segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

QUANDO JESUS MANDOU OS SUMOS SACERDOTES E ANCIÃOS IR Á MISSA.

 

Já pelo final da vida de Jesus, aconteceram cenas carregadas de ironia. Certa vez Jesus entrou no Templo e olhou o ambiente. Deu umas voltas por Betânia, e de volta expulsou do templo a bagunça de comércio e câmbios de dinheiro pagão por dinheiro judeu, Mt.21,12: 1ª cena. Em segunda cena apareceram uns grupos de crianças gritando “hosana ao filho de Davi” Mt.21,16. E ali na hora fez curas de coxos e aleijados dentro do Templo Mt.21,14. Em 3ª cena, tinha constado que Jesus tinha feito secar as folhas de uma figueira encostada no Templo, com uma maldição, Mt.21,18. Em 4ª cena, teria dito: “Se tiverdes fé e não duvidarem, não só fareis o que foi feito a esta figueira, mas ainda se disserem a esta montanha: levanta-te daí e atira-te ao mar, isso se fará” Mt 21,21. Em 5ª cena Jesus entrou de novo no Templo e começou a expulsar os que no Templo vendiam e compravam e derribou as mesas Mc.11,15. Em 6ª cena apareceram os sumos sacerdotes e anciãos e perguntaram: “Com que autoridade fazes estas coisas, quem te deu tal autoridade?” Mt.21,23; E em 7ª cena, a resposta de Jesus caiu como um raio: Vocês vão me dizer de onde veio o batismo de João, do céu ou dos homens, se me responderem eu também responderei”Mt.21,24.  Eles então responderam laconicamente: “Não sabemos. Ao que Jesus também respondeu: “Também eu não lhes direi com que autoridade faço estas coisas” . Em bom português antigo era como se dissesse, “então vão à missa,”  e em bom português moderno “então vão à M.” Observações à 2ª cena, as folhas da figueira: a figueira e suas folhas sem fruto era o símbolo do Templo: Assim como a figueira foi amaldiçoada porque não produzia frutos e secou por completo, assim isso era maldição para o Templo, que devia desaparecer igual a figueira, porque era a base do sistema judeu assente sobre o Templo que não produzia obra nenhuma de salvação mas só espetáculo com seus “cultos e sacrifícios abomináveis” Ez.5,11  e seu sacerdócio inútil. Ai a autoridade de Jesus começou a criar a raiva dos Sacerdotes e anciãos (Cf. W.Carter, o Evanglho de Mateus, p.527). Observações à 4ª cena, de “jogar uma montanha no mar”. A “montanha” referia-se ao Templo, pois o Templo estava construído na montanha, o “monte de Sião”, Sal.125,1. O Templo estava sendo inútil, como a figueira se tornou inútil. Mais, o Templo cheio de ladrões, e “covil de ladrões” Mt.21,13 tinha-se tornado igual ao homem dos túmulos, que, possesso de demônios,  convivia com a manada dos porcos, os quais se jogaram no mar à ordem de Jesus, Mc.5,1-20. Assim, aqueles que agissem como Jesus, podiam viver sem o Templo, que estando cheio de “porcos” - demônios, era melhor ser jogado a atirado ao mar (cf. o.c.p.529). Vejam o grau que aumentou a raiva dos Sacerdotes e anciãos... Observações à 6ª cena “com que autoridade fazes estas coisas”? Aí os Sacerdotes não se contiveram mais e, encrespados, vociferaram a pergunta” “Com que autoridade fazes estas coisas”?  Porque nós somos o Sinédrio: nomeados e credenciados por Roma, e nomeados e credenciados pela Lei de Moisés, somos o Templo, somos a linha sacerdotal, autoridade sacerdotal e do império. Esta nossa autoridade vem do céu e da terra, porque o Sinédrio governa o céu e a terra em todo mundo. Nossa autoridade foi dada do céu. E o que você tem, de onde você recebeu alguma autoridade? Resposta de Jesus: 7ª cena: Me digam agora de onde veio o batismo de João, do céu, ou dos homens? Se me disserem eu também lhes direi com que autoridade faço estas coisas” Mt.21,25. Cochicharam com a mente e com os olhos pensando “Se dissermos que veio do céu vai-nos dizer ‘porque não acreditaram nele? Se dissermos que veio dos homens temos medo do povo que tem João como um grande profeta” E então balbuciaram: “Não sabemos” Mt.21,26.

Conclusão. Daí a resposta de Jesus do nosso título: “Também eu não lhes digo com que autoridade faço estas coisas” Mt.21,27, o que no velho português diziam “Então vão todos à missa”.

P.Casimiro João    smbn

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segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

A RELIGIÃO DO SEMPRE FOI ASSIM

 

Uma senhora de 60 anos, entrevistada num supermercado, atribuía as culpas de não ser alfabetizada ao seu velho pai que dizia “   sempre foi assim, mulher não vai à escola, sempre foi assim.” Quem sabe, por conta desse “sempre foi assim” há um grande país no mundo com 210 milhões de habitantes e tem 9 por cento de analfabetos, ou seja 13 milhões. É um país chamado Brasil. Ocupa o oitavo lugar no mundo do analfabetismo. Também não admira que tenha havido um ministro da educação que declarava  publicamente, há meia dúzia de anos, que “pobre não pode ser doutor, isso é coisa de rico, e “sempre foi assim”, e que chamava de “vagabundos os pobres” (Eduardo Moreira,    ESTADÃO, 25/10/2022). E, para adequar com esse objetivo foram inventadas manobras para diminuir o número de alunos nas universidades e alienar os jovens nas provas do ENEM, e das escolas. “Porque sempre foi assim”.  Um dia, entre as andanças pela Judeia, um homem diferente não tinha problema de se misturar com gente de má fama, e gente da rua, até para uma refeição. Os devotos e piedosos viam essa pessoa com maus olhos e o reprovavam porque estava infringindo as leis sociais antigas que proibiam essa promiscuidade. “Sempre foi assim, com a nossa separação, e o fulano extrapola”. Esse homem diferente atendia pelo nome de Jesus. E corria o boato que contava histórias como esta: o filho caçula de um rico fazendeiro saiu com a sua herança na bagagem, e viajou para a cidade grande, até gastar o último centavo. Quando se viu em apuros voltou para casa, e foi bem recebido, como um príncipe. O irmão mais velho do moço deu uma bronca no pai, porque não cumpriu a lei do castigo para esses casos. É porque sempre foi assim, pai, você tem que castigar o caçula e não está cumprindo a nossa lei. Na época do 1960, do século passado, a Igreja católica fez uma reflexão com o episcopado mundial, e entre os debates e nas conclusões, ficaram resoluções que promoviam algumas mudanças para o futuro, e o que podíamos chamar de “inovações”. Seria longo enumerá-las aqui. Essa reflexão foi longa, a mais longa de todos os concílios, de tal forma que entre as atividades e intervalos, levou quatro anos. Foi o concílio Vaticano II. Pensado e promovido pelo Papa João 23, hoje São João 23. Uma das inovações que são mais materializadas e imediatas foi largar o latim nas Liturgias, e começar com as línguas comuns. Outra, foi a postura do padre-celebrante que celebrava de costas para o povo, veja só...Está na cara que estas coisas são como nos jogos de futebol, em que o técnico fala sobre a postura durante o hino nacional e a camisa que vestem. A filosofia do jogo é mais inacessível. Assim a teologia resultante do Vaticano II ficou escondida e só quase na letra para grande porcentagem no mundo. Mesmo assim, passados que foram poucos anos, tomaram corpo reações tais como: assim não pode acontecer, como era é que está bem, sempre foi assim, porque agora vai ser de outra maneira? Bispos, padres, etc. se apavoraram e tentaram de todos os jeitos voltar atrás. São como aquele irmão do caçula, os que olham só para o passado, para trás. Se você olha só para trás não vai caminhar nunca. Os críticos contam mesmo que um cardeal, após o concílio, teve saudades do passado, e algumas vezes celebrou a missa em latim como antes do concílio e de costas para a assembleia. E quem conta é o Hans Kung, que foi um dos consultores do concilio. Paulo VI, no encerramento do concilio se despojou da Tiara de três coroas (poder espiritual, poder de estado e poder sobre os imperadores), e o produto foi para os pobres de Roma. Quando esse eminente cardeal ocupou a cadeira do Papado, procurou nos armários e baús do Vaticano outra semelhante e mais rica para usá-la. Foi o cardeal Ratzinger (H.Kung, A Igreja tem salvação? p.253). Na verdade, o Card. Ratzinger, depois Papa Bento 16, fez de tudo para ressuscitar a antiga liturgia de antes do concílio. Driblando o Concílio de todos os modos ele fez um “Motu Proprio” onde escreveu que se pode celebrar nas duas liturgias, a de Pio V (do ano de 1500) e do Vaticano II. Pôs todo o empenho em recomendar a antiga Liturgia em latim e de costas para o povo, assim como na administração dos sacramentos. Chegou até ao ponto de conceder que algum bispo pudesse formar uma paróquia pessoal onde se fizesse essa liturgia antiga. (Cf. Motu próprio, Bento 16, 7/7/2007). Os danos causados por semelhante atitude revertiam não só em prejuízo para a Liturgia mas recaíam também como em cascata contra a aceitação dos outros documentos do Vaticano II. Isso é o símbolo de atitudes do “sempre foi assim”. Porém, é preciso renovação das mentalidades ao ritmo do Vaticano II. “Acolher à mesa”, “acolher na eucaristia, acolher nos casamentos, segundas núpcias, acolher os diferentes, acolher os homo, acolher os e as LGBTs. Atenção, o filho mais velho pensava que “sempre foi assim”. Igualmente tem acontecido. “Ah, mas a minha religião não permite. Cuidado, que antes da religião existe o ser humano. Quem não respeita o ser humano por causa da religião não é religioso.  A religião pode atrapalhar o ser humano. Antes de religioso é um ser humano. Se alguém deixa de ser humano para ser religioso, não é ser humano e nem religioso, (Cf.Tg.2,4)

CONCLUSÃO. Por causa da religião do “sempre foi assim’, escreveu o Dom Angélico Sândalo Bernadino, bispo de Blumenau (SC): “Tivemos enorme dificuldade na preparação, na realização do Concílio, e no pós-concílio dentro da Igreja. Algumas chagas ainda sangram em consequência das mudanças, que muitas pessoas bem intencionadas não compreenderam, agarradas que estavam a certas tradições com “t” minúsculo, e certos costumes. Não conseguiram abraçar a voz do Espírito que gritava naquele momento tão importante da história”.

