domingo, 28 de março de 2021

As Semelhanças e as Diferenças entre a Aliança de SIQUÉM e a Aliança do SINAI. A importância de Siquém para a formação do Povo de Israel.


 

Antes que Israel vivesse a época da monarquia teve que passar pela 1ª fase da organização de um povo, que eram as tribos. Foi a época dos Juízes. Essa foi um tipo de confederação tribal semelhante ao que aconteceu na Grécia e na Asia Menor. Isto levou uns 200 anos.

Aí nesse teste se acostumaram pouco a pouco à convivência com o cultivo da terra e lavoura familiar, que não tinham nunca praticado. Além do costume de povos errantes e nômades, eles pertenciam às classes mais baixas e viviam numa situação desesperadamente pobre.

Até que, já cansados de viver o aprendizado das tribos, acharam que tinha chegado o tempo de ter o seu Rei, e deram o grito a Samuel: “Nós queremos um Rei como as outras nações” (1 Sam.8,5).

Os hebreus que foram encontrados já residentes na Palestina e em Canaã (norte da Palestina) por Moisés tinham os seus deuses, El’birit de Siquém,  e El’Elyon de Jerusalém, mas de boa mente abraçaram a nova religião e o deus do Sinai, Iahweh.

Os hebreus que saíram com Moisés do Egito levaram a nova fé e o nome de Iahweh da Aliança do Sinai e os comunicaram aos antigos irmãos hebreus já moradores de há muitos na Palestina. Os historiadores dizem uma particularidade: Não foi por conversões individuais que isso aconteceu, mas por uma cerimônia de conversão em massa. E essa cerimônia de conversão em massa deu-se na chamada Aliança de Siquém, depois da Aliança do Sinai.

Podemos notar que o fenômeno da Aliança de Siquém teve tanta ou paralela importância quanto a Aliança do Sinai. Com a diferença: que a Aliança do Siquém já foi feita e confirmada com todo o povo dos hebreus, enquanto que a Aliança do Sinai tinha acontecido só com o pequeno grupo de Moisés. Segunda diferença: que a aliança do pequeno grupo de Moisés, do Sinai é que levou o rastilho e o fogo para “incendiar” a grande aliança do Siquém. “A unificação das tribos deverá ser atribuída não a conversões individuais mas deve ter ocorrido mediante alguma cerimônia solene de ‘conversão em massa’ como a grande aliança em Siquém” (J.Bright, 206). (Jos.24).

Estava adotado o monoteísmo como obediência, não abstraindo nomes de outras divindades. Em algumas partes da Palestina imagens da deusa-mãe foram encontradas. Historiadores atribuem isso a uma concessão de sincretismo, como outros deuses alternativos não foram descartados e iam tendo incremento e aceitação aqui e ali em toda a Palestina. Achenathon já tinha começado a incrementar a religião de um único deus, Aten, no tempo dos Madianitas, próximo do clã do sogro  de Moisés, também madianita, antes de Aliança do Sinai.

 

Escavações recentes revelaram que foram encontrados templos próximos da cidade de Aman e nas montanhas de Gerisim, perto de Siquém, que eram santuários da pequena liga das tribos pré-israeltas que já se encontravam na Palestina antes da chegada de Moisés. E continuaram a existir depois da própria aliança do Sinai, porque a conversão e o desapegar-se de velhas tradições não é uma coisa automática. 

O paralelismo da Aliança do Sinai com as alianças dos povos vizinhos com seu Rei é evidente. Esses tratados começavam com um preâmbulo no qual o Grande Rei se identificava; “Estas são as palavras do vosso Rei, de nome tal”. Em seguida vêm as façanhas e os benefícios do Grande Rei, que obrigavam os vassalos à aceitação e gratidão pelo Rei.

Por fim vinham as obrigações para com o Grande Rei: essas obrigações proibiam ralações com estrangeiros, como também inimizades com os mesmos vassalos do Império. O vassalo devia  estar sempre pronto a servir o Rei com a maior vontade “de todo o coração”.

E eram invocados os deuses das montanhas, dos rios, das águas e do céu e da terra como testemunhas. O vassalo deve ter um só soberano. Nesse esquema foi composta a aliança do Sinai. Exemplo disso é o Cântico de Moisés, onde ele invoca também o céu, a terra, as montanhas e colinas como testemunhas. (Dt.32,1)

Como referido várias vezes, a lei do Sinai seguiu sobretudo o esquema dos códigos de leis da Mesopotâmia, Código de Hamurabi. Por outro lado, a assimilação de Israel de elementos de sacrifícios nos contatos com as tribos do deserto expõe o fato de incluírem no culto israelita ritos pagãos e uma teologia pagã de sacrifícios.

A união de Israel ficou fundamentada nisto: na consciência de todos eles terem sido um povo de errantes e sem clã, sem rei, invadindo  e servindo nas guerras dos outros; e tendo-se encontrado com um sacerdote parente de Moisés, Jetro; e tendo recebido aquela religião e aquele deus, Iahweh, por intermédio do sogro de Moisés, Jetro, conseguiram formar um povo e um reino com um só rei, Iahweh.

O povo da aliança se sentiu grato de uma “eleição” maravilhosa e gratuita, devido à sua condição “nômade, de Apirus errantes. Nunca tinham tido um rei, agora se orgulhavam de ter Iahweh. Daí veio a teocracia incrementada depois dos Juizes.

