segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

UM NATAL DIFERENTE COM PADRE JÚLIO LANCELLOTTI


 

Neste momento, é importante ouvir a recomenda­ção do Papa Francisco: “Olhe além das luzes e das decorações e lembre-se dos mais necessitados. Servir aos outros vale mais do que buscar status, visibilidade social ou passar a vida inteira em busca do sucesso. Não percamos de vista o céu, cuidando de Jesus agora, acariciando-o nos necessitados, porque é neles que Ele se fará presente. Cuidemos dos trabalhadores que eram os pastores na época do presépio.” (Papa Francisco na Missa da Vigília de Natal de 2021). Pois bem: se o Natal nos chama a tocar a carne do outro, convida-nos também a tocar as ideias que gover­nam ainda hoje muita carne e muito corpo. É nesse ponto que a fé concreta encontra antigos scripts culturais. Para além das luzes, precisamos enxergar as sombras de certos mitos que seguimos repetindo, frequentemente como se fossem dogmas. Do presépio aos planetas, do cuidado concreto aos mitos concretos, o mesmo apelo retorna: “Não percamos de vista o céu”, como disse Francisco, mas sem perder de vista o chão. Acariciemos Jesus nos necessitados — e, com a mesma mão, arejemos as ideias que ainda negam dignidade a quem não cabe na antiga bitola. Porque Natal é isso: tirar o Menino do enfeite e colo­cá-lo no prato vazio; ouvir o choro dele nas periferias; e, já que “é a cabeça que conhece o caminho”, pensar melhor para amar melhor. Quer status? Passe. Quer visibilidade? Deixe para as vitrines. Na gruta, o que vale é servir — e nascer de novo. (Obs. Você encontra este trecho no Livro PÁGINAS DE TEOLOGIA BÍBLICA PARA HOJE, de Casimiro João, vol.VII, cap.05, p.53).

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quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

NATAL CÓSMICO

No céu, todos os dias nascem bilhões de estrelas, e na Terra milhões de crianças. Estudantes do Fundamental aprendem na Internet que o universo começou há cerca de quinze bilhões de anos. O Sol, estrela de segunda geração, nasceu dos fragmentos de outras estrelas muito antigas. O mapa reverso é fascinante: íons cerebrais dependem do alimento; o alimento depende dos fótons liberados no núcleo do Sol; e o Sol resulta de explosões de estrelas. A bola de fogo primeva existiu por milhões de anos sem consciência introspectiva, incapaz, por si só, de se dar conta do próprio esplendor. Mas a estrela reflete sobre si por nosso intermédio; em certo sentido, você é essa estrela. Não se trata de pura poesia: se os íons dependem do alimento e estes dos fótons do Sol, e se o Sol vem de estrelas que explodiram, então essa saraivada fotônica do início dos tempos  alimenta o seu cérebro. O que você sente e pensa agora só é possível pelo fogo cósmico. Você participa das estrelas – e elas participam de você. Não é por acaso que as estrelas entraram nos sonhos bons da humanidade: a “estrela de Jacó” (Num.24,17), a estrela de Belém (Mt.2,7), símbolos de luz, espírito e sobrevivência. Em culturas asiáticas, a estrela é fragmento do Ovo cósmico; entre os astecas representa a alma dos mortos; no Islã, é pela estrela que a Kaaba se situa no entro do céu; na mística nórdica, indica a região luminosa onde mora a divindade, como janela aberta. Estrela de Natal é mistura de profecias de Israel, e de intuições universais. Só não esqueça a estela que é você. O universo segue em expansão; no seu interior, berçários de estrelas permanecem acesos. Na Via Láctea, diz-se haver algo como 100 bilhões de estrelas; no conjunto do cosmos, estimam-se 200 bilhões de galáxias, cada qual com centenas de bilhões de Sóis. Estelas nascem quando, no ventre de uma galáxia, grandes massas de hidrogênio e hélio se comprimem; quando gás se contrai, esquenta como a bomba de encher pneu. Acende-se o combustível nuclear, núcleos se fundem, liberta-se energia em temperaturas de bilhões de graus; nasce uma estrela. A partir daí, o astro queima o combustível que o sustentará por toda a vida. As distâncias se medem a anos de luz; um ano de luz é 9.46 trilhões de quilômetros. A galáxia mais distante conhecida estaria a 32 bilhões de anos de luz. Imagine-se que, para chegar da Terra ao Sol levaríamos 500 anos; e diz-se que a Via Láctea produz uma nova estrela a cada 36 dias, como se o nosso Sol ganhasse uma irmã por mês, enquanto galáxias maiores acendem estrelas a cada duas horas. A consciência e a inteligência, vistas sob esse prisma, são fruto dessa energia. Um dia, íons e fótons no cérebro geraram uma sinapse decisiva no córtex; desse clique emergiu a consciência e, com ela, um novo DNA humano, separado dos primatas, com os quais ainda compartilhamos 98% do código genético. Os primeiros hominídeos, há 25 milhões de anos, já não tinham cauda; hoje, o embrião humano mostra uma cauda de 4 cm que é absorvida até a oitava semana. Em 6 de novembro de 2021, nasceu uma criança em Fortaleza com 12 cm de cauda não absorvida. Há cerca de 200 mil anos, a espécie humana aprendeu a falar; hoje, uma criança leva cerca de um ano e meio para falar. Há 4,4 bilhões de anos os primeiros hominídeos começaram a andar de pé, os australopitecos afarenses da Etiopia; os primeiros animais surgiram há 500 milhões de anos; dos peixes às criaturas terrestres, dos dinossauros  aos primatas, chegámos à era do 5G, da inteligência artificial, dos robôs e das viagens espaciais. No céu nascem todos os dias bilhões de estrelas, na Terra, milhões de crianças; e, um dia, nasceu uma Criança-Estrela chamada Jesus.

