que lemos a Bíblia somos 2 bilhões, enquanto que os que não têm a Bíblia são 6 bilhões. Esses não têm os 3 quartos do A.T. e nem o “um quarto” do Novo. A cultura de ter muitos filhos e de se “multiplicarem” respingou também para o matrimônio, tanto na escrita dos evangelistas quando escreveram “Jesus disse”, como na doutrina da Igreja posterior. Os nossos avós também pensavam assim, quantos mais filhos melhor. E isso tinha um motivo, é que eram uma sociedade rural, e nas sociedades rurais era necessário ter mitos filhos para trabalhar na terra, porque era a única fonte de renda. As consequências eram que o matrimônio era só para a procriação e ter muitos filhos. E ajunte-se a isso a doutrina de Agostinho que a relação sexual era o princípio causador do pecado original, e por isso apenas permitida para a reprodução. (Cf. blog www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br 07/11/21). Outra consequência era a aversão e o preconceito contra a pílula e os anticoncepcionais. E também os preconceitos homofóbicos contra toda a espécie de LGBTs. Significa dizer: essas uniões que não têm reprodução seriam condenadas. Isto é continuar a pensar com a cabeça do Antigo Testamento e das sociedades rurais: “Cumpra os mandamentos para te multiplicares”. A bitola que eles seguiam era de duas linhas: cumprir os mandamentos e ter muitos filhos. Por outro lado, os estudiosos dizem que na cultura bíblica judaica não lhes interessava a felicidade futura. Era a felicidade presente: a casa cheia de filhos, era a riqueza da casa. De resto eles não diziam “é pecado”. Não. Eles diziam”os filhos são uma bênção”. Por isso o salmo 127 afirma: “A tua esposa será uma videira bem fecunda no coração da tua casa; os teus filhos serão rebentos de oliveira ao redor de tua mesa; assim será abençoado todo homem que teme o Senhor”(Sl.127). A cultura dos judeus era essa. A cultura da Idade Média era também essa. E porque queriam muitos filhos? Para trabalhar a terra. A cultura moderna é poucos filhos. Porquê? Porque estamos numa sociedade técnica e industrial, onde a prioridade não é mais a terra mas o estudo e a técnica. E a técnica irá trabalhar a terra. Isso é cultura, não fé. A cultura muda conforme as condições sócio-econômicas da vida humana. Por isso Deus tanto estava com os Judeus de muitos filhos, como com os nossos avós de muitos filhos, como com os chineses de um só filho, como com os casais de hoje com seus dois filhos, ou um, ou nenhum filho. E consequentemente, os governos têm a missão de organizar o estatuto das famílias e dos filhos, dependendo das estatísticas, estudo, educação, e meios de trabalho e de transporte ou doenças. Assim como têm a missão de organizar o estatuto social dos casamentos hetero ou homo, estatuto social e condições e direitos para os filhos. São questões da alçada dos governos e não da Igreja. Quando vemos eclesiásticos de vários credos querendo condenar certos fatos, eles não estão pisando o terreno que vivemos hoje, mas o terreno de há 3.000 anos atrás. Têm os pés no hoje, mas a cabeça no que já não existe mais. Conclusão. Quando lemos as exortações no Novo Testamento como aquela “os efeminados não entrarão no reino de Deus”(1 Cor.6,9) devemos lembrar que o autor estava pisando chão do Antigo Testamento. E com isso as conclusões ficam com você que tem uma cabeça para saber por onde deve caminhar. Nesta época em que em que robôs americanos, chineses e russos estão explorando o planeta Marte, e Sondas como a Voyager-1 e Voyager-2 andam explorando os espaços siderais, a 16 e a 22 bilhões de quilômetros da Terra, e em que o módulo Philae pousou no planeta Plutão e no cometa 67P. É a cabeça que conhece o caminho e não os pés. P.Casimiro João www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br
domingo, 28 de novembro de 2021
As “indiretas” dos evangelhos, que viraram milagres de Jesus.
Todos
sabemos o que é uma “indireta” que nos faz dizer “pra bom entendedor
meia palavra basta”, ou como dizem também os evangelhos “quem tem
ouvidos para ouvir ouça” e ainda “quem puder compreender, compreenda” (Mt. 19,12).
Um
dia no evangelho de Marcos aconteceu uma dessas “indiretas”. Na viagem para
Jerusalém os dois irmãos Tiago e João
pediram a Jesus que “preparasse os
primeiros lugares” no palco do Reino que Jesus iria inaugurar ’Mestre, concede-nos que nos sentemos na tua
glória um à tua direita e outro à tua esquerda’ (Mc.10,37). Nessa
“caminhada catequética elaborada pelo evangelho de Marcos é descrita a cegueira
dos discípulos. Mas, em vez de dizer que os
discípulos estavam cegos é apresentada uma cena em que um cego
surgiu à beira do caminho, o Bartimeu, filho de Timeu, e gritou “Mestre, que eu veja” (Mc.10,51). Até
que, recuperando a vista, começou “seguindo
Jesus pelo caminho”(v.52). Você pode fazer legitimamente a pergunta cristã:
foi um milagre ou foi uma indireta essa “cura? Só você pode
responder.
Esta
foi a primeira cena deste episódio. Agora a 2ª Cena:
O
filho de Timeu, Bartimeu, cego e mendigo, estava sentado na beirada
do caminho. (Mc.10,46). Ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo
caminho (v.52). A moral da história é que quem está na beirada do
caminho deveria seguir o caminho normal da sociedade. Uma vez que
os sentados nas beiradas e nas bermas das estradas estão isolados, cegos, e
mendigos e discriminados, e sem poder falar e nem levantar a voz. “Muitos o repreendiam para que se calasse”
(10,47).
No
mês passado vimos as notícias de um Supermercado do Sul do Brasil que entregava
“bandejas vazias” direcionadas a pessoas pobres e negras que iam comprar
carne nas prateleiras.. Só poderiam receber a carne com pagamento antecipado
pagando o preço na bandeja. E noutros Supermercados tocava o alarme
quando as mesmas pessoas entravam, como aviso de que eram pessoas
suspeitas...Agora eu pergunto: Porquê não colocam “Alarmes” nos
“colarinhos brancos” de Brasília? Suponho que não se poderia suportar o ruído
de tantos alarmes no Brasil. Ou não será também que muitos lobistas que
organizam esses Supermercados não abusam também dos preços? E muito mais praticam a discriminação
racial e social?