Quando este grupo se dirigiu à Palestina, lá entrou e se estabeleceu. Elementos que já estavam estabelecidos lá, adotaram a sua fé e entraram em sua estrutura por meio da cerimônia referida, de Siquém. Isso representou, de certo modo, nova aliança, porque foi feita com uma nova geração e com elementos que antes não eram adoradores de Iahweh.

Encerrando esta matéria, podemos comparar agora a  importância de Siquém para a formação do Povo de Israel: As Semelhanças e as Diferenças  entre a Aliança do SINAI e a Aliança de SIQUÉM.

P. Casimiro    smbn

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sábado, 20 de março de 2021

A “Arca de Noé” na Lua; Minas de Cobre e Ferro no Monte Sinai; Os Madianitas Iniciaram Moisés no Culto a Javé no Sinai.


 

Vamos tratar da descrição bíblica e descrição arqueológica da formação de Israel, passagem do mar, Sinai e deserto, e conquista da Palestina a Canaã; o nome de Israel e o nome de Iaweh.

Vimos em páginas anteriores que na Idade do Bronze antigo, Médio e Recente (3.000 -1.1700 a.C.) clãs de agricultores, pastores e guerreiros se movimentavam por toda a área da Mesopotâmia, Síria, Turquia, e Egito, e Canaã. Civilizações e cidades, povoados eram construídos, e destruídos por novas ondas de invasões.

Pelos anos de 2.500-2.000 começaram os carros de rodas, leves e de raios, e impulsionaram as guerras. Quem os tinha, correspondia agora a ter tanques e carros de assalto. No Sinai exploravam-se minas de ferro e de bronze, e os ferreiros se aperfeiçoava em instrumentos de guerra com lanças, espadas e arcos.

Por outro lado, a localização do Sinai descrito na Bíblia  não é uma certeza de localização segundo a arqueologia porque o Sinai era uma península com três locais chamados Sinai: o Sinai do Sul, outro ao Noroeste limitando com a Arábia, formado de vulcões, e outro ao Norte da península.

A península do Sinai passava de um império para outro conforme as conquistas e guerras entre Amoritas, Hititas, Caldeus, Hurrianos, Síros e Babilônicos, e Hicsos. Esses impérios referiam-se a uma tribo chamada Hurú, que os historiadores identificam com os antepassados dos hebreus. E também outros indivíduos chamados Apirus, que não eram clã, mas o nome genérico de indivíduos sem clã, sem cidades, e vagantes entre clãs, que viviam entre assaltos, e trabalhos assalariados ou contratados como guerreiros. Estes também se instalaram na Palestina.

Depois dos Hicsos dominarem o Egito, na Idade do Bronze Médio, o rei Meneptá contratou vários Apirus para os trabalhos no Egito. E Amenófis II levou cativos milhares deles como prisioneiros de guerra em incursões que fez na Palestina. Ali teriam feito muitos trabalhos até Ramsés II, como a reconstrução de cidades. É nas Cartas do rei Meneptá onde aparece pela primeira vez o nome de Israel já na Palestina, antes da chegada do grupo do deserto com  Moisés.

Com o declínio de Meneptá e Amenófis II muitos destes Apiru aproveitarm para escapar do Egito. E junto com eles aproveitaram a oportunidade também muitos trabalhadores egípcios para fugir  dos seus odiados senhores. Por sua vez, nas suas viagens encontravam outros clãs dominados por amoritas e hurrianos  que não estavam dispostos a obedecer mais aos seus clãs. Muitos foram se juntar aos operários da mineração do Sinai do Sul, onde tinha minas de cobre e ferro, e outros avançaram para Canaã e Palestina.

Na história mundial aconteceu nesta época a maior descoberta que foi a descoberta da escrita. Começou na Mesopotâmia com os caldeus, no ano 2.500 a.C. em escria cuneiforme. Mas foram os habitantes de Canaã que a aperfeiçoaram inventando a escrita linear que foi a antepassada da nossa escrita. A época das origens de Israel, na verdade, foi uma época de expansão cultural.

Estes acontecimentos pertenciam aos movimentos dos impérios da Idade do Bronze Médio e Recente, antes da chegada de Moisés. Por isso quando o grupo de Moisés chegou lá na Palestina alguns anos mais tarde já encontrou todos esses hebreus já residentes em Canaã.

Dizem os historiadores que Moisés deve ter recebido a religião de Iaweh que o sogro já praticava nas tribos dos Amoritas, na região do Sinai, onde ele, Jetro era chefe de clã e o sacerdote  do clã (Êx.18,1).

Depois desta primeira fuga de vários hebreus e egípcios, outro grupo se organizou à volta de Moisés, e foram-se juntar aos hebreus que já tinham partido anteriormente para a Palestina.

O grupo formado pela aliança do Sinai dirigiu-se para Cádis, que era um Oásis. Depois de Cádis e após demoras e aventuras chegaram a Seón, reino  de clãs amoritas, composto de agricultores de colonos hebreus chegados antes, e de pastores de várias proveniências. Os hebreus receberam os recém-chegados de braços abertos, assim como o restante da população, que já tinha ouvido falar deles e da nova religião. O rei de Seón consta que ficou só com alguns guerreiros da sua guarnição, e finalmente também estes se passaram para o lado de Moisés. A Bíblia dá este entendimento no episódio de Balaão.(Num.22,21-41).

Os israelitas do grupo de Moisés entraram na Palestina trazendo sua nova fé, e com eles numerosas cidades e povoados que já tinham-se passado para o seu lado. Foi assim que chegaram a Siquém, cidade que era o centro do maior grupo de colonos hebreus antigos.