P.Casimiro João   smbn

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segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

A SIRIA FOI O LUGAR DA COMPOSIÇÃO DOS QUATRO EVANGELHOS.

 

O local da composição dos 04 evangelhos está sendo confirmado que foi na Síria, tanto o primeiro evangelho, de Marcos, como as suas “cópias”, Mateus e Lucas, e assim como o evangelho de João, sem falar nas Cartas de João e o apocalipse. Até há pouco tempo se dava como certo que o evangelho de Marcos teria sido escrito em Roma ‘por causa dos deus latinismos’, e da sua proximidade com Pedro. Isso porém foi ultrapassado, uma vez que a missão de Pedro predominava mais na Síria, e latinismos ocorriam onde se estabelecia a presença romana e sua administração. Além disso, depois da Guerra judaica, no ano 70 d.C. os Sírios acolheram todas as comunidades a partir de Antioquia. Por seu lado, Pedro exerceu sua missão na cidade de Antioquia da Síria e ali permaneceu como membro da igreja local (Cf. H.Koester, Introdução ao N.T. vol.II, p.176). E como dizíamos numa página anterior, após as divergências com Paulo a sua influência se estendeu além da Síria; até que “a tradição sobre sua chegada a Roma e o martírio sob Nero é lendária. De tudo isto, “as últimas conclusões procedem sobre a escrita do evangelho de Marcos na Síria”(o.c.p.176). A atestação mais antiga de Marcos confirma que os dois Evangelhos que usaram seu evangelho, Mateus e Lucas foram também escritos na parte oriental do império romano, ou seja na Síria. Marcos foi escrito depois dos anos subsequentes à Guerra judaica, 70-80 d.C. e Mateus pouco antes do fim do séc. I, 80-90 d.C. Em segundo lugar, Mateus compilou o evangelho grego de Marcos. “Não há a mínima dúvida de que o evangelho de Mateus foi originalmente escrito em grego a partir de duas fontes gregas, especificamente o Evangelho grego de Marcos e o Evangelho dos Ditos também em grego. Este evangelho dos Ditos “serviu de base para os discursos de Mateus, os cinco grandes discursos”(o.c.p.188). Um detalhe: A explicação hermenêutica dos radicalismos de Mateus “os inimigos”, o “adultério do desejo” é devido ao seguinte: Em Mateus Jesus era maior do que Moisés, então as suas exigências tinham que ser maiores do que as de Moisés. (Cf. E.Boring, Comentário do N.T. vol.II, p.1021). Lucas se apoiou tanto em Mateus como no evangelho de Marcos, e assim como ele, foi composto também na Síria. Quanto ao evangelho de João, nunca surgiram dúvidas sobre a sua composição na Síria. Foi aqui, na Síria, que se desenvolveram as filosofias e os círculos gnósticos. Nesses ambientes estavam mergulhadas as comunidades joaninas e com elas conviviam e compartilhavam. Deste modo foram muito influenciadas quando estava surgindo a composição do evangelho de João. Vejamos o que dizem os estudiosos: “O evangelho de João é produto de uma tradição especial que deve ser situada na Síria, e ele supõe um desenvolvimento de comunidades, independente, de muitas igrejas sírias. Bultmann propôs a hipótese de que João usou uma fonte de discursos gnósticos não cristãos para sua composição. Bultmann poderá bem estar correto em seu conceito de que os discursos joaninos são devedores a um debate em matéria dos gnósticos,  e foram formulados no contexto desse debate. A descoberta da Biblioteca de Nag Hammadi possibilita o acesso a inúmeros escritos que auxiliam na reconstrução da evolução desses discursos” (o.c.p.195). Havia  um evangelho Os  diálogos do Salvador, o evangelho de Pedro, e o evangelho de Tomé, além do mais conhecido, o evangelho dos Ditos,  e todas estas novidades foram descobertas na Biblioteca de Nag Hammadi em 1930. João se utilizou de todos estes recursos no seu evangelho. Como exemplo vejamos o discurso de Jesus com Nicodemos: “O discurso em João com Nicodemos pode servir de exemplo. Ele começa em Jo.3,3 com a citação de um dito sobre renascimento, de Justino Mártir no contexto de sua catequese sobre o batismo. O autor do diálogo com Nicodemos apropriou-se dessa expressão “renascer” e mudou para “nascer do alto”. Outras expressões são tiradas de uma máxima teológica de Inácio de Antioquia quando fala em “espírito e carne”(o.c.p.195). Além disso, na época eram lidos os contos de Apolônio de Rodes, entre os quais a serpente que se defrontou com Esculápio, o deus da cura, suspensa numa árvore; e o autor do discurso de Nicodemos sobre o batismo aplicou essa história a Jesus que nos curaria suspenso na cruz. (Cf. Ph.Wajdenbaum, “Os Argonautas do deserto”, Paulus, 2015, p.229). Muitas coisas do evangelho de João são também devedoras do evangelho apócrifo de Tomé. Alguns exemplos do evangelho de Tomé que passaram para o evangelho de João: “Eu sou a luz que que está acima de todos”, um tanto mudada  “eu sou a luz do mundo” Jo.8,11). Outra: “Quem bebe da minha boca”, transformada para: “Se alguém tiver sede venha a mim e beba”Jo.7,37). (H.Koester,  o.c.p. 196). Pelo meio do evangelho situam-se afirmações próprias da gnose, ou da sabedoria dos gnósticos, donde João parte e as aplica ao conhecimento tanto de Jesus como do Pai: “Quem conhece a mim conhece o Pai”Jo.14. E “ver”: Quem me vê, vê o Pai”, i.é, “ver” igual a “conhecer”. “Contrapondo a interpretação gnóstica do apelo de Jesus ao autoconhecimento o evangelho de João parte para a fé em Jesus. É a partir dessa perspectiva que João desenvolve os Ditos “Eu sou” de Jesus (o.c.p.196).

Conclusão. Não imaginávamos a deslocação da geografia que foi e cenário da escrita do Novo Testamento. Na verdade, isto aconteceu numa época em que havia muita turbulência no império romano e pretendia assegurar sua influência na Síria, haja vista que Roma estava em brigas entre generais, e com os sucessos e derrotas de cada um. Era quando o Senado aprovava ou não aprovava, e assim o derrotado aprontava contra o outro. Isso aconteceu com Nero e Diocleciano, até chegar a Constantino que também brigou com seu irmão Magêncio e conseguiu por meio de muitas tramas derrotá-lo, até inventar a lenda de uma suposta visão de uma cruz no céu para se prevalecer com esse piedoso engano diante dos cristãos. Foi depois dele que o império se dividiu, e aí a metade mais importante foi justamente para a Síria: tanto em Constantinopla como Antioquia. E como o império ficou fraco na parte de Roma, a Igreja, com os bispos e o Papa, digamos, se aproveitaram para tomar o lugar do império. Veja só os imperadores rivais que brigavam nesse tempo: Valério(306-309),  Severo(309-311),Magêncio(303-312), Maximiano II (310-313), Licínio(308-324).

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

RADIOSCOPIA DO EVANGELHO DE JOÃO: LENDAS E MAGIA.

 

Comecemos por três lendas: Onde morou a Mãe de Jesus, a mulher adúltera e o discípulo amado.

