sábado, 23 de abril de 2022

As catequeses apostólicas após-Páscoa nos Evangelhos


 

Vêm cenas como esta no final do evangelho de Lucas, em que após a viagem dos discípulos de Emaús, Jesus foi visto pelos onze que, surpresos, mas ao mesmo tempo cheios de alegria, estavam sem acreditar. O que nos surpreende é que Jesus pediu para comer um pedaço de peixe assado na presença deles. “Então Jesus disse: tendes alguma coisa para comer? Deram-lhe um pedaço de peixe assado. E o tomou comeu diante deles” (Lc.24,41-42). Quem come, o que faz depois? Há alguma coisa aqui que não bate. E quando alguma coisa não bate ou não adéqua, é porque quer dizer outra coisa. Na catequese rabínica tinham os “midrash” que eram contos para daí tirar uma lição moral. E aqui também a lição moral vem logo em seguida: ”São estas as coisas que vos falei quando ainda estava convosco, era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na lei, nos profetas e nos salmos: que o Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia, e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados”.  Portanto aqui neste midrash ou parábola a lição moral era uma catequese de recordar tudo o que os discípulos tinham escutado no princípio da convivência com Jesus e que tinham esquecido. Como quando declarou “eu não vim para ser servido mas para servir, e o Filho do homem vai sofrer muito e ser entregue às mãos dos pagãos”(Mt.17,22).

Pouco antes Jesus já tinha dito: “Porque estais preocupados e porque tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo; um fantasma não tem carne nem ossos como estais vendo que eu tenho”. Esta parte traz à mente dos discípulos aquela outra cena em que Jesus foi tomado por um fantasma quando os discípulos o viram caminhando sobre as águas, e ficando com medo gritaram ‘é um fantasma’ (Mt.14,26).

Num outro episódio Jesus foi ao encontro das mulheres e lhes disse: Não tenhais medo, ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão” (Mt.28,10). A lição moral aqui será a seguinte: Foi na Galileia o inicio do chamado aos discípulos, e o início das catequeses de Jesus aos discípulos, isto é, o início do  kerigma. Jesus estaria remetendo os discípulos para os primeiros bancos da escola na Galileia, pois tinham esquecido as lições. Porquê? No teste da Paixão, eles saíram-se mal, porque todos abandonaram Jesus (Mc.14,50). Enquanto que as mulheres saíram-se bem no teste porque todas elas o acompanharam (Mc.15,40). Por isso o recado terceirizado das mulheres para eles, “vão de volta para a Galileia para lembrar as primeiras lições esquecidas”. Era o recado da primeira lição do kerigma de Jesus.

Para completar o kerigma destas catequeses apostólicas da ressurreição vem ainda aquele episódio de João, na praia(21,1-31) onde Pedro se vê exclamando “eu vou pescar”, e um grupo o seguiu. É o recomeçar a vocação, onde Jesus falou “eu farei de vocês pescadores de homens”. É voltar ao início da vocação. Aí vem imbutida a polêmica histórica do “discípulo amado” que reconheceu o Senhor na praia(Jo.21,7) Igual como quando “correu mais depressa e chegou primeiro ao túmulo” (Jo.20,3), polêmica que reflete a consciência da comunidade joanina que se julgava a perfeita e a preferida do Senhor, e por isso esse discípulo significava a comunidade; e também pelo motivo de que um elemento chave da mesma comunidade (que não era o João filho de Zebedeu) mas um dos primeiros seguidores simpatizantes de Jesus e que não fazia parte do Doze e que sobreviveria até idade avançada na comunidade joanina, alimentando essa polêmica de que já vem desde a Ceia onde "Pedro recusa a lavagem dos pés", e um discípulo "amado", entenda essa comunidade joanina, se reclinou sobre o peito de Jesus".

Mais à frente o evangelho de João termina com a mesma aparição de Lucas, mas transformada ao jeito de João e dos redatores posteriores, com o tema da dúvida de Tomé. Para termos uma ideia sobre Tomé precisamos ter em conta que Tomé pregou na Índia e na Etiópia lugares bem distantes dos outros evangelistas. E que no séc.IV, (312) o imperador Constantino convocou o concilio de Niceia (312), e  quis unificar a Igreja em volta do Império, e pelejou para que todos os bispos se fixassem nos mesmos pontos e deixassem os pontos controversos, pois ele tomou o lugar dos Bispos para essa situação, e assim se começaram a considerar os escritos evangélicos como canônicos, muito em parte pela visão de Santo Irineu de Lião. E assim foram catalogados os 4 evangelhos para acabar com a discussão, correspondentes “aos 4 cantos da Terra”. E porque o evangelho de Tomé ficou de fora do cânon? Simplesmente porque sendo redigido na Índia, muito distante, ele era pouco conhecido nos ambientes mais próximos, e não vinha fazendo parte das leituras das comunidades.

Temos um segundo elemento: como o imperador proibia e exilava quem tivesse outros evangelhos além dos quatro estabelecidos, os cristãos coptas das regiões da Índia esconderam-no. Ele foi descoberto na Biblioteca de Nag Hammabi no Egito em 1945.

Agora podemos ver como os escritos chamados de evangelho de João descriminaram esse evangelho de Tomé, (assim como "discriminavam" Pedro) começando a descriminar o próprio Tomé como o “incrédulo”, e o menos feliz, contando um quadro possivelmente construído e muito retocado por vários redatores, sempre como que debochando do apóstolo sobre a ressurreição, que era o ponto central do evangelho de João.”Felizes os que creram sem terem visto”(Jo.20,29). (Cf.R.Brown, O Evangelho de João,vol II,p.1720ss.). Enquanto que nos Sinóticos, durante a vida de Jesus ele é considerado como apóstolo de bem. Quando fizeram a viagem para Jerusalém Tomé foi o único que se expressou: “vamos para morrermos com ele”(Jo.11,16).

Conclusão. Podemos constatar a finalidade de muitos escritos como menos históricos e mais kerigmáticos e catequéticos, como relatados nestas páginas. Assim como para os nossos dias conservam seu kerigma. Como afirmado atrás, a Galileia não tinha só um significado geográfico, mas teológico. Por isso a ordem de Jesus ainda fica atual: “vão de volta para a Galileia” para lembrar as primeiras lições esquecidas. E a Galileia é aqui.

P.Casimiro João    smbn

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sábado, 16 de abril de 2022

O Jesus antes da Páscoa e o Jesus depois da Páscoa.