Assim que a conquista se concluiu, os representantes de todos os componentes e clãs se reuniram em Siquém e ali, numa aliança solene se comprometeram a ser o povo de Javé e adorar unicamente a ele. (Jos. Cap.24). Lembremos que uns 150 anos antes de Moisés o rei Aquinatón tinha estabelecido já uma religião monoteísta pro seu povo. Assim a estrutura de Israel assumiu na sua forma clânica, uma religião monoteísta podendo-se mesmo dizer que ali teve o inicio a história de Javé como Povo.

Como  vimos, de todo o Israel da Bíblia nem todos, mas só um pequeno número estava na aliança do Sinai. Foi o grupo do deserto, porque a maioria já estavam estabelecidos  na Palestina e Canaã muito tempo atrás nas antigas andanças de reinos e clãs. Inclusive, este grupo de hebreus já antigos moradores na Palestina é que até mantinham o controle de Siquém, como um Estado governado por eles. Eles tinham os deus deles, como El’birit, de Siquém; e El’Elyon de Jerusalém. Com a chegada do grupo do deserto adotaram Javé que Moisés recebeu do sogro.

Vamos agora falar do nome de Israel e de Iahweh. Israel já era o nome de um clã dos hebreus que estavam há tempos na mineração das minas do Sinai (Jhon Bright, Historia de Israel, 163). Quando parou a vinda de egípcios, foram eles que tomaram o comando das Minas e se aliaram aos madiantias. Foi aí que Moisés recebeu de Jetro, seu sogro o culto de Iahweh. Javé era o deus dos madianitas, e Jetro o seu sacerdote. Estes madianitas eram também chamados de quenitas, i.é, ferreiros, por conta do trabalho nas minas.

Escavações nesse local encontraram panos coloridos de tipo cortinado dessa época que devem ter sido panos das Tendas. E uma serpente de bronze pintada, que lembra a “sepente de bronze” do deserto. (Num.21,6).

A narração bíblica de Josué foi composta no final do séc.VII descrevendo fatos como tendo acontecido há mais de 600 anos atrás em estilo épico; é preciso levar isso em consideração. Um caso típico está na cidade de Jericó. Na época escrita em Josué não foi encontrado nenhum vestígio da existência de muralhas. A arqueologia demonstrou que Jericó era simplesmente um lugarejo. Assim como a cidade de Aia; as duas são parte de uma lenda para impressionar. Aliás essas duas cidades já não existiam na época da chegada à Palestina.

Esta nova visão impede-nos de supor que os israelitas irromperam repentinamente do deserto numa avalanche poderosa deixando arrasadas muitas cidades ao cabo de campanhas violentas. Eles eram em número relativamente pequeno. Eles se juntaram aos que já estavam lá muito tempo atrás.

Encerrando agora a nossa matéria, vem à mente uma pergunta. Uai, e não parece tudo tão natural assim? E onde está a ação de Deus?

Na verdade, Deus anda com a história. Quando os homens forem para a Lua e Marte, Deus vai viajar com eles. E os primeiros que nascerem lá vão dizer: “Deus nos trouxe até aqui, da Terra, e nos acompanhou” – GLÓRIA A DEUS!  Até já chegou à Lua a Arca de Noé. Você não está por dentro? Pesquise no Google, senão eu explicarei na próxima semana.

P.Casimiro   smbn

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domingo, 14 de março de 2021

Akhenaton e a Primeira Nação Monoteísta da História antes de Moisés.; Os Reis e a Religião até ao Avanço do Estado Laico.


 

Quinhentos anos antes de Moisés já houve um rei que decretou o monoteísmo, i.é a obrigação de ”adorar só um deus” e “não ter outros deus e outras imagens”.

A primeira vez que apareceu o monoteísmo no mundo não foi com Moisés e o povo de Israel mas om o rei Akhenaton ( o povo que adora um só deus), uns quinhentos anos antes de Moisés. O rei era Akhenaton, e o deus único era Aten, em vez de Javé.

Antigamente o rei e a religião eram uma coisa só. Os funcionários da religião tinham o rei como seu chefe. O rei mandava nas festas, fazia as leis e o culto e nomeava  os cargos. Todo o Antigo Testamento atesta este procedimento também.

No Novo Testamento, durante o poder romano na Palestina era a mesma coisa: era o imperador ou o governador Pôncio Pilatos que nomeava o Sumo Sacerdote, e eles só faziam o  que o governador queria.

Na Idade Média inverteram-se os papéis. Aí o Papa ficou até mandando nos imperadores. Ele aceitava ou não aceitava. Eles tinham que dar grandes somas de dinheiro para o Papa.

No século 15 começaram as brigas. Nós estamos acostumados com a ideia dos Protestantes, com Lutero, no século 16. Porém, digamos, o primeiro protestante foi antes de Lutero, no século 15 e foi o Frei italiano Lorenzo Valla. Este Frei provou, em 1440, que a Doação dos Estados Pontifícios por Constantino ao Papado foi uma farsa, ou seja, uma falsa doação com assinatura falsa, como tendo  sido feita por Constantino em 314. Ora o Lorenzo Valla provou que o documento é de 754, portanto 440 anos depois da morte do imperador Constantino. Daí resultou a briga e a perda dos Estados Pontifícios em 1870, na época de Pio IX. Ficando o Papa apenas com a Cidade do Vaticano, ou Estado do Vaticano com acordo firmado finalmente com Pio XI em 1929, chamado o Tratado de Latrão.