(Obs: Você encontra este trecho no livro PÁGINAS DE TEOLOGIA BÍBLICA PARA HOJE, de Casimiro João, vol.05, pag.99-102).

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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

TEOLOGIAS QUE AVANÇAM COM ARMAS E TEOLOGIAS QUE MORREM COM AS ARMAS


 

Há duas formas de teologias que atravessam a história: as que avançam com as armas e as que morrem com as armas. A primeira é a teologia que se alia ao poder político, que se alimenta da força do Estado, que se apoia em reis, imperadores ou governadores para impor sua visão. Essa teologia prospera na marra, sustentada pela espada, pela fogueira, pela prisão, pela exclusão. É a religião que anda de mãos dadas com o império, garantindo privilégios, terras e influência, enquanto cala o grito dos pobres e marginalizados. A segunda é a teologia que se recusa a se dobrar ao poder, que escolhe a solidariedade ao ferido no meio da estrada, em vez do culto bem cumprido. É a espiritualidade que, como a de São Francisco, se despoja para estar com o pobre; ou como dos bispos e teólogos perseguidos, que escreveram e viveram ao lado dos trabalhadores e camponeses, denunciando injustiças. Essa teologia muitas vezes é acusada de “comunista”, combatida, calada, mas permanece fiel ao Evangelho que coloca o próximo acima da lei. A história recente confirma: após o concílio Vaticano II, quando floresceu a Teologia da libertação, logo os poderosos a tacharam de perigosa. Políticos, governadores e até lideres eclesiásticos se uniram para sufocar sua voz. Na época da guerra fria, quando o mundo estava dividido entre o poder dos Estados Unidos e da Rússia, Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos decretou que seria considerado comunista todo aquele que não se curvasse ao seu poder. E por isso a voz dos pobres e seus direitos foram calados. A arma do poder produziu a arma do silêncio. Nessa voz dos pobres estava a Teologia da libertação que ele proibiu enviando várias vezes mensagens ao Vaticano para que também proibisse. Eis, portanto a ironia: teologias que avançam com as armas podem até se impor por um tempo, mas se tornam cúmplices da morte e do esquecimento. Já as teologias que “morrem” com as armas, no fundo são as que permanecem vivas na memória do povo e na fidelidade ao Evangelho. Porque, como disse o próprio Jesus, não é aquele que clama “Senhor, Senhor” que herda o Reino, mas quem pratica a vontade do Pai”. (Obs. Este trecho você encontra no livro “PÁGINAS DE TEOLOGIA BÍBLICA PARA HOJE de Casimiro João, vol. 05, cap.VII, pp.79-80).