Criou-se
um ambiente de mundo racista e de suspeição intolerável. A verdade é que
“cega” é a sociedade de hoje quando não vemos o valor das pessoas, mas a sua
posição social e só visamos o lucro, igual os dois discípulos autocandidatos
a ministros. A “indireta” continua valendo nestas situações.
P.Casimiro
João smbn
www.paroquiadechapadinha.blogspot.colm.br
domingo, 21 de novembro de 2021
O que quer dizer “Para Deus tudo é possível” ?
Em
primeiro lugar, São Tomás de Aquino comentava assim: “Deus é onipotente para as
causas possíveis” (S.Tomás). Por exemplo, eu não posso pedir a Deus que 2 + 2
sejam cinco mas posso pedir que eu multiplique muitas vezes 2 x 2 pães em favor
dos outros em vez de ser só para mim.
A
expressão “para Deus tudo é possível” é usada na Bíblia (Mc.10,27), e tem sua raiz
na história do povo de Israel, na teoria da escatologia, ou fim
dos tempos. Isto é, já que os Judeus lutaram tanto para ser o povo dono
do mundo e não conseguiram, então jogaram essa “ilusão” para o fim
dos tempos ou do mundo.
Nesse
longínquo “fim do mundo” viria Deus descido dos céus e nas nuvens, para se
vingar dos inimigos do seu povo, e dos ricos e poderosos que maltratavam os pobres
o tempo todo. Para eles não seria possível essa vingança, mas para Deus sim. “Ó Senhor, Deus vingador; Intervém!
Levanta-te, juiz da Terra; retribui aos orgulhosos o que merecem” (Sl.94,1-2). Copiando para o Novo Testamento, “Minha é a vingança; eu retribuirei”, diz o
Senhor” (Rom.12,19).
E
a transposição dessa ideia para o Novo Testamento: “Como é difícil para os ricos entrar no reino de Deus; é mais fácil um
camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus;
Para os homens isso é impossível mas para Deus não, para Deus tudo é possível”
(Mc 10,23.27).
Aliás,
no conceito dessas afirmações vem o que nós devemos ter em conta: o
reino de Deus, que nos torna mais compreensível isso de “o camelo entrar no buraco de uma agulha”.
Dias atrás os jornais falaram nos milhões de dólares que o ministro da
economia e o presidente do Banco Central colocaram nos “Offshores” dos paraísos
fiscais no estrangeiro. Eles ganharam e continuam ganhando milhões em cada dia só com a subida do
dólar.
Que
aplicação tem aqui “passar pelo buraco de
uma agulha”? Seria se esses homens ricos resolvessem de uma vez se tornar
amigos e solidários dos cidadãos pobres do Brasil que não têm o que comer em
cada dia, e até procurando ossos nos açougues das cidades do Sul. Se eles
aceitassem distribuir os seus dólares ou ao menos devolvê-los ao Brasil
e fazer uma economia solidária para a pobreza brasileira isso sim que
seria “o camelo passar pelo buraco de uma
agulha”. E seria o começo do Reino de Deus para eles a para uma parte do
Brasil. Porque onde há partilha, e solidariedade e fraternidade
aí está Deus.
Então
esses dólares não iriam ser multiplicados só para eles mas solidariamente
entrariam na economia do Brasil para que acontecesse mais partilha, mais
solidariedade e mais fraternidade. Ainda funciona muito o imaginário do
Antigo Testamento que nesse longínquo “fim do mundo” poderá vir Deus descido
dos céus e nas nuvens, para se vingar dos que maltratam os países e são causadores da pobreza mundial.
Mas
quando eu digo que “para Deus tudo é possível” posso estar tirando da mim a
responsabilidade de transformar as estruturas que mantêm as injustiças
sociais. Dizer que “para Deus tudo é possível” pode significar a falsa
ideia que a sociedade não pode mudar. Pode significar atribuir a Deus os
males que existem como fomes, doenças, más governanças, porque eu não
estou disposto a colaborar.
Pode
significar ainda que quero continuar alimentando a minha pasmaceira em olhar
as coisas correr sem eu mexer uma palha. Como se a casa estivesse
pegando fogo, e eu na minha cadeira dizendo que “para Deus tudo é possível”,
até mesmo que ele venha apagar aquele fogo.
É
igual como na expressão fácil “Deus dá o jeito”, na realidade será
porque eu não quero dar. Somos muito fáceis em terceirizar. E terceirizamos
tudo em Deus, “Deus levou fulano”, “Deus por que levou o
meu marido tão cedo”, e por aí adiante. Não será invocar o nome de Deus em
vão?...
Não
será também uma forma de terceirizar usando a expressão “para Deus
tudo é possível”? O evangelho de Marcos coloca também na boca de
Jesus, na hora da agonia “Pai
tudo, tudo te é possível, afasta de mim este cálice” (Mc.14,36); Mateus
por seu lado, só as palavras,“Pai, se
é possível, afasta se mim este cálice”(Mt.26,39). Lucas e João
nada dizem. Nada de admirar, pois Marcos
repetiu o imaginário do Antigo Testamento sobre o impossível. Mateus
já mudou para “se é possível”.
Concluindo: Se formos ao Antigo Testamento procurar mais
influências teríamos que nos reportar ao imaginário das teorias do Criacionismo,
desde os 9.000 anos a.C que fol inventada a escrita pelos povos
sumérios e babilônicos em cujos escritos já aparece que Deus formou o
homem do barro, e daí passou para o Gênesis. E não só, mas as estrelas,
águas e animais tudo pela sua palavra. Esse imaginário perpassa transversalmente
todas as épocas da história humana e chegou até à Idade moderna e nossa.
Sabemos agora que Deus é parceiro e caminha junto com as nossas possibilidades
e nossas impossibilidades.
P.Casimiro
João smbn
www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br
domingo, 14 de novembro de 2021
Será que o batismo de João Batista era para “apagar” o pecado original?