No século 15 houve o famoso Tratado de Tordesilhas, em 1494, em que o Papa junto com os reis de Espanha e Portugal dividiram a América do Sul ao meio, ficando a parte Oeste para a Espanha e a parte Leste para Portugal. O Papa mandava até na ciência: era só o que e como a Igreja dizia.

No século 18 e 19, com as novas teorias do Iluminismo e das Ciências Humanas os pensadores começaram a se independenciar. Para aumentar, vieram os achados arqueológicos que mexeram com a Bíblia. Aí os Papas começaram a ficar pior. Alguns valeram-se dos Decretos de condenação e dos Dogmas como último recurso para reforçar a sua autoridade. Mas bastantes coisas viam-se que não surtiam aqueles efeitos pretendidos. Alguns dogmas aconteceram no meio desta turbulência para satisfazer a ambição momentânea.

No século 18 veio a Revolução Francesa, com o tripé Igualdade, Fraternidade, Liberdade. O mundo estava cansado de “obedecer” servilmente tanto ao Rei como ao Papa. Liberdades individuais e liberdade de escolher os chefes da Nações. Acabaram  monarquias, os Países tornaram-se independentes, acabaram-se as Colônias. E veio a liberdade de consciência, segundo a qual cada cidadão era livre de seguir a sua religião.

A Ciência independenciou-se do Papa e ficava livre de fazer suas investigações. Custou caro, mas foi certo. Até que sobre este assunto permanece nalguns eclesiásticos a mania de continuar pensando que a Igreja tem ainda a última palavra sobre a ciência, e de mandar na ciência. Isto está fora de época e fora do prazo de validade como fruta passada. Como em se tratando por exemplo de engenharia genética, embrionária etc. Será que a Igreja quererá também mandar na engenharia civil das estradas, pontes, e das viagens à Lua?

Com isto chegou a filosofia do Estado Laico: a separação de poderes: nem  o Estado manda nas normas da Igreja, nem a Igreja se intromete na regulamentação do Estado. No Estado todas as religiões são consideradas por igual. Ah, mas eu católico, ou protestante, vou torcer pela minha igreja. Negativo. Seja católico ou protestante na tua prática pessoal e na família, mas como estadista não. O Brasil pertence ao sistema de ser um Estado Laico.

P.Casimiro     smbn

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segunda-feira, 8 de março de 2021

Leis e “Todo o Poder Vem de Deus”? Substrato Arqueológico e Histórico Dessa Afirmação, e as Influências no Novo Testamento.


 O rei Hamurabi quando fez o primeiro Código de leis da história assim conhecido Código de Hamurabi, (1.700 a.C.) exibe a figura do Schamasch, o deus Sol para dizer que ele era o representante do deus e a figura era como o carimbo do seu deus para todos os povos. Desse modo as leis começavam a ser vistas como vindas de Deus.

Esta concepção veio permeando a história de todos os povos até chegar ao nosso tempo. E até nos autores do Novo Testamento, onde prevalecia o ditado que “todo o poder vem de Deus”. Por isso Hamurabi terminava seu Código com a proibição que essas leis não podiam ser tocadas nem alteradas porque eram divinas.

De fato o Novo Testamento nada mais faz do que copiar os autores do Antigo Testamento, que tinham copiado do Código de Hamurabi. Podemos ver isso no Livro da Sabedoria, cap. 2; e Provérbios 8,15. E São Paulo copiou e escreveu para os Romanos: “ Obedecei às pessoas de poder porque todo o poder vem de Deus” (Rom.8,13).

É bom saber também que, como diremos à frente, muito material do Código de Hamurabi foi copiado para o Código de Moisés do Sinai. E também é interessante saber que o primeiro povo de um só deus, monoteísta, não foi Israel, mas já tinha sido o povo do rei Akhenaton, uns 500 anos atrás.

Para vermos o ambiente em que São Paulo escreveu, vejamos que ele herdou esses conceitos na formação de rabino que ele tinha,  em segundo lugar ele e os cristãos estavam no meio de perseguições. E suas cartas tinham um duplo objetivo, primeiro, não bater de frente com o poder de Roma que estava matando os cristãos, e segundo, tornar o cristianismo aceitável pelos cidadãos romanos e pelo poder romano, para parar com as perseguições. Foi esse o ambiente em que Paulo escreveu para apaziguar os ânimos e tornar o cristianismo uma religião simpática aos romanos.

Como dito já aqui noutro lugar, enquanto os cristãos faziam parte das sinagogas judaicas, o governo não perseguia, porque os Judeus tinham leis que os aceitavam como religião no Estado, mas quando os cristãos se separaram dos Judeus e das Sinagogas,(ano 70 d.C.), eles ficaram como uma religião fora da lei, separados dos Judeus, pelo que estavam sujeitos  todo momento a ser perseguidos, presos e mortos.

Viria depois com os gregos a noção filosófica que os direitos humanos são anteriores às leis escritas que dependem do momento e dos caprichos e  interesses individuais  e grupais de quem as faz. (Antígona e Sófocles, (441 a.C.).

Na Idade Média foi alimentada esta concepção, vindo só a resolver-se com a Revolução Francesa (1788), que deu origem à Declaração dos Direitos Humanos, e com as teorias do Iluminismo e as novas Ciências Humanas. Tão entranhada estava esta ideia, que a Igreja católica foi a última das Instituições a reconhecer os Direitos Humanos assim como a liberdade de consciência.