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sábado, 20 de dezembro de 2025

DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS

“O que me  intriga é que o Padre Reginaldo reuniu-se com o ex-presidente Bolsonaro e, segundo a reportagem, ofereceu mídia ao Presidente. O canal católico também segue o direito canônico? Se segue, são dois pesos e duas medidas diferentes, confundindo assim os leigos e não leigos”. Postagem de David Urbano Robinho em 20.12.25

 David Urbano Robinho
 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Exclusivo: MBL está por trás da censura ao padre Júlio Lancellotti Publicado por Thiago Suman


 

 Atualizado em 17 de dezembro de 2025 às 15:04

A censura imposta pela Arquidiocese de São Paulo ao padre Júlio Lancellotti não pode ser compreendida sem olhar para o papel desempenhado por influenciadores da extrema direita católica, que transformaram o sacerdote em alvo permanente. Entre eles, destaca-se Miguel Kazam, ligado ao MBL (Movimento Brasil Livre) e com mais de 100 mil seguidores, que há meses conduz uma campanha sistemática de ataques ao religioso e de pressão pública sobre a Igreja.

Kazam construiu sua relevância digital explorando o conflito. Em vídeos e postagens, ele associa a atuação pastoral de Lancellotti a supostos desvios morais e ideológicos, misturando críticas religiosas com narrativas políticas típicas da guerra cultural. O episódio envolvendo o curta-metragem “São Marino” virou combustível central dessa estratégia. Ao atacar a participação do padre na narração da obra, Kazam passou a sustentar que Lancellotti promoveria uma agenda “trans” dentro da Igreja.

A ofensiva não se limitou às redes sociais. O influenciador admite ter preparado e enviado um dossiê com denúncias à Arquidiocese de São Paulo e ao Vaticano, com apoio de um advogado ligado a extrema direita católica. As acusações envolvem um suposto menor, extorsão e chantagens embora investigações conduzidas pela Justiça paulista, pelo Ministério Público e pela própria Arquidiocese tenham sido arquivadas por ausência de materialidade. Ainda assim, Kazam segue tratando insinuações como se fossem fatos consumados, reforçando um ambiente de linchamento moral. Ao mesmo tempo, o discurso de Kazam busca se blindar sob a narrativa de vítima. Após publicar vídeos críticos, ele afirmou ter sido alvo de “assédio judicial” por parte de um suposto assessor de Lancellotti, episódio que passou a ser explorado como prova de uma alegada proteção institucional ao padre. A estratégia é conhecida: inverter papéis, apresentar-se como perseguido e usar isso para legitimar ataques ainda mais agressivos, sem assumir responsabilidade pelo impacto das acusações lançadas. O resultado dessa campanha foi a contaminação do debate público dentro e fora da Igreja. Parlamentares da direita passaram a ecoar o conteúdo produzido nas redes, como no caso do pedido de CPI apresentado pelo vereador Rubinho Nunes, que tentou investigar Lancellotti e organizações que atuam com a população em situação de rua. A iniciativa naufragou quando vereadores retiraram apoio, alegando terem sido enganados. Ainda assim, o estrago político já estava feito. A decisão de Dom Odilo Scherer de restringir a atuação digital de Lancellotti surge nesse ambiente de pressão fabricada. Não é um gesto isolado de prudência institucional, mas uma resposta a uma ofensiva coordenada que transformou o padre em problema administrativo para a Arquidiocese. Kazam e outros influenciadores conseguiram empurrar a hierarquia para uma posição defensiva, na qual silenciar o alvo pareceu mais fácil do que enfrentar publicamente a máquina de difamação.” Ajuntamos alguns testemunhos mais:

Perla Müller ·

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“Silenciar o Padre Júlio não é assunto interno da igreja. É romper com a mensagem de Jesus. O incômodo não é a transmissão da missa. É o compromisso com os pobres, os invisíveis, os que vivem à margem. 🤍✊ Jesus enfrentou o poder, denunciou a hipocrisia religiosa e caminhou com quem não tinha vez nem voz. Quando a fé vira instrumento de privilégio  e quem vive o Evangelho é perseguido, o lado já foi escolhido. E não foi o de Jesus.”