 

Existe um Jesus que viveu na Palestina, e existe um Jesus como estava na cabeça dos cristãos depois da Páscoa.

“Não temos acesso direto ao Jesus antes da Páscoa pelos evangelhos e Cartas apostólicas”  nos diz o teólogo João Batista Libãnio, “Creio na Trindade”, Paulus, p.59). O Jesus antes da Páscoa não é relatado por ninguém. O Jesus que é relatado pelos evangelhos é o Jesus que estava na cabeças dos cristãos muitos anos depois. Se você tem um grande amigo que morreu há 50 anos, alguém vai dizer-te: “não, você é suspeito, vou procurar outra pessoa para falar sobre ele porque você é suspeito”.

Tem acontecimentos com duas dimensões; a dimensão histórica, e a dimensão da interpretação (da admiração). No acontecimento da crucificação de Jesus, por exemplo, tem a dimensão histórica, igual como a morte de Tiradentes. E tem também a dimensão da interpretação. A dimensão da interpretação é a dimensão da fé. E nos relatos as duas dimensões se entrelaçam tanto, que nem dá para distinguir ou então levam à “ilusão” que ambas são históricas. Na crucificação, os dados que são da interpretação, são os seguintes, só para falar em alguns: Sobre o enforcamento de Judas, que muitos autores põem em dúvida, uma vez que os evangelhos foram buscar estes dados no Antigo Testamento para colarem nos seus relatos: “E eles pegaram trinta moedas como preço daquele que for avaliado pelos filhos de Israel; eles o deram pelo campo do Oleiro. Então eles pegaram o dinheiro do meu pagamento, trinta moedas de prata” (Zac.11,11-12).

 Outros dados do Antigo Testamento aí colados: Quando na crucificação é dito que “porém a ele não lhe quebraram as pernas” (Jo.19,3), foram buscar do A.T. assim: “Cada cordeiro deverá ser comido dentro de uma casa e não se deverá quebrar nenhum osso”(Êx.12,46). Sobre lançar sortes sobre a túnica (Mt.27,35): “Repartem entre si as minhas vestes e lançam sortes sobre a minha túnica” (Sl.21,19).  Sobre as palavras de deboche ao crucificado para descer da cruz(Mc.15,30), foram buscar no mesmo salmo: “Esperou no Senhor, pois que ele o livre, que o salve, se o ama”(Sl.21,9). Sobre os dois ladrões, que é também posto cientificamente em dúvida o caso(Mc.15,28): “Foi colocado entre malfeitores” (Is.53,12). Mais aportes: “Em toda a terra houve trevas desde a hora sexta até a hora nona; obscureceu-se o sol e o véu do templo se rasgou pelo meio”(Lc. 23,44) encontra-se em Zacarias: “ Nesse dia não haverá mais luz e nem gelo; não haverá mais dia  e noite” (Zac. 11,12). Sobre a exclamação de Jesus na cruz”meu Deus, meu Deus porque me abandonaste”(Mc. 15,23) tem seu paralelo no salmo: “Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste”?(Sl.21,2). As pedras quebraram-se, a terra tremeu, e os túmulos se abriram e muitos corpos dos justos ressuscitaram e apareceram a muitas pessoas”(Mt.27,51) faz parte da escatologia do Antigo Testamento onde as pedras se abrem, a terra treme e os túmulos se abrem e o s justos ressuscitam. Vejamos:”Os teus mortos viverão  e os seus corpos ressuscitarão”Is.26,19; “E muitos que dormem no pó da terra acordarão”(Dn.13,14).

Estes são os dados da interpretação que foram grudados no histórico da crucificação de Jesus mas não são da fala de Jesus. Estes foram colocados na boca dele como se ele mesmo tivesse falado. Os escritores foram pesquisar no Antigo Testamento para adaptar ao acontecimento. Agora, afloram duas atitudes possíveis: ou você fica na primeira dimensão histórica do puro acontecimento e não sai dali; ou aceita também a segunda dimensão e se ajunta à multidão dos que escreveram, e acompanha os que têm aceitado até o presente: esta é a dimensão da fé. E não só. Nesta segunda dimensão tem ainda duas opções: os que aceitam estes acrescentos do Antigo Testamento como sendo históricos, talvez porque não sabem; e os que sabem que eles não são históricos nem falados por Jesus. “ O choro é livre” dizia a Juju; e aqui a escolha também é livre.

Concluindo: Na vida concreta de Jesus topamos com dados mais ou menos objetivos e controversos que aconteceram ou não aconteceram como são narrados. Para obter tais resultados se construiu o método crítico-histórico e literário, como analisou o teólogo Libanio. Um exemplo nos elucida: “Tomemos o caso da ressurreição de Lázaro. Não temos condição de provar que os pormenores da doença, morte e ressurreição de Lázaro, narrados por João, signifiquem descrição rigorosa dos fatos. A qualquer conclusão que o estudo crítico-histórico literário chegue sobre a ressurreição ou não de Lázaro, permanece a verdade definitiva e fundamental da confissão de Marta, “Sim Senhor, creio que és o Cristo, o filho de Deus que devia vir a este mundo”(Jo.11,24). Então o que permanece é a intenção de João que está pedindo a fé no filho de Deus, e dá o exemplo de Marta, independentemente ou não da veracidade factual do milagre. Reflexão semelhante pode-se fazer sobre as narrativas de Caná e do cego de nascença, que são uma catequese teológica tendo como fundo algum possível núcleo factual”(Libânio, o.c.p59-60).

Conclusão. Como no acontecimento da crucificação, também o citado autor colocou as duas dimensões dessas narrativas, que podemos chamar de parábolas: a dimensão histórica e a dimensão da fé. A dimensão histórica seria um pequeno núcleo “factual” impossível de discernir, uma vez que ele está orientado para a fé; e a dimensão da fé, que é o objetivo do narrador-catequista, onde ele aumentou dados culturais da época. Na parábola das bodas de Caná está subjacente a ideia da antiguidade de deuses que transformavam água em vinho, e a ideia do Antigo Testamento em que na futura vinda do messias uma videira produziria mil cachos, e cada cacho mil uvas. Além da transposição da lavagem ou ablução do Antigo Testamento representada pelos seis potes de pedra de 100 litros, pra dizer que todas as abluções do Antigo Testamento não eram nada em comparação com Jesus. Olhada nesta perspectiva a cena de Caná é uma grande parábola, e assim também inúmeras narrativas bíblicas, que para os hebreus eram “middrash”, e para nós parábolas. Como diz um autor anónimo, a piedade atrapalha a história. Temos um exemplo no Livro de Daniel, todo feito em piedade e não em historia.                      