Desde o homem das cavernas e a domesticação dos camelos em 1.900 a.C. aparece então o 1º Código de Leis com o carimbo do deus Sol.

As últimas investigações arqueológicas chegaram à conclusão de que não é possível fixar a data dos Patriarcas. E há evidências de que a história deles se mistura com outras dos mesmos povos distantes no tempo.

Na verdade, deve ser lembrado que na última parte do 3ºmilênio a.C. as civilizações de Idade do Bronze antigo (3.000 a.C.) chegaram ao fim, e as cidades foram destruídas e abandonadas. Séculos se passaram. Um povo de Amoritas invadiu todos os territórios do Crescente Fértil (Médio Oriente) e destruiu toda a civilização, assim como fizeram os bárbaros no séc.V na Europa. Só  que aqui foi em Ur e na Mesopotâmia. Até esta data não se encontraram nos documentos da história mundial sinais de referências de nenhum nome histórico de Israel.

Também não podemos dizer com certeza quando o povo de Israel desceu para o Egito. Aliás essa é uma questão que ainda nem pode ser cogitada porque nesta data ainda não existia o povo de Israel. As cidades mais conhecidas nesta época eram as cidades de Mari, Ur, e Harã e Ebla, na Mesopotâmia e na Turquia.

A maioria dos textos e documentos desta época foram encontrados em Mari e em Ebla. Foi dado como certo que no Egito antigo (3.500 a.C.) havia já a prática e o exercício da profecia sendo o mais conhecido o profeta Neferti, e também nestas culturas havia profetas e profecias.

Os textos da cidade de Mari (3.000 a.C.) mostram-nos muito bem que a profecia foi levada para Israel pelos antepassados deste meio cultural onde ela já existia. E do mesmo jeito que a profecia, também os códigos de leis, como os de Eshunna e de Hamurabi. Portanto, assim como a profecia, também o Código do Sinai foi trazido da Mesopotâmia. Assim como as tradições da criação e do Dilúvio.

Além do Código de Hamurabi, foi escrito o poema de Gilgamesh, onde as histórias do jardim do Éden e da Torre de Babel foram escritas primeiro que o Gênesis. E influenciaram a escrita do Gênesis. Porquê? Porque os Israelitas eram mesopotâmicos e amoritas, e quando se estabeleceram na Palestina levaram com eles essas literaturas que eles já sabiam de cor.

Quando a civilização sumérica chegou ao fim por volta do ano 2.000 a.C. a região da Mesopotâmia fragmentou-se em vários Estados. Durante mais de  200 anos estas cidades mantiveram-se em lutas constantes. Nesta situação Hamurabi herdou de seu pai o trono da Babilônia. Ele conseguiu unificar toda a Mesopotâmia: as tribos dos Sumérios, dos Acádicos, e dos Amoritas. E também unificou as suas línguas num só idioma, que mais tarde virou o aramaico, como veremos á frente.

O rei Hamurabi fez o primeiro Código de Leis. Porquê? Porque a palavra oral já não mais bastava para garantir a ordem. Surgiu então a produção da lei escrita manifestada inicialmente no barro e em papiros bem como gravada em ossos de animais. Assim surgiu o primeiro Código de Hamurabi escrito num único bloco de pedra, com 282 artigos que expressavam as leis do rei.

Falemos agora da língua aramaica. Estamos acostumados a unir a língua aramaica aos hebreus. Porém, ela se originou da junção de todas as línguas unificadas pelo rei Hamurabi quando pacificou as tribos, na época que publicou o Código de leis. A pré-história dos Patriarcas de Israel se encontra de mistura com estes povos. Nesta época remota do 2º milênio a.C. havia o costume de os clans estabelecerem aliança entre o chefe do clan e o seu deus. Por outro lado, os antepassados dos patriarcas pertenciam a esta cultura e faziam igualmente já esse tipo de aliança com o seu deus. (Cf.Jhon Bright, História de Israel, 119).

Os historiadores concluem que devemos colocar as antepassados de Israel entre os clans vindos para a Palestina no início da Idade do Bronze (3.000 a 2.500 a.C.). Mas continuavam fazendo parte do império de Hamurabi.

Daí em diante começa a história de Abraão, Isaque e Jacó, que a Bíblia descreve como pessoas isoladas, mas na verdade seriam chefes de clans na mistura com as confederações ainda existentes, na sua época, onde todos os chefes de clans faziam alianças com o seu deus.

Estaremos agora mais capacitados para responder à questão inicial: As “Leis” e “todo o poder vem de Deus”?

P.Casimiro          SMBN

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sábado, 27 de fevereiro de 2021

Sacrifícios de animais e sacrifícios humanos na história da humanidade, e os dois polos positivo e negativo da Aliança na teologia de São Paulo.


 

Em primeiro lugar vamos falar dos sacrifícios de animais. Sacrifícios eram oferecidos aos deuses, em primeiro lugar para seu sustento e para manutenção do seu poder, que diminuiria sem o sacrifício.

Segundo, como troca com os deuses: promover favores, em retribuição pelos sacrifícios; Terceiro, como bode expiatório: o animal é punido no lugar do pecador. O alvo era aplacar a ira dos deuses, que de outra maneira recairia sobre todos os homens; Quarto, a vítima vira coisa sagrada porque fica sendo propriedade dos deuses.

Em segundo lugar falemos dos sacrifícios humanos: Primeiro: Eram oferecidas vítimas humanas na criação de um templo; Segundo, na morte de um rei, para que o sacrificado servisse ao morto na próxima vida; Terceiro, em desastres naturais: secas, terremotos, ciclones, tempestades, como sinais da fúria dos deuses.