No batismo de João ainda não havia o conceito de pecado original. Nem a teoria ou teologia de pecado original. O batismo de João era a credencial de entrar para a ideia do fim que estava próximo; “Eis que o machado já está posto à raiz das árvores”(Mt.3,10). O que era esperado era tão urgente que as “árvores velhas” que persistissem em não aceitar a novidade já estavam prontas para o fogo(v.11). E de tal maneira que quando Jesus mandou os 72 discípulos com a mesma missão, teriam que andar ligeiro, porque nem teriam tempo de percorrer as cidades de Judá antes que chegasse o fim do mundo que era chamado o “reino de Deus”.(Mt.10,6).
Falemos agora no aporema, ou paradigma,
ou teologia de Paulo na Carta aos Romanos. “Irmãos,
o pecado entrou no mundo por um só homem. Através do pecado entou a morte. E a
morte passou para todos os homens”(Rom.5,12). Esta afirmação baseia-se numa
antropologia e numa cosmologia e num desconhecimento que
já não existem mais. Ora, quando uma teoria se apoia num tripé que não existe e
já foi retirado, a teoria também não se segura mais. Qual era a antropologia
da época?
Era que só havia um casal no início do
mundo. Hoje está provado que não existia só um casal. Na época de Paulo havia a
teoria criacionista. Hoje existe a teoria evolucionista, segundo
a qual os seres humanos evoluíram de formas hominídeas até chegar ao homo
sapiens e ao neandertal, por períodos de centenas de milhares de
milhões de anos. Inclusive para a aprendizagem da fala levou centenas de
milhares de anos.
Qual era a cosmologia? Era que o
mundo tinha sido começado com Adão e em seis dias. Hoje a cosmologia é a da explosão
do Big-Bang de 15 bilhões de anos atrás. E bilhões e milhões de anos
decorreram para o aparecimento das estrelas e galáxias até chegar ao
esfriamento da Terra. E mais milhões e bilhões de anos até chegar ao
aparecimento dos primeiros seres vivos na terra, começando pelas amebas e em
evoluções sucessivas aos vertebrados, répteis, dinossauros, primatas,
hominídeos e os primeiros humanos, (homo sapiens e neandertalenses).
O segundo pé do tripé da época de Paulo
também não existe mais, como estamos vendo. O terceiro pé do tripé que era o desconhecimento
destes princípios da ciência é que compôs o aporema que sustentava o imaginário
primitivo das mentes daquela época. Justamente como vem na Bíblia, já vinha
nos escritos ou nas “Bíblias” de povos mais antigos do que os Judeus. Na
verdade, não foram os Judeus que “inventaram a pólvora”. Os Sumérios, os persas
e os Ugaritas, de onde se originaram os Judeus é que começaram com essas
narrativas. Exemplo, o Gilgameshe, dos sumérios, que traz a narração
paralela do primeiro homem e do dilúvio. Partindo depois para o
Código do Sinai, que veio depois do Código de Hamurabi, o sexto
rei dos Sumérios (1.792).
E não imaginemos que primeiro “Deus
falou” aos Judeus, porque nos livros mais antigos também vem assim: “E Deus
disse”, “E Deus mandou estas palavras em minha boca”(Gilgamesh). “Todas as
culturas nascem de uma palavra criadora
dita em tempos imemoriais por um poder divino” (Biderman, “Dimensões da
palavra” 1998, 45). Para esta autora e para os historiadores das religiões Deus
se faz presente nas suas palavras. É daí que se originou a teoria
criacionista. Segundo a teoria criacionista Deus cria com a sua
palavra. E não só, como também se “encarnava e habitava” na sua palavra. Daí
que os gregos tinham o Logos, e os Judeus a Sabedoria onde Deus
habitava.
Vimos então que o batismo de João não
tinha nada a ver com o pecado original. E vimos que Paulo quando escreveu: “o pecado entrou no mundo por um só homem; através
do pecado entrou a morte; e a morte passou para todos os homens” se baseava
no imaginário bíblico vetero-testamentário e o transportou para o Novo
Testamento, que era devedor da teoria criacionista. A teologia posteriormente
formulada por Santo Agostinho só fez espichar o gancho deixado pelo aporema ou
paradigma de Paulo. E digamos de passagem que Paulo não falava de pecado
original. O autor do nome ou o pai da criança foi Santo Agostinho, que,
partindo da filosofia gnóstica e maniqueia atribuiu o pecado original à relação
sexual do primeiro casal, de onde todas as outras relações e nascimentos
ficavam “contaminados”. (Cf.BLOG www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br
09/05/21).
P.Casimiro João smnb
www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br
domingo, 7 de novembro de 2021
Davi e Salomão: entenda como a Bíblia distorceu histórias para fabricar uma ideologia nacional.
Em continuação da matéria anterior
vamos dar mais uns elementos sobre a história do reino de Israel Norte e do
reino de Judá, reino do Sul na época do exílio da Samaria (722 a.C) e de Judá
(586 a.C.). E de como houve uma “construção ideológica” de um “reinado”
que teria sido o maior assombro da humanidade para aqueles tempos, e que
ficaria registrado na Bíblia posterior como tal. E assim continuaria, se não
fossem as últimas escavações arqueológicas a demonstrar que o mesmo não passou
de uma lenda e um mito que foi fabricado pelo reino do Sul, Judá,
quando se viu livre da tutela do reino do Norte para legitimar agora o seu
momento de glória. Portanto, “esse fabuloso reino davídico-salomônico
não passou de “um sonho ardiloso de
Josias (640-609 a.C), para construir a grandeza do seu reino do Sul”. (Cf.Ademar Kaefer, “A Bíblia, a
Arqueologia”p.28). (Cf.www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br
31/10/21).
Como isso aconteceu? Desde o séc.X a.C.
Samaria e Siquém tinham sido o centro político da Palestina. Foi lá, em Siquém,
que o povo que vinha com Moisés, do Sinai, se juntou ao povo de antigos judeus
que já moravam em Siquém, e praticamente foram eles que a formaram antes de
Moisés. Eles tinham vindo como trabalhadores nas minas de ferro do
Sinai. Ainda não se falava nem em Judá nem em Jerusalém (Cf Blog www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br
28/3/21
Nessa época, a Samaria e Siquém tinham
já mais de 50.000 habitantes, enquanto que Judá permanecia quase desabitada e
não completava 4.000 habitantes, e Jerusalém não chegava a 1.000 almas. Quando
a Samaria foi conquistada pela Assíria,(em 722 a.C.)muitos judeus foram
deportados para a Babilônia, mas um grande número teve autorização para
migrarem para a região de Judá e Jerusalém, onde reinava Acaz, como
dependente do Israel Norte.