P.Casimiro João    smbn

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domingo, 10 de abril de 2022

O Messias de Pedro e o Messias de São Francisco (Mc.8,27-33).


 

A cena do evangelho quando Jesus perguntou “quem sou eu” provoca Pedro que respondeu ‘tu és o Messias’. Em seguida Jesus continuou assim: “o filho do homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei”(Mc.8,31-32). Ao que Pedro respondeu: “Que Deus não permita isto, isto não te acontecerá”. Aí são representados o Messias de Pedro e o Messias de São Francisco: o Messias de Pedro é o Messias do poder temporal, dos imperadores; o Messias de São Francisco era  o Messias do povo sofredor e de Isaías no cântico do Servo, cap.50.

Estas duas tendências ou visões de Messias continuaram na Igreja por toda a Idade Média e ainda estão presentes até hoje. A teologia do Pedro, do poder temporal, sempre esteve presente na teologia do Vaticano, como vimos no blog anterior (www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br, 3/4/22). A segunda era a teologia e a prática de São Francisco.

Como vimos no “Ordenamento do Papa”(Dictatus Papae) do séc.XI, o Papa tinha o direito de vestir as insígnias imperiais. E não só, os príncipes tinham que beijar os pés do Papa. Podia julgar todos os homens, e não ser julgado por ninguém, e abaixo de Deus não havia ninguém maior do que o Papa. Com isto então se formou a corte do Papa, ou Cúria romana, imitação do Senado romano(H.Kung, A Igreja tem salvação? 235-240).

Já bem outra é a teologia e a prática do Francisco de Assis, que seguiu a teologia e a prática do 2ºIsaías do Servo sofredor, de que iremos falar, e no qual os pobres têm se inspirado para se olharem como sendo esse servo desprezado, marginalizado e abandonado ‘quase por Deus’ mas sobretudo pelos poderes temporais. E não só, mas crucificado e roubado. Não é em vão que os autores das cerimônias da Paixão foram buscar a letra dos Salmos e os capítulos do Servo sofredor de Isaías. E nem imaginavam que estavam fazendo um serviço à corte ou Cúria do Papa, pois com isso desviavam a atenção do povo, de seus próprios sofrimentos para “aplicá-los” à pessoa de Cristo, desviando da pessoa do pobre.  E de tal maneira isso nos envolve que estamos pensando que essas palavras da hora da “Paixão” são mesmo de Cristo, e que aquelas “orações” saíram da boca de Cristo.

Alguns exemplos: “Ofereci as minhas costas para me baterem  e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas” (Is.50,6); “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes”(Sl.21,1); “Esperou no Senhor, que ele o salve, se é que o ama”(Sl.21,9); “Traspassaram minhas mãos e meus pés, poderia contar todos os meus ossos; eles me olham, observando...”Repartiram entre si as minhas vestes, e lançaram sortes sobre a minha túnica"(Sl.21,19).  Os redatores da Paixão foram buscar todas essas expressões no Antigo Testamento. Essas leituras na Sexta feira Santa são do profeta Isaías, e dão a ideia que são sobre Jesus mas é sobre Israel, que Isaías comparava a um Servo do Senhor, e por isso estes trechos são chamados “o Canto do Servo”. Vejamos: “Ei-lo o meu servo será bem sucedido, sua ascensão será ao mais alto grau. Assim como muitos ficaram pasmados ao vê-lo, tão desfigurado ele estava, que não parecia ser um homem ou ter aspecto humano. Era desprezado, o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos; passando por ele tapávamos o rosto, tão desprezado que ele era, não fazíamos caso dele. A verdade é que tomava sobre si nossas enfermidades e sofria ele mesmo nossas dores; e nós pensávamos que era um chagado, golpeado por Deus e humilhado! Mas ele foi ferido por causa de nossos crimes; a punição a ele imposta era o preço da nossa paz, e suas feridas, o preço da nossa cura. Todos nós éramos como ovelhas desgarradas, cada qual seguindo o seu caminho, e o Senhor fez cair o pecado de todos nós. Foi maltratado e submeteu-se, não abriu a boca. Quem se preocupa com a sua origem? Foi eliminado do mundo dos vivos; e por causa do pecado do meu povo foi golpeado até morrer. Deram-lhe sepultura entre os ímpios, um túmulo entre os ricos porque não praticou o mal nem se encontrou falsidade em suas palavras. O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos. Oferecendo sua vida em expiação, ele terá descendência duradoura e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor. Por esta vida de sofrimento alcançará luz e  uma ciência perfeita. Meu servo o justo fará justos inúmeros homens, carregando sobre si suas culpas. Por isso compartilharei com ele multidões e ele repartirá suas riquezas com os valentes seguidores, pois entregou o corpo à morte, sendo contado como um malfeitor; ele na verdade resgatava o pecado de todos e intercedia em favor dos pecadores” (Is.52,13-15 ss).

Estas palavras são do profeta Isaías lamentando os sofrimentos e os martírios do povo de Israel quando chegou do cativeiro da Babilônia. Por ser um cântico e uma poesia foi chamado o Canto do Servo. E o servo era o povo de Israel. Está bem evidente, como ilustram os estudiosos que aquele povo, o povo de Israel considerado o “servo do Senhor” por aquela vida de sofrimento iria alcançar luz e uma ciência perfeita (Is.53,11). Como diz o ditado, iria aprender com a própria experiência e ter mais juízo. Aliás, enquanto neste hino o profeta trata o povo como uma pessoa, um “homem”, por outro lado diz “eles”. “Eles já receberam duas vezes mais do que os pecados que cometeram”(Is.40,2).

Quase concluindo, é evidente que a teologia do Messias de Pedro tinha toda a vantagem em aplicar este cântico do Servo a Jesus porque assim desviava a atenção de toda a Igreja dos sofrimentos do povo sofrido. Reparemos que ainda hoje não será ainda assim? Nas Vias Sacras da Quaresma para quem dirigimos nossa atenção, nosso olhar e nossa compaixão? Não é para o Cristo nos Quadros e na cruz? Ainda bem que nas últimas vias sacras da CNBB se tem voltado já a atenção e os olhares para o povo sofrido, o povo de São Francisco, como violência, salário, desmatação da Amazônia, e segregação racial.