“O Levante Popular da Juventude manifesta sua total solidariedade ao Padre Júlio Lancelotti que foi proibido de seguir transmitindo online suas missas aos domingos. Isso é mais uma ação que faz parte das perseguições, ataques e tentativas de criminalização por seu compromisso radical com os pobres, com a população em situação de rua e com o Evangelho vivido na prática. Defender Padre Júlio é defender o direito à vida, à dignidade e à justiça social diante de um projeto que tenta silenciar quem denuncia a fome, a miséria e a desigualdade no Brasil. Essa perseguição e tentativa de silenciamento revela o incômodo das elites com quem escolhe estar ao lado do povo e enfrenta a lógica da exclusão e do ódio. Seguiremos em luta, ao lado de Padre Júlio e de todos e todas que constroem a solidariedade como prática política”.

@levantedajuventude

#euapoiopadrejuliolancellotti . Outro: O caso levanta a pergunta: qual é o papel da Igreja no mundo moderno? Deve ela se manter nos ritos tradicionais ou sujar os pés na lama para ajudar os necessitados, mesmo que isso gere conflitos? Enquanto a burocracia decide o futuro do padre, a fila do pão na rua continua, esperando por quem lhes estenda a mão. ⛪🙏🥪🤐 Trajetoriatop ·

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Nosso comentário: É a ditadura da Igreja que o cardeal de S.Paulo quer reassumir. O País venceu a ditadura mas ele quer voltar à antiga, Deus que o livre. Vencemos um golpe e uma ditadura, mas o dom Scherrer quer retornar à antiga ditadura da Igreja e dos impérios, até proibindo a comunicação social, já se viu?

P. Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

A BÍBLIA NÃO É UM AMULETO

A Bíblia não é um amuleto para nos defender, ela é um livro de significados. Cada palavra parecendo uma coisa mas pode ser outra. É assim então a leitura: o que significa esta palavra? Por exemplo, quando fala que vieram dez leprosos a Jesus para serem curados, e só um voltou para agradecer, e esse era samaritano.(Lc.17,16). Não é sobre agradecer, é sobre outra coisa: para dizer que os samaritanos eram melhores do que os judeus. De entre os 10, nove eram judeus e só um samaritano e estrangeiro: esse era melhor que os nove judeus porquê? Porque os judeus tinham raiva dos samaritanos e dos estrangeiros. Aí o evangelista contou um caso aleatório, “como se” viessem 10 doentes até Jesus para ser curados e todos os nove judeus não voltaram para agradecê-lo, mas só aquele que não era judeu, o samaritano e estrangeiro. Por isso, em muitos contos está lá aquele “como se” para dar a lição moral: “olhem aí, judeus, tenham cuidado com o seu orgulho religioso. No livro “Páginas” há um capitulo que diz “O orgulho de ser religioso” (João, Casimiro, Páginas de teologia bíblica para hoje, vol.2,p.20). A Bíblia tem teses, e para provar essas teses usa estratagemas e artifícios literários como esse. Outro exemplo: “Não encontrei tamanha fé em Israel como neste estrangeiro” (Mt.8,10). Também não era sobre fé mas sobre elogiar e adular os estrangeiros romanos para não se oporem às comunidades cristãs, mas pelo contrário, para que também eles fizessem parte. Outro exemplo: Na crucificação de Jesus, o centurião romano teria dito “verdadeiramente este homem era  filho de Deus” (Mt.27,54). Também não é sobre fé, mas sobre o mesmo objetivo. (Cf.Warren Carter, evangelho de São Mateus,p.663). E porquê a cena de quando Pilatos lavou as mãos? Para dizer que os culpados eram os judeus e inocentando Pilatos. E assim por diante. Por isso vamos tirar da cabeça que a Bíblia é um amuleto. Não é amuleto, mas um livro de significados. Uma ocasião um político estava puxando os agradecimentos do povo. Ah, que eu faço, eu faço, eu faço, mas como diz a Bíblia, eram 10 os curados mas só um foi agradecer”. Esse amuleto não é sobre agradecer, é lição moral para os judeus que se consideravam melhores do que todos. i.é, parece uma coisa mas é outra. Conclusão. A Bíblia não é então amuleto, nem loja de conveniências para uma receita a ser usada em cada ocasião. É um livro de significados. Cada palavra seria assim como um QrCode, não é sobre um quadrado mas sobre o que contém lá dentro. Em cada palavra cabe a pergunta: O que significa?