Feliz com isso, Acaz se viu livre do Reino do Norte e facilmente prometeu
obediência aos reis da Assíria para não ser esmagado.
Em seguida vieram Ezequias e Josias.
Josias teve quase 40 anos de aliança com a Assíria e conseguiu levar
Judá e Jerusalém a um grande desenvolvimento, enquanto que a Samaria estava bem
submissa à Assíria depois da deportação para a Babilôlnia. Até que
Josias foi morto por Necau, do Egito por traição quando este soube da
sua amizade com a Assíria. Daí para o fim de Judá só foi um fio, uns 23 anos,
na época de Sedecias, em que a Babilônia surgiu de rompante para esmagar a
Assíria e todos os seus domínios, como Judá e Jerusalém em 586 a.C.
O que fez Josias durante aqueles
quarenta anos que viveu em paz e fiel vassalo da Assíria? A maior preocupação
dele e dos seus escribas do Deuteronômio, que foi escrito nessa época, foi apagar
a memória da Samaria e do Reino do Norte, e fabricar a ideologia da
sacralidade do império de Jerusalém, tecendo figuras e impérios imaginários
como Davi e Salomão. Repetimos aqui o afirmação inicial: “A grandiosidade do Império Davídico e
Salomônico, com suas riquezas e esplendores, não passou de um sonho ardiloso do
rei chamado Josias (640-609)”para legitimar a sua arrogância” (Cf.José
Ademar Kaefer, “A Bíblia, a Arqueologia”p.28). E o mesmo autor observa: “Há cada dia menos estudiosos que sustentam a
teoria da existência da chamada monarquia unida sob os reinados de Davi e
Salmão” (id).
Salomão não é mencionado em nenhum
texto extrabíblico, nem há documentos da tal sabedoria. Pelo contrário,
trata-se da disputa entre a sabedoria de Israel e a sabedoria do Oriente e
do Egito (o.c.p.56).
Davi e Golias:
uma lenda popular que foi aplicada a Davi, aliás existe outra versão de outra
lenda dizendo que o tal Golias tinha sido morto por Elcanã e não
por Davi (1Sam.12,19), trata-se da mistura de duas lendas. Quanto a Saul
e Davi, se realmente existiram, os estudiosos afirmam que não teriam
passado de nomes de chefes de clan da época. (o.c.p.45).
Portanto, em tudo está presente a
ideologia posterior da “casa davídica”, como uma construção de Josias.
Um detalhe: Sempre que se menciona Davi, nos autores deuteronômicos, fica
sempre inocentado da morte de seus inimigos.
Para confirmar as fábulas, as
escavações arqueológicas recentes confirmam que nenhuma construção não foi encontrada em
Jerusalém, como o falado templo de Salomão. Pelo contrário, o “templo de
Jerusalém” foi construído depois do ano 722, depois da queda da Samaria, pelos
reis da Assíria para manter a unidade do império e a aliança com Acaz. E
por outro lado, há construções datadas da época dos reis do Norte em Meguido,
Hazor e Gezer mas nunca e nada do rei Salomão.
Conclusão.
Para avaliarmos as passagens da Bíblia sobre o reinado do Israel Norte devemos
ter sempre presente o seguinte: é preciso ter em mente sempre que as
informações que a Bíblia nos apresenta sobre a história dos reis do Norte
passaram pelo crivo dos reis e dos escribas do Sul.
Finalmente, a reforma de Josias:
foi mais política do que religiosa. Não é à toa que a Bíblia dá grande
preponderância a Josias. Primeiramente, ele e seus escribas fizeram a última
edição da Bíblia, chamada deuteronômica. Nessa edição fizeram as mudanças
e transposições que serviam agora ao novo Reino de Judá, apagando
quase toda a história anterior, ou adaptando à nova ideologia. Um dado
importante é que nessa época foi o surgimento do maior apogeu da escrita
entre os Judeus.
Outro aspecto importante foi a centralização
do poder e do culto, e a destruição de todos os santuários dos povoados do
interior para centralizar todo o culto no templo recém-construído
que antes era bem insignificante. Inclusive a celebração da Páscoa que
também se fazia nos povoados, se tornou uma celebração do Estado, e
adquiriu caráter fundante de Judá como Reino que antes não existia.
P.Casimiro João smbn
www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br
domingo, 31 de outubro de 2021
O esplendor de Salomão como uma construção ideológica da redação final da Bíblia, nas descobertas arqueológicas da atualidade – A verdadeira história de Israel, eis a Questão.
População de Israel Norte: originária de assentamentos de povos nómades, a maioria pastoris, no séc. XIII a.C. Os primeiros povos sedentários da região se chamaram Israel. Porquê? Porque o deus dos locais donde vinham (Urit, Mesopotâmia), era “El”. E também o primeiro deus deles era o mesmo El, que depois deu Elohim. Tanto é assim que muitos nomes pessoais terminavam em “el”: Abediel, Adriel, Ariel, Azrael, Ezequiel, Gamaliel, Hazael, Kalel, Miguel, Otoniel, Rafael, Salatiel, Samuel....
Habitantes:
No séc.XIII a região do Israel Norte tinha cerca de 45.000 habitantes, e Judá,
no sul 15.000. Já no séc. VIII o Norte tinha 350.000 e o sul (Judá) 115.000
almas. Porquê assim? No Norte, tinha densa população e os reis eram poderosos.
O Sul, Judá, tinha pouca população e poucos lugarejos. O reino de Israel Norte
era considerado e reconhecido como potência internacional, enquanto que Judá
era desconhecido, não era ainda um reino. Israel dominava em Judá nessa
época.