Tradicionalmente era crível que Maria Santíssima viveu em Éfeso, na companhia de João evangelista. Essa versão se fundava nas palavras de Jesus na cruz “E o discípulo a recebeu em sua casa” Jo;19,27. No entanto seria válida esta crença se o episódio tivesse a garantia da historicidade. Ultimamente, os estudos históricos e hermenêuticos interpretam estas palavras e todo o episódio da presença da Maria e João junto à cruz mais como teologia e simbologia do que história.  Como assim? Em primeiro lugar, temos que analisar o histórico: todos os 3 evangelhos sinóticos afirmam que quando Jesus foi preso “todos os discípulos o abandonaram e fugiram”Mc.15,40 e portanto não estavam junto à cruz, e também o João. Quanto às mulheres, “algumas mulheres o acompanhavam, de longe”,Mc.15,41. Do que fica dito, nenhum dos 3 evangelhos sinóticos fala de Maria junto à cruz e nem das palavras de Jesus, somente João que também não estava presente junto à cruz. Além do mais, o trecho não foi João quem escreveu, mas as comunidades joaninas, assim como todo o evangelho.(R.Brown, a comunidade do discípulo amado, pari passu). Isto nos leva a uma certeza, trata-se da teologia que se desenvolvia nas comunidades joaninas, com duas vertentes: a primeira vertente é a polêmica das comunidades joaninas que reivindicavam para si o cacife de serem as mais perfeitas e “preferidas” pelo Senhor como sendo aquelas que tinham o “discípulo amado” que, não sendo mesmo o São João, era um discípulo que teria acompanhado Jesus, e ainda era o mais “ancião” nessa altura do campeonato, como afirmam os historiadores(Cf. R.Brouwn, o.c.p. 107). Em segundo lugar, nessa mesma empolgação colocaram na escrita do “seu” evangelho que esse discípulo amado teria estado ao pé da cruz e recebido a Mãe de Jesus. Vejamos como arrumaram uma baita de uma grande joia para suas comunidades, recebendo a “mãe de Jesus” na pessoa de um “discípulo amado” que nunca foi o João evangelista, isso era um baita de um privilégio. Pergunte ao Marcos, ao Mateus e ao Lucas, os evangelhos que são mais históricos.  Vejamos o que afirma James Dunn: “Poucos estudiosos consideram João como uma fonte de informação sobre a vida e o ministério de Jesus no mesmo nível que os sinóticos.” (James Dunn, O cristianismo nos seus começos, p.229).  E: “se as impressionantes autoafirmações de “Eu sou” que vemos em João fossem lembradas como ditas por Jesus, como poderia um evangelista ignorá-las tão completamente como fazem os sinóticos?”(id). Portanto, é fácil criar uma piedosa lenda, e foi criada. Daí, logicamente, que Maria e João teriam vivido em Éfeso, a continuação da lenda. “Menos histórica ainda é a lenda de que João mudou-se para Éfeso com Maria, a mãe de Jesus. Toda a tradição antiga é unânime em afirmar que Maria morreu em Jerusalém" (H.Koester, Introdução ao N.T. vol.II,p.203). Resumindo esta teologia e simbologia acompanhemos os estudiosos: “A maioria dos comentaristas encontra uma implicação teológica ao interpretar a mãe de Jesus e o discípulo amado como figuras representativas ou simbólicas de um grupo maior, no sentido de que Maria representava a herança de Israel que agora estaria confiada às comunidades do Discípulo amado como representação da Igreja” (R.Brown, vol.II o.c.p.1377). Então, digamos, o “discípulo amado” simbolizava os cristãos” como afirmava também Orígenes no séc.III (id.). Em terceiro lugar, a lenda da mulher adúltera. “A narrativa sobre Jesus e a mulher surpreendida em adultério Jo.7,53 é uma interpolação posterior; ela não consta dos papiros mais antigos, nem dos manuscritos do século IV. Em terceiro lugar a lenda do “discípulo amado”. Além do que já falei, tem mais: O último capítulo de João, 21,15-23 pertence a um debate posterior sobre atribuições competitivas de autoridades apostólicas. “A Pedro concediam a organização eclesiástica, enquanto que com a reclamada inventiva do “discípulo amado” reclamavam a suposta tradição especial desse evangelho como sendo de uma testemunha ocular” (o.c.p. 203). Eu disse, “perguntem ao Marcos, ao Mateus e ao Lucas” pois veja também que “São Policarpo de Esmirna 150 d.C,  desconhecia o evangelho de João. E também outro teólogo, Papias, bispo de Hierápolis”. (id). Em quarto lugar para aprofundar mais na radioscopia do IV evangelho, de João, avancemos o seguinte passo, sobre magia, ponto delicado mas já confirmado por Inácio de Antioquia no século II d.C. “O redator que acrescentou o cap.21, o final do evangelho de João, também introduziu outros materiais no texto original de João. Os mais notórios: “Os versículos que referem o comer físico da carne de Jesus e o beber o seu sangue, Jo.6,51-59 são uma interpolação posterior da eucaristia como comida e bebida mágica sobre Jesus como o pão descido do céu. O que os discípulos deviam compreender é que o pão descido do céu são as palavras de Jesus, que são espírito e vida, Jo.6,63. A compreensão mágica da eucaristia se situa no início do século II, sendo atestada por Inácio de Antioquia”(o.c.p.204). Para terminarmos esta olhada sobre o evangelho de João, encerremos com uma análise de mestre, como segue: “Algumas partes do Evangelho de João nunca foram concluídas em sua forma pretendida, mas continuaram como esboços e coleções de materiais que, ao que parece, deveriam ser aprimorados no futuro. Além disso, os muitos fragmentos de discursos e diálogos por exemplo em João, 7 e 8 sugerem que o evangelho contém materiais que o autor não compôs em discursos coerentes. Também Jo.17, a assim chamada oração sacerdotal de Jesus é um discurso gnóstico interpolado que não foi submetido a uma elaboração crítica posterior” (o.c.p.205).

Conclusão. Dissemos que uma coisa é a história, e outra coisa é a teologia. E é comum se afirmar nos estudos bíblicos que não há nenhum manuscrito original de nenhum evangelho. Acontecem interpolações e discursos que não pertencem a Jesus, e afirmações duvidosas e mágicas. Também no evangelho de João.

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

RADIOSCOIA DOS EVANGELHOS -2

 

Na página anterior falámos como os primeiros cristãos encontraram as maneiras de falar sobre Jesus com os seus títulos de glória, abstraindo de sua realidade terrena. A respeito disso vejamos o que nos dizem os estudiosos: “Marcos demonstrou que os critérios da propaganda helenística não tinham condição de definir a identidade de Jesus. As ações de Jesus como “homem divino” e Messias se tornaram um paradoxo na perspectiva do seu sofrimento e morte como Filho do Homem” (H.Koester, Introdução ao N.T. vol.II,p.190). E também o próprio Paulo foi nesta mesma linha e mandou o mesmo recado.(Fil.2.6.9).  Numa tentativa de radioscopia dos evangelhos avancemos sobre a infância e o anúncio do nascimento de Jesus. O evangelho de Marcos que foi o primeiro, e que serviu de suporte para os outros evangelhos não faz referência nenhuma ao nascimento e infância de Jesus. Na verdade, como vimos na página anterior, o evangelho começou pelo querigma ou anúncio da Paixão. E isto se chamavam “Memórias dos apóstolos”. E nas “memórias” pouco mais se lembravam além da Paixão. E ainda assim foi necessário recorrer ao Antigo Testamento no Cântico do servo sofredor de Is.40-56 e dos Salmos para compor a narrativa. (Cf. H.Koster, Introdução ao N.T. vol II,p.191). Portanto, sobre o nascimento e infância nem eles tinham memória porque não podiam ter mesmo, e já ninguém não tinha. E não adianta dizer que “Lucas investigou de Maria”, porque não foi Lucas que escreveu o evangelho, e quando esse evangelho foi escrito Maria já não existia nem qualquer testemunha. Por esse motivo, essa foi uma composição que cada comunidade, a seu modo, se virou para “compor” e ajuntar às outras memórias, um tipo de “comparação”, ou “parábola” de uma biografia de Jesus. Então prossigamos. Já vimos que em Marcos é nula qualquer informação sobre o nascimento de Jesus. E Lucas? Lucas valeu-se do recurso dos esquemas de anúncios e nascimentos míticos do Antigo Testamento, que carregou para o Novo Testamento, no nascimento tanto de João Batista como de Jesus sem distinção. (Cf. E. Boring. Introdução ao N.T. vol II, p.1054). E já Mateus rompe com todas as barreiras e adota o gênero das genealogias começando em Adão, seguindo por Abraão e chegando onde ele queria chegar que era provar que Jesus era da descendência de Davi. No caso, tanto provou como Lucas, que não provou nada, nem provocou descendência nenhuma, e nem Marcos e muito menos João. É digno de nota que neste ponto de genealogia e descendência de Davi há uma passagem que contraria esse imaginário quando é apresentada a mãe de Jesus e irmãos de Jesus, e Jesus dá uma resposta surpreendente: “quem é minha mãe, minha irmã e meus irmãos? Todo aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt.12,46). Aliás outras contradições aparecem também em Mateus quando disse que Jesus veio “dar pleno cumprimento à lei” Mt.5,17, e por outro lado se revoltou contra a prática da lei, como a lei das purificações, a lei do sábado e do jejum (Mt.cap.23). E agora vamos para o evangelho de João. João não começa com o nascimento ou anúncio de Jesus. Começa com a teoria grega do Logos preexistente. Logos grego que ficou traduzido com a palavra Verbo (Jo.1,1). Verbo quer dizer palavra. Esse Logos era a inteligência do cosmo, a força da organização do Universo. Da filosofia do “Logos” veio a palavra “Lógica”, a arte de organizar os argumentos de um discurso. Por isso “logos” era preexistente ao mundo porque foi o organizador do mundo. E na mística das comunidades chamadas joaninas que compuseram o IV Evangelho de João, aplicaram esse “logos” a Jesus Cristo. Porquê? Porque o tema da preexistência fazia a base do gnosticismo. Bultmann pressupõe a existência entre os gnósticos da lenda-mito de um “Homem Original”, uma figura de luz e bondade que foi rasgada e dividida em pequenas partículas de luz. Essas partículas, como almas humanas, foram semeadas em um mundo de trevas, e tem sido a tarefa dos demônios fazê-las esquecer de suas origens celestiais. Então Deus envia seu Filho em forma corporal para despertar essas almas, libertá-las de seus corpos de trevas e guiá-las de volta ao seu lar celestial. Ele fez isso proclamando a verdade e dando às almas o verdadeiro conhecimento, gnósis, que as capacitará a encontrar seu caminho de volta. Bultmann encontra traços de tal mito nos discursos de João. Aí Jesus era o preexistente (Jo.1,1) que se  fez carne, e finalmente voltou para Deus. Ele era a luz que entrou no mundo, Jo.1,9 e 8,12; ele era o caminho para Deus Jo.14,15”. (Apud R.Brown, Comentário ao evangelho de João vol.I, p 47). De acordo com Irineu, a iniciação gnóstica ligava o seu status com sua teologia de preexistência.”Tiro o meu ser daquele que é preexistente e volto para o meu lugar do qual eu vim” (Adv.Heresis,1,57). E mais: a preexistência era participada também por nós, seres mortais. “Uma tese comum aos sistemas gnósticos envolve a preexistência dos seres humanos na esfera divina antes da nossa vida terrena”(R.Brown, o.c.p.48). Uma referência gnóstico-doceta da encarnação é subentendida desta maneira no episódio do batismo de Jesus. É historicamente certo que o evangelho de João foi alvo de muitas intrigas entre as primitivas comunidades antes de ser aceito no cânon, justamente devido às suas influências gnósticas e docetas. Vejamos que sobre a encarnação há única referência doceta partindo da cena do Batismo de Jesus: “Se isolarmos o evangelho de João e o lermos com as lentes dos docetas, poderemos supor que a vinda da luz ao mundo é o momento de o Verbo se fazer carne, e teria sido exatamente depois do batismo de Jesus, quando o Espírito desceu sobre ele, que teria acontecido a encarnação, no pensamento docetista. Jesus nessa hora se tornou o filho de Deus. É como João Batista afirma ‘eu não o conhecia, mas, para que Ele fosse manifestado a Israel é que eu vi o Espirito descer do céu como uma pomba e permanecer sobre ele’(Jo.1,30). Isto também é afirmado no Evangelho de Verdade da Biblioteca de Nag Hammadi”(R.Brown, “A Comunidade do Discípulo Amado”, p.159). Então, na nossa radiscopia, o fulcro dos evangelhos é o querigma da Paixão-morte-ressurreição, onde posteriormente, a modo de biografia, foram acrescentando do jeito de cada comunidade, os diversos imaginários do anúncio e do nascimento. Daí em diante os redatores valeram-se de coleções dos “ditos” de Jesus e de coleções de discursos e parábolas e de coleções de curas e milagres. Entre estes, a maior polêmica se deu entre comunidades de judeus cristãos que tinham arrumado as suas coleções e conseguiram que entrassem como links para os evangelhos, muitos dos quais eram dos profetas do A.T. como os contos e narrativas das sagas de Elias, Eliseu, dos Salmos e do canto do servo sofredor do II Isaías, 40-56. Pelo meio há temas fundamentais sobre “puro e impuro”, a observância do sábado que aparece a todo momento, porque estavam na época da transição da observância do sábado para o domingo, “o primeiro dia da semana”, que começava a ganhar força. Note-se que a arte dos evangelistas chegava ao ponto de arrumar discursos para que fossem atribuídos a Jesus, entre eles o famoso discurso “da despedida”, do cap.17 de João, seguindo o costume dos escritores da sua época que faziam a mesma coisa.