Na China, o primeiro imperador Liu Hong acabou com esse costume de ser enterrado com outros seres humanos, no ano 2.000 antes de Cristo. Em vez disso, foi sepultado com milhares de estatuetas para protegê-lo na vida futura. Esses milhares de estatuetas representavam soldados, cavaleiros, carros de combate, torres de defesa e trombetas.

Escavações nos povos Incas e Astecas da América do Sul, nos Andes, e dos Maias no México também trouxeram à luz esses sacrifícios humanos.

Em Ur, na Mesopotâmia, pelos anos 4.500 antes de Cristo, e no Egito nos anos 5.000 a.C. os faraós antes das Pirâmides, tinham em sua companhia sacrifícios humanos.

Entre os Judeus, Manassés sacrificou o seu filho ao deus Moloc(2R,21,6). E a filha de Jefté também foi sacrificada por seu pai (Juizes, 22,31).             

Entre os Judeus também é famosa a morte dos primogênitos de todo o Egito (Êx.cap.11) para impactar o faraó e permitir a partida dos Israelitas. Assim como é famoso o sacrifício de Isaac.(Gên.cap.22).

Aqui foi para destacar a fé ou obediência de Abraão. Como um dia seria necessário a obediência à Aliança do Sinai, então colocaram essa obediência de Abraão como exemplo e paradigma. Uma estratégia literária muito inteligente. Na verdade, como observa John Brigth, esta como outras cenas, podem muito bem ser “consideradas como uma projeção no passado de crenças posteriores” (História de Israel, 97).

Na história teológica de Israel a ordem cronológica foi invertida em cima deste acontecimento. Isto é, não veio primeiro o sacrifício de Isaac. Veio primeiro o Código da Aliança. Mas para destacar a obediência da Aliança, foi colocada a obediência de Abarão, como dissemos. E assim cronologicamente foi como o carro guia de toda a Aliança.

Tão importante foi assim esta estratégia que serviu para São Paulo basear toda a sua teologia da salvação pela fé e não pelas obras. “De modo que todos os homens de fé são abençoados com a bênção de Abraão homem de fé”(Gál.3,9).

Como corolário, aqui São Paulo ligou os dois fios das extremidades e soldou com a solda da sua teologia a Aliança com a Obediência de Abraão. Na verdade, na Escritura posterior só começa a se falar no Código da Aliança depois da Lei do Sinai. E na sua obediência e observância. E segundo São Paulo, esta obediência e observância era o polo negativo. “A (Aliança) do Monte Sinai gera para a escravidão”(Gál.4,24). Enquanto que o polo positivo era a obediência de Abraão. “Aqueles que têm fé serão abençoados junto com Abraão”(Gál.3,9),

Porquê polo negativo? Porque a obediência da Lei do Sinai conduziria à morte, e só o polo positivo da obediência de Abraão conduziria à vida. Os dois polos ficaram um só circo e uma só salvação, desenvolvida em toda a teologia crística de Paulo.

O que tem a ver com a oferta de sacrifícios humanos? É que no meio disso Paulo colocou o sacrifício de Cristo junto com o sacrifício de Isaac, como bode expiatório, com o nome de cordeiro. Daí em diante a salvação vem pela fé em Cristo igual a fé de Abraão.

Assim São Paulo pôs os Judeus cristãos debaixo do dilema como uma espada de Dâmocles: aceitar e seguir Cristo é a salvação; seguir a Lei é a condenação. Porque anulava toda a obra de Cristo(Gál.5,11). Qual os judeus cristãos escolheriam? Se escolhessem  a fé em Cristo teriam a salvação; se escolhessem a Lei teriam a condenação,(“Pela prática da Lei ninguém será justificado; somente pela fé em Jesus Cristo”(Gál.2,16); “Todos os que se apoiam na Lei estão sob o regime da maldição” (Gál.3,10).

Chegados ao fim da nossa reflexão, podemos imaginar como a arqueologia e a fenomenologia religiosa nos colocam numa perspectiva antropológica, e como esta antropologia alavancou São Paulo para formular a teologia cristológica e soteriológica que permaneceu e rege a Igreja até nossos dias.

P.Casimiro   SMBN

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domingo, 21 de fevereiro de 2021

A arqueologia e os ambientes da Idade do Gelo, do Mesolítico, do Paleolítico, do Neolítico, na Idade de Ferro, da Idade do Bronze e do Bronze recente antes dos Patriarcas de Israel.


 

Reportemo-nos à Idade do Gelo, 9.000 anos antes de Cristo. Antes disso os homens viviam em cavernas, quem sabe, desde 200.000 anos atrás. Era a Idade Paleolítica. Sucederam-se a Idade Neolítica ou Idade da Pedra, em que os homens viviam nas montanhas do Iraque.

Na verdade, após a Idade das cavernas, os mais antigos aldeamentos permanentes que se conhecem são de 9.000 anos a.C. Os humanos aprenderam que podiam plantar grãos e controlar  os animais em rebanhos. Foi o tempo em que começa a marcha para a civilização. De civitas, ou cidade.

O maior progresso veio logo depois, aos 4.000 a.C., com a invenção da escrita pelos Sumérios, na Mesopotâmia.

Os primeiros documentos que foram encontrados são documentos inventariais e de negócios. Isto dá sinais do progresso  ascendente da vida econômica.