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

O BULLING E A OVELHA E A SOCIOLOGIA


 

Os povos da antiguidade chamavam os governantes de “pastores”. E chamavam o povo de “rebanho”. Isto faz uma bela metáfora sobre o que a ovelha tem para ser roubada pelos governantes, sem ela nem se dar conta: o leite e a lã. O leite era considerado uma preciosidade para a alimentação; a lã tecia as roupas das épocas antigas. E era extorquido o leite e a lã do cidadão, isto é, tudo o que ele tinha, que se definia como extorsão e opressão de que o povo era alvo. Continuando com a metáfora, o leite e a lã eram então os direitos do povo, como salário para trabalhar, e terra para cultivar. O povo não tendo a paga suficiente do seu trabalho facilmente ficava sem nada e à mercê dos governantes como pedintes de favores, assim como quando era despojado de suas pequenas áreas de terra para entregar aos grandes proprietários para pagar suas dívidas. Seria assim como tirar seu leite e sua lã, falando de gado. Colocado nestas condições, muitos viravam salteadores ou se espalhavam pelas nações se vendendo como escravos. É assim que o A.T. dedura os falsos governantes como falsos pastores: “Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! Comem a gordura, vestem-se de lã e degolam as ovelhas gordas, mas não apascentam as ovelhas. Visto que vós, com o lado e com o ombro dais empurrões e, com os chifres, impelis as fracas até as espalhardes fora. Vocês bebem o leite das ovelhas, usam a sua lã para fazer roupas. Não tratam as fracas, não curam as doentes, não fazem curativos nas machucadas, não vão buscar as desviadas, nem procurar as que se perderam. Mas tratam as ovelhas com violência e crueldade. E por não terem pastores, elas se espalham. Animais ferozes as devoram, porque as ovelhas perdidas vagueiam pelas montanhas”. (Ez.34,3-6). Vamos agora aumentar a reflexão social que esta parábola implica. Falámos na nação que descarta cidadãos-ovelhas que, arruinados, ficam fragilizados, doentes, e sem chão. Falemos agora da família, da escola ou de uma comunidade religiosa. Acontece que aí se descarta um filho, um aluno, ou um cristão, quando se rejeita e não é acolhido. Se essa pessoa cair na desorientação e na depressão de não se sentir mais amada, essa pode ser uma das ovelhas rejeitadas e sem horizonte na vida. Mas o pecado não é dela, é de quem a rejeitou. Por outro lado, se essa pessoa se recuperar haverá mais alegria do que pelos outros  noventa e nove, isto é, por todos os outros que a rejeitaram. O problema não é que essa pessoa ou essa “ovelha” pecou, foram os outros, os noventa e nove que pecaram porque a rejeitaram. “Ai de vós escribas e fariseus hipócritas, que fechais o reino dos céus diante dos homens, pois vós não entrais nem deixais os outros entrar” (Mt.23,13).  Acontece com essa pessoa o que acontece com as “ovelhas” que se “desgarraram pelas montanhas”, porque abandonadas pelos falsos  governantes. Ajuntando a isto, existem os alunos nas escolas que sofrem os bullings e não aceitam mais voltar para o convívio da turma que os marginalizava. E não só, também aquele filho ou filha que não encontrava mais lugar na família mas só críticas e marginalização. Quantos não largam família e se refugiam nas drogas ou na vida do crime, ou simplesmente viram moradores de rua. O que é intrigante é que essa fala do antigo testamento nunca foi contra o cidadão-ovelha mas contra os governantes-pastores. Como ela se tornou uma inversão de 190 graus posteriormente na Igreja e na sociedade civil é que é problema e isso tem explicação farisaica de sempre defender a autoridade seja civil ou religiosa ou política, desculpabilizando-a para culpabilizar sempre o inocente. Aí o inocente vira infrator, e os mandantes viram os heróis. Alguma coisa não tem andado certo. E “Jesus viu que eram como ovelhas sem pastores”(Mc.6,34). Há motivos ideológicos, sim, e ideias preconcebidas também das Igrejas e dos “pregadores” em inverter as coisas e colocar o “pecado” na “ovelha”,  isto é, no pobre e no fraco e no explorado e não naqueles que causam essa situação de exclusão. Assim como acontece também na sociedade civil e política.  Conclusão. A lição é grande. E a responsabilidade é grande no descaso que leva à fixação de sempre culpar o “fragilizado” e aplaudir o lado dos “fariseus” e dos falsos justos e dos falsos religiosos e muitas vezes dos grandes políticos, como se diz hoje no Brasil da Faria Lima e das mansões de Miami, e por aí vai.

