segunda-feira, 22 de junho de 2026

A HISTORICIDADE QESTIONADA NA BÍBLIA.


 

“Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa, e a porção escolhida dentre todos os povos”. (Ex.19,5-6). Estas afirmações são claramente redação da equipe sacerdotal que fez a terceira edição do Êxodo. Na verdade, o Êxodo foi escrito no exílio da Babilônia pelos sacerdotes para servir de catecismo e animar o povo no meio das angústias do exílio. Foi a catequese do sofrimento, na reedição de histórias passadas, pelos sacerdotes. E foi escrito debaixo das coordenadas de colocar as coisas como se tivessem acontecido com Moisés: “Moisés subiu ao monte ao encontro com Deus. ”(v.3). É a transposição da historicidade do tempo presente para o tempo assado, de Moisés. O tempo presente era o século VI a.C. O tempo de Moisés o século XIII a.C.  Até porque, se fosse naquele remoto tempo de Moisés o que eles iriam entender por “reino de sacerdotes”? Claro que é uma teologia já muito rodada fabricada na monarquia pelos sacerdotes do templo. Outro ponto fulcral é que aí vem a ideologia perigosa que já estava minando o povo judeu: “e sereis para mim a porção escolhida dentre todos os povos” (v.5). Não imaginamos as consequências nefastas que se originaram e se espalharam pelo mundo desta suposta “porção escolhida dentre todos os povos.”  É o chamado orgulho religioso que é transmitido neste catecismo ao povo, como eu escrevi a longos traços já no livro “A Bíblia, o livro dos Qr Codes”, p.105. E foi desta ideologia judaica que surgiram no mundo todas as formas de segregacionismo, negacionismo, e colonizacionismo do outro, baseadas no racismo, na religião, no gênero e no nacionalismo. Porque desse orgulho religioso judeu nasceu o orgulho nacionalista gêmeo do orgulho religioso. Até porque na antiguidade e nos judeus não havia separação entre nação e religião; entre poder civil e religioso. O que era uma coisa era outra. Em todas as páginas da Biblia aparece transversalmente a designação do “nosso deus” e dos “deuses estrangeiros”, i. é,  que não eram nacionais, e por isso eram considerados demônios (Cf. Dt.32,16). Afinal, as outras nações, na hora desta escrita, eram importantes e se impunham pelo poder e pela riqueza, enquanto que os judeus estavam destruídos e escravizados. Não lhes restava outra alternativa senão a religião. Donde então fabricaram essa ideologia de que eles tinham a melhor religião, o melhor deus, e a melhor “eleição” como sendo o povo “escolhido” e “eleito”, e os outros não? Os outros eram todos “não escolhidos” portanto abandonados, sem Deus e sem salvação? Até porque os deuses dos outros eram “demônios”, embora fossem povos ricos e poderosos? O que causa estranheza nisso tudo é que eles também admitiam deuses dos outros povos nos seus templos e cultos, pois todas as rainhas e concubinas estrangeiras dos reis judeus traziam os seus deuses com elas. “O rei Acab seguia os ídolos dos amorreus” (1R.21,26). Mas esse é outro capítulo à parte, o capítulo das mentiras políticas, que na fachada são uma coisa e na prática são outra. Como dizíamos, o judeu se refugiava na religião quando a política não lhe era favorável, ainda que à custa de toda mentira, falsidade e hipocrisia. A conclusão dava certo: “estamos escravos, somos perseguidos, mas somos “os escolhidos”. Vale dizer: agora não temos dinheiro nem poder mas temos deus do nosso lado. Quando tivermos dinheiro e poder seremos iguais aos outros; Seremos ricos e poderosos, e deixaremos deus de lado, deixaremos deus em paz, e ainda iremos aceitar os deuses deles... Mais à frente, anos depois, o texto de que estamos falando teve mais outra edição e recebeu o nome de Deuteronômio, i.é, segunda lei, chamada a edição javeista, onde vamos encontrar as seguintes afirmações: “O Senhor te escolheu dentre todos os povos da terra para seres o seu povo preferido; o Senhor se afeiçoou a vós e vos escolheu” (Dt.7,7). Vemos que este texto aumentou a predileção, transformando-a já em “afeição”. E o lado oposto da moeda vem a seguir:  Aos outros Deus “castiga diretamente e odeia, fazendo morrer e não espera, mas dá-lhes imediatamente o castigo merecido”, (v.10). Tanto numa versão como na outra se evidencia uma escolha e uma repulsa. A escolha para eles e a repulsa para os outros. Isto foi tão exclusivista, que quando da vinda de Jesus, encontrou a sociedade judaica dividida entre “puros e impuros”, fariseus “santos e salvos” e os “sem salvação”; tanto em relação aos próprios judeus como sobretudo em vista dos estrangeiros com quem não se podia nem ter contato, até ser necessário “sacudir a poeira dos pés quando voltavam dos territórios estrangeiros para entrar na terra “santa” dos judeus.”(Mt.10,14). Esta situação chegou até à nossa religião de hoje quando alguns elementos pertencentes a certos grupos se julgam os “escolhidos e santos” e os outros não. “Eu faço, eu pertenço”. E não só, chegou à nossa política, que, empunhando a Bíblia como uma espada, se julgam os sucessores dos “escolhidos” do Antigo Testamento. Para eles todos os outros perdem o status de cidadãos justos como faziam os fariseus. De tal maneira que surgiu no Congresso brasileiro o bizarro nome de “bancada da Bíblia”. Nem se dando conta da ignorância que manifestam de que estamos num Estado laico. E que poderia haver também a bancada afro-brasileira ou a bancada do Candomblê ou a bancada dos Pais de santo. E não só, a essa bancada se juntou outra, a bancada do boi, e a bancada da bala. Da mesma maneira que os judeus sequestraram Deus como estando só do lado deles, e sequestraram a riqueza da nação, as terras, as leis e os impostos, da mesma maneira essa bancada da Biblia sequestrou Deus, as terras, as leis e os impostos. Para o restante da população que possa sobrar a fome, a doença, os castigos como vem naquele pedido que os discípulos de Jesus invocaram que viesse fogo do céu sobre uma parte da população. (Lc.9,51). São os boanerges modernos, como Jesus apelidou aqueles discípulos que queriam a vingança do céu. Falei outra vez que nós somos em três quartos ainda em muito do nosso tempo como judeus, e só uma quarta parte de espírito de cristão. Mas nessas bancadas a tal quarta parte do espírito de cristão virou mais farisaica do que os fariseus. 

P.Casimiro João                smbn

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