Conclusão. Para a corte dos Papas foi levado o Messias de São Pedro. Para o povo foi levado o Messias de São Francisco. O Messias de São Pedro construiu a teologia medieval que chegou à Idade Moderna, que quis iniciar uma crítica e uma outra orientação para ela, com o aporte das mudanças e das luzes e da inteligência do Renascimento, e das novas ciências. Entre esses aportes e provocações estava a teologia da libertação, como fruta madura das outras ciências em curso. Antes de avançarmos vem ao caso uma citação da Carta de Tiago:”Irmãos, imaginai que na vossa reunião entra uma pessoa com anel de ouro e bem vestida, e também um pobre com sua roupa surrada, e vós dedicais atenção ao que está bem vestido, enquanto desprezais o pobre” (Tg.2,3). Aí estão descritas as duas teologias do Messias do Pedro e do Messias de São Francisco. Não será que a teologia de Roma se recusou a aceitar a teologia do Messias de São Francisco persistindo em recusar a teologia da libertação? Vós dedicais atenção ao que está bem vestido enquanto desprezais o pobre”.

P.Casimiro João    smbn

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domingo, 3 de abril de 2022

Primado de Pedro:Naquele tempo estava-se fabricando a teologia do primado de Pedro (Lc.5,3).

Era pelo final do século primeiro depois de Cristo, e algumas décadas mais tarde, quando os redatores do evangelho de Lucas escreveram: “subindo numa das barcas, que era de Simão, pediu que se afastassem um pouco da margem. Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões”.(Lc.5,3).

Esta cena, além de ser uma parábola sobre a vocação dos apóstolos, é uma apologia do que estava sendo formado sobre o primado de Pedro. Eis alguns sinais: a barca, que é a Igreja, e sentado, que significava a autoridade do mestre na missão do ensino. Não passa pela cabeça de ninguém que Jesus podia ser escutado “sentado numa barca” por uma multidão  dispersa lá na praia. Como disse, estava-se fabricando a teologia do primado de Pedro onde tem o seu paralelo em Mt.16,16. (blog www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br 12/12/21). E isto tinha que ser à semelhança com o imperador romano. Na verdade, quando o império começava a desmoronar-se a Igreja começava ocupando o lugar do império: na autoridade, no fausto, no palácio, no mando e nas vestes. As vestes do imperador passaram para o Papa e os bispos, como veremos mais adiante. Inclusive os eclesiásticos começavam a exercer suas funções por meio de serviços pagos.

Por outro lado, havia duas chaves para a colação da auréola de autoridade do Papa: a primeira vinha do Antigo Testamento na figura do Sumo Sacerdote, (Cf.Hb.4,14); A segunda era a figura do imperador romano que o Papa assumia. Este arcabouço que funcionou em toda a Idade Média até há bem pouco tempo, estava sendo colocado agora nos seus alicerces. No Antigo Testamento o sumo sacerdote exercia as funções eclesiásticas, e a missão política junto e de acordo com o rei. Assim acontecia também na época da colonização romana e com a colonização da Europa sobre os povos das colônias. A chancela da autoridade absoluta do sucessor de Pedro foi feita nesta época. A afirmação contundente “toda a autoridade foi-me dada no céu e sobre a terra” (Mt.28,20) vem dessa época como os episódios das chaves(Mt.16,18; Cf. blog www.paroquiadechapadinha.blogspot.com.br, 10/9/21). Não era nada mais do que chancelar e juntar no primado a autoridade do sumo sacerdote e do imperador. Esta teologia começava a fazer parte do imaginário de todos os Papas.

Passando das formulações do duque Hildebrando, que era o jurista do tio, o imperador Henrique VIII da Baviera, o qual desse cargo passou a ser eleito Papa, o Papa Gregório VII (1075). Nos seus 27 ordenamentos chamados de “Dictatus Papae” (os Privilégios do Papa) de onde vou destacar os principais: 1.O Papa pode julgar todo mundo, e não pode ser julgado por ninguém; 2. O Papa tem o poder de investir e o poder de depor os imperadores; 3.Receber os dízimos de todos os Estados; 4.O Papa não pode errar nem nas coisas divinas e nem humanas; 5 Somente o Papa pode usar as insígnias imperiais; 6. O Papa é somente inferior ao próprio Deus; 7.Os Príncipes devem beijar os pés do Papa.

Embora nunca fosse proclamado o dogma da infalibilidade nessa época no entanto era a prática e a teologia formada. Estavam sendo colocados os pilares para uma ditadura da Igreja. Até que chegou a vez de ser definido o dogma da infalibilidade do Papa com a pessoa de Pio IX em 1789. Porquê? Pio IX proclamou o dogma foi numa época em que ele estava em baixa no seu prestígio, e em que ele não aceitava as teorias modernas do Renascimento, do Iluminismo, da filosofia da “Dúvida” e da declaração dos Direitos Humanos, como a liberdade de religião e liberdade de consciência, que ele intitulava como “a peste da humanidade”. No entanto todas essas teorias são agora aceitas por todas as nações e pela cultura moderna e também pela Igreja.

Também observamos que depois de ter escrito o documento “Syllabus” em que condenava todas essas teorias, finalmente sonhava e proclamou a abertura do Concilio Vaticano I onde usou de todos os subornos e “propinas” para que os cardeais votassem na “infalibilidade do Papa”, pelo que muitos, não concordando, deixaram a Sala do Concílio. (Hans Kung, “A Igreja tem salvação?”. Na verdade, desde essa hora a validade desse dogma está sendo colocada em causa, inclusive o Papa Leão XIII (1878) não o acatou.(H.Kung.c.p.166). Assim como também as Faculdades teológicas e o Episcopado em geral também manifestaram oposição (o.c.p.158). Isto na esteira do próprio Santo Agostinho que já na época dele declarou: “ a maior autoridade da Igreja está nos Concílios, e nem estes têm infalibilidade” ( H.Kung,o.c.p.83).

Voltando agora na historia para avaliar, como dizíamos, como era a vida do imperador e dos reis antigamente no Antigo Testamento? Comecemos pelo mito de Davi e Salomão, como era a vida deles em comparação com os outros reis dos povos? Tinha alguma diferença? Vejamos quantas mulheres e quantas concubinas tinha Salomão? “700 esposas e 300 concubinas”(1Rs.11,3) . E Davi? “sete esposas e dez concubinas”(id.) o que soa tão ridículo quanto o atual presidente do Brasil que só tem uma tecla para falar sobre a família e sobre o aborto, quando ele mesmo já está no 3ºcasamento. Parece a imitação do Auto da Compadecida de Ariano Suassuna em que os “defensores da moral e dos bons costumes são os mesmos que corrompem o povo e a sua dignidade”. E na “corte” em que se transformou o papado na Idade Média, o que diz a história sobre a eleição dos Papas, sobre a ganância, subornos, e propinas? Sem falar em problemas morais muito semelhantes aos de Davi e Salomão?