P.Casimiro João      smbn

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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

LAVAGEM CEREBRAL OU METANOIA

Numa rara ocasião eu tive a sorte de assistir à independência de Moçambique, um dos mais lindos países da África oriental. Nos anos seguintes eu soube que havia o Ministério da Ideologia Nacional. Era para cuidar e vigiar para que toda a população seguisse e não se afastasse da ideologia marxista do governo que era de Mao Tse Tung. Aliás tinha sido a China que tinha assessorado a independência de Moçambique quando saiu do colonialismo português em 1975. Os cidadãos, na verdade, eram sujeitos a uma lavagem cerebral para que o pensamento ateu ocupasse a sua cabeça, pelo que deviam sujeitar-se à disciplina de lavar ou extrair de sua cabeça toda a doutrinação anterior, quer do governo colonial, quer da Igreja ou das Igrejas. Quando em dado momento me adiantei mais nas estruturas da Igreja, tive ocasião de fazer a comparação entre o Ministério da Ideologia e o outro departamento da Igreja católica: o Dicastério para a doutrina da fé, que substituiu a anterior Congregação para a doutrina da Fé, que por sua vez substituiu a Suprema e Sacra Congregação da Inquisição. Esta breve indicação me falou muito de um certo paralelismo. Por sua vez, não seria muito diferente no Antigo Testamento onde se previa a pena de morte para diversas formas de infidelidade à lei (Dt.17,2-5; Lv.24,16; Lv.20,10. Quando veio Jesus pregou a metanoia, que em grego significa mudança de mentalidade, (Mc.1,15). Afinal, não era outra coisa senão também uma lavagem cerebral. Este complexo de coisas se explica pela “internalização”, conceito psicológico pelo qual o ser humano internaliza conceitos, ou seja coloca no seu interior, dentro de si mesmo, na sua cabeça sistemas e paradigmas de conhecimento tão internos que ficam fazendo parte de sua cabeça, seu pensar e seu agir. Por isso se diz também “fazer a cabeça”, assim como deixar a cabeça antiga por uma cabeça nova. Na linguagem simples e corriqueira vernácula os tradutores lhe chamaram simplesmente de “conversão”. Vamos nos referir e direcionar ao evangelho, que também vamos traduzir por “boa nova” ou “feliz notícia”. Ora, como em todas as lavagens cerebrais o processe não é simples, nem da noite para o dia. Assim, teríamos que ver o significado de boa nova ou feliz notícia que traz o evangelho de Jesus. Esta feliz notícia de Jesus exigia também uma lavagem cerebral, que significa deixar a “cabeça antiga” por uma cabeça nova.  A cabeça antiga do pobre que se julgava  sem valor nenhum, e a cabeça do rico e político que pensavam isso acerca do pobre como sendo sem valor nenhum. E quem diz pobre diz pecador, leproso, cego, coxo, aleijado. Era preciso trocar a cabeça destes e daqueles. Noutro lugar o evangelho também lhe chama “não botar remendo novo em pano velho” (Mc.2,21). Esta lavagem cerebral no grego tem o nome de “metanoia”. Digamos que em primeiro lugar esta metanoia tinha duas direções: para os bem instalados na vida, e para os “desinstalados”,  para os ricos e para os pobres. Para os ricos e políticos essa lavagem ia bater em cérebros blindados contra qualquer lavagem possível; e, por incrível que pareça, também para os pobres. Vamos explicar esse aporema da tal metanóia ou lavagem cerebral, ou ‘conversão’. Trata-se, em primeiro lugar, da valia da pessoa humana. Nada se constrói em cima do que não é seguro. Ora, o que é preciso primeiro é considerar o valor de ser gente, ou pessoa humana. Direcionemo-nos primeiro aos pobres, porque eles julgavam-se sem valor. Talvez se julgassem como escravos, quando não tinham mais nada para viver se entregavam como escravos para uma família. Era a situação social do pobre, assim como uma coisa ou objeto que pertencia a