Nessa época, a vida econômica se concentrava em volta do templo, O mais antigo deus que se conhece era o deus Eridu. Já tinham instrumentos de pedra, de cobre e  cerâmica.  As mais antigas figuras gravadas representam figuras sentadas de deuses, com máscaras que serviam para fins de culto. Para os mortos eles colocavam alimentos e utensílios, sinais da fé da vida além desta.

Os aldeamentos primitivos evoluíram para cidades-estado. A Cidade-Estado era uma teocracia governada pelo deus. A cidade e as terras eram propriedade do deus; o templo era o seu solar. A vida econômica era organizada em torno do templo, com seus jardins, seus campos, e seus depósitos. Todos os moradores eram súditos do deus, trabalhando na sua propriedade.

O chefe temporal da Cidade-Estado era o lugar tenente do deus do templo. O rei era o sacerdote do templo local que governava como representante do deus, e era o administrador das suas propriedades. A tradição dizia que essa realeza era proveniente do céu desde o princípio dos tempos.

Em volta  do templo floresciam também escolas de escrita que deram origem a grandes obras de literaturas épicas e os mitos. Estas histórias e mitos já vinham sendo contadas e transmitidas de épocas imemoriais. Agora, com a invenção da escrita foi possível a sua sobrevivência pela escrita, como o Gilgamesh, que serviu como estrato para outras obras, inclusive o Gênesis bíblico.

Na época do império de Sargão I, dos acádicos, já os reis deixaram de considerar o templo como centro. O centro foi transferido para o palácio residencial do rei. Por isso mesmo se concederam a si mesmos as prerrogativas divinas, eles eram o deus. O rei começou a usar a tiara de pontas, dos deuses, e seu nome aparece com o qualificativo de divino. Muito tempo antes dos “Augustos” de Roma.

A vida quotidiana dos mortais era colocada do mesmo jeito nos deuses nas suas representações do sexo, dos banquetes, numa atitude de bem viver, e luta pelo poder, alguma coisa como agora.

O deus supremo era o senhor da tempestade. Na realidade, como desde os primórdios, é o que mais assusta a humanidade, o senhor da tempestade tinha que ser o maior. Em Israel era o deus-dos-exércitos, porque na luta pelo poder tinha essa função. E a cidade que tinha o deus mais forte era a vencedora. A cidade derrotada é porque o seu deus era fraco.

As calamidades eram a ira de Deus, por conta de uma afronta. Daí veio o culto de apaziguar a ira de Deus  por meio de sacrifícios. Vêm da pré-história os sacrifícios dos animais, e até de seres humanos: pré história que chegou ao Novo Testamento na história dos sacrifícios de animais e do cordeiro.

Hoje em dia tem uma tendência herdada daí, e também da mentalidade judaica como expressa na Carta aos Hebreus, escrita por um judeu convertido, de que a eucaristia é um rito sacrificial. Era por isso que em toda a Idade Média se “assistia à missa” de joelhos.

As novas orientações indicam que seja de pé para manifestar a ressurreição. Os que hoje pensam voltar ao passado, nos joelhos, esquecem aquela aclamação da Missa: “anunciamos Senhor a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição”(Liturgia eucarística).

Nos tempos antigos do Egito, Idade do Bronze, 3.000 anos a.C aconteceram os maiores avanços do Egito. O faraó não era um vice-rei que governava por eleição divina, nem era um homem que tinha sido deificado, ele era um deus visível entre o seu povo. Nos povos anteriores havia códigos de leis. O primeiro código conhecido é o de Ur III em 1.800 a.C. Porém o faraó não tinha nenhum código de leis. Lá tudo era imutável porque o mundo se segurava no seu centro que era o faraó.

Nessa época do Bronze antigo foram construídas as maiores pirâmides do Egito, as moradas dos reis-deuses, e exploradas as minas de cobre do Sinai. Floresceu nessa época a maior literatura do Egito, entre ela tinha profetas e textos execratórios, que eram tipos de previsões escritas contra os inimigos. Foram encontradas estelas desfeitas em cacos que significavam que as profecias tinham-se realizado no esmagamento dos inimigos contra quem era dirigidas. Entre os profetas ficou famoso o profeta Neferti, da corte do faraó.

Ainda não tinha chegado o tempo dos Patriarcas de Israel, nestes anos de 3.000 a.C.  Chegou a Idade do Bronze recente, 2060-1.900 em que houve uma convulsão geral nesse mundo antigo. A história conta centenas de migrações em todo o Oriente Médio. Povos antes nunca vistos invadiram e destruíram cidades e civilizações. Entre esses, depois dos Sumérios, vieram os acádicos, amoritas, babilônicos, ugaríticos, hurrianos, hititas, indo-arianos, e finalmente os Hicsos. Com estes hicsos o Egito, que tinha caído na mãos de muitos invasores, conseguiu levantar-se e continuar formando um império ainda maior do que os precedentes. É neste cenário que devem ser colocadas as narrativas dos capítulos 12-50 do Gênesis.

Com isso ficamos sabendo que os capítulos 12 a 50 do Gênesis formam o primeiro capítulo da história teológica dos seis primeiros livros da Bíblia. E também como foi antecedida essa narrativa teológica tendo como pressupostos toda a arqueologia desde a Idade   do Gelo, do Mesolítico, do Paleolítico, do Neolítico, da Idade de Ferro, do Bronze primário e do Bronze recente.