E como se deu a inversão, que Judá
e Jerusalém se impuseram sobre o Israel Norte E como surgiram os mitos dos
reinados de Davi e Salomão? É aí o nó da questão que as últimas
descobertas e escavações arqueológicas demonstram até à evidência, por
conta de escavações metodicamente levadas a efeito nos últimos 50 anos por
empresas e arqueólogos. Entre eles, um dos mais famosos o arqueólogo israelense
Israel Finkelstein, professor da Universidade de Tel Aviv, que
citaremos neste Blogue, no livro ”O Reino Esquecido, Arqueologia e História de
Israel Norte”, Paulus, 2015).
Foi assim: Judá atingiu o seu apogeu
no séc.VIII a.C., com o rei Josias (640-609), e Israel no
séc. IX, com Amri, Acab, e Joroboão II. Teve um colapso com a derrota
contra o rei Hazael de Damasco, mas reergueu-se logo anos depois, com Joás.
A Bíblia retrata negativamente o Reino do Norte como sendo de Baal
mas as descobertas e escavações modernas conferiram que essa afirmação é falsa,
e faz parte da construção ideológica de Judá, 200 anos depois. Primeiramente,
nenhuma construção de Salomão foi encontrada em Jerusalém, como o famoso
Templo. Pelo contrário, achados
arqueológicos de grandes construções foram achados na Samaria, e em Meguido
no Reino de Israel Norte. Porém a Bíblia desvia os locais e autores das
construções, atribuindo-as a Salomão, em Judá, no Sul, por motivos que
veremos em seguida.
Em Jerusalém não
há vestígios de construções que a Bíblia atribui a Salomão. Nem uma
pedra dessa estrutura foi encontrada, apesar de mais de um século de busca por
conexões entre o texto bíblico e as evidências do local de escavações.
Essas construções contadas pela Bíblia, afinal de contas são da época da
dinastia omrida, dos reis do Norte: Amri, Acab e Jeroboão II, no Norte e
não em Jerusalém, Sul. O motivo foi a ideologia dos escritores do Sul que
quiseram passar uma borracha na historia do Israel Norte.
O templo de Jerusalém só na época de Josias
é que começou a funcionar depois da construção subsidiada com o dinheiro da
Assíria quando tomou a Samaria, para com isso manter o domínio sobre Judá
que prometeu boa convivência e vassalagem de tributos a Nabucopalasser e Nabucodonosor II
da Assíria.
Essa, tradicionalmente, seria a época
do Primeiro Templo (1020a.C.). No entanto, como foi dito, nem uma pedra
dessa estrutura foi encontrada nas escavações de Jerusalém. A Bíblia descreve
Salomão como o sábio, o rico, o dono de mais mil concubinas.
Mas não há nenhuma evidência arqueológica sobre Salomão. Isto
deixa claro aos arqueólogos se o segundo rei de Israel, Salomão, era real ou se
parecia mais com outros governadores lendários da história como Arthur da
Grã-Bretanha ou Rómulo fundador de Roma.
Foi nesta época que teve início a maior
atividade literária, que antes constava só de ensaios. Foi assim que a
literatura deuteronomista feita no Sul reescreveu a história bíblica
segundo a sua ótica ideológica. Foi dessa maneira que aproveitando-se do declínio
do Israel Norte tomada por Sargão II e Nabucopalassar. Foi assim que trocou
os dados da história, forjando a ideologia do império de Salomão
que hoje em dia é vista como uma
construção ideológica, uma lenda. Isto é, tudo o que tinha sido o
esplendor de Israel Norte com o esplendor dos reis omridas dois séculos
antes, o Deuteronômio colocou aí os nomes de Salomão e Davi. Pura
ideologia. E o objetivo era porque Judá gozava de paz, uma vez que não fazia
competição com nenhum rei no entorno, enquanto Israel e Damasco, no Norte, eram
considerados os dois reinos mais fortes na região, e por isso tinham sido
calados pela Assíria. Digamos, Jerusalém era cachorro invisível em
comparação com Israel.
E assim continuou até que os assírios
resolveram também abocanhar Judá e Jerusalém, quando Judá quis
trair a confiança da Assíria, aliando-se secretamente com o rei Necau do
Egito. Como tinha sido o fim de Israel
Norte em 722 assim foi o fim de Judá Sul em 586 quase 200 anos mais tarde.
Falámos no inicio do período da escrita.
Ele começou na Samaria, Norte. Inscrições hebraicas aparecem pela
primeira vez em Hazor e Betsã em 883 em Israel Norte, enquanto
que no Sul só no século seguinte. O primeiro Livro do Antigo Testamento foi
escrito aí, Israel Norte, e não foi Abraão, mas o livro de Jacó, o
primeiro livro, e o Êxdo-deserto (o.c.p.170-171).
Alguns fugitivos do Israel Norte, quando
foi tomada por Nabucodonosor, conseguiram escapar para Judá, no Sul e levaram
consigo esses escritos, que depois foram transformados pela ideologia do Sul.
Não há evidências claras da estadia de Israel no Egito nem em fontes e
documentos egípcios, nem na arqueologia. (o.c.p.176-177). O máximo que se pode conceder
é a base de uma tradição que se originou a partir de uma expulsão de
uns trabalhadores do Delta do Nilo. Não há indicação de opressão egípcia
como um todo. O único rei egípcio da época da fundação do Israel Norte é Shanshoq
I que reinou mais de 40 anos, na
época dos assentamentos das tribos do Norte, que tinha um governador em Gaza,
cidade da qual dependia Siquém e a região de Canaã, regiões que vieram a
formar o Israel Norte. As tradições de um êxodo devem ter tido,
além da experiência da expulsão do Delta do Nilo ainda mais outro objetivo que
foi para celebrar a saída do exílio da Babilônia. (o.c.p.178).
Para a caminhada do Êxodo, como está
escrita, os redatores do Sul não poderiam ter tido conhecimento da geografia do
deserto do Norte. Seu trabalho era estritamente literário com o objetivo de
atender às circunstâncias e teologias de seu tempo. (Cf.Hoffmann, 1989). A
tradição da caminhada do Êxodo é, portanto, uma narrativa multicamada. Ela
primeiro foi transmitida oralmente e posteriormente colocada por escrito no
Norte. Daí foi levada para o reino do Sul, acumulou níveis, cresceu em volume e
detalhes, e foi transformada e redigida uma e outra vez em Judá e Yehud
ao longo de um período de muitos séculos em função de mudanças políticas e
realidades históricas. (o.c.p.181-183).