Conclusão. Marcos demonstrou que os critérios da propaganda helenista não tinham condição de definir a identidade de Jesus. Por isso esse evangelho já logo de início preveniu o que pairava pelo ar sobre a filosofia helenística a respeito dos apelidos que eles estavam inventando para classificar Jesus, mas que no final das contas foram mesmo adotados pelas comunidades da Síria onde reinava a filosofia não só helenística mas também gnóstica muito reinante nos ambientes das comunidades joaninas. E das comunidades da Síria passou para o Novo Testamento em geral. (Cf. R.Brown, As comunidades do discípulo amado, p.155).

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domingo, 24 de novembro de 2024

UMA RADIOSCOPIA DO EVANGELHO

 

Comecemos pelo primeiro dos evangelhos, o evangelho de Marcos. Marcos não tinha consciência de que estava escrevendo “evangelho”, e nem Mateus, nem Lucas e nem João. Somente na metade do séc.II esses escritos foram chamados “evangelhos”, nome dado por Marcião. Antes de Marcião eram chamados “Memórias dos Apóstolos”, nome que lhes deu Justino mártir. (Cf. H.Koster, Introdução ao N.T. vol.II, p.10). Também foi com Justino mártir que havia a briga entre ele e Marcião sobre a inclusão do A.T. no cânon cristão, uma vez que Marcião, apoiando-se nas Cartas de Paulo afirmava que Cristo era o fim da lei (Rom.10,4), ele argumentava: como essa lei judaica ainda podia ser Escritura autorizada? Entra agora em cena o primeiro evangelho, de Marcos, que deu suporte para os outros evangelhos. O ponto fulcral é o kerigma que consiste no anúncio da Paixão como iremos ver. Judeus helenistas convertidos haviam fundado sua congregação em Antioquia, na Síria. É de suma importância que “o ponto de partida para a pregação da ressurreição de Jesus como momento decisivo da história deu-se então em Antioquia, a primeira capital da província romana da Síria onde esses judeus tinham se estabelecido. Foi aí que Pedro se estabeleceu também depois do concílio de Jerusalém, até que a ‘tradição sobre sua ida a Roma e o martírio sob Nero é lendária” (H.Koester, o.c.p.176). Aí na Síria se desenvolveu em primeira mão o primitivo cristianismo tendo como carro-chefe a influência ou “o partido de Pedro”. E como início da radioscopia sobre a influência de Pedro eis o que nos apontam os estudiosos nas seguintes linhas sobre o kerigma anunciado por Pedro e transformado na redação do evangelho no qual Pedro é o primeiro a proclamar que Jesus é o Messias, como afirma o capítulo oito de Marcos,(Mc.8,29), embora este episódio possa ser considerado como o relato de uma epifania ou aparição anterior de Jesus a Pedro. E não só, mas semelhante a este existe o relato da transfiguração, que pode ter sido também originalmente uma história sobre a aparição de Jesus a Pedro, onde foram colocados João e Tiago por um redator posterior para compor a narrativa (Cf. o.c.p.196). É conhecido que na redação dos evangelhos aparecem disputas entre nomes de apóstolos. E há historicamente confusão sobre cópias e recópias de manuscritos bíblicos. Isto foi devido à maior destruição e queima de manuscritos bíblicos que aconteceu na grande perseguição do cristianismo de 303 a 311 d.C. que representou a destruição de número incontável de manuscritos bíblicos. Alguns outros papiros soterrados começaram a aparecer com a descoberta da Biblioteca de Nag Hammadi, em 1930. E esses papiros perdidos eram do fim do séc.II e início do séc.III. Aí se descobriu que a edição do evangelho de Marcos que foi usada por Mateus e Lucas era substancialmente diferente da primeira edição de Marcos como ele a transmitiu em primeira mão. Até porque também se descobriu que na transmissão desses manuscritos aconteciam omissões e inversão de letras dando numa palavra diferente, ou grupos de palavras muito apagadas, como até omissões de linhas inteiras. E literalmente o mesmo autor informa: “Citações bíblicas nos escritos do N.T. eram com frequência corrigidas comparando-as com manuscritos do Antigo Testamento. Textos paralelos do evangelho foram absorvidos e incorporados uns aos outros, além de que outros redatores fazem modificações por motivos teológicos segundo a sua opinião pessoal.” (o.c.p.178). Nessa época estava também circulando o Evangelho de Pedro nessas comunidades da Síria. Mesmo assim, a transmissão dos ensinamentos de Jesus nunca está relacionada com o nome de Pedro. Foi só a partir de um tal Papias, líder da cidade de Hierápolis, que a tradição eclesiástica ligada ao evangelho de Marcos considerou esse evangelho um transcrito de palestras de Pedro. Mas há algumas características nesse evangelho primitivo de Pedro: O evangelho de Pedro contava pouco mais do que a narrativa da Paixão, à qual outros redatores depois deram um desenvolvimento com o recurso de “passagens de Salmos e do Deutero Isaías, 40-56. Nela há diferenças entre a data da crucificação. Outra diferença: Na lenda do encontro do túmulo vazio, só a Madalena é mencionada. Mateus, Marcos e Lucas acrescentam os nomes de outras mulheres, e João apresenta Maria Madalena competindo com Pedro e com o discípulo amado. Mais: “No Evangelho de Pedro a história da epifania da ressurreição de Jesus está, sem dúvida nenhuma, repleta de características lendárias secundárias. No entanto, como Pedro era conhecido como a primeira e mais importante testemunha na tradição mais antiga das igrejas da Síria, não surpreende que uma história antiga sobre a Paixão, morte e ressurreição de Jesus fosse a primeira escrita sob a autoridade de Pedro. E na verdade, os estudiosos afirmam que “seitas judeo-cristãs encontradas mais tarde nesses locais afirmavam que conservavam os verdadeiros ensinamentos de Pedro”(o.c.p.178). E agora entendemos os reais motivos por que havia uma “séria polêmica das tradições petrinas da Síria contra as comunidades paulinas.(Gal.2,11-22). Agrupamentos judeo-cristãos, com suas coleções de histórias de milagres, forçaram a ser aplicadas a Jesus para que fossem usadas como manuais para suas atividades. Jesus aparece aí claramente como homem divino e a demonstração do poder divino a ser assumido como mensagem obrigatória. (id.p.181). E atenção para a afirmação do estudioso que estamos seguindo sobre a resposta de Paulo: “Para Paulo, como vimos, esse não passa de um ‘Cristo segundo a carne’ - 2Cor.5,16) - a quem ele contesta com a tese de que Jesus não era o mais poderoso de todos os seres humanos, mas aquele que fracassou na cruz, e cuja ressurreição se tornou agora poder para os fracos e liberdade para os desdenhados” (o.c.p.181).

Conclusão. O evangelho era só, no início dos inícios, o kerigma ou anúncio da Paixão, morte e ressurreição baseado no hino do servo sofredor do II Isaías, 40-56. Marcos segue os passos de um gênero literário que era a biografia do profeta tipo Jeremias, e não só, mas indo buscar o elemento essencial do servo sofredor de Is.40-56 como dissemos. E aí acontece o inesperado no evangelho de Marcos como um filme onde esperamos uma grande surpresa da vitória; mas no evangelho de Marcos dá-se o contrário: termina com a história do encontro do tumulo vazio, de tal maneira que os outros evangelhos acharam um final tão sem graça que o florearam com outras narrativas de anjos e mulheres, assim como com a lenda de Mateus dos guardas fugindo do túmulo. Em Marcos é indicado o caminho para a Galileia, onde tudo começou. (cf. id.p.186).

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segunda-feira, 18 de novembro de 2024

TEOLOGIAS DE “SUBSTITUIÇÃO” E DE “ENTRONIZAÇÃO” DE DEUSES.

 