Avançando para as nações “cristãs”: como é a vida de deputados , e “colarinhos brancos”? Como avaliamos a vida de uma “Flordeliz”? Será um único caso? E não somos um país “cristão” e com a fama de ser o pais com maior número de batizados do mundo? E como é a vida das famílias no mundo, e não é igual no Brasil? Poderá se dizer: mas nós temos missa, Bíblia, e confissão...Lembremos  que outras religiões também rezam e têm também conventos e mosteiros ou “monastérios” como lhe chamam. E nessas religiões têm monges também.

Conclusão. Nos países comunistas tinham tortura e prisões e sumiço de gente. Repare: na época da ditadura aqui tinha também tortura, prisões e sumiço de gente do mesmo jeito. Tudo igual como nesses países e como nos reis dos antigos tempos. Uma pergunta final: nos jugamos diferentes; os “santos”, os  “escolhidos”. Mas não seria bom pensar que os “outros” também são “os santos”, os “bons” e “os escolhidos”? Com as mesmas práticas que nós chamamos “perversas” e com as mesmas orações ao mesmo Deus? Voltando ao mesmo titulo “Naquele tempo estava-se construindo a  teologia do primado de Pedro”.

P.Casimiro João    smbn

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segunda-feira, 28 de março de 2022

Moisés e a água que brotou do rochedo e o que se encontra nos gregos(TEXTOS 7).


 

Na sequência dos temas que temos desenvolvido, veremos hoje sobre a água do rochedo. Em primeiro lugar na Argonáutica de Apolônio de Rodes: “Héracles vinha com uma sede violenta, como seria de esperar de alguém que viaja no deserto a pé. Ele correu sobre tudo aquilo à procura de água, o que era improvável de se ver. Mas há certa rocha por ali  e, se teve a ideia por si mesmo ou foi inspirado por um deus, ele a chutou violentamente, e uma grande corrente de água escoou. Pressionando ambos os braços e seu peito no chão, ele bebeu uma grande quantidade da fenda do rochedo, até que, estirado no chão, encheu a boca e o seu ventre” (Argonáutica, IV, 1440-1450; Ph.Wajdenbaum, Argonautas do deserto p.285). Vejamos agora o conto em Êxodo:

“Então o povo discutiu com Moisés dizendo, dê-nos água para beber. Moisés respondeu, porque vocês discutem comigo e colocam Javé à prova? Mas o povo tinha sede e murmurou contra Moisés dizendo, por quê você nos tirou do Egito? Foi para matar de sede a nós, nossos filhos, e nossos animais? Então Deus disse: você baterá na rocha, e dela sairá água para o povo beber. Moisés assim fez e deu a esse lugar o nome de Massa e Meriba” (Êx.17,2-8).

2. Davi e as manobras de ocupar o reino de Saul. Davi, pretendendo ser rei de Judá fugiu para se aliar no exército dos filisteus. Quando Saul morreu foi autorizado pelos filisteus a voltar. Então aliou-se com o único neto de Saul, Mefibosete, que era coxo (2 Sm.9,1-3). “Mefibosete, filho de Jônatas e neto de Saul, era aleijado em seus pés. Ele tinha cinco anos de idade quando as notícias sobre Saul e Jônatas vieram de Jezrael, sua ama. Sua ama o pegou e fugiu. E na sua pressa de fugir, aconteceu que ele caiu e ficou coxo. Seu nome era Mefiboste.(2 Sm.4,4). Há outro conto igual na literatura grega, que nos permite pensar que Davi é um conto, e não uma história, admitida a teoria atual do mito de Davi. Vejamos:

”Então Tétis chamou Héfeso e disse: Héfeso, vem aqui. O que quer de mim, Tétis? E o muito afamado deus coxo respondeu: Então é realmente uma augusta e honrada deusa que veio aqui; foi ela que tomou conta de mim quando eu estava sofrendo da pesada queda que tive pela ira da minha cruel mãe, pois ela teria se livrado de mim porque eu era coxo. Teria sido difícil para mim se Eurinome, filha das águas sempre envolventes do Oceano, e Tétis não tivessem me tomado em seu seio” (o.c.p.322). Vemos aqui que ambos, Mefibosete e Héfeso caíram quando eram crianças e ficaram coxos. No episódio seguinte, Davi se livra facilmente do seu neto coxo Mefibosete e senta-se no trono de Judá.

Não passa muito tempo para Davi cometer a primeira loucura, que é o assassinato de Urias, para roubar a mulher dele. Davi mandou uma carta a Joabe para colocar Urias na traição e acabar com ele na batalha que estavam travando. O portador dessa carta era o próprio Urias. (2Sm.11,15). Também aqui tem um conto igual na literatura dos gregos: “Anteia, esposa de Pretus, cobiçou Belorofonte e o teria mandado se deitar com ela em segredo; mas Belorofonte era um homem honrado e não o faria, então ela contou mentiras sobre ele para Pretus. Pretus, disse ela, mata Belorofonte ou morre, pois ele teria familiaridade comigo contra a minha vontade. O rei ficou furioso, mas recusou de matar Belorofonte. Então ela o enviou para a Lícia com cartas mentirosas e contando muito mal contra o portador. Ele ordenou então que ele pudesse morrer “(o.c.p.324).

3. Elias e o carro de fogo. “Enquanto Elias e Eliseu continuavam andando e falando, um carro de fogo com cavalos de fogo separou os dois e Elias ascendeu ao céu num redemoinho. Eliseu ficou olhando e gritando, Pai, pai! Os carros de Israel e seus cavaleiros!” (2Rs.2,11-12). Outro conto semelhante na literatura dos romanos: “Assim que o poder onipotente inspecionou os céus reluzentes, Rómulo viu o sinal e, se apoiando em sua lança, ele monta seu carro, seus corcéis. Então salta sobre o seu carro rumo às esferas, rápido como uma seta que voa” (Ovídio e Plutarco Metam. XIV, 805-30; o.c.p.354).