É aqui que entra a questão dos nomes,
de novo, do deus El (Elohim), deus do Norte, e Javé, o deus do Sul
(Judá). Como se deu isso? Na época das migrações para Judá, junto com os israelitas
do Norte, um clan de moabitas que controlavam as minas de ferro e
cobre do Sinai, chamados “ferreiros” dos quais fazia parte como sacerdote o
sogro de Moisés, eles migraram também para Judá, e tinham
o deus Javé como seu patrimônio. Quando os escribas do Sul refizeram as
tradições, incorporam e adotaram o nome de JAVÉ a fim de adotarem a nova
divindade, servindo assim como mais um marco determinante de suplantar a influência
do Norte, para legitimarem os esquecimentos das tradições do Norte, até
porque associavam as tradições do deus El com Baal, como sendo
filho do mesmo deus El. Deste jeito nasceram as narrativas da sarça
ardente como o início da nova “tradição” do Êxodo.
Que El era um deus de Israel
Norte, vem de que o nome de Israel vem do deus El. Primeiramente
era Isra-Yahu, mas foi adotando o nome de El para ficar: Isra-El.
(Cf. blog www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br 04/03/2018). O deus El
seria o pai de Baal dos povos ugaríticos que eram os antepassados de
Isra-Yahu, em Ugarit, cidade-estado de Canaã. E tinham El-Shadday,
o deus das montanhas; e El-Olam, o deus eterno. O livro de Gênesis
corrobora isto quando fala em Jacó, no Norte oferecendo sacrifício ao
seu deus El: “Aí (em Siquém) fez um altar, que denominou El, o
deus de Israel”(Gn.33,20). Por outro lado, sobre o deus Javé das minas
do Sinai foram encontradas três inscrições nesse local “Yhwh dos Yahu”, que
os arqueólogos interpretam Javé deus dos Yahu.
Recapitulando:
Temos na cabeça que Davi conquistou
Jerusalém em 1.000 a.C. e depois sucedido por Salomão e daí por diante. Porém,
as últimas descobertas e escavações arqueológicas têm mudado a visão que é a
seguinte: 1- A formação de Estado do Israel Norte não tem nada a ver com
Salomão nos anos 1.200-1.000, mas com a dinastia Omrida (Amri, Acab e Jeoboão
II (884-831). 2- Como se formou o Israel bíblico: No séc.VIII deu-se a
queda definitiva do reino de Israel Norte, e houve uma migração em massa
de grupos israelitas do Norte para Judá e Jerusalém: gente vinda da Samaria, de
Betel etc. Judá tinha um terço de habitantes, e ficou crescida. Jerusalém que
tinha 1.000 habitantes ficou com cerca de 15.000 almas. Judá transformou-se em
Reino neste momento, tendo passado do domínio de Israel Norte para o domínio
assírio. A Assíria tinha aniquilado Israel Norte porque era perigoso, mas Judá
não oferecia perigo nenhum. Foi com esta vinda de Israel Norte para Judá que se
formou o Novo Estado de Israel bíblico conjunto ficando daí em diante o
nome oficial de Estado de Israel abrangendo o Sul e o Norte.
A escrita tomou agora seu grande
momento. E foi reformulada e reformada toda a história de Israel, sob a ótica
dos escribas do Sul, que ficaram para sempre na literatura deuteronômica. O
grande objetivo foi promover os “reis davídicos” como os únicos
governantes legítimos, e o Templo de Jerusalém, que de um quase nada foi
construído por Dário e os sucessores de Nabucodonosor para a ideologia de
unificação do seu reinado. O que levou pouco tempo, só até 586 por conta da traição
do rei Sedecias que tinha ocultamente se aliado com o Egito.
O autor de Êxodo incorporou as tradições
do Norte mas as sujeitou aos seus principais objetivos ideológicos. Por isso foi
necessário a imaginação épica da construção do império salomônico para
dar todo o respaldo aos seus objetivos. Por isso é uma história não bem contada
na Bíblia, pois é ideologicamente distorcida, a fim de servir aos interesses de
Judá num momento em que o reino de Israel Norte não existia mais. Isto até que
chegasse o momento em que Judá deixou também de não existir mais. (586 a.C.).
Judá foi sempre governada por Israel
Norte. Exceto na derrota de Ocosias e Jorão, vencidos provisoriamente por
Hazael de Damasco, mas logo recuperando-se com Joás. Não há vestígios
históricos conclusivos de culto nessa época. Somente em Meguido apareceram poucos sinais de culto. O que há a
respeito, na Bíblia sobre os altares de Betel é uma ficção polêmica do
deuteronômio sendo portanto uma construção não histórica representando
preocupações religiosas deuteronômicas sobre o culto idolátrico de Betel na
época de Jeroboão (o.c.p.98).
A primeira capital do Norte foi Tersa.
Os supostos 40 anos do reinado de Salomão e Davi são simbólicos assim
como a colocação da ordem dos três primeiros monarcas feita por um redator
posterior(o.c.p.72).
Sobre Saul:
“por falta de evidências históricas a própria história de Saul fica
duvidosa e pouco confiável dado que o redator do Deuteronômio colocou as terras
de Benjamim, que são no Norte, colocou-as no Sul, entre outras
anomalias. (o.c.p.68).
Sobre o Livro dos Juizes:
“As narrativas dos Juízes deverão ser vistas, antes de tudo, como construções deuteronômicas
que utilizam mitos, contos, e tradições etiológicas a fim de
transmitir a teologia e ideologia territorial dos autores da monarquia.(o.c.p.
41).
Conclusão.
Neste resumo resumido podemos ver a distorção que o reino do Sul fez sobre o
reino do Norte e os seus reis. O Norte foi tomado pela Assíria porque esse é
que lhe interessava; Judá (Sul) não constava no mapa, e eram lugarejos só
pequenos, inclusive Jerusalém, como dissemos.