Antigamente havia a substituição de deuses, um deus por outro deus. Onde está isso registrado é no poema mais antigo da humanidade, o Enuma Elish, onde se assiste à troca de Inana por Marduk à supremacia sobre o conselho dos deuses. E, de quebra, onde há substituição há entronização. (Cf. Cf.Rolin Scroggs, O Jesus do povo, Paulus, 2012, p.42). É disto que vamos falar. Essa teologia antiga dos sumérios continuou até à Bíblia, para o A.T. e quem sabe, depois passou para o N.T. com algumas semelhanças. E não nos admiramos, uma vez que os humanos colocavam os deuses fazendo as mesmas coisas que fazem os seres  humanos. Assim como nos governos humanos quando um rei não servia mais, era substituído por outro rei, governador por outro governador. Sobre a Bíblia, vejamos o que nos diz a história: Mesmo Javé pode não ter sido o sempre o deus supremo de Israel. Segundo alguns estudiosos, os primeiros israelitas viviam à sombra da supremacia das divindades ugaríticas que tinham o deus “El”, no entanto Davi trocou “El” por Yahweh. Yahweh passou assim a controlar as nações e era o supremo sobre outras divindades, e encontramos ecos disso nos salmos 52 e 47. E a história não fica por aí. Já mesmo no final da epopeia de Israel, aparecem elementos novos que nos trazem outra surpresa. Aparece a imagem de Deus como o “Ancião dos Dias” que vai ser substituído por um senhor e deus novo,  o “Filho do Homem”.(Dn.7.14). Daniel apresenta este Filho do Homem como sendo uma “substituição” do deus antigo. O deus velho, o “Ancião dos Dias” abdica em favor de um deus jovem, que assume seu lugar, à imitação dos deuses ugaríticos e do poema Enuma Elish. (c.o.p. 39). Isto considerado desta maneira, não obstante o tema de Daniel em si relacione estreitamente o Filho de Homem ao povo de Israel na teologia tradicional, mas é muito provável que a própria estrutura mítica nos leve a afirmar o outro lado da medalha: essa figura é divina. E agora aqui funciona a teologia da “substituição”. O livro de Daniel foi escrito para celebrar a vitória dos macabeus no ano 165 a.C. Aí o povo respirou fundo e sentiu-se novamente livre, depois de séculos de opressão, com dois cativeiros, a queda da Samaria e a queda de Judá. Como era próprio das teologias antigas deduzir que a derrota da Nação era a derrota do seu deus, então o deus Yahweh sofria as mesmas derrotas sucessivas que o povo sofreu. Isto dá o suporte teológico para essa visão mítica onde Daniel terá colocado em análise e em prática a teologia reinante do princípio da “substituição” e da derrota dos deuses. Assim, “abalada a antiga teologia de Yahweh como senhor da história, agora, com as surpreendentes vitórias dos Macabeus, esse fato encaixou na prática das teologias reinantes. A vitalidade da nova época precisava de alguma nova forma onde a antiga teologia fosse aplicada. Essa aplicação foi encaixada no mito de entronização celeste do “um como Filho de Homem” que fosse bastante forte para por em prática o programa que o deus Yahweh por tantos longos anos não tinha resolvido” (Cf. o.c.p.40). Lembremos: estamos lidando com teologias antigas e não do nosso tempo. E dentro dessas teologias da “substituição” de um deus pelo outro o ponto culminante da festa era a “entronização”. E é disso que nos dá notícia o livro de Daniel: “A ele foi dado poder, glória e reino, e todos os povos, nações e línguas o serviam. O seu poder é eterno que nunca lhe será tirado e nem destruído” (Dn.7,14). O teólogo Emerton conclui: “As quatro passagens de Filho do Homem enquadram-se bem no pano de fundo da festa de entronização e das ideias cananeias e israelitas a ela associadas” (cit. em R.Scroggs o.c.p 41). E continua Scroggs: “O tema é retomado na exaltada conclusão de Mateus onde Jesus ressuscitado reivindicou poder divino em alusão a Daniel: “Toda autoridade sobre o céu e sobre a terra me foi entregue” (Mt.28,18; o.c.p.41). Esta teologia de substituição e entronização passou depois para as Cartas paulinas em expressões muito carregadas. São Paulo fala que não foi “usurpação” ou competição. (Fil.2,6-11). Porém, as funções antes atribuídas a Yahweh como “cosmocrator”, e como senhor do mundo e juiz do mundo passavam para o Cristo, o Filho de Homem por “substituição”. E vejamos bem se isto não está mesmo no nosso imaginário inconsciente: Todo cristão deixa “Deus” de lado e todo mundo se dirige a Jesus.. Semelhante ao que aconteceu naquele tempo: o que não foi possível acontecer com o mando de Yahweh estaria agora acontecendo com os triunfos dos guerreiros macabeus e  com a entronização do novo “Cosmocrator” Filho de Homem, que na linguagem helenista tomava o nome de Kyrios Iesous Cristos. Desde esse momento era inaugurado um novo tempo de prosperidade. “O mundo agora era uma realidade agradável na qual todos podiam viver e respirar livremente. Os poderes demoníacos e os impérios que outrora escravizavam o cosmo estavam agora destronados, e o Filho de Homem Iesous Christos reinava. Como em todos os cultos, esse Kyrios ou novo Senhor é honrado, seus membros exultam  com confiança por estarem à direita e terem contato com aquele que verdadeiramente governava. Assim, todo Israel interpretava e celebrava a entronização descrita por Daniel, e ao mesmo tempo assim passou a ser lida pelas comunidades do Novo Testamento. Era assim como a satisfação de quando se elege um novo governo no qual o povo põe toda a sua confiança. Assim como diz aquele grito “Ó rei, vive para sempre”; Viva o novo rei!” Como dizem os teólogos, era uma teologia de consequências políticas, isto é, referente ao presente, e não escatológicas, isto é, para o futuro. (Cf. o.c.p.35). Vamos agora localizar uma passagem das Cartas de Paulo onde ele assumiu este modelo de teologia: “Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos abismos. E toda a língua confesse para a glória de Deus-Pai que Jesus Cristo é o Senhor” (Fil.2,6-11). Na verdade, o que na Velha Aliança Isaías tinha colocado em Yahweh, foi aplicado agora ao Cristo Jesus, o novo entronizado: “diante de mim se dobrará todo joelho e por mim jurará toda a língua dizendo só: em Yahweh se encontra justiça e força” (Is. 45,23). (Cf. o.c.p.35).  

Conclusão A nossa teologia encara com coragem a volta à antiguidade não só judaica mas também pre-judaica com a tarefa de analisar à luz de hoje antigas teologias tanto judaicas como pre-judaicas. E não devemos nos podemos surpreender com as descobertas, uma vez que os humanos quando falam de Deus e dos deuses falam fazendo deles seres semelhantes aos homens, como a “substituição e entronização”. Também no meio, há outra atitude que também existe: a “usurpação”. Por isso São Paulo nas Cartas adverte claramente que Jesus Cristo não veio por “usurpação”, mas por “substituição”. “Jesus Cristo, sendo em forma de Deus, não teve por “usurpação” ser igual a Deus, mas aniquilou-se a si mesmo quando se fez humano e semelhante aos homens” ( Fil.2,6-11). Finalmente o próprio Apocalipse começa com Deus entregando a tarefa da "revelação" que vai seguir-se a "Jesus Cristo" como uma missão a cumprir: "Revelação que Deus confiou a Jesus Cristo, para que mostre aos seus servos as coisas que devem acontecer em breve"(Ap.1,1).

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segunda-feira, 11 de novembro de 2024

O JESUS DOS GREGOS E O OUTRO JESUS, O KYRIOS E O CHRISTOS.

 

Para os cristãos gregos a palavra “Jesus” não dizia nada. E então associavam-na a um tal “chrestos” que era o nome de um escravo lendário por ser muito bom, conforme o historiador Suetônio (R.Scroggs, O Jesus do Povo, p.119). Em diálogo com os cristãos da Palestina é que os gregos começaram associando Jesus à palavra Kyrios quando eles aclamavam os deuses e as deusas ou o imperador, palavra que era “senhor” e kyrios. Por outro lado, os gregos tinham a notícia de que na Palestina tinha andado um tal Jesus que alguns judeus achavam que era um “político”-Messias. O tal Messias era considerado “herdeiro do trono de Davi”, e teria vindo para ser um governante político-militar. Mas as autoridades se desfizeram dele. Porém outros, em maior número, o consideravam um religioso conhecido como filho do homem, igual alguns profetas antigos. E assim essa história tinha chegado aos ouvidos dos gregos. Na verdade os camponeses hebreus espoliados talvez não tivessem esperança de que o Jesus governante político-militar fosse mais favorável à sua sorte miserável que todos os governantes que vieram antes dele e aos quais ainda estavam submetidos no presente. Pelo contrário aquele Jesus “curandeiro” que tinha andado no meio do povo, a quem chamavam “Filho do Homem” era mais popular e compatível com os camponeses. Neste sentido, é concebível que esta crença fosse o fator mais forte que tornou o título “Messias” possível e aceitável  para os judeus, mas para os gregos, ao contrário, tanto “Filho do Homem” como “Messias” não dizia muita coisa, pois não era da sua cultura. Até porque nessa mesma época entre os gregos havia uns sábios filósofos que faziam muitas curas e alguns também se arrogavam o poder de ressuscitar pessoas mortas. Lembremos que não estamos falando daquelas camadas que ainda tinham conhecido Jesus em pessoa, mas muitos anos depois, quando Jesus já “tinha passado à história”. E nesta altura do campeonato estamos lidando com cristãos descendentes de judeus e com cristãos descendentes de gregos. E por isso, para as camadas de cristãos judeus ainda lhes interessava o “Jesus” terreno, mas para as camadas de cristãos gregos não. Para estes interessava-lhes um Jesus glorioso e político e militar como eles estavam acostumados com seus heróis. E desse jeito surge a falta de interesse no Jesus terreno em toda a Igreja helenística porque esse Jesus glorioso e politico e militar vinha como eles estavam acostumados. (Cf. o.c.p.125).  Aí havia o culto com as “aclamações” públicas que constavam de tipos de “slogans” repetidos vezes sem conta, em ambiente público. Este tipo de culto e aclamações começaram a transferir para o Jesus dos hebreus o mesmo que o “Kyrios” ou “Christos” era para os deuses e deusas dos gregos. Estava consolidado o nome de “Kyrios”, e “Christos” entre os gregos, nome que passou para toda a Igreja e para os escritos do Novo Testamento, Cartas e evangelhos, que estavam começando a ser redigidos nessa mesma época. As primeiras foram as Cartas, nos anos de 40-50 d.C. e depois os primeiros evangelhos, anos 70-80 d.C. Temos uma notícia ainda antes de avançar. Vimos que para os cristãos gregos a palavra “Jesus” não dizia nada no início. Mas junto com a palavra “Kyrios” se popularizou também a palavra Christos, de “chrestos” a lenda do escravo obediente. E foram estas duas palavras que ficaram associadas à pessoa de Jesus. Então ficou o dueto “Christos Ýesus” ou o trio “Kyrios Yesus Chritos”, “Senhor Jesus Cristo”. E foi assim que passou para os escritos do Novo Testamento. Na verdade, como afirmam os estudiosos, o Novo Testamento e a Igreja em geral ficaram devendo mais à língua e à cultura grega do que à judaica. As Cartas paulinas e Atos dos Apóstolos são exemplos flagrantes. Como falei em páginas anteriores, o autor de Atos pretendeu, em Atos dos Apóstolos fazer um épico tomando por modelo a Eneida. Com o particular que Atos e Evangelho de Lucas eram inicialmente um só volume, tendo ficado separados somente no séc.V por vantagens de manejo. Já Paulo nalgumas Cartas fica dependente da cultura grega, como quando fala em “todo o vosso ser, corpo, alma e espírito”, seguindo o filósofo Posidônio que dizia que o espirito pertencia ao reino do Sol, a alma ao reino da Lua, e o corpo ao reino da Terra, trazendo à baila Plutarco que dizia: “o espaço entre o reino de Deus e o reino da humanidade é ocupado por espíritos celestes, alguns com poderes divinos. A hierarquia desses poderes divinos é uma escada desde o mundo humano até Deus” (H.Koester, o.c.p. 159 e 163). E na Carta aos Filipenses Paulo conecta o nome habitual grego dos deuses e imperadores ao de Jesus dos hebreus com o nome de Kyrios como falámos. E assim amplia na Carta aos Colossences 1,16 quando fala dos poderes celestes que ocupam os espaço entre o reino de Deus e o reino da humanidade (Col. 1,16). Em resumo, o teólogo R.Scroggs afirma: “ Para o autor de Atos Jesus era um ser humano que foi justificado por Deus e voltaria no fim dos tempos. Para o autor de Colossences Jesus ressuscitou para uma realidade divina “cósmica” ou “espacial”: Cristo é aqui o nome para a realidade “espacial” exaltada de Deus: os fiéis estão em Cristo; morrem em Cristo; ressuscitam em Cristo; estão escondidos em Cristo; Cristo é o mistério de Deus; Cristo concede a paz; essa realidade também é Kyrios, mas o simples nome de “Jesus” não se encaixa nessa realidade cósmica” (o.c.p.130-131).