4. Eliseu e o machado. Outros contos sobre o machado de Eliseu e de Hermes: Vejamos sobre Hermes: ”Um trabalhador, derrubando madeira na margem de um rio, deixou seu machado cair por acidente em um poço fundo. Hermes apareceu e interpelou a causa de suas lágrimas. Hermes mergulhou no riacho e, trazendo um machado de ouro perguntou se era aquele que ele tinha perdido. Ele disse não. Hermes despareceu de novo debaixo da água e voltou com um machado de prata. Também o trabalhador disse que não era o seu machado. Hermes mergulhou pela terceira vez e trouxe o machado que havia sido perdido. Hermes, impressionado com a sua honestidade deu a ele os machados de ouro e prata além do seu próprio.” (Esopo, Fábulas, Hermes e os trabalhadores”; o.c.p.355). Vejamos o conto na Bíblia:

Eis que os companheiros dos profetas disseram a Eliseu: como vês, o lugar onde vivemos sob os teus cuidados é pequeno demais para nós; vamos para o Jordão e lá coletemos cepos, um para cada um de nós, e construamos ali um lugar para vivermos. Ele respondeu, fazei isso. Então um deles disse, por favor, vem com os teus servos. E ele respondeu, eu irei. Então Eliseu foi com eles. Quando chegaram ao Jordão cortaram árvores. Mas quando um estava derrubando um cepo, seu machado caiu na água e ele gritou: ai de mim, meu senhor; meu machado era emprestado. Então o Eliseu disse, onde caiu? Quando lhe mostrou o lugar, ele cortou um pau, jogou-o ali e fez o ferro boiar. Ele disse, pega-o. Então ele estendeu a mão e o pegou” (2Rs.6,1-7). Fica à sua consideração comparar os dois contos.

Conclusão. Encerramos esta sequência de temas que autores atuais destacam como muito semelhantes nas duas literaturas, bíblica e platônica. Seguimos a publicação de Philippe Wajdenbaum, "Os argonautas do deserto"Paulus 2015, que faz um estudo comparativo entre as duas literaturas tomando como exemplos maiores as Leis de Platão, a República, Fédon, Atlântida e Górgias.  Na verdade, este é ainda um início das investigações deste gênero e ele, como pioneiro começa abrindo caminhos para futuras conclusões.

É conhecido que havia a Academia platônica em Alexandria, onde os intelectuais judeus se formavam desde os tempos dos Asmoneus, até o séc.VI d.C. sendo que um deles foi Antíoco de Ascalón que se destacou como presidente da mesma Academia nos anos 220-105 a.C. A academia foi depois desfeita pelo imperador Justiniano no ano de 529 d.C. porque não convinha mais aos interesses do império em decadência. Na verdade, a República de Platão seguia na contramão dos desmandos e da ganância do império, que foi herdado depois pela Igreja, porque quando o império desmoronou, a Igreja herdou muitas das suas caracteristicas.

No entanto, uma coisa é certa, foi devido a este compartilhamento entre a literatura greco-platônica e a literatura bíblica que o cristianismo penetrou no espírito grego sendo a religião mais aceite pelos gregos e cristãos helenizados.  

P.Casimiro João   smbn

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domingo, 20 de março de 2022

A MAGIA NA BIBLIA E NA LITERATURA GREGA DE PLATÃO. (TEXTOS GREGOS 06)


 

Em Dt.18,9-14 é proibida a prática da magia. Diremos o motivo desta proibição. Aliás na literatura dos gregos vem também a mesma proibição e concordamos que a motivação seja igual. Vejamos nas Leis de Platão sobre o caso:

Qualquer homem que fere os outros com amarrações mágicas, encantamentos, feitiçaria ou qualquer das práticas semelhantes, ainda que ele se tenha como um profeta ou adivinho, que morra; e se, não se tendo por um profeta, se for condenado por feitiçaria, assim como no caso anterior, que seja fixado o que ele deve pagar ou sofrer” (Platão, Leis, 93 c-e; Ph.Wanderbaum, Argonautas do deserto, p.246).

Vejamos na Bíblia: Não se achará no meio de ti ninguém que faça passar um filho ou filha pelo fogo, ou que pratique adivinhação, ou que seja agoureiro ou feiticeiro, ou alguém que lance encantos, ou que consulte fantasmas ou espíritos ou que busque oráculos dos mortos. Qualquer um que faça estas coisas é abominável ao Senhor.” (Dt.18, 10-12). A magia era proibida, tanto em Platão como na Bíblia por causa do perigo da cair no politeísmo, invocando outros deuses nos encantamentos, portanto era para defender o monoteísmo. Em Atenas, assim como Sócrates, também defendiam o monoteísmo, conforme Platão, Livro X; o.c.p,246).

2. Sobre os juízes do povo. Vejamos primeiro nas Leis de Platão, e depois sobre o mesmo assunto na Bíblia: “Aqueles que servem o seu país devem servir sem receber presentes, e não deve haver desculpas ou aprovação para o ditado: ’os homens deveriam receber presentes como recompensa pelos bons, mas não pelos maus feitos’; pois saber o que estamos fazendo e nos mantermos firmes pelo nosso conhecimento não é uma questão fácil. A direção mais clara é obedecer à lei que diz: ’não preste nenhum serviço por um suborno’, e aquele que desobedecer, se condenado, que simplesmente morra”(Platão, Leis, 955,c-d; o.c.p.247). Comparemos o mesmo tema na Bíblia:

“Não distorcerá a justiça; não mostrarás parcialidade; e não aceitarás subornos, porque o suborno cega os olhos dos sábios e subverte a causa daqueles que estão no direito. A justiça, somente a justiça buscarás, de modo que possas viver e ocupar a terra que o Senhor te deu”.(Dt.16,19-20).

3. Sobre os juros. “Se emprestares dinheiro ao meu povo, aos pobres no meio de ti, não tratarás com eles como um credor; não exigirás juros deles” (Êx.22,25).

Agora nas “Leis” de Platão”: “Ninguém depositará dinheiro com outro em quem não confie como amigo, nem emprestará dinheiro a juros, e o mutuário não deverá estar com a obrigação de pagar capital ou juros”(Leis – Platão, 742b; o.c.p.255).

4. Sobre os pecados dos pais. Bíblia: “Os pais não serão mortos por causa dos seus filhos, nem os filhos serão mortos por causa dos seus pais, apenas pelos seus próprios crimes as pessoas podem ser condenadas à morte” (Dt.24,16). Comparando com Platão: “Haja uma regra geral de que a desgraça e a punição do pai não deva ser visitada nos filhos, exceto no caso de alguém cujo pai, avô, e bisavô foram sucessivamente submetidos à pena de morte” (Leis, 856 c-d; o.c.p. 256).