A ideologia política da História
deuteronomista na Bíblia representa uma realidade posterior à queda do Reino do
Norte. Nessa ideologia a história do Reino do Norte quase não existe, e é só no
negativo e pejorativo. O objetivo agora é exaltar o templo e a dinastia
de Jerusalém. O Reino do Norte é visto como ilegítimo. Do lado da erudição
bíblica, é evidente hoje que a ideia bíblica de uma grande monarquia unida
(Davi e Salomão)é uma construção literária que representa uma ideologia territorial, conceitos
monárquicos e ideia teológica da monarquia tardia dos autores judaítas.
Do lado da arqueologia fica evidente,
entre outras razões, graças ao estudo de radiocarbono que os monumentos
tradicionalmente atribuídos a Salomão fazem parte da lenda. Eles foram construídos
pelos reis de Israel Norte, os Omridas, Amri e sucessores.(o.c.p.24-26).
Amri foi o fundador da mais célebre dinastia do Norte, o rei pelo qual Israel é
conhecida nos registros assírios. Salomão não aparece em nenhum registro.
Entre outros reis do Norte, depois dos Omridas, destacou-se Jeroboão II,
que não tem nada a ver com Salomão. Foi ele quem governou o reino do Norte por
40 anos.
Como vimos, em população e em
relevância, Judá era desconhecida dos reis do entorno, desde que Sheshonq,
do Egito deu certa autonomia a essas cidades-estado do Norte, e que
posteriormente formaram o Estado de Israel Norte, que depois foi se
aliando em alianças sucessivas com Assírios e egípcios.
Nesse primeiro momento Judá não era
ainda reconhecido como Estado, mas dependia do Estado de Israel Norte. Foi
devido a isso que a ideologia posterior de Judá colocou os dois
primeiros reis, Jeroboão I (do Norte) e Roboão I (de Judá) como filhos
de Salomão, para daí construir um Salomão fabuloso, começando por dois
chefes supostamente remanescentes das antigas tribos, Saul e Davi.
A história bíblica é muito intrincada.
Este pequeno resumo possa servir para nos alertar sobre as nossas seguranças e
nos levar a desconfiar de nossas certezas.
P. Casimiro João smbn
domingo, 24 de outubro de 2021
Quem crer e for batizado será salvo; quem não crer será condenado” (Mc. 16,16). Uma reflexão.
Antes
de Santo Agostinho não havia a teoria do pecado original, e as crianças que
morriam sem o batismo iam pro Céu; Santo Agostinho botou elas pra fora do Céu.
E agora?
Agora
a Igreja bota de novo as crianças sem
batismo pro Céu. É por isso que a Igreja agora não obriga mais a ser batizado
pouco depois de nascer como antes. Uai, podia dizer o mineiro, então os
protestantes têm razão em não batizar crianças. Têm e não têm. Porquê? Porque
se um adulto morrer sem ser batizado também vai pro céu.
Então
para quê Jesus mandou batizar? Primeiro, era para aceitar a ele publicamente e
aceitar fazer parte da Igreja que estava começando, com os compromissos
consequentes, como ser irmãos na partilha e fazer uma sociedade igual. “Os cristãos tinham tudo em comum, dividiam
seus bens com alegria: Deus espera que os dons de cada um se repartam com amor
no dia a dia” (Cf. Atos, 2,42).
Segundo,
o batismo não é para a outra vida mas para esta vida, é um compromisso escrito
de fazer o bem aceitando Jesus e a sua Igreja. E fazer o bem não se faz na
outra vida é nesta, e a Igreja é só para esta vida.
Por
isso o chinês o japonês e o asiático e
outros que seguem sua consciência de fazer o bem e não prejudicam ninguém
também o céu é deles. “Virão muitos do
oriente e do ocidente se assentar à mesa
com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus” (Mt.8,4). “Ide às encruzilhadas dos caminhos e chamai para a festa todos quantos encontrardes” (Mt. 22, 1-14).
Dá
para voltarmos ao início do nosso tema para vermos o histórico da nossa
questão. Santo Agostinho viveu no séc.V da nossa era, e converteu-se e foi
batizado aos 40 anos de idade. Antes ele seguia uma filosofia chamada
maniqueísmo. Esse filosofia dizia que tudo era matéria, não tinha espírito. O
impulso sexual produzia a miséria das pessoas porque era coisa da matéria.
Então a criança nascia do impulso sexual, estava condenada se não fosse
batizada.
A
Igreja foi aceitando essa teoria, e mesmo já na época, Agostinho encontrou-se
com o filósofo cristão sério, Pelágio, e viu que não concordava com ele. Os
teólogos da Idade Média respondiam com aquela história de “Trancoso”, do Limbo,
para onde botavam as crianças que morriam sem o batismo, uma vez que não iam
nem pro céu, nem para o inferno e nem para o purgatório. Nos anos de agora isso passou, virou lenda.
Por
isso de novo a pergunta: Antes de Agostinho não havia o pecado original; as
crianças que morriam sem o batismo iam para o céu; Santo Agostinho botou elas
para fora do céu. E agora? Agora a Igreja bota elas de novo para o céu.
Então
agora a pergunta formulada: AS
CRIANÇAS SEM BATISMO SE SALVAM?
Em continuação, vamos dar seguimento à
segunda parte, os motivos que levam hoje a afirmar que as Crianças que morrem
sem batismo não se podem condenar, estão salvas. Antes de tudo vamos dar uma
olhada às razões que levavam à obrigação do batismo.
1. Razões antropológico-bíblicas primitivas:
1). As razões da Igreja da Idade Média para a
não salvação das Crianças sem o batismo baseavam-se na primitiva
antropologia da fabricação do homem com o barro (teoria Criacionista). Agora
atende-se à teoria evolucionista, na qual o Adão e a Eva são os nossos
Ancestrais desde 500 mil anos atrás, em evolução progressiva até chegar, por
uma Sinapse do Córtex cervical à formação da consciência .
2). Devido a isto, acrescenta-se a teoria do
polimorfismo genético pela qual em muitos casais primevos aconteceu esta
evolução (teoria do poliformismo).
3). Não há como dizer que o homem na sua
evolução até ao Homo sapiens e Neandertal não tivesse morrido, antes numa
consciência em evolução, e depois já em plena consciência.
4). Não há portanto como dizer que antes o
homem era imortal e que só teria morrido por causa do pecado.