P.Casimiro   SMBN

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sábado, 13 de fevereiro de 2021

O “ANCIÃO” E O “DISCÍPULO AMADO” QUEM ERAM E O QUE SIGNIFICAM? NO EVANGELHO DE JOÃO E NAS CARTAS.


 

O Ancião à senhora eleita, e a seus filhos, que amo na verdade” (2 Jo.1,1); O “Ancião” ao caríssimo Gaio a quem amo na verdade”(3 Jo.1,1).

No testemunho do historiador Papias, “Anciãos” era os líderes seniores das Comunidades asiáticas. O “Ancião que era também João era um deles, e esse apelativo era para distingui-lo do João filho de Zebedeu e irmão de Tiago. E tinha o derivativo “presbítero” quando falado em grego. No decorrer dos anos ele ficou o único “Ancião” por antonomásia devido à sua longevidade.

A expectativa dos primeiros cristãos de que a parusía aconteceria durante a vida da primeira geração de cristãos ficou, por assim dizer, focalizada nesse discípulo particular depois que a maioria dos outros tinha morrido. E a sua excepcional longevidade eles atribuíram ao desejo do Senhor de que esse discípulo deveria sobreviver até a sua vinda na glória: “Que te  importas se eu quero que ele fique até que eu venha? Corria o boato entre os irmãos de que aquele discípulo não morreria”(Jo,21,22).

Santo Irineu também entendia esse termo de Ancião como referência à geração dos líderes cristãos asiáticos que não tinham sido discípulos de Jesus, mas haviam conhecido aqueles que o foram. E dá conta de um outro discípulo com o  nome de Aristão.

O próprio autor do Códice Muratoriano, que é a primeira lista do Novo Testamento diz que o “Ancião” era discípulo mas não membro dos Doze, assim como Aristão. Há documentos que reúnem alguns nomes de cristãos que incentivaram o “Ancião” a testemunhar sobre o que ele sabia sobre Jesus. É nesse sentido que vai aquele dito: “Este é o discípulo que dá testemunho de todas estas coisas, e as escreveu. E sabemos que é digno de fé o seu testemunho” (Jo.21,24).

Portanto, como escreve Richard Bauckham, alguns escritores do segundo século estavam conscientes de que este homem “o Ancião” não era João, o filho de Zebedeu. No decurso do tempo, porém, os dois chegaram a ser identificados. As evidências mais antigas foram mal compreendidas por terem sido lidas à luz das mais recentes” (Testemunhas oculares,530).

O evangelho de João relata um rumor de que o discípulo Amado sobreviveria até a parusia, e ressalta que é um boato baseado em um mal-entendido em torno de algo que Jesus teria dito. Qual era o mal-entendido que originou o boato?

Foi baseado no último capítulo de João, que decididamente é um acrescento dessa época já mais tardia: “E voltando-se Pedro, viu que o seguia aquele discípulo que Jesus amava. Vendo-o, Pedro perguntou a Jesus: Senhor, e este? Que será dele? Respondeu-lhe Jesus: que te  importa se eu quero que ele fique até que eu venha? Correu por isso o boato entre os irmãos de que aquele discípulo não morreria. Mas Jesus não lhes disse: “não morrerá, mas: “que te  importa se eu quero que ele fique até que eu venha?”(Jo.21,20-23).

O “boato” então era que aquele discípulo não morreria. E como a expectativa dos  primeiros cristãos era de que a parusia aconteceria ainda na vida deles, focalizaram a atenção nesse discípulo, que também iria sobreviver até ao retorno do Senhor. Nessa hora o filho de Zebedeu já estava morto, mas João, o “Ancião” ainda vivia.

E porquê “Discípulo Amado”? Autores confiáveis afirmam que é uma metáfora que ficou no evangelho de João, e só aí, referindo-se à cara da comunidade joanina para destacá-la das comunidades de Pedro e as outras de Paulo. Por isso não duvidaram trazer á cena com esse artifício a lentidão de Pedro na ressurreição, transferindo a mais valia de João que correu primeiro ao túmulo porque amava mais. “Corriam juntos, mas “Aquele outro discípulo” correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo”. (Jo.20,4). 

Esta narrativa é repetida em lugar paralelo na pescaria: “Aquele discípulo a “quem Jesus amava” disse a Pedro: “é o Senhor” (Jo 21,7). Além do mesmo episódio no acrescento final do evangelho da Ceia: “Pedro viu aquele discípulo que “Jesus amava, aquele que estivera reclinado sobre seu o peito durante a Ceia”.(Jo.20,20).

Terminando estas considerações, devemos concluir que o “evangelho de João”, sendo o evangelho composto pelas comunidades joaninas, como é do comum acordo hoje entre os exegetas, fizeram deste tema um tema que lhes dizia muito respeito e muito gratificante para elas. E ainda mais quando se sabe que essa segunda parte e última desse capítulo vinte e um, onde vem todo este cenário já foi um outro acrescento ao próprio primeiro evangelho.

Encerrando, vimos neste tema o significado de “Ancião” e quem era, e porquê. E que além desta antonomásia de Ancião levava outra de Ðiscípulo Amado”. E que nem um, nem o outro eram o João filho de Zebedeu, mas esse discípulo que pode ter acompanhado Jesus mas não era dos Doze.

E a última conclusão “Discípulo Amado”, o artifício literário aplicado para a própria comunidade como sendo a “comunidade que Jesus amava”, como escondendo a pretensão de descrever, debaixo do título de “Discípulo que Jesus amava” a comunidade deles como a “comunidade que Jesus amava”.

P.Casimiro    smbn

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