5. sobre que o Sol parou. Tanto Josué como Agamenón oram para que o Sol parasse antes de terem derrotado os seus inimigos. Vejamos primeiro no poema da Ilíada, de Homero: “Agamenón orou dizendo: Zeus, deus glorioso, que habitas no céu a cavalgas sobre as nuvens de tempestade, concede que o Sol não se ponha nem a noite caia até que o palácio de Príamo seja derrubado e as suas portas sejam consumidas com fogo. Fazei com que a minha espada possa perfurar a camisa de Heitor sobre o seu coração e que muitos dos seus companheiros possam comer o pó ao redor dele.” (Ilíada, II, 410-20; o.c.p.262). Agora a Bíblia:

“No dia em que o Senhor entregou os amorreus aos israelitas, Josué falou ao Senhor, e disse na presença de Israel: ‘Sol, fica parado em Gibeão, e Lua no vale de Aijabom’; e o Sol se deteve e a Lua parou até que a nação se vingou dos seus inimigos” (Jos,10,12-14).

6. Sobre Sansão. Resumiremos aqui as semelhanças entre Heracles e Sansão. No Livro de Juízes se diz sobre o conto: ”A esposa de Manoá, um homem da tribo de Dan, foi visitada pelo anjo de Deus. Ela foi informada de que o seu filho por vir seria um nazireu, que ele se absteria de bebidas alcoólicas. Ele finalmente tornaria Israel livre das mãos dos filisteus”(Jz.3,2-7).”Sansão se deixou capturar pelos homens de Judá, que o entregaram aos filisteus, mas depois se livrou facilmente das amarras. Ele massacrou Mil homens com a queixada de um jumento” (Jz.15,11-16).  Vejamos na literatura grega:

“Quando Héracles chegou ao Egito, os egípcios lhe puseram grinaldas e o levaram em procissão para sacrificá-lo a Zeus; e por algum tempo ele permaneceu em silêncio, mas quando eles estavam começando o seu sacrifício no altar ele se entregou à bravura e matou todos eles”.(Heródoto,II,45 e Apolodoro, Bibl.2,5,11 o.v.p.285).

Outro episódio: “Uma vez Sansão foi a Gaza onde viu uma prostituta e foi até ela. Os gazeus disseram, Sansão entrou aqui. Então eles cercaram o local e ficaram à espera dele a noite toda. Eles ficaram quietos pensando, esperemos até a luz da manhã, então o mataremos. Mas Sansão se deitou somente até a meia noite. Assim, à meia noite ele se levantou, pegou as portas da entrada e as duas ombreiras, puxou-as com as trancas e tudo, colocou-as em seus ombros e as carregou até o topo da montanha que está diante de Hebron”(Jz.16,1-3). Conto igual na Argonáutica dos gregos:

Ao famoso Micenas irei, alavancas e picaretas tomarei, pois levantarei de sua própria base com alavancas de ferro essas muralhas da cidade que os ciclopes enquadraram com fio de plumo vermelho e ferramentas de pedreiro. Mas antes que ele pudesse, a pobre mãe pegou o seu bebê, levou-o para dentro de casa e fechou as portas; imediatamente o homem louco, como se ele realmente estivesse às muralhas ciclópicas, começa abrir as portas com alavancas e, derrubando as suas ombreiras, com uma coluna caída abateu esposa e filha. No chão ele caiu, ferindo as costas contra uma coluna que tinha desabado em duas no chão quando o telhado desmoronou” (Eurípedes, Héracles, 990-1010). Continua o conto da Bíblia:

“Ela, a Dalila o deixou cair no sono em seu colo, chamou um homem e mandou-lhe raspar as sete tranças da sua cabeça. Ele começou a enfraquecer, e a sua força o deixou. Então ela disse, os filisteus vêm sobre ti, Sansão! Quando ele acordou do seu sono pensou, sairei como das outras vezes e me livrarei. Mas ele não sabia que o Senhor o havia deixado”(Jz.16,19-20).Então os filisteus o prenderam e furaram os seus olhos. Trouxeram-no a Gaza e o amarraram com correntes de bronze, e ele moía no moinho da prisão” Assim terminou o conto de Sansão. E agora vejamos como também igual terminou o conto de Héracles dos gregos:

Depois disso o herói foi para Quios e cortejou Mérope, filha de Enopião. Mas Enopião o embebedou, arrancou os seus olhos enquanto ele dormia e os lançou na praia”. (Apolodoro, Bibl., 1.4.3; o.c.p.287).

Conclusão. O tema da mulher traiçoeira que corta o cabelo de outra pessoa, a traição sobre o herói, os olhos arrancados e o aprisionamento não podem ser ao acaso se não houver compartilhamento entre os dois contos. No próximo Blog daremos por fim a esta sequência de temas da comparação entre ambas as Literaturas judaica e grega. Veremos os temas sobre Moisés e a água que escorre do rochedo; sobre Samuel, e sobre Golias, aguarde.

P.Casimiro João   smbn

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segunda-feira, 14 de março de 2022

A divisão do mar vermelho, as serpentes venenosas, a jumenta de Balaão, e a divisão da terra pelas 12 tribos, na Bíblia e na literatura dos gregos.(TEXTOS 5)


 

“Moisés então estendeu a mão e o Mar Vermelho se abriu. Os israelitas passaram através dele, como se as duas partes do mar fossem paredes. Quando os egípcios se encarregaram de persegui-los Moisés estendeu a sua mão novamente, as águas os cobriram e eles se afogaram”(Êx.14,21-29).

Uma história semelhante se encontra em Heródoto, nos gregos: “Quando três meses se passaram enquanto Artabazos cercava a cidade, deu-se ali um grande refluxo do mar que durou muito tempo; e os persas, vendo que se tinha produzido água rasa, esforçaram-se por passar para dentro da península. Mas quando tinham passado por dois quintos do trajeto e ainda restavam três quintos, os quais tinham que passar antes de estar dentro da península, então veio sobre eles uma grande maré alta do mar, maior do que nunca. Assim, aqueles que não podiam nadar pereceram, e aqueles que podiam  nadar foram mortos pelos inimigos, que os perseguiam em barcos” (Heróto,8,129; Ph.Wandenbaum, Argonautas do deserto, p.197).