Conclusão. Concluindo, é preciso dizer que nós somos filhos da cultura judaica e da cultura grega. E tivemos ocasião de ver como evoluiu entre os primeiros cristãos gregos o nome de Jesus, e as associações que fizeram com os nomes de seus deuses e imperadores. Como consequência vimos também que o Jesus terreno não lhes interessava, pois nessa época aquele Jesus que "curava" o povo e era amigo do povo era uma figura que depois de 60 ou 80 anos "já tinha passado à história", esquecendo a figura humana de Jesus para ver só o Jesus mítico e cósmico. E assim esta situação passou para os novos escritos e para o "âmago" da Igreja em geral até hoje.

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 4 de novembro de 2024

JESUS SEQUESTRADO.

 

Há uns 70 anos a esta parte os sacerdotes-párocos vestiam uma capa de cor preta, redonda, semelhante às vestes do Papa e dos bispos. Usavam também um “chapéu” chamado barrete, de três bicos, também chamado de “tricórnio”. Havia um serviço especial do sacristão para administrar o uso do tricórnio na missa, o que muitas vezes era objeto de chacota por parte dos fiéis. Seria sem dúvida uma imitação das vestimentas e tiara e solidéu de bispos e Papas. É deste jeito que foi sequestrado Jesus, num dado momento da história. Ele que relutou contra o poder dos grandes das nações (Mt.20,17),  fizeram dele um chefe de uma Nação e lhe entregaram um Estado, os Estados Pontifícios, cujo histórico está cheio de lendas e falsificações e embustes históricos desde o início? (Libanio e H.Kung Olhando para o futuro, p.78). Ele que relutou contra as vestes dos rabis, e fariseus (Mt;23,5),  lhe entregaram as vestes mais ricas da face da terra na pessoa dos mesmos Papas, quando nas decretais de Graciano a eles foi permitido usar as insígnias e vestes do imperador? Ele que nunca exerceu as funções de sacerdote no Templo, nem alguma vez vestiu roupas dos sacerdotes, cobriram-no de honras do Sumo Sacerdote e o rotularam de Sumo Sacerdote, sequestrando-o da sua qualidade de profeta ambulante e frequentador leigo da sinagoga? Ele que lutou contra encher odres velhos com vinho novo, porque o “vinho novo arrebentava os odres velhos” (Lc.5,37) aplicaram-lhe os títulos do Antigo Testamento além de sumo sacerdote também filho de Davi-imperador, a fim de continuar com os sacrifícios no templo e com as guerras contra todas as nações para conquistá-las para o Novo Israel? E que corrigiu os discípulos quando não aceitaram o outro “expulsar demônios” sem autorização dele, e proibiu-os de pedir “fogo do céu contra eles” (Lc.9,54), esse Jesus continua assistindo a tanto fogo das Igrejas contra religiões afro, indígenas e orientais porque não têm autorização “oficial”? Ele que disse: “onde dois ou três estão reunidos em meu nome eu estou aí no meio deles”(Mt.18,20), continua assistindo às atitudes de quem pensa que só existe assembleia onde tem padre ou bispo. Jesus, que lutou contra o patriarcalismo, colocaram-no no mesmo plano de Abraão, fazendo comparação entre ele e Abraão, “antes que Abraão existisse eu sou” (Jo.8,58) uma pura concepção da pessoa de Jesus como sendo o Logos preexistente da teologia gnóstica de João, tão preexistente como era a “Sabedoria” dos Judeus “que presidia a todas as obras da criação desde o início.”(Prov.8,22-36).  Sequestraram Jesus no espaço e no tempo como se fosse esse Ser da filosofia gnóstica grega, o “Logos,” ou da filosofia judaica da “Sabedoria. “É impossível anunciar uma Boa Nova para um mundo que se despreza” afirma numa frase lapidar João Batista Libanio (o.c.p. 80). Ah mas aí fui sequestrado, falaria também Jesus, porque “Deus amou tanto o mundo” (Jo.cap.3), mas a Igreja de Cristo não tem tido esse amor, quando desprezou o mundo como “mau”, condenando-o por suas descobertas filosóficas e científicas, como no caso de Galileu, e na época do Iluminismo que trouxe as novas filosofias da razão pura e dos Direitos humanos, assim como na engenharia genética. Sequestraram Jesus.

Conclusão. Finalmente, sequestraram Jesus, tirando-o do Novo Testamento e deslocando-o para o Antigo Testamento quando, pela Carta aos Hebreus escrita por um judeu convertido sequestraram Jesus do N.T. para o A.T. configurando-o como sacerdote do antigo testamento igualzinho àqueles sumos sacerdotes que viviam e enricavam no Templo e sendo os maiores proprietários de fazendas e os maiores políticos da época e chefes do Sinédrio que decretou a morte de Jesus. JESUS SEQUETRADO.

P.Casimiro João    smbn

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segunda-feira, 28 de outubro de 2024

TUDO DITO E TUDO AINDA POR DIZER NO CRISTIANISMO

Na convicção popular geral, há duas certezas inconscientes: a primeira é que o que sabemos do mundo nada tem que mudar, e achamos que já sabemos tudo; segundo, sobre a fé é a segunda convicção solidificada pelo que pensamos saber tudo, e nada mais há para conversar. O máximo é pensarmos que algumas novidades que a gente escuta fora do nosso entendimento desde meninos e meninas é tido como brincadeira ou coisa de quem não tem mais que fazer ou que dizer. E nos respaldamos nos WatsApps que nos escoram na mesma mesmice do que aprendemos nos primeiros bancos da escoa e da catequese. O resto consideramos como perda de tempo. Por outro lado, quer uma coisa quer a outra nos petrificam e viramos fósseis de nós mesmos. Quando nos satisfazemos só nos slogans da Terra criada em 6 dias e no primeiro “casal” da humanidade e nos identificamos com o nosso signo baseado nos astros ficamos como se fôssemos pessoas que viveram há 1.500 anos. Mesmo que sejamos donos de um celular da última geração, porque isso não muda a nossa cabeça só muda a nossa relação com a velocidade das inutilidades. E a nossa formação continua desinformação que nos desinforma. E semelhantemente quando paramos na questão da fé daquilo mesmo que quando fizemos a 1ª comunhão estamos também com a cabeça de um cristão de há 1.500 anos. E com a agravante que os Vídeos e Youtubs que surgem nas redes sociais têm como finalidade: de nos acorrentar no mesmo nível arcaico e obsoleto porque para eles interessa não avançarmos mas frear na mesma mesmice de criança de há 1.500 anos. Exemplos temos de sobra: um Malafaia, um Edir Macedo, um Nikolas, e uns Freis que só têm um objetivo: frear o conhecimento do cristão. É que “crescer” custa. Há uma atitude nos humanos que nos paralisa e impede de crescer: É nos agarrarmos à nossa segurança, à nossa zona de conforto. E nos incomoda sair ou duvidar dessa situação. Erick Fromm fala do medo do novo. Todo o diferente do que aprendemos é uma ameaça à nossa segurança. Devido a isso também temos medo de conversar com o diferente, aquele que pensa diferente da gente. “Todo diferente é uma ameaça. Os que estão fixos nos significados antigos resistem a qualquer releitura impedindo que as futuras gerações entendam a mensagem. Esse medo reside numa insegurança fundamental individual e coletiva” (E.Fromm, O medo à liberdade, 1960, in Libanio, “Olhar para o futuro” 2003,p.37). Na página anterior falámos no início embrionário da fé da humanidade e comparamos com o desenvolvimento lento e progressivo do embrião intrauterino. Esse inicio embrionário também é chamado de Teísmo. É concepção teística de Deus, atribuindo tudo a Deus, como quando o embrião depende de tudo da genitora-mãe. “Antropologicamente, a origem da concepção teística depende do processo evolutivo. Quando surge o ser humano, automaticamente, ele sente tremenda necessidade de se segurar nalguma coisa fora dele. Segundo Freud, experimenta-se então um “trauma de consciência”, faz-se uma experiência de crescimento histórico. É o “despertar religioso”. Todas as religiões tiveram esse componente como “termostato” para sair daquela dor de parto. Buscando então um deus protetor, conquistando-lhe a confiança e afastando-lhe a ira. O processo dessa religião embrionária que os técnicos chamam de teísmo foi criado pela consciência humana atemorizada diante de todos os medos em busca de proteção. É uma construção humana. Não é idêntico a Deus. Mas estratagema criado pelo homem para atravessar a aurora da descoberta da sua consciência” (Libanio, o.c.p.89-90). Esta concepção de teísmo marcou toda a tradição cristã. Influenciou os autores do Novo Testamento, em sequência dos mesmos autores do A.T. como mais primitivos ainda. Vejamos o que diz o teólogo Libanio: “A concepção teista de Deus interpretou, já desde o N.T. a Jesus Cristo teisticamente. No desenrolar do N.T. os textos, à medida que vão sendo escritos se tornam mais teístas. Há um núcleo sobre Jesus Cristo anterior ao teísmo, mas aos poucos foi sendo interpretado nesse horizonte, para terminar no Evangelho de João com a preexistência, passando pela concepção virginal de Maria. Todas essas formulações teísticas são, portanto, incompreensíveis para as pessoas de hoje. O crescimento do Jesus “maravilhoso” que tanto entrou no mundo de modo miraculoso – encarnação, concepção, e nascimento virginal – como fez milagres, é o preço teístico da leitura de Jesus. Cabe despojá-lo dessa veste, apresentando nova compreensão dele, como um ser humano que faz conhecido, visível e imperativo, o Fundamento de Todo Ser (Deus). Em Jesus encontramos alguém que pintou o retrato de uma nova humanidade e convida as pessoas a caminharem nessa direção. A tradição dogmática da Igreja fixou a concepção teística. Não foi uma concepção errada, mas para um tempo, e hoje não serve.” (o.c.p.90-91). A linguagem da fé tornou-se frequentemente fixada numa cultura e num universo simbólico determinado. Quem se afasta deles esbarra com sua incompreensibilidade. A própria linguagem teológica anterior desgasta-se. Por isso a linguagem teológica necessita de permanente atualização. E a atualização tem que acompanhar a atualização psicológica, antropológica e cosmológica da humanidade. “Quando eu era criança entendia como criança” (1 Cor.11,13) já falava o Paulo. Este crescimento acompanha todo o desenrolar da história. A humanidade tem momentos de muita lucidez, e como o despertar de um sono profundo. E quando desperta tem um sonho. E, como disse Raul Seixas: “sonho que se sonha só é um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade”. E vira caudal de um rio que rompe as comportas das maiores represas do mundo. Um momento desses foi o ano de 1789 com o evento da Revolução francesa. Aqui, na revolução francesa, houve uma experiência profunda e coletiva do valor da razão humana e das liberdades humanas e dos Direitos Humanos. E aí se gerou uma revolução, começando por uma revolução física, para que tivesse lugar a revolução integral, porque os “poderes” antigos resistem sempre às forças novas. E, como é inútil botar remendo novo em pano velho, o pano velho tinha que se rasgar. Mas foi o preço para que o pano novo viesse, e veio para ficar. O historiador R.Remond falou de absurda oposição entre direitos de Deus e direitos humanos, como se opostos fossem. Nessa data escreveu também G.Faus que “Gregório XVI não entendia nada do mundo moderno, o qual ele recusava em bloco”. A encíclica “Mirari” nos revela enorme ignorância: repudiando a “liberdade de consciência”, chamando- de “pura loucura” e erro pestilento”, e chamando de “monstro” a liberdade de imprensa” (G.Faus em Libânio,o.c.p.77). Não admira que as consequências chegassem em 1240 com Inocêncio IV que decretou a tortura e a pena de morte na Igreja. Por isso o historiador Remond constata que na Europa o catolicismo se tornou para os intelectuais como perigoso para a liberdade do espirito e do indivíduo, e como ameaça para o exercício da razão crítica. E daí que se desenvolveu uma cultura de desprezo em ralação ao catolicismo no séc.XIX. “A linguagem teológica e muitas práticas pastorais ainda atualmente em curso no mundo cristão estão impregnadas do imaginário social religioso pré-moderno” (Libanio, o.c.p.82).