alguém, e que se podia trocar ou vender. Não é nada não, mas a mulher estava igualmente nestas mesmas condições de poder ser trocada ou vendida. E não só, no referente ao imaginário religioso também era assim. Vendo que o pobre era considerado como nada pelos homens, então ele pensava que também para Deus não era nada. Desprezado pelos homens, desprezado por Deus. Ainda no século passado isso existia aqui nalgumas regiões do Brasil, onde os donos de terras diziam para os sem terra: vocês não têm terra, então não têm Deus. Esta situação foi confrontada pelo homem que mais amou e entendeu a humanidade, Jesus Cristo. E botou pra quebrar com o seu propósito de mudar a cabeça dos judeus, dos ricos e dos pobres. Dos pobres para saberem que tinham valor, e dos ricos para saberem que pobre tem valor. E tentou “fazer a cabeça” deles, tanto de uns como de outros. Tão difícil fazer a cabeça como grande era o medo das consequências: as vinganças dos ricos e dos políticos sobre os pobres, e o sofrimento e a paciência do pobre para conseguir ser alguma coisa. Além do perigo aduzido pelo grande sociólogo Paulo Freire, da vingança coletiva do pobre que, quando ganhasse um “lugar ao sol” fosse tratar os outros como ele tinha sido sempre tratado. Mas não é por um motivo hipotético que se deixa de fazer uma obrigação natural, assim como não foi pelo perigo dos insucessos humanos que a humanidade deixou de existir. Ela existiu e enfrentou e enfrenta os ciclos e riscos difíceis. Esta tarefa  exige tempo. Não seria no tempo de Jesus, nem Jesus poderia ter a oportunidade de ver a mudança. Ao invés disso, ele viu, sim, o poder da reação e da raiva das classes dominantes sobre ele, tanto das classes políticas e do dinheiro quanto do poder da religião. Ficaria para mais tarde este efeito dessa mudança de cabeça, porque Jesus lançou apenas a semente da palavra e do exemplo. E por incrível  que pareça, essa história dessa metanoia, ela se concretizava em pequenos grupos ou “comunidades” com esforço e paciência. Mas como um todo de prática vigente, somente 18 séculos depois do desaparecimento de Jesus, digamos, no século 18, com o grito que virou um grito mundial em que se proclamava o slogan para toda a humanidade: IGUALDADE, FRATERNIDADE, LIBERDADE, em 1789. E tanto que em 1946 teve o mérito de ser proclamado como “DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS” para toda a humanidade onde a maioria das Nações mundiais o subscreveram, como o Brasil. Não porém algumas nações que não mudaram a “cabeça” e nem fizeram essa metanoia do valor intrínseco da essência do ser humano. Algumas até poderão considerar-se religiosas, mas não consideram que antes da religião tem o ser humano. E quem despreza o ser humano por causa da religião não é humano nem religioso. Ou seja é uma consideração falsa de religião. Esta falsa religião foi a que Jesus encontrou quando veio na Palestina dos judeus. Falamos em metanoia. E falamos que levou 18 séculos, ou 1.800 anos para que se transformasse em valor universal. Uma sementinha que o Senhor Jesus lançou sobre a pergunta: Quem tem mais valor, o homem ou o dinheiro? O homem ou o poder? O homem ou a riqueza? O homem ou a religião? E de quebra, como pano de fundo, aquele jargão universal que já vinha nas bíblias de todos os povos antes dos judeus: “Não faça aos outros aquilo que não quer que façam a você.”  Nisto consiste a lei e os profetas (Mt.7,12). Conclusão.”A felicidade, para  os pobres, começa pelo reconhecimento de que possuem os mesmos direitos que os ricos. Isso, por si só, representa uma revolução. Jesus sonhou com uma mesa onde todos tivessem um lugar: ricos, pobres, sãos, doentes, justos e pecadores” (João, Casimiro em “Páginas de teologia bíblica para hoje, vol.I, p. 31)

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