5). Por fim, o ser humano foi evoluindo tanto
na sua Consciência como na sua evolução física e biológica, e da formação do
seu Genoma genético.
6). Atribuindo à história bíblica o gênero
mitico e lendário primitivo, do jeito primitivo de forjar uma explicação para o
inexplicável sem a Ciência de hoje, temos que a Criança nasce sem pecado, como
é afirmado na teoria evolucionista, hoje aceita oficialmente pela Igreja.
2. Razões filosóficas e antropológicas
Vamos ao ponto fulcral de Agostinho. Ele
dizia que o pecado original vinha da relação sexual, que é matéria. E
porque a matéria era má, todo o sexo era mau. Agostinho seguiu a filosofia dos
Maniqueus, fundada por Mani (250 d.C.) que tinham a matéria como má aproveitando-se
das ideias de Platão (450 a.C.). Segundo eles, o demiurgo era o
intermediário de Deus na criação, responsável pelo mal que não
podia ser atribuído ao Criador Supremo, que não tinha nenhum envolvimento
com o mundo e com a matéria. Seriam então dois deuses, o demiurgo e o deus
supremo.
Como a criança nasce da matéria pela relação
sexual, ela vinha condenada pelo “pecado de origem” dos pais. E foi nessa
linguagem que o fruto da relação começou a ser chamado de pecado original
por Santo Agostinho, devido à filosofia maniqueista dualista e gnóstica da
condenação da matéria.
Como vimos atrás, a esta filosofia dualista
maniqueísta juntava-se a primitiva antropologia da criação pelo barro,
dum único casal humano na descrição do mito da Criação. Tiradas
estas bases, pode se ver a nuvem em que Santo Agostinho trabalhava. Como dito
antes, não sendo consistente essa teologia, os pensadores da Idade Média
quiseram resolver o problema com a estória do Limbo, que também não deu
certo. Este pessimismo maniqueu vai na contramão da apreciação positiva do
Gênesis: "E Deus viu que tudo era bom" (Gn.1,19).
3. Razões históricas.
1ª etapa – A tese bíblica do Antigo Testamento era a
certeza que o Israel bíblico estava destinado a ser o dono do mundo.
E todo mundo seria circuncidado para ser do reino. Os apóstolos tinham isso na
cabeça e o mostraram no episódio da Ascensão: “Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel”? (At.
1,6).
2ªetapa: Isso não foi possível, e chegou novo
dono do mundo, o império romano, que dominou a Palestina e todo
mundo ocidental. Até o séc. VI-VII. Mas também o império romano foi embora com
os seus sonhos imperiais de seis anos. No séc.VI o império romano se dividiu e
ruíu.
Mas ainda a Igreja e o império trabalharam unidos uns séculos.
E como no Judaísmo todo mundo tinha que se circuncidar, na
religião do império todo mundo tinha que se batizar. Foi por esse
tempo que estavam sendo feitas as últimas edições dos evangelhos sinóticos.
E apareceram vários acrescentos, entre os mais importantes o acrescento
feito ao evangelho de Marcos na última metade do último capítulo: ”Quem crer e for batizado será salvo; quem
não crer será condenado” (Mc. 16,16).
3ª etapa: - Com o fim do império romano dividido,
chegou a Igreja católica. A Igreja herdou as vestimentas, os poderes
e os brazões da nobreza. O império romano se foi embora mas esses
costumes ficaram na Igreja. Os bispos eram os príncipes, o Papa
era o Rei dos reis.
4ª
etapa: Como no Judaísmo todo mundo teria que se circuncidar,
na Igreja todo mundo tinha que se batizar, senão ia se condenar como falámos na
2ª etapa.
5ª etapa: Nos povos das Colônias, no séc. XVI em
diante, todos eram obrigados a se
batizar, escravos e crianças para ter os direitos de cidadão do império
colonizador, e quem sabe, para irem também pro céu.
Esta é uma breve resenha
antropológico-filosófica, pré-cristã e histórica das andanças em que têm andado
os caminhos teológicos do Batismo.
Com a abertura da Igreja à teologia do
pluralismo teológico e ao pluralismo das religiões, e com as novas teorias
antropomórficas, foi possível olhar e compreender as razões históricas, e
afirmar corajosamente a salvação. Passando do antigo aporema: “Fora da Igreja não há salvação(Cipriano,
258), para o novo aporema: “Fora da Igreja há muita salvação” como
vem desde o Concílio Vaticano II.
Na verdade, muitas hipóteses se têm
levantado, como aquela do “batismo de desejo”, outras vezes se tem falado na
“igreja visível e na igreja invisível”, daqueles que não pertencem visivivelmente
à Igreja de Cristo. Tem se falado dos que “com culpa ou sem culpa”
se salvam. Mas a Lumen Gentium (Vaticano II) afirmou “Quem se salva, salva-se por Cristo e em sua Igreja: pertença a ela
visível ou invisívelmente” (LG.16). Daqui a conclusão: As crianças se
salvam porque são sem culpa e pertencem à Igreja invisivelmente.
E o Catecismo da Igreja Católica: “Aqueles que não
receberam o evangelho estão relacionados com o Povo de Deus de várias maneiras”
(CIC), 838-839.
RESUMO: 1)-A Igreja seguiu o Antigo
Testamento, todo mundo tinha que ser circuncidado para a salvação; 2)- Herdou a
ideologia do império romano: ser os donos do mundo; 3)- Acabou o império
romano, ficou a Igreja dona do mundo; 4)- “Quem
não crer” foi um acréscimo desta época para batizar todo mundo na marra;
5)- As Colônias foram grande exemplo (batizar para pertencer aos impérios) e “para salvar a alma” – batizar à força;
6)- O Para era o rei dos reis e o dono do mundo; 7)- As vestimentas, poderes e
insígnias continuaram sendo como no império; 8)- Era uma teocracia e regime
monárquico; 9)- “Ide por todo mundo” foi interpolação desses
séculos III e IV e seguiu a mesma ideologia; 10)- Direitos Humanos e liberdade
de consciência: A Igreja foi a última em aceitar perante o mundo a liberdade
de consciência, e em assinar o estatuto da Declaração Universal dos
Direitos Humanos em 10 de dezembro de 1948.
P.Casimiro João smbn
www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br