2. As serpentes venenosas. “Quando os israelitas se queixaram de novo no deserto Deus lhes enviou serpentes venenosas que morderam o povo” (Nm.21,4-6). Este conto também é encontrado na Argonáutica, dos gregos onde os argonautas estão perdidos no deserto, e Mopsos pisa numa cobra venenosa e morre. (Argonáutica, IV,1518). A Bíblia continua: “E o Senhor disse a Moisés: faça uma serpente de bronze e a  coloque em  uma haste; e todos aquele que for mordido deverá olhar para ela e viver. Então Moisés fez uma serpente de bronze e a colocou numa haste; e sempre que uma serpente mordesse alguém, essa pessoa olharia para a serpente de bronze e viveria”(Nm.21,4-6). Vejamos a continuação do conto na Argonáutica: “Esculápio era filho do deus Apolo, o deus da medicina. Os argonautas estavam infetados por uma praga e pediram auxílio a Apolo, deus da cura. Apolo mandou o seu filho Esculápio se dirigir ao rei em sonho, dizendo: esqueça os seus medos porque eu virei a ti e deixarei meu altar. Mas agora você olhe para a serpente com as suas voltas que se seguram entrelaçadas em torno deste bastão, e abra bem os seus olhos para que você possa reconhecê-la. Sou eu que me transformarei nesta forma, mas de um tamanho maior; eu aparecerei aumentado e de uma magnitude à qual um ser celeste deve ser manifestado” (Ovídio, Metam. XV,650; o.c.p.229). A Bíblia mistura este conto no Novo Testamento, que mistura com o Antigo Testamento, que mistura com os contos gregos. Este conto mitológico, que é o mesmo da Bíblia, deu origem ao símbolo das Farmácias em todo o mundo com a serpente enrolada numa haste significando Esculápio filho do deus Apolo.

3. A jumenta de Balaão. “Quando a jumenta viu o anjo do Senhor ela se deitou debaixo de Balaão; e a ira de Balaão se acendeu e ele espancou a jumenta com o seu bastão. Então o Senhor abriu o boca da jumenta e ela disse a Balaão: o que te fiz e por quê me bateu três vezes? Balaão disse à jumenta: porque fizeste de mim um tolo? Eu queria ter uma espada na minha mão! Eu te mataria agora mesmo. Mas a jumenta disse a Balaão: não sou eu a tua jumenta, a que tens  montado toda a tua vida até hoje? Tem sido o meus costume tratá-lo dessa maneira? E ele disse : Não” (Nm.22,22). Vamos agora comparar um conto semelhante na literatura grega.

Aquiles retirou seus homens da guerra contra Tróia como resultado da sua contenda com Agamenon. Mas quando seu melhor amigo Pátroclo foi morto, Aquiles decidiu vingá-lo e arreou os cavalos porque Pátroclo tinha pego os cavalos e armas de Aquiles, mas nunca voltou vivo. Em sua ira e tristeza Aquiles com voz forte repreendeu os seus cavalos dizendo: “Xanto e Bálio, descendência famosa de Podarge, desta vez quando lutarmos, certifiquem-se de trazer o vosso condutor em segurança de volta e não deixá-lo morto no chão como fizestes a Pátroclo”. Então o ligeiro Xanto respondeu: ‘temível Aquiles, disse ele, decerto te salvaremos agora, mas o dia da tua morte está próximo e a culpa não será nossa pois será a sorte severa do céu que te destruirá. Nem foi por qualquer preguiça ou negligência da nossa parte que os troianos despiram Pátroclo da sua armadura, foi o deus poderoso a quem o encantador Leto deu à luz quem o matou enquanto ele lutava entre os primeiros e concedeu um triunfo a Heitor. Nos podemos voar tão rapidamente quanto Zéfiro, o mais ligeiro de todos os ventos, no entanto, é teu destino cair pela mão de um homem e de um deus; Quando ele assim falou, as Erínias deusas da vingança calaram a sua boca”(Homero,II,XIX,400-20; o.c.p.230-231). Em Números, da Bíblia, Balaão discutindo com a jumenta; No Livro da Odisseia do grego Homero, Aquiles brigando com seus cavalos. Em ambos os contos as deidadesdotaram os animais com a fala humana”.

4. O cadastro e a divisão da terra pelas 12 tribos. Em Números, chegamos ao paralelo mais significativo com o “Livro das Leis,” de Platão, onde também fala das doze tribos. Vejamos primeiro o que conta a nossa Bíblia: “Este foi o primeiro número dos Israelitas: seiscentos e um mil setecentos e trinta. O Senhor falou a Moisés dizendo: Para estes a terra será repartida por herança de acordo com o número de nomes. Para uma grande tribo dareis uma grande herança e para uma tribo pequena uma pequena herança; a cada tribo será dada a sua herança de acordo com o seu registro. Mas a terra será repartida por sorteio; de acordo com o nome das suas tribos eles herdarão. Sua herança será repartida de acordo com a sorte entre as maiores e as menores”(Nm.26,51-56).

Agora nas LEIS de Platão: “O legislador dividirá os cidadãos em doze partes e organizará o restante das suas propriedades tanto quanto possível de modo a formar doze partes iguais; e  deverá haver um registro de todos. Depois disso eles deverão atribuir doze lotes a doze deuses, chamá-los pelos seus nomes, dedicar a cada deus as suas várias porções e chamar as tribos de acordo com eles. E eles deverão distribuir as doze divisões do país da mesma forma.”(Leis, 745b-c; o.c.p.236). Em Platão assim como na Bíblia acontece o mesmo método e o mesmo critério, e também as terras não podem ser vendidas. Um detalhe: A palavra hebraica “goral” que significa lote deriva da palavra grega usada por Platão, “kleros”. Nos dois textos a palavra lote significa um pedaço de terra, e a operação de escolha por sorteio. (.o.c.p.237).

Conclusão: O arcebispo Desmond Tutu, da África do Sul, prêmio Nobel da Paz de 1984, falou uma vez que “Deus não é cristão”. Será que não é também grego, africano, asiático, índio?

S.Agostinho disse que Deus fez dois Livros, a Natureza e a Bíblia. Será que o livro da Natureza não é maior que a Bíblia? Parafraseando Santo Agostinho, também poderíamos dizer Deus fez dois Livros, a Filosofia e a Bíblia: será que a Filosofia não veio antes que a Bíblia?

Nos próximos blogs veremos mais, como sobre a Magia na Biblia e nos gregos, a Usura, os pecados dos pais, e os contos de Débora e Sansão e Gedeão. Aguarde

P.Casimiro João

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