Conclusão. Reportando-nos ao nosso título: No cristianismo tudo dito e tudo ainda por dizer, constatamos duas coisas: a primeira é que o dado fundante da revelação precisa sempre se tirar a poeira que se amontoa pelo tempo, com o detergente da crítica das gerações que releem, limpam e interpretam para as novas linguagens, culturas e gerações; a segunda é que a revelação ela é dinâmica e juntar-se a ela vêm as “revelações” cosmológicas, antropológicas e de experiências que surgem com novos horizontes, como a experiência dos Direitos Humanos que vieram na carruagem do Iluminismo do séc.XIX. Portanto a humanidade cresceu desde o “despertar religioso”, embrionário, até chegar a uma consciência atualizada do nosso século. “O cristianismo, se é uma religião do livro, não o é, porém, de modo fundamental. Em Jesus Cristo tudo está dito e tudo ainda está por dizer” (Valadier, apud Libanio, o.c.p.32).

P.Casimiro João      smbn

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segunda-feira, 21 de outubro de 2024

VIVER EM DEUS SEM DEUS COMO SE DEUS NÃO EXISTISSE.

 

Esta afirmação é de Dietrich Bonhoeffer, teólogo luterano, morto no campo de concentração nazista da Alemanha. Foi parafraseada pelo sacerdote, teólogo e filósofo jesuíta Roger Lenaers nas suas publicações, e leva-nos ao simbolismo do desenvolvimento da criança para o adulto, e à evolução da humanidade  desde os primeiros humanoides até hoje. Vamos ao primeiro item, que são as fases do desenvolvimento da criança. A primeira fase: desde o embrião até o feto, esse ser faz uma só coisa com a genitora mãe. O elo de ligação é abrangente mas concretizado num ícone  vital que é o cordão umbilical. O cordão umbilical é o elemento físico e biológico da alimentação, mas todo o ser intrauterino se alimenta psicoefetivamente e emocionalmente  do total do ser materno. Sem a mãe não poderia ir em frente na vida. O “eu” ainda não funciona e não tem consciência de si. Tudo é dependência da mãe genitora. É a primeira fase do ser humano. Passamos para a segunda: o corte do cordão umbilical onde a criança ganha 5%por cento de sua independência física e emocional, e onde se vê o primeiro grau de independência, a qual não é 100% por cento mas 5% por cento. Passamos para os três anos de idade, onde a criança está exigindo e cobrando andar sozinha e afasta o braço da mãe genitora quando quer controlá-la. É a segunda fase do corte do cordão afetivo e emocional. É nesta fase que os cientistas dizem que a formação da cabeça da criança é de três quartos. E vem a terceira fase dos 13 aos 16 anos quando acontece o exercício da autossuficiência e da independência. Daí a pouquinho o(a) adolescente ou jovem diz tchau papai, tchau mamãe, agora vou viver a minha vida, fiquem com Deus. É a quarta fase e definitiva. Chegou quando o homem e a mulher assumem família, profissão, e compromissos sociais, econômicos e políticos. Antes tinham muito em conta os pais, agora vivem dos pais, i.é das heranças dos pais que carregam na sua pessoa e na sua ideossincracia mas sem os pais e como se os pais não existissem. E neste triângulo biológico o referido teólogo D.Bonhoeffer se firma para elaborar o nosso triângulo fiducial de cristãos: “viver em Deus sem Deus como se Deus não existisse”. Esta reflexão tem sua extensão nas explicações das várias formas de fé dos cristãos, como nas as várias formas de fé dos primitivos humanoides, e comecemos por eles, coisa de fenomenologia das religiões. Senão vejamos. As religiões começaram sendo como o elemento embrionário do feto e do embrião, em que tudo é a genitora e nada faz sem a mãe genitora. Os primeiros humanoides e os primeiros bíblicos colocaram isso na Bíblia. Era Deus que fazia tudo e sem Deus não faziam nada: era Deus que ganhava as guerras, e era Deus que perdia as guerras; era Deus que castigava, era Deus que fazia a chuva e o trovão e o relâmpago, que separava as águas dos mares, que fazia as doenças e as tirava... Esta era e a fé de embrião e de feto intrauterino. Isto está no início de todas as religiões e da religião bíblica. Ficou no A.T. desde a primeira página até à última, e com isso estavam lidando e passando para as nossas gerações uma fé de embrião e de feto. Daqui só podemos passar para uma segunda fase do corte do cordão umbilical emocional na fase após a Idade Média quando a humanidade começou a pensar com a sua própria cabeça dizendo “tchau” aos reis e aos Papas. Foi a idade da independência da razão, chamada de Iluminismo e do Renascimento, no século XVIII. Foi quando a humanidade ficou adulta e pensando com sua própria cabeça. A duras provas a Igreja aceitou, porque seguia a atitude dos pais quando veem os filhos crescerem e tornarem-se independentes e adultos, deixando a sua “saia” e o controle dos pais para trás. Mas finalmente depois do choro, a Igreja aceitou isto na sua doutrina. E finalmente a terceira fase, esta expressa pelo teólogo citado quando elaborou toda a situação e resumiu na frase lapidar do nosso título: “viver em Deus sem Deus como se Deus não existisse”. Reparemos bem o sentido das conjunções: “em”, “sem” e “como se”.  Finalmente, a modo de

Conclusão: o que vimos de desenvolvimento do embrião e do feto, continuando com a evolução da humanidade, não se aplicará também à fé do cristão, minha, e sua? Aquela fé que acha que “Deus tem que fazer tudo”, e se lamentado “Será que a mão de Deus não é a mesma? (Sl.77,9); que “sem ele você não faz nada”, que tem que fazer milagres a nosso pedido”: isso não é igual ao embrião e ao feto, e mais adiante à criança “mimada” para a qual o pai e a mãe tem que “fazer tudo” para ela, sempre dizendo: “Deus, faz para mim”? Onde está o crescimento do cristão adulto que vive “em Deus, sem Deus, como se Deus não existisse”? O exemplo é, como explicado no embrião e no feto que dependem 100% da mãe genitora, depois na independência crescente da e do adolescente, e finalmente na total independência do adulto, que vive "em" os pais, "sem" os pais, "como se" os pais não existissem.

P.Casimiro João      smbn

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segunda-feira, 14 de outubro de 2024

CHARLATANISMO RELIGIOSO E FILSOSÓFICO EM QUE SE DESENVOLVEU O NASCIMENTO DO CRISTIANISMO.

 

Era um período muito agitado por um fervilhar de filosofias e de filósofos ambulantes aquele período imperial do séc.II depois de Cristo. Para não omitir o conteúdo e para não parar o fôlego da leitura vejamos na íntegra esse ambiente surpreendente escrito por um especialista: “Muitos filósofos deixaram as escolas e foram às praças e mercados e às ruas da cidade. Eles se diziam “filósofos” mas era difícil saber se um homem que que oferecia sua sabedoria na rua era um deus, um mágico, apóstolo de uma nova religião, ou um sábio do futuro. O exército de missionários e filósofos  ambulantes transformou-se numa legião. Competindo uns com os outros, eles anunciavam sua arte para atrair discípulos, superavam-se uns aos outros em demonstração de poder, e não eram de forma nenhuma avessos a tirar dinheiro das pessoas. Essas competições ocorriam, aliás, no seio do mesmo movimento religioso. Inclusive o próprio Paulo, para qualquer lugar que ele se dirigisse, ele sempre se defrontava com outros pregadores cristãos que procuravam superá-lo com suas apresentações. Filósofos pagãos, cristãos e judeus dessa natureza não se dirigiam às camadas educadas, mas às pessoas comuns, isto é, a quem quer que encontrassem na rua. Além do discurso público em que o orador dava tudo de si, demonstrações de poder sobrenatural eram um instrumento importante de propaganda. Milagres eram realizados não somente por missionários cristãos mas também por pregadores judeus, filósofos neoplatônicos e por muitos outros professores, médicos e magos. Toda a escala de feitos miraculosos de poder era em geral usada, de truques de magia a predições do futuro, desde horóscopos até á cura de doenças, até à ressurreição de pessoas mortas. Nos círculos a que esses filósofos de mercado se dirigiam, o poder da palavra e a magnitude dos milagres exerciam efeitos mais decisivos do que a profundidade da mensagem racional, moral e religiosa. Poderes astrais tomavam o lugar dos velhos deuses; novas divindades atraíam mais do que doutrinas filosóficas; forças demoníacas explicavam melhor o mundo do que o conhecimento científico. Regras morais simples de comportamento orientavam mais do que conteúdos psicológicos. A solução de problemas pessoais urgentes mediante artimanhas mágicas era aceita com mais disposição do que as exigências de reforma social. Era difícil traçar uma linha clara entre o impostor  e o missionário sério. O que mais facilmente atraía as pessoas eram fenômenos ocultos, visões e êxtases, exorcismos e conjurações, milagres e magia. Os papiros de magia relatam as práticas mais diversificadas para controlar o “poder” e para receber predições e revelações: manipulações de água e luz, conjurações de pessoas mortas, de espíritos de deuses, e a manipulação habilidosa dos meios de comunicação. Práticas ocultistas podiam até invadir escolas filosóficas. Relatos informam que Jâmbulo levitava durante a oração, e que Proclo ficava envolvido no meio de raios de luz enquanto apresentava seus discursos. Uma filosofia usava rodas mágicas para falar com os deuses; e conhecia direitos mágicos para fazer chover” (Helmut Koester, Introdução ao N.T. vol.I §6 p.360-361). Não dá para segurar certamente o fôlego para tentar adentrar no ambiente daquele séc.II onde se desenvolvia o primitivo cristianismo com todas as consequências que daí derivam, querendo ou sem querer, deste tsunami de filosofias, conjurações, magias e milagres que entraram no cristianismo. Por isso afirma o mesmo autor: ”Para apresentar sua mensagem o cristianismo precisava entrar neste debate seguindo as leis da oferta e da procura do mercado” (o.c.p.361).  Ou, como diz o ditado brasileiro, “dançar conforme a música”. No meio de toda essa competição por verdades e novidades, e novas religiões entrava também o cristianismo. Não seria daí que o autor de Apocalipse colocou Deus num carro de fogo, com rodas de fogo,  e cercado por  um mar de fogo, no Apocalipse?(Apoc.4,1-7). Damo-nos conta dos métodos descritos: ressurreição de  mortos, curas mágicas, feitos miraculosos de poder, competindo uns com os outros. Forças demoníacas e solução de problemas pessoais urgentes. Eram as ofertas ora de uns ora de outros. E o que mais facilmente atraía as pessoas eram fenômenos ocultos, visões e êxtases, exorcismos e conjurações e milagres e magia. De tudo isso um pouco ou bastante os pregadores cristãos também teriam usado, porque teriam que usar dos mesmos métodos para serem ouvidos, e oferecer o produto “segundo a lei do mercado”.

Conclusão. Veja bem como esses métodos continuaram: a Igreja católica viu nisso um recurso sobremaneira importante na escrita das biografias dos Santos onde se fazem milagres sem conto colocando essas figuras não mais como humanas como seres divinos. Assim como nos escritos do Novo Testamento. E nas Igrejas protestantes, que continuam assumindo o mesmo ambiente nas pessoas dos Malafaias, dos Edir Macedos e Cia que continuam com as mesmas habilidades mágicas. E pense em pastores que vão de encomenda convidados para grande palanques com “falsas profecias”, “revelações”, com “conjurações de pessoas mortas, de espíritos e de deuses, e manipulações habilidosas dos meios de comunicação, justo como na época descrita. Só falta subir nos ares, ou levitar, como o Jâmbulo, e se colocar no meio rodas de fogo mágicas para falar com Deus.

P.Casimiro João     smbn

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segunda-feira, 7 de outubro de 2024

ATACAR PESSOAS DA MESMA FÉ, ENTENDA O QUE É.

 

Atacar pessoas da mesma fé, só por discordar da sua explicação e que consideram opostos à verdade conforme eles a veem, e que divergem da verdade “deles”, não é cristão e nem humano. Chegam até a chamar os outros de “anticristos”. (1 Jo,2,18; e 2,22). Estamos falando das elites de ontem, de hoje e da há muito tempo. No início do cristianismo chamavam-lhes de “anticristos”; hoje chamam-lhes de “hereges”. Porém, hereges de ontem hoje podem não ser mais, como no caso de Pelágio que discordava de Agostinho sobre a teoria do pecado original, no séc.IV. E também quanto aos Iluministas do séc.XVIII quando o Iluminismo foi condenado e hoje está em voga. Dentro disto estão também os pedidos de “perdão” dos Papas João Paulo II e Papa Francisco, (em 2000, 12 de março; 2001,02 de abril) e 2006 e 2015 respectivamente. Mas como pode isso acontecer, se até, por outro lado, o próprio evangelho viu-se em apuros para explicar o que é o “Reino de Deus” e a “pessoa de Jesus”? Vejamos: “Com que se parece o Reino de Deus? Com que hei de compará-lo?” (Lc.13,18). E também: “A que podemos comparar o Reino de Deus? O Reino dos céus é como”. “Como” não explica, só dá uma comparação. “A que podemos comparar?” Não denota uma certeza mas uma procura. E o que nos surpreende: na resposta de Pedro à pergunta de Jesus “quem sou eu” há duas atitudes opostas e contraditórias: Primeiro, que Pedro foi “inspirado” pelo Pai do Céu”; (Mt.16,18).  segundo: que foi “inspirado por Satanás, afasta-te de mim satanás” (Mt.16,23). Na história do cristianismo, tudo o que temos são textos. E todos os textos são produção de elites. Teólogos fazem teologias, às vezes eles são considerados Santos, e como tal logo ganham créditos para o reconhecimento e o aval das elites da Igreja. Logo à frente alguém faz outra teologia, que devido ao tempo, pôe a outra teologia fora de época ou fora da validade de prazo. E tem acontecido. Para trazer só o exemplo de duas teologias que eram os pilares do A.T., o sábado e a circuncisão que dependiam de duas teologias. E quem pelejava para manter a teologia antiga? As elites. Mas, como o evangelho diz, quando se foi costurar remendo novo em roupa velha, estourou a roupa velha. E com Jesus acabou a sacralidade sagrada do Sábado, e a nova teologia de Paulo acabou com a sacralidade da Circuncisão. No N.T. vimos na página anterior que a teologia de Agostinho impulsionou na Igreja o azáfama do batismo como a coisa mais urgente e importante da Igreja. Há pouco tempo teologias abriram novos caminhos para libertar as consciências e decidirem que o mais importante não é o sacramento mas a palavra de Deus que dá suporte ao sacramento, incluindo a comunidade. E a mesma coisa quanto à Eucaristia, como diz o documento do Papa Francisco “Alegria do Amor”, N. 185. Para confirmar isto vou colocar uma reflexão meio difícil: Há alguma diferença entre o “ensinamento” de Jesus e a “teologia” da Igreja? A.Bultmann diz que a teologia começa como reflexão da fé em Jesus, e não no seu ensinamento e autoconhecimento de Jesus: “O cristianismo está enraizado na fé de que Deus agiu por intermédio de Jesus, não de que Jesus reivindicou status divino” (Cf. em Robin Scroggs, O Jesus do povo, Paulus, 2012, p.13). Explicando: no início uma preocupação dominava: era de colocar Jesus acima de todas as realidades terrestres, à semelhança de como faziam os “filósofos e pregadores de mercado” que traziam suas filosofias e religiões como a coisa mais inovadora, colocando deuses no meio do fogo, usando todas as magias de curas, de ressurreições de pessoas, e os adoradores em rodas mágicas de fogo para falar com os deuses. Assim eram imitados pelos escritores cristãos, que por isso mesmo abstraíam de um Jesus  humano que viveu em Nazaré. Até porque, como afirmam os historiadores, naquela época dos escritos sobre Jesus ninguém tinha conhecido Jesus pessoalmente, para a maior parte Jesus era uma pessoa lendária de que só ouviam falar, e de quem a grande maioria nem tinha ouvido falar. Em resumo: descrevendo um Jesus glorioso nos céus sem ter passado pela terra, esquecendo o Jesus histórico da terra. Este foi o trabalho das elites, como referi, e a teologia das elites. Porém, agora existe um movimento contrário. De há 200 anos atrás assistimos à tarefa de recuperar esse Jesus histórico que eles já tinham esquecido. Vejamos o ambiente de hoje: “Entretanto, uma segunda questão diz respeito à possibilidade de conhecer o Jesus histórico, o bastante para que possamos recuperar seu ensinamento e autoconhecimento. A busca do Jesus histórico remonta ao Iluminismo, há mais de um século, com Albert Schweitzer. Com o Iluminismo o cristianismo “aprendeu” a desenrolar  os verdadeiros fatos de Jesus das lendas e mitos teológicos dos evangelhos” (R. Scroggs, o.c.p.13). Na verdade “lendas e mitos dos evangelhos’ refletem a fé dos que crêem em Jesus, mas não descrevem necessariamente os ‘fatos’ de Jesus” (o.c.p.14). Assim fica mais clara esta conexão da apresentação de um Jesus “só divino” adequada para competir com o ambiente das filosofias e magias dos pregadores de ruas e dos mercados da época.

conclusão

Hoje em dia os estudiosos que se voltaram para o Iluminismo encontram dificuldades para ser entendidos pelas camadas populares. Isto porque as camadas populares internalizaram num tão longo espaço de tempo de há dois mil anos a esta parte as antigas maneiras iguais às apresentadas por esses pregadores de mercado de que falei. Assim, irá levar outros dois mil anos para  interpretar outras reflexões.

P.Casimiro João    